Brincar, Aprender, Trabalhar: Enfim, Viver

Tradicionalmente a vida da gente era dividida em estágios – basicamente quatro estágios. Hoje esses estágios não fazem mais sentido.

O primeiro estágio, dos 0 aos 6 anos (inclusive), era o do Brincar. Nele, naturalmente, a gente brincava.

No meu tempo – nasci em 1943 – o brincar era totalmente não dirigido e descomprometido do aprender – e, naturalmente, do trabalhar.

Brincar era, na verdade, a essência da vida nesse estágio. E o brincar era, naturalmente, prazeroso – ou “fun”, como se diz em Inglês.

O segundo estágio, dos 7 aos 10/14/17/21 anos, era o do Aprender. Nele, imaginava-se, a gente aprendia.

Pressupunha-se, em relação a esse estágio, de forma tácita (não totalmente explicitada) uma série de coisas, como estas:

* O aprender nada tem que vem com o brincar, nem o brincar com o aprender;

* Diferentemente do brincar, o aprender é difícil e penoso, e, portanto, não prazeroso. Por isso, requer, da parte do professor, competências na área de comunicação, coordenação, controle e direção, e, da parte do aluno, atenção, esforço, disciplina e obediência;

* Aprender é um processo em larga medida passivo, por parte do aluno, visto que requer que ele fique quieto e preste atenção ao que o professor diz, para absorver e assimilar as informações que o professor transmite, fazendo uso, quando já domina a leitura e a escrita, de leituras suplementares (feitas em casa) e anotações em classe.

Os sete anos representavam um marco importante para a criança. Era com essa idade que ela entrava na Escola Primária. E entrava na escola sem ter antes freqüentado qualquer outra instituição que se assemelhasse à escola: Pré-Primário, Infantil, Jardim da Infância, Maternal, Creche…

Eu, que era protestante (presbiteriano), freqüentava, religiosamente (desculpem o trocadilho), a Escola Dominical. Mas esta era diferente. Além de só acontecer aos Domingos de manhã, ocupava-nos por apenas cerca de uma hora e meia cada Domingo.

Assim, o ingresso na Escola Primária representava, para a maioria absoluta das pessoas, um rito de passagem: a transição do estágio desestruturado, alegre, e livre do brincar, em que a criança era não só ativa, mas protagonista dos seus brinquedos, para o estágio estruturado, doloroso, tedioso, e cativo do aprender, em que a criança era passiva, alvo da ação do professor – equiparando-se muito mais a um figurante do que a um protagonista.

Esse segundo estágio tinha duração variada. Por muito tempo, e para muita gente, durava no máximo quatro anos – duração da Escola Primária. Esta, num determinado momento, tornou-se obrigatória. Para uns poucos, a escolaridade durava oito anos: além do Primário, cursavam o Ginásio, com duração também de quatro anos. O Ginásio era o Primeiro Ciclo do Ensino Médio dessa época.

Mais recentemente, o Primário e o Ginásio foram meio que grudados um ao outro, passando a se chamar, durante o Regime Militar, Ensino de Primeiro Grau – que, ainda mais recentemente, já na chamada Nova República, se tornou Ensino Fundamental. Sua duração, até bem recentemente, era de oito anos – a soma de quatro mais quatro. Há muito pouco tempo, o Ensino Fundamental ganhou um ano adicional, passando o seu Primeiro Ciclo (equivalente à Escola Primária antiga) a ter cinco anos e o Segundo Ciclo (equivalente ao Primeiro Ciclo do Ensino Médio da escola antiga), quatro.

Os realmente privilegiados, no meu tempo, cursavam também o Ensino Secundário, equivalente ao Ensino de Segundo Grau do tempo dos militares e ao Ensino Médio de hoje. O Ensino Secundário daquela época era dividido em três trilhas: o Científico, o Clássico, e o Normal (para quem queria ser Professor Primário – uma profissão eminentemente feminina então, e ainda agora). E havia, em trilha paralela, os Cursos Técnicos, que eram profissionalizantes.

No Regime Militar institui-se o Ensino de Segundo Grau (Ensino Médio) obrigatoriamente profissionalizante. Parece que os militares imaginavam que, obrigando os jovens de 14 ou 15 anos a estudar um curso profissionalizante, eles não perderiam muito tempo estudando Filosofia e Sociologia, disciplinas que eram consideradas verdadeiras fábricas de subversivos pelos militares (que preferiam que os alunos estudassem a rala e patriótica Educação Moral e Cívica). Mas o projeto não deu certo. As classes mais altas protestaram, porque queriam que seus filhos tivessem um curso de natureza geral que os preparasse para a universidade… Assim, pouco tempo depois, ainda durante o Regime Militar, o Segundo Grau (Ensino Médio) deixou de ser obrigatoriamente profissionalizante.

Ao Ensino Superior tinha acesso, até bem pouco tempo, apenas “la crême de la crême”, a elite das elites.

Por isso, a duração do segundo estágio era de quatro, oito, onze, ou quinze anos – dependendo de seu ponto final. Por um tempo, até o Regime Militar, apenas quatro anos eram obrigatórios. Depois passaram a oito anos. Agora são nove. E há propostas de tornar todos os doze primeiros anos obrigatórios.

O terceiro estágio começava onde o segundo se encerrava. Era o longo estágio do Trabalhar. Terminava com a aposentadoria, lá pelos 50 a 60 anos (ou, prematuramente, com a morte).

Neste estágio o indivíduo iria colocar em prática ou utilizar aquilo que aprendeu no segundo estágio.

Pressupunha-se que o Trabalhar era ainda menos prazeroso e mais penoso do que o Aprender e que exigiria, portanto, mais estruturação e controle por parte dos supervisores e mais obediência e atenção por parte dos trabalhadores.

Depois da aposentadoria vinha o quarto estágio, em que a pessoa, de certo modo, retorna ao estágio inicial. Tendo completado todo o ciclo, ela está mais uma vez livre para brincar e descansar.

Como disse acima, hoje esses estágios não fazem mais sentido. Aprendemos o tempo todo – aprendemos enquanto brincamos e enquanto trabalhamos. E o trabalho, além de ser um ambiente importante de aprendizagem, deve ser também algo que nos interessa, motiva, e nos torna felizes: e esse é o sentido permanente de brincar.

Em São Paulo 18 de Outubro de 2010

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