Modelos pedagógicos

A quantidade de besteira que se publica na área da educação neste país é inacreditável.

Abaixo um artigo de Antonia Leila Rocha Neves, no jornal O Povo, de Fortaleza (8/1/05). Não sei quem é ela — nem pretendo descobrir. Não me move aqui, portanto, nenhuma animosidade pessoal. Estou interessado, isto sim, nas idéias que se divulgam por aí acerca da educação. Por isso aqui faço um resumo organizador e uma crítica do que ela afirma.

Primeiro, ela faz uma afirmação leviana, sem fundamentação alguma: a “sociedade vigente” é “autoritária”. Notem o uso do “portanto” da frase dela: “A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária.” É isso: ela falou, está falado. Mas onde há pelo menos um esboço das razões que a levam a afirmar isso??? Ela não nos esclarece: imagina que todos vamos aceitar o que ela diz simplesmente porque foi ela quem disse. (Isso sim é pensamento autoritário…)

A sociedade atual brasileira pode ser um monte de coisa ruim — mas autoritária??? De onde saiu isso?

Continua a moça: “Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos…” No que um apanhado de modelos pedagógicos nos ajuda a “superar o autoritarismo” da sociedade (ainda que se admita, “ad argumentandum”, que nossa sociedade seja autoritária)?

Em seguida, continua a autora, ela pretende “desocultar as tendências autoritárias” desses modelos pedagógicos. Vamos ver como ela faz isso.

Por fim, ela pretende mostrar que “a avaliação [NB: não a educação] deve ser um instrumento de transformação social”.

Os modelos pedagógicos que ela tenta “apanhar” em sua análise foram todos retirados de Luckesi — nome citado assim, sem prenome, como se todo mundo o conhecesse tão bem como Sócrates. São três — e — surprise!!! — todos eles têm vigência apenas em um “modelo liberal conservador da sociedade”.

Deixemos os chavões de lado e vamos aos três modelos, um a um:

PRIMEIRO: “A pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.”

Não resta dúvida de que esse modelo pedagógico existe e é tradicional (isto é, tem uma longa tradição). Mas liberal??? Esse modelo existe desde que o mundo é mundo! Quando começou a surgir o Liberalismo?

Além do mais, para se chamar o modelo de conservador é preciso haver uma referência. Os jesuítas fizeram desse modelo uma verdadeira arte de converter gentios (os índios, por exemplo), revolucionando a sociedade indígena que havia aqui no Brasil. A Ratio Studiorum da Sociedade de Jesus é corretamente colocada na base da sociedade colonial brasileira — mas esse sociedade não era conservadora em relação à sociedade que existia antes dela aqui no Brasil na época e que ela pretendia substituir (como de fato conseguiu).

SEGUNDO: “A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.”

Não resta dúvida de que este modelo pedagógico também existe há algum tempo — tendo raizes nos séculos XVIII e XIX. Em certo sentido, pode-se dizer que é tradicional (pois tem uma razoável tradição). Mas conservador???

Cabe aqui indagar da autora (e de seus mentores intelectuais) como é que a “pedagogia renovada ou escolanovista”, que teve, como principal objetivo, criticar e, oportunamente substituir, a pedagogia tradicional (centrada no processor, e voltada para a transmissão de conteúdos pelo ensino) por uma pedagogia centrada no aluno, e voltada para a aprendizagem ativa por projetos, e que, por cima, via a tarefa da educação como sendo a transformação renovadora (reconstrução) sociedade — como é que essa pedagogia pode ser vista como modelo pedagógico conservador da sociedade.

Parece-me evidente que, se a pedagogia da Escola Nova é liberal, a pedagogia tradicional não o é, pois as duas sempre se viram como inimigas mortais — até hoje (com exceção de lugares em que a influência das idéias de Dermeval Saviani se fez sentir).

Cabem outros questionamentos em relação a esse modelo.

A autora o caracteriza como “centrado nos sentimentos”. Embora os autores escolanovistas tenham sempre defendido a “educação [ou ‘formação’] integral”, entendendo por isso que não basta apenas desenvolver o intelecto das crianças, sendo necessário também desenvolver seus sentimentos, as suas habilidades artísticas, a sua capacidade de se relacionar com seus semelhantes, as suas competências ativas e práticas, como agentes “fazedores de coisas”, etc., é uma representação absolutamente falsa dizer que o modelo pedagógico da escola nova é “centrado nos sentimentos”.

Além disso, embora tenha havido alguns precursores da escola nova, como Rousseau, que defenderam a chamada “educação negativa”, a Escola Nova, em si, nunca defendeu a tese de que o conhecimento se desenvolve “espontaneamente” na criança — sem que ela se envolva em ambientes e atividades que facilitem e propiciem a construção desse conhecimento. A Escola Nova foi um modelo de renovação pedagógica da escola — algo que não faria sentido se ela acreditasse que as crianças se desenvolvem adequadamente de forma espontânea. Mesmo os construtivistas atuais, como Piaget, propõem a criação de ambientes de aprendizagem que desafiem, instiguem, provoquem, incitem, propiciem, e, em última instância, facilitem, o desenvolvimento cognitivo da criança.

