A alegria do futebol

Até os oito anos e meio morei nos cafundós do Paraná onde nem tomava conhecimento de futebol profissional. Foi só quando me mudei para Santo André, em março de 1952, que comecei a me interessar por acompanhar jogos no rádio. No ano seguinte passei a torcer pelo São Paulo – que se tornou campeão paulista em 1953, derrotando o Santos na Vila Belmiro no dia 29/12 [* Vide Correções no final].

A escalação do São Paulo naquele jogo, se bem me lembro, foi: Poy, De Sordi e Mauro; Pé de Valsa, Bauer e Alfredo; Maurinho, Dino, Gino, Albella e Teixeirinha [* Vide Correções no final]. Esquema? Será que havia esquema naquela época? Se havia, deve ter sido 1-2-3-5: um goleiro, dois zagueiros (um à direita e outro à esquerda), três meios-de-campo (o centro médio, que  fazia as vezes também de zagueiro central, o médio à esquerda e o médio à direita), e cinco atacantes (dois pontas, um à direita e outro à esquerda, dois meias, um à direita e outro à esquerda, e o centro avante. Os jogos de pebolim ainda preservam esse “esquema”: um goleiro, dois zagueiros, três médios e cinco atacantes.

[Não sei por que o zagueiro (ou beque, como se dizia então) e o médio eram “direitos” mas o ponta era “direita” (assim no feminino). Se alguém tiver uma luz sobre isso, apreciaria se me comunicasse.]

Resolvi escrever sobre isso por causa da alegria que me causou ver o primeiro tempo do jogo do Brasil com o Chile ontem. Que jogo bonito! Quanta habilidade no gramado (no lado brasileiro). O “quadrado” brasileiro, composto por Cacá, Robinho, Ronaldo (o “fenômeno”) e Adriano (o “imperador”) jogou como se fosse um sonho. Eles não fizeram mais gols porque não quiseram. No finzinho do jogo, só para mostrar que, querendo, fariam um outro, o fizeram.

Mas a beleza que foi o jogo criou um aparente problema para o Parreira. Ronaldinho (o “melhor do mundo” no ano passado) não jogou, porque estava suspenso. Agora, terminada a suspensão, quem sai, para ele entrar? Cacá é, de certo modo, a alma do time (sou meio “partisan” aqui, porque para mim ele ainda é são-paulino). Robinho é o grande artista, com pedaladas, chapéus e lençóis. Ronaldo, bem, é Ronaldo. Robinho o chama de “Presidente” (embora o termo hoje tenha conotação dúbia, graças ao Lulla). E Adriano não tem como deixar fora do time: é ele quem faz os gols, afinal de contas.

Tostão, na Folha de hoje (5/9/2005), lastima que o “quadrado” não possa virar um “pentágono”. Li outros artigos que asseguram que um pentágono não daria certo. Não sei por quê. No meu tempo, que eu me dê conta, os times tinham, como ataque, um pentágono: cinco caras. O Brasil ganhou a copa da Suécia com um pentágono: Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Zagalo era ponta mas fazia também o meio de campo… No México ganhou com outro pentágono: Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino. Está aí: Rivelino na ponta “à esquerda”…

Pra mim, o ataque da seleção de 2006 está definido: Cacá, Adriano, Ronaldo, Robinho e Ronaldinho Gaúcho. Cacá e Ronaldinho Gaúcho vindo de trás, Ronaldo e Adriano na frente, para arrematar, e Robinho azucrinando os adversários. O ataque está aí: sem tirar nem pôr. Só não vê quem não quer. Para completar: no meio de campo, Cicinho, Emerson (operando também como zagueiro central), e Roberto Carlos — Cicinho e Roberto Carlos voltando para marcar atrás; zagueiros: Alex (o Lúcio de vez em quando dá medo) e Juan. No gol, pode ficar o Dida (se bem que eu prefira o Rogério Ceni).

Olhem só que belo time: Dida, Alex e Juan; Cicinho, Emerson e Roberto Carlos; Cacá, Adriano, Ronaldo, Robinho e Ronaldinho Gaúcho.

Alguém bate esse time??? Pode ser — num momento de azar ou absoluta falta de inspiração do time brasileiro (como aconteceu com a Seleção Brasileira de 1982 — que, entretanto, na minha opinião, não era tão boa quanto esta). Mas não em uma competição estendida.

Brasil – zil, zil, zil, zil… Agora são 180 milhões torcendo — o dobro de 1970. Isso deve valer alguma coisa também.

[* Correções accrescentadas em 20050923: Vim a descobrir, posteriormente, que errei a data do jogo do São Paulo com o Santos e um jogador na escalação do São Paulo. A data do jogo foi 24/1/1954. Na escalação, Dino não jogou — sendo substituído por Negri, que usou a camisa 10, ficando Albella com a camisa 8. Os gols do São Paulo foram de Maurinho, Albella e Negri. Corrigi a informação a partir do livro São Paulo: Dentre os Grandes, És o Primeiro, de Conrado Giacomini, Ediouro, Rio de Janeiro, 2005, p.106. O livro é uma verdadeira “Bíblia Sagrada” do torcedor são-paulino. Imperdível. A propósito: O verdadeiro campeão do Quarto Centenário de São Paulo foi o SPFC, que conquistou o título um dia antes do aniversário da cidade!!!]

Em Campinas, 5 de setembro de 2005.  

  1. Tenho uma teoria sobre o porquê do zagueiro (ou beque) e o médio serem direito e o ponta ser direita. As palavras zagueiro, beque e médio são masculinas, já a palavra ponta é feminina. Que tal minha teoria?Beijinhos…Paloma

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  2. Pode ser, pode ser… Mas no futebol nunca dizemos (por exemplo) que Robinho é "a ponta direita" da seleção. Dizemos que ele é "o ponta direita"… E daí? Como ficamos? Eduardo

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