Educação 3.0: A Escola do Futuro chegou? – NÃO!

Nos últimos 200 anos, por aí, tem havido um só modelo de Educação Escolar, que permanece firme até hoje, com insignificantes variações de uma época para outra e de um país para outro. Esse modelo foi inventