Eugenia ou bom senso?

Nunca imaginei que chegasse o dia em que me eu visse levado a defender o atual governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira, do PMDB, a quem tenho o desprazer de conhecer pessoalmente e por quem tenho especial antipatia. Acontece, porém, que chega a hora em que aparece algo ainda mais detestável do que minhas antipatias pessoais, a estupidez humana, e isso me leva a deixar minha antipatia pelo governador de lado e defendê-lo da acusação injusta de que ele propôs a eugenia em um artigo que publicou.

Esclareço que não li o artigo. Li apenas o relato que faz a Folha do que disse o governador (edição de 3/9/05) — e do que dizem os seus críticos. Parece o suficiente. Se a Folha errou ao relatar o que pensa o governador, serei forçado a rever o que aqui afirmo.

Enfim, vamos lá.

Dizer que tudo o que somos é resultado dos genes que herdamos de nossos pais, e que o ambiente não tem nenhuma responsabilidade naquilo que nos tornamos, é afirmar uma estupidez tão grande que nem sei se jamais houve alguém com coragem suficiente de passar para si próprio esse atestado de burrice.

Da mesma forma, dizer que tudo o que somos é resultado do ambiente em que vivemos, e que os genes que herdamos não têm nenhum papel naquilo que nos tornamos, é afirmar outra estupidez — no mínimo tão grande quanto a primeira, talvez maior: se isso fosse verdade, todos os que nascemos e crescemos em um mesmo ambiente deveríamos ser idênticos.

No entanto, neste segundo caso, há gente disposta a defender essa tese em entrevista de jornal (Folha de S. Paulo, 3 de setembro de 2005). Infelizmente, não é surpresa para ninguém, hoje em dia, que tamanha estupidez esteja sendo declarada aos quatro ventos por uma profissional de biologia de uma universidade pública de renome: "O ambiente é tudo", diz Mayana Zatz, bióloga da USP especialista em doenças genéticas. Mme. Zatz deveria ter seu diploma cassado por estupidez incurável (de causa provavelmente genética). Se se tratasse de uma antropóloga cultural ou de uma socióloga, eu até a desculparia. Mas uma bióloga?!?!?! A mulher errou de profissão!

Não creio que haja dúvida, hoje em dia, entre os que pensam um pouco, de que entre as características que são, em parte, geneticamente transmissíveis, estão, certamente, várias de nossas características físicas (inclusive aquelas que servem de base para a determinação do que é bonito e do que é feio) e a inteligência (qualquer que seja a definição que se dê à inteligência, seja ela una ou múltipla).

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os genes de forma a evitar que uma criança nasça, por exemplo, com defeito congênitos, ou com Síndrome de Down, ou com algum outro problema que tem, nos genes, sua causa, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais que porventura venham a estar nessa situação optarão, sendo possível, por corrigir o defeito.

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os gens de forma a permitir que alguém nasça mais inteligente do que doutra forma seria o caso, qualquer que seja a definição de inteligência que se adote, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais optarão por um filho mais inteligente do que por um mais sonsinho, outras coisas sendo iguais (et ceteris paribus).

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os genes de forma a permitir que alguém nasça mais bonito do que doutra forma seria o caso, qualquer que seja a definição de beleza que se adote, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais optarão por um filho mais bonito do que por um mais feinho, et ceteris paribus.

A resposta à indagação da nossa ré confessa em estupidez sobre "quem é que decide o que é bonito" é evidente: é a parte tomando a decisão! Eu, pessoalmente, teria horror de deixar a Mme. Zatz até mesmo a  responsabilidade de decidir o que eu vou tomar de café da manhã amanhã.

Estupidez, eu gostaria de crer, tem limites, mas aparentemente esses limites não são tão altos a ponto de impedir alguém de trabalhar na USP. (Espero que Mme. Zatz não seja professora da USP — mas não tenho certeza de que sua estupidez o impeça).

Enfim. O governador de Santa Catarina sem dúvida errou: errou ao imaginar que o mundo não tem gente tão despreparada quanto Mme. Zatz — e que ostenta sua estupidez em nome da ciência. Em nenhum momento o governador de Santa Catarina propôs a eugenia como política pública ou como regra de conduta pessoal. Disse apenas que a ciência pode — e vai — chegar ao ponto em que poderemos, querendo, tomar decisões como a relativa à escolha do sexo dos nossos filhos e outras como, por exemplo, as relativas à correção de defeitos congênitos e à incorporação de características que consideramos importantes. Eu diria que, se fizermos um plebiscito sobre o que disse o governador de Santa Catarina, mais de 95% dos brasileiros estariam de acordo com ele. Os 5% que discordariam provavelmente seriam acadêmicos (infelizmente, não só da USP).

O conceito de eugenia surgiu num contexto em que o desenvolvimento da ciência era outro. A idéia da eugenia era eliminar, por um processo de seleção consciente, os membros mais fracos, menos inteligentes, menos apreciados da raça, com o fim de, assim, melhorar a qualidade da raça. O governador de Santa Catarina não propõe a eliminação de ninguém. Propõe, isso sim, que usemos a ciência para remover, em tempo, no próprio indivíduo, aquelas características que, a se manterem, poderiam tornar aquela pessoa mais fraca, menos inteligente ou menos apreciada (e, portanto, com menores condições de sobreviver). O que deseja o governador, portanto, é a melhoria da qualidade de vida do indivíduo — não uma abstrata melhoria da raça.

Só não vê isso quem não quer.

