"Inclusão Universitária"

Em evento promovido pela Folha de S. Paulo, que reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade, relata-se o seguinte (Vide Folha de S. Paulo, 15 de maio de 2005, sob o título "Ministério e USP propõem reforço a excluído". (Curioso que sejam "Ministério e USP" – e, como se vai ver, vários dos participantes, como o novo Reitor da UNICAMP, José Tadeu Jorge, que será a seguir citado, nada têm que ver com um ou com a outra).

Eis o que relata a Folha:

"Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, ‘sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social’: segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. ‘Esse dado mostra uma inversão completa’, afirmou o reitor."

Concedo o fato mencionado: que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo."

A conclusão evidente a tirar desse dado é que a população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo está tremendamente sub- representada nos cursos superiores.

Essa conclusão, entretanto, não surpreende ninguém. Quem trabalha na UNICAMP, como eu, conhece, sem necessidade das estatísticas (atrasadas) do MEC, uma verdade que o reitor da UNICAMP omitiu, a saber, que percentual da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo que freqüenta a UNICAMP é perto de zero, se não for um zero redondinho.

O que surpreende, além da omissão do reitor da UNICAMP, é a sua conclusão, de que o dado levantado pelo MEC "mostra uma inversão completa".

O atual reitor da UNICAMP não é um lingüista e um poeta, como era um reitor anterior, Carlos Vogt. É engenheiro de alimentos. Mas confesso que seu uso da linguagem me deixa perplexo. O que seria "uma inversão" completa do dado de que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo"??? O que deve ser completamente invertido? O percentual? A faixa etária? A permanência nos cursos de nível superior? O percentual da população que tem renda familiar abaixo do salário mínimo?

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que o mais justo seria que os jovens de 18 a 24 anos oriundos de famílias que têm renda per capita abaixo do salário mínimo deveriam ser a maioria na universidade, só em decorrência desse dado econômico, sem levar em conta o mérito (capacidade + esforço) ou o desempenho nos processos seletivos???

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que às universidades tivessem acesso "os que dele precisam" (em sua modesta opinião), em vez de "os que têm mérito e desempenho" para estar lá??? (Seria esta uma versão acadêmica do "a cada um segundo a sua necessidade?)

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo a existência de um critério econômico invertido para acesso à universidade, a saber, quem ganha menos, entra, quem ganha mais, fica de fora, independentemente de seu mérito e desempenho, seja no processo seletivo, seja na escolaridade precedente??? (Note-se que o reitor não estava falando que a inversão existe na universidade pública, mas, sim, nos "cursos de nível superior" como tais.)

O reitor da USP parece sugerir um caminho diferente. Eis o que diz a matéria da Folha:

"Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como ‘talentos’. A escolha seria feita por meio de ‘critério objetivos’, como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). ‘É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade’, disse Melfi."

É – é uma idéia.

A USP, pelo jeito, vai começar a ministrar ensino básico – pelo menos um reforço — para alunos que ela considera "talentos". O reitor não esclarece se o reforço seria dado antes do processo seletivo ou depois. Se antes, a Universidade estaria realmente se enveredando pelo ensino básico.

Se depois, a Universidade estaria comprometendo consideráveis recursos de seu já comprometido orçamento para "recuperar" alunos supostamente talentosos, mas mal-preparados pela escola pública…

O MEC também tem "sua idéia":

"Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória. No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento."

Aí vai: a tutoria é dada por professor das universidades federais? O mesmo argumento usado no caso da USP se aplica, só que num quadro piorado, pois a escolha dos estudantes aqui é "aleatória"… Pelo jeito o MEC não quer nem de longe ser acusado de favorecer talentos: prefere favorecer mediocridades aleatoriamente escolhidas…

Além disso, o MEC pelo jeito está agora financiando cursos pré- vestibulares (dos quais, que eu saiba, não há nenhum estatal).

Já o Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia de São Paulo tem "outra idéia":

"Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. ‘Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar’, disse Meirelles."

Tudo bem, secretário: a questão, caso o senhor não tenha percebido, não é quem precisa trabalhar: é quem deve entrar na Universidade. Nada proíbe alguém de trabalhar sem curso superior. Para fazer curso superior exige-se um mínimo de talento e competência.

Mais uma observação interessante, agora de João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

Para o secretário, o problema é meramente econômico. Mérito, ou merecimento, não entra na equação.

Agora, a grande obviedade do dia foi dita pelo Secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia:

"O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. ‘A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior’, disse Rollemberg."

Nossa, como é que eu pude, em 35 anos de magistério universitário, nunca ter descoberto isso???

[Os debatedores no encontro, segundo a Folha, foram: "o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha."]

Em Campinas, 15 de maio de 2005

[Abaixo, a matéria completa da Folha]

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Folha de S. Paulo
15 de maio de 2005

EDUCAÇÃO

Evento promovido pela Folha reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade

Ministério e USP propõem reforço a excluído DA REPORTAGEM LOCAL

Reforço escolar para alunos da rede pública como forma de inclusão social.

