"2 Filhos de Francisco"

Vi na quarta-feira, dia 31/8, o filme 2 Filhos de Francisco. Achei o filme lindo – enquanto história e enquanto cinema.

A história de Zezé di Camargo e Luciano – Mirosmar e Welson – é emocionante.

Até os nomes reais de cada um refletem sua origem pobre. O irmão mais novo, que começou a dupla com Mirosmar, mas depois morreu, se chamava Emival. Alguém já imaginou um rico pondo nome de Mirosmar, Emival e Welson em seus filhos? Rico hoje, por uma inversão curiosa, coloca em seus filhos nomes simples, como José, Joaquim, Pedro, Benedito, que antes eram reservados à pobreza. E os pobres buscam nomes mais complicados, às vezes até pretensiosos. No entanto, antes de alcançar o sucesso, Mirosmar vira José (Zezé) e Welson, Luciano.

Mirosmar, Welson e seus (muitos!) irmãos, filhos de seu Francisco e de dona Helena, nasceram na pobreza. Alguns nasceram perto de Pirinópolis, GO, num sitiozinho pobre, com casa de adobe, que pertencia ao avô Benedito (pai de dona  Helena), que um dia resolveu tomá-lo de volta. Os mais novos nasceram num barraco em Goiânia – que, em termos de casa, era pior do que a do sítio. Todos viviam na pobreza — pobreza mesmo, dessas em que a menina ia deitar de bruços pra ver se, comprimindo o estômago, a fome passava. O dono do armazém da esquina estava negando o fiado, porque a dívida havia ficado grande demais e passara a ser um risco.

O pai, seu Francisco, que gostava de música sertaneja, não põe muita fé na habilidade musical do filho mais velho. Este havia desafinado terrivelmente ao cantar “Beijinho Doce” em cima de um caminhão num desses encontros musicais de vilarejo do nosso Brasil profundo. Mas mesmo assim lhe dá uma gaita de presente por haver tentado – gaita com a qual Mirosmar agora atormenta toda a família, tocando – ou tentando tocar – o tempo todo. Mas um dia, Seu Francisco, ao ouvir o menino tocar “Menino da Porteira” na gaita, começa a acreditar que o menino tem futuro na música. Usa o dinheiro da venda de toda a colheita, mais um porco e o revólver para comprar-lhe uma sanfona – e para o irmão mais novo, um violão. Não sossega até o sanfoneiro mais famoso da região lhe dá uma primeira – e única – lição. O menino aprende a tocar o necessário para se acompanhar na sanfona – e o irmão faz o mesmo com o violão.

Como o sogro pede o sítio de volta, Seu Francisco resolve que é chegada a hora de ir para uma cidade grande. Empacota “os trens” e vai com a família para Goiânia – morar num barraco de periferia. Na roça sempre havia alguma coisa pra comer, mas na cidade grande a família chega a passar fome, enquanto seu Francisco faz bicos como ajudante de pedreiro. Para ajudar a família a comprar comida Mirosmar resolve agir. Quando chegavam em Goiânia, viu duplas sertanejas cantando na rodoviária em troca de dinheiro. Chama Emival e lá vão os dois para a rodoviária, de sanfona e violão nas costas. Na rodoviária foram impedidos de cantar em frente a uma lanchonete. Mas quando estavam sentados, desanimados, sem saber o que fazer, alguém provocou Mirosmar: “Sabe tocar essa sanfona?” “Sei”, disse ele. E começou a tocar e a cantar. Cutucou o irmão para que pegasse o violão e também cantasse. Quando os dois viram o interesse do público, puxaram uma caixinha de papelão que estava embaixo do assento — e ela rapidamente se encheu de trocados.

Com o sucesso que fizeram na rodoviária, não demorou para a dupla encontrar um “empresário”, meio sacana, que os levou a uma “tournée” pelo interior de Goiás. Depois de um relacionamento meio conflituoso com a família no início, o empresário começa a ser bem aceito — mas numa das viagens, seu carro (um carro "novo", um Maverick, que já havia sido comprado com o dinheiro ganho com a dupla para substituir à velha Kombi) bate em um caminhão e Emival morre. A família, já sofredora, toma um baque do qual vai levar muito tempo para se recuperar. Mirosmar pára de cantar por um bom tempo: perdera não só o irmão, mas o parceiro.