Por fim, o desequilíbrio entre os sexos na China não é decorrente da aplicação de princípios relacionados à manipulação genética (como sugere Mme. Zatz): é decorrente do fato de que os chineses matam ou deixam morrer nenês do sexo feminino. O que é preferível: deixar que as pessoas escolham o sexo de seus bebês ou conviver com o infanticío de bebês do sexo feminino?

Se eu ler mais acerca do que pensa essa uspiana, vou acabar acreditando que a estupidez humana não tem limites.

Em Campinas, 3 de setembro de 2005


—–Matéria Original—–
 

Folha de S. Paulo
3 de setembro de 2005
 
BIOÉTICA

Luiz Henrique da Silveira diz que genética permitirá evitar filhos "feios" ou "idiotas"; biólogos condenam proposta

Governador de SC louva eugenia em artigo

REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL

Um artigo publicado no último domingo pelo governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), trouxe de volta um fantasma da ética científica: a eugenia. O governador defendeu a utilização das descobertas sobre o genoma humano para que as pessoas possam evitar que seus filhos nasçam "feios, deformados, deficientes ou idiotas".

Com o título "O DNA Espartano" (em referência às práticas de seleção de crianças na antiga cidade grega de Esparta), o texto foi publicado no jornal diário "A Notícia" (an.uol.com.br), de Joinville, no qual o governador assina semanalmente um texto opinativo exclusivo. A assessoria de imprensa do governador, procurada pela Folha durante toda a tarde de ontem, disse não ter conseguido localizá-lo para comentar o caso.

Apesar das idéias polêmicas do texto – o governador fala não apenas em melhoramento genético de bebês antes do nascimento mas também em filhos que poderiam ser clones de gênios ou pessoas de beleza excepcional-, a reação ao artigo foi tímida, mesmo dentro de Santa Catarina.

Um deputado do PT catarinense, Afrânio Boppré, condenou na Assembléia Legislativa as afirmações de Luiz Henrique. O mesmo fez o biólogo João de Deus Medeiros, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em carta enviada ao jornal.

Pseudociência

"A história já nos mostrou quão infeliz se torna a apropriação de conceitos pseudocientíficos para legitimar concepções ideológicas. Nesse contexto, a eugenia, não fosse o artigo do governador, nos parecia definitivamente sepultada com a sucumbência das pretensões de Hitler", escreve Medeiros.

Em seu artigo, o governador começa citando o exemplo da Esparta, cidade do sul da Grécia que se tornou, durante algum tempo, a maior potência militar da região.

Acontece que a eugenia, ou seja, a seleção das pessoas que supostamente teriam as melhores características físicas e mentais e a eliminação das doentes ou fracas, "era o dogma mais importante para os espartanos", escreve Luiz Henrique. Os bebês recém-nascidos de Esparta eram inspecionados por um ancião de sua tribo. Se tivessem qualquer deformidade ou fossem fracos, eram jogados num abismo chamado "Apothetai" ("as descartadas").

O governador afirma que o avanço das pesquisas genéticas, como a soletração do genoma humano, permitirá um "novo cenário eugênico", que "não se dará pela ação da adaga, mas pela evolução da ciência".

Apesar de ter sido ministro da Ciência e Tecnologia entre 1987 e 1988 (governo Sarney), Luiz Henrique escorrega na hora de analisar as implicações científicas de sua idéia, diz Mayana Zatz, bióloga da USP especialista em doenças genéticas. "Não faz o menor sentido", resume a pesquisadora, cujo laboratório oferece aconselhamento a famílias que carregam em seu DNA mutações que podem estar ligadas a males incuráveis. "São especulações que, hoje, não têm a menor possibilidade de se realizar. Além do mais, quem é que decide o que é bonito e o que é feio? O famoso nariz romano, que eles achavam lindo, não seria visto do mesmo jeito por nós", diz.

Desequilíbrio

Zatz já vê problemas na escolha do sexo dos bebês, algo muito mais próximo da realidade hoje por envolver manipulação mais simples -basta garantir que o espermatozóide do pai carregue o cromossomo Y, a marca genética da masculinidade. "A escolha do sexo dos bebês entre os chineses já mostrou que você pode criar um desequilíbrio muito grande entre homens e mulheres."

"O texto dele é tão ridículo que fica difícil articular uma resposta científica", declarou à Folha a geneticista Maria Cátira Bortolini, do Departamento de Genética da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que também chama a atenção para o absurdo de traçar uma equivalência entre "beleza" e a estrutura dos genes. Afinal, características como aparência física geral ou inteligência, também mencionada pelo governador, envolvem a interação de centenas ou até milhares de proteínas codificadas pelos genes entre si e com o ambiente em que a pessoa se desenvolve.

"O ambiente é tudo", afirma Zatz. "É o que acontece com aqueles bancos de esperma de vencedores do Nobel. Um monte de mulheres fez inseminação e até agora não nasceu nenhum novo gênio", brinca. Uma referência do texto mostra de onde o governador pode ter tirado as idéias: ele cita o biólogo americano James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, criticado por defender o melhoramento da beleza e da inteligência humanos.

"Nunca o ritmo das revoluções científicas foi tão rápido, o que é bom por um lado, mas tem alguns subprodutos não muito desejáveis. Um deles é surgirem pessoas que se sentem capazes de emitir opiniões supostamente sobre bases científicas", lamenta Bortolini.

"O que mais me ofende, e ao mesmo tempo serve de alerta, é ver minha área de trabalho ser usada para fundamentar uma argumentação estapafúrdia dessas", diz Marcelo Nóbrega, biólogo brasileiro da Universidade de Chicago (EUA). "É na ignorância científica que está a maior tragédia do que foi dito por ele."

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