Essa foi uma das propostas do Ministério da Educação e da USP apresentadas em debate promovido pela Folha.

O evento, chamado de "Ensino superior e inclusão social", ocorreu na última quarta-feira.

Os debatedores foram o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha.

Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, "sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social": segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. "Esse dado mostra uma inversão completa", afirmou o reitor.

Para solucionar o problema, algumas propostas tiveram apoio de todos os integrantes da mesa. Algumas delas estão relacionadas à melhoria do ensino básico público, com qualificação de professores e de alunos. Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como "talentos".

A escolha seria feita por meio de "critério objetivos", como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). "É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade", disse Melfi.

Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória.

No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento. Os resultados dos dois projetos servirão como base para criação de políticas "de massa", que buscarão aumentar o número de estudantes da rede pública no ensino superior.

Enquanto alguns temas receberam apoio de todos os debatedores, a proposta de reserva de vagas dividiu os especialistas. Os integrantes do governo federal defenderam a proposta que consta no anteprojeto de reforma universitária, que reserva 50% das vagas nas universidades federais a alunos do ensino médio público. Os reitores da USP e da Unicamp se mostraram contrários à idéia.

Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. "Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar", disse Meirelles.

O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. "A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior", disse Rollemberg. (FÁBIO TAKAHASHI)

Leia abaixo as opiniões a respeito dos principais temas abordados no debate.

COTAS

Adolpho José Melfi (USP)

"Em vez das cotas, o governo poderia definir uma meta. Por exemplo, termos 50% dos alunos na universidade vindos da escola pública. Isso foi feito no sistema universitário paulista, em que deveríamos ter 33% dos alunos matriculados em cursos noturnos. Foi deixado que as universidades criassem seus mecanismos, seja com a criação de novos cursos, seja com a criação de vagas em cursos já existentes. Nós atingimos e ultrapassamos a meta."

José Tadeu Jorge (Unicamp)

"A questão das cotas incomodou a Unicamp. A universidade não poderia aceitar essa forma sem discussão. Buscamos alternativas. Com base em estudos dos últimos sete anos, notamos que [comparando] dois alunos, aprovados com a mesma nota no vestibular, no mesmo curso, o da escola [média] pública chegava ao final do curso com um desempenho consideravelmente melhor. Portanto, se fizéssemos o caminho inverso, ou seja, partindo do final do curso para o vestibular, vimos que muitos alunos da escola pública que não foram aprovados teriam condições de chegar ao final do curso no mesmo nível [que o do ensino médio privado].

Por isso, decidimos dar um bônus no vestibular para os alunos da rede pública. Os resultados: 28% dos ingressantes provinham de escola pública em 2004. Neste ano, com essa metodologia, subiu para 34,1%. No curso de medicina, o número de alunos provenientes de escola pública aumentou 240%."

Rodrigo Rollemberg (Ministério da Ciência e Tecnologia) "Consideramos que é um avanço a proposta do anteprojeto de reforma universitária, embora tenhamos muito claro que o sistema de cotas vai promover uma inclusão que tem um limite bem delineado, porque ainda temos uma parcela muito grande da população que não concluiu o ensino médio e, portanto, não está apto a entrar na universidade."

Ricardo Henriques (MEC)

"A proposta assegura uma vinculação republicana entre ensino médio e universidade."

DIVERSIFICAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Temos no Brasil um modelo de universidade de pesquisa, que é caro e não pode suportar um número muito grande de alunos. O maior problema no que diz respeito à inclusão é o modelo adotado. A saída é a criação de outros tipos de ensino superior, que poderiam atender a um número muito maior de alunos."

João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

REGIONALIZAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Enquanto na USP temos 28% de alunos de escola pública, na USP Leste [novo campus, na zona leste] temos 47%. O número de inscritos da zona leste não chegava a 4% no nosso vestibular. A questão "distância" é importante."

Rodrigo Rollemberg

"É importante o processo de regionalização e de interiorização da universidade. Os cursos devem estar focados nas necessidades regionais.

Com isso, passa-se a prestar serviços antes inexistentes nessas comunidades, o que contribui para a qualidade de vida."

Ricardo Henriques

"A expansão tem de estar derivada de programas que contemplem a relevância social e territorial, com conteúdos temáticos, que tenham a ver com aquela realidade."

AMPLIAÇÃO DE VAGAS

Adolpho José Melfi

"Para 9.000 vagas neste ano [no vestibular da USP], apareceram 140 mil candidatos. A expansão é fundamental. E o curso noturno é extremamente importante para inclusão social."

José Tadeu Jorge

"Fazemos inclusão quando criamos vagas na graduação, tornando mais fácil o acesso à universidade. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 900 vagas. Fazemos inclusão especialmente nos cursos noturnos."

João Carlos Meirelles

"A prioridade é o ensino técnico e tecnológico. Estamos hoje com 18 faculdades de tecnologia. Há quatro anos, eram nove. E vamos criar mais 30 escolas técnicas."

Transcrito em Campinas, 15 de maio de 2005

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