Quando Mirosmar volta a cantar, o faz tanto em dupla com outros cantores quanto cantando sozinho. Welson, que viria a se tornar Luciano, ainda é muito novinho (tem onze anos a menos do que o irmão). Mirosmar começa também a compor. Eventualmente grava um disco sozinho (já com o nome de Zezé di Camargo — o "di" deve ser coisa de marketeiro do interior) – mas embora algumas de suas músicas alcancem algum sucesso em gravações de outros cantores (como a dupla Leandro & Leonardo), o seu disco não faz nenhum sucesso.

Enquanto canta em eventos no interior goiano Mirosmar encontra Zilu e se casa. Logo vem uma filha (Wanessa – tinha de ser com “w”… ). Resolvem ir tentar a sorte em São Paulo. Mas nada dá certo. Para que o marido continuasse compondo, Zilu tem de, além de cuidar das filhas (uma outra havia chegado), de fazer bicos vendendo bugigangas – o sustento da família depende desses bicos.

Lá em Goiânia, Welson cresce, arruma uma namorada e um filho, e se interessa pela música – mas não mostra grande talento. Quando a namorada o abandona, levando o filho, ele vem pra casa do irmão em São Paulo – e lhe dá uma injeção de confiança, garantindo-lhe, num momento em que a confiança deste estava perto de esmoronar, que iriam alcançar sucesso e vender mais de um milhão de discos.

Mirosmar começa a treinar o irmão para que possa novamente ter um parceiro. E continua a compor. Acha uma gravadora que se dispõe a gravar suas músicas, mas sem garantia de que lançará um disco.

Nesse momento Mirosmar compõe “É o Amor!” e grava a música com seu irmão – agora já “batizado” de Luciano. Mas a gravadora ainda não acredita que o disco tenha condições de ser lançado: duvida de que terá sucesso.

Numa visita à família em Goiânia, a dupla mostra a fita de “É o Amor!” à família. Esta fica encantada – e não se conforma de que a gravadora não queira lançar o disco. Sem que os meninos soubessem, seu Francisco pega a fita e a leva a uma das rádios de Goiânia, onde conhecia um DJ. Ao voltar para casa, começa a ligar para a rádio, pedindo que toquem a música dos filhos. Chega ao extremo de gastar quase o salário inteiro em fichas, distribuindo-as aos colegas de obra, fazendo com que cada um telefonasse para a rádio pedindo para que tocasse “É o Amor!”. O estratagema funciona. Um dia, enquanto a família almoça no barraco, o rádio sempre ligado, ouvem a música – já alçada ao topo da parada de sucessos da rádio – e entram em delírio.

É o começo do sucesso – e o sucesso contagia, gera mais sucesso. Como dizem os americanos, “nothing succeeds quite like success” – “nada traz tanto sucesso como o sucesso”, algo assim. A gravadora em São Paulo finalmente resolve lançar o disco. O resto é história. Mais de um milhão de cópias vendidas com o primeiro disco da dupla.

O filme termina nesse ponto. Assim que o disco alcança sucesso o filme corta para um show da dupla – mas agora já são os próprios cantando no presente, não os atores que os representaram no filme. E o pai e a mãe também entram no filme em pessoa. Todos fazem alguns depoimentos comoventes.

Enquanto aparecem os créditos, no final do filme, há um dueto em que Caetano Veloso e Maria Bethânia cantam Tristeza do Jeca. Caetano assina a trilha sonora com Zezé di Camargo, e participa cantando algumas músicas – como o fazem Bethânia e Ney Matogrosso. O CD com a trilha certamente também será um sucesso.

A história é emocionante, porque é a história de um sonho. Originalmente, o sonho do pai. Mas o sonho do pai contagia o filho. E, eventualmente, o sonho de Mirosmar contagia Welson.

Os sonhos da gente humilde deste país são assim: sonhos de se tornar cantor de música sertaneja, sonho de se tornar jogador futebol, sonho de se tornar sindicalista e, quem sabe, um dia presidente… Alguns desses sonhos se tornam realidade. É assim que surgem os Zezés di Camargo e Lucianos, os Ronaldos, Ronaldinhos e Robinhos, os Lulas.