Por fim, os escolanovistas estavam muito mais interessados no desenvolvimento de competências e de modelos mentais pelas crianças — processo que é eminentemente cognitivo — do que na “produção espontânea conhecimentos” — expressão que sugere que, se deixarmos uma criança sozinha ela pode, eventualmente, produzir, de forma “espontânea” (seja lá o sentido que se dê a essa expressão), a teoria da relatividade de Einstein, ou algo assim.

TERCEIRO: “E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.”

Confesso que tenho grande dificuldade para entender o que está escrito nesse parágrafo que acabei de citar. Vejo que a autora se refere a um terceiro modelo que seria “tecnicista”. Ao mesmo tempo, ela afirma que esse modelo tecnicista “tenta[…] em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais”.

Ora: a autora havia afirmado que os três modelos que ela iria discutir eram modelos de uma sociedade conservadora (na verdade, até mesmo autoritária). Agora ela diz que o modelo tecnicista tenta (embora em vão) promover uma “transformação social” — algo que parece indicar que ele não é tão conservador assim. E, pior, promover uma transformação social “no princípio de que todos são iguais”. Ora: o liberalismo é acusado, em geral, de ser uma filosofia e um sistema político-social que se construiu em cima da desigualdade e que tende não só a preservá-la, mas a aumentá-la! (Note-se que, ao descrever o modelo da Escola Nova, a própria autora observa que ele parte do reconhecimento das “diferenças individuais” das crianças…). E agora ela vem dizer que o modelo tecnicista é conservador e liberal e, no entanto, tem como objetivo transformar a sociedade com base no princípio de que todos são iguais — que é exatamente o princípio defendido pelos arqui-inimigos dos liberais, os socialistas???

OS MODELOS DEFENDIDOS PELA AUTORA:

“Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Se consigo entender corretamente o texto da autora nesse parágrafo, ela defende, aqui, dois modelos pedagógicos, ambos, segundo ela, construídos em cima de “um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse (sic, sic) de fato”. Segundo ela, esses dois modelos não seriam nem liberais nem conservadores. Seu objetivo é a “ascensão das camadas populares”. (Ascensão para onde? Para o local em que os “burgueses” sempre estiveram?)

O primeiro desses modelos pedagógicos aprovados é a Pedagogia Libertadora, “representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire”.

O segundo é “a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Dispenso-me de comentar aqui a Pedagogia Libertadora. Mas tenho algo a comentar sobre a pedagogia de Dermeval Saviani — que tem sido apresentada em vários livros seus com vários títulos diferentes (como, por exemplo, “Pedagogia Histórico-Crítica”).

A pedagogia savianina, como os seus vários títulos sempre indicam, é uma pedagogia “de conteúdos”. Ela tem como objetivo a transmissão de conteúdos aos alunos. Nesse sentido, ela é bastante tradicional. Na verdade, os conteúdos que Dermeval Saviani acha que os pobres devem dominar são, em parte, os mesmos conteúdos que a elite tem dominado — e que têm sido criticados pela escola nova… Obviamente esses conteúdos precisam ser transmitidos no contexto de um bom programa de doutrinação marxista — com um leve toque “renovado”, gramsciano… Saviani parece acreditar que, de posse dos conteúdos que a classe dominante possui, e imbuídos de fervor revolucionário, os pobres vão finalmente conseguir “libertar” a sociedade (razão pela qual a autora agrupa da pedagogia savianina com a freireana). [Para uma crítica mais completa à pedagogia de Dermeval Saviani ver meu artiguete “Pedagogia Histórico-Crítica: É Preciso Aproximar Mais” (http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/dermeval.htm), escrito para ajudar meus alunos de pedagogia a entender melhor o pensamento savianino.]

É isso, por enquanto. Dispenso-me de comentar a apenas semi-inteligível bobageira final sobre avaliação.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005

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O Povo, 08/01/2005 – Fortaleza CE

Avaliação da aprendizagem escolar

Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias

Antonia Leila Rocha Neves

A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária. Tentaremos aqui, baseado em teóricos, sugerir maneiras de superar o autoritarismo. Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias, entendendo que a avaliação deve ser um instrumento de transformação social.

O modelo liberal conservador da sociedade, segundo Luckesi, produziu três pedagogias, com um mesmo objetivo, conservar a sociedade na sua configuração, a saber:

(a) a pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.

(b) A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.

(c) E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.

Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane.

Luckesi, no entanto, propõe uma avaliação diagnóstica como um instrumento para auxiliar cada educando no seu processo de competência e crescimento para a autonomia, mas não quer dizer que seja menos rigorosa na prática da avaliação. A avaliação no sentido diagnóstico deverá verificar os

conhecimentos nos mínimos necessários e não nos mínimos possíveis.

Portanto, avaliação educacional escolar deve favorecer a elevação do cidadão, no sentido mais amplo de ser cidadão, cultural, social e politicamente, para que este possa atuar conscientemente na realidade na qual está inserido, para que possa haver uma transformação no cotidiano das práticas pedagógicas docentes no contexto da escola. Precisamos fazer da avaliação, como nos ensina Luckesi, um ato amoroso, pois ”o acolhimento integra, o julgamento afasta” (Luckesi, s.d.).

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