Heróis Discretos

El Héroe Discreto

Excelente e delicioso novo livro de Mario Vargas Llosa: El Héroe Discreto (O Herói Discreto, em Português [Editora Alfaguara, Rio de Janeiro, 2013], com magnífica tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Vargas, Prêmio Nobel de Literatura de 2010 (o tempo passa rápido!), e aproximando-se dos 80 (nasceu em 1936), como é o caso de seus principais heróis no livro, continua a surpreender com uma prosa leve, um estilo narrativo gostoso, que faz uso fiel e generoso, nos diálogos, da linguagem do povo, inclusive com belíssimos palavrões (oportunamente ditos e aptamente traduzidos, é bom que se registre). . .

O principal herói discreto, Felícito Yanaqué, é um homem já de certa idade, magro, baixo, que veio de ambiente muito pobre, mas herdou do pai um exemplo valente: o do homem que trabalha o tempo todo e nunca se curva diante dos outros: o homem que não se deixa pisar. . . Ele construiu, com seu esforço, e com enorme retidão de conduta (na esfera pública — na esfera privada certamente haverá quem critique seu comportamento), uma pequena empresa de transportes (cargas e passageiros), que é seu orgulho — e que ele acha que deve unicamente ao exemplo e ao conselho do pai, a quem literalmente venera.

Por isso tudo, quando recebe uma carta anônima, aparentemente da máfia local, pedindo que ele pague 500 dólares por mês para obter proteção, ele se recusa a pagar e denuncia o caso à polícia. Continua a recusar, mesmo quando as ameaças aumentam e, em duas instâncias, se concretizam: primeiro, com um incêndio que destrói parte da sede de sua transportadora; segundo, com o sequestro de sua amante, Mabel, a quem verdadeiramente amava (“amada amante”). [A história obscura de seu casamento, forçado, e as suspeitas de que o filho mais velho não era de fato seu fazem com que o leitor tenha simpatia pelo caso do velho Felícito com a jovem e atraente Mabelita, mais de 30 anos mais jovem].

Mesmo diante desses desafios todos, Yanaqué não se curva. Torna-se um herói na cidade de Piúra, no Peru (onde Vargas Llosa morou quando criança). Mas se mantém sempre discreto. Quando todo o seu universo desaba, ele tem sua “dark night of the soul”, passa pelo seu “vale da sombra da morte”, mas reúne forças para, no dia seguinte, ir trabalhar como de costume (“comme d’habitude”), enfrentando os jornalistas e outros curiosos com um simples “nada a declarar”.

O segundo herói, Ismael Carrera, também é velho — mais velho que Felícito: passa dos 80 anos. Este é rico — dono de uma seguradora. Mora em Lima, não em Piúra. Tem dois filhos gêmeos — dois playboyzinhos vagabundos — e ficou viúvo há pouco tempo.

Quando enviuvou, cansado das estripulias dos filhos, retirou-os da empresa e, adiantadamente, “deu a eles a parte da herança que lhes cabia” (como na parábola do Filho Pródigo, com a diferença, porém, de que, no caso de Carrera, por iniciativa própria). Estes pegaram a bolada, certos de que o pai, com mais de 80 anos, logo morreria e lhes deixaria todo o resto.

Quanto a Carrera, e como às vezes acontece quando você acha que finalmente arrumou todas as suas coisas e vai começar a viver, teve um enfarte que o deixou entre a vida e a morte no por vários dias no hospital. Enquanto agonizava, porém, ouviu uma conversa dos filhos, que pensavam que estivesse desacordado, que deixava claro que eles não viam a hora de o pai ir para debaixo da terra para poderem pegar o resto da herança. “Eles me salvaram da morte”, conta ele depois, porque, ao ouvir a conversa dos filhos, imbuiu-se de uma vontade enorme de viver para se vingar deles. Essa vontade de viver e se vingar fez com que ele se recuperasse — e se tornasse um dos heróis discretos de Vargas Llosa. Como Yanaqué e seu pai, alguém que não se deixa pisar.

Sua vingança é relativamente simples, mas improvável. Sem que ninguém soubesse (a não ser seu advogado, seu motorista e seu mão direita na empresa, don Rigoberto, personagem que aparece em outros livros de Vargas Llosa, e que acaba também sendo um terceiro herói discreto, mas em posição mais baixa na hierarquia), casa-se com sua empregada-arrumadeira-governanta, cerca de 50 anos mais nova, linda, mas nem de longe “una blanquita”, e se manda para a Europa – deixando os filhos a estrebuchar de raiva — para desfrutar a mulher recente e jovem com a ajuda da fortuna amealhada ao longo de várias décadas .

A vingança ao final dá certo – bem, em termos. Mas não vou fornecer “spoilers”.

Don Rigoberto, o terceiro herói, este mais discreto ainda, é o principal assessor de Ismael Carrera – e, com o motorista, sua testemunha de casamento. Está para se aposentar quando o patrão faz o que lhe parece a loucura de se casar de novo — e justo com quem… Don Rigoberto vê o casamento do patrão, e o seu envolvimento inevitável nos processos judiciais que se seguem, atrapalharem seus planos de se aposentar e curtir a vida, com seus livros de arte, seus CDs de música clássica, sua paixão pela quietude e pelo sossego – ao lado de sua fogosa mulher e de seu filho bem-dotado (intelectual e espiritualmente — nem tudo é sexo nos romances de Vargas Llosa…).

No final da história, os heróis cruzam caminho, e, a despeito das porradas levadas da vida, e que inevitavelmente deixaram suas marcas, todos – bem, quase todos – sobrevivem e se põem a caminho da Itália, para uma celebração. Não diria que Felícito tenha se esquecido de Mabel — mas decidiu se contentar com Gertrudis, sua mulher, que, é bom que se diga, foi garota de programa, tendo como cafetina a própria mãe.

Na Europa, porque, afinal de contas, ninguém é de ferro… Não só de Peru vive o homem.

Em Tempo: Acho que Vargas Llosa qualifica de discretos os seus heróis neste livro porque eles não buscam notoriedade: ela lhes vem em decorrência de sua conduta fora da curva.

Em São Paulo, 21 de Outubro de 2013

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