Para quem olha de fora, parece que o sucesso um dia chega assim de forma misteriosa, como se fosse dádiva divina. Quem olha de fora não vê, na história dos envolvidos, o pensamento, que não se deixa esmorecer, de que o sucesso, isto é, a vida melhor, é possível, mesmo para quem não tem nada, a não ser um sonho; não vê o propósito inarredável de alcançar esse sucesso; não vê a paixão pela realização desse sonho, que leva o pai a investir toda a sua colheita, e ainda mais alguma coisa, para comprar um instrumento para os filhos, ou todo o seu salário, para trazer à gravação dos filhos o reconhecimento que ela devia; não vê os planos feitos para abrir caminhos; não vê a paciência diante das maiores dificuldades; não vê a persistência de quem não se deixa quebrar nem mesmo quando a morte imprevistamente ataca e rouba um dos pilares em que se sustentava a esperança. Pensamento, propósito, paixão, planos, paciência, persistência… Seis "P"s que explicam o sucesso na vida.

Não resta dúvida que Mirosmar / Zezé di Camargo tem talento – e se tem hoje, tinha, quando era pequeno. Ele tem voz privilegiada e é excelente compositor desse gênero de música. E seu talento é bem complementado pela voz de Luciano, que o considera, além de irmão e parceiro, um segundo pai. Mas esse talento, ainda que tenha componente genético (de que não duvido), precisou ser estimulado, cultivado, burilado… Quem os ouve cantar hoje fica com a impressão de que cantar é tão fácil para eles quanto para os canários da terra. Mas não imagina o esforço que está por traz da competência desenvolvida – tão desenvolvida que o seu exercício parece natural e automático. Não imagina, isto é, a menos que veja o filme…

É por isso que a história é boa, engajante, comovente – mesmo que a gente, ao entrar no cinema, já conheça o fim do filme. Ela nos mostra os bastidores do sucesso, o esforço que está por trás do desenvolvimento do talento e da aquisição da competência, a importância de um ambiente que nutra e dê apoio aos nossos sonhos.

Educar é criar condições para que as pessoas possam se desenvolver como seres humanos, possam realizar seus potenciais, possam transformar a dependência e incompetência com que nascem em autonomia e competência na definição e realização de um projeto de vida – que nada mais é do que um sonho que não fica apenas sonho, e nada mais.

Falei muito da história – e ainda nada do filme.

Não é sempre que o cinema brasileiro produz uma obra de primeira qualidade como esta. Tudo é bom. A direção, competente, é de Breno Silveira. O história corre fácil e gostosa, sem que a gente sinta o tempo passar. Cenas emocionantes, em que quase todo o cinema chora, são misturadas com cenas engraçadas. O roteiro é de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho, que o construíram em cima de entrevistas, relatos e um sem número de “causos” – afinal de contas, exceto por Emival, os personagens estão todos aí, vivos e, felizmente, bem de saúde. Quanto à trilha sonora, a simples assinatura de Caetano é sinal de qualidade – e a de Zezé de Camargo não é de modo algum desprezível. A interpretação das canções que entram na trilha fica na medida certa.

Mas o mais importante é que a interpretação dos atores principais é impecável. Eis a lista completa deles:

Ângelo Antônio: seu Francisco

Dira Paes: dona Helena

Dablio Moreira: Mirosmar (inicialmente Camargo, depois Daby) [criança]

Marcos Henrique: Emival (inicialmente Camarguinho, depois Diebersson) [criança]

Wigor Lima: Welson (Luciano) [criança]

Márcio Kieling: Mirosmar (Zezé Di Camargo) [adulto]

Thiago Mendonça: Welson (Luciano) [adulto]

Paloma Duarte: Zilu [mulher de Mirosmar]

Lima Duarte: Benedito [pai de Helena]

Natália Lage: Cleide [primeira mulher de Welson]

Jackson Antunes: Zé do Fole [sanfoneiro]

José Dumont: Miranda [empresário]

Enfim. Há quem se surpreenda de eu estar recomendando o filme. Acho que esse resumo responde a essa surpresa. Esse não é um filme que agrada apenas os amantes de música sertaneja: agrada qualquer um que gosta de ver na tela uma boa história competentemente contada.

Em Campinas, 5 de setembro de 2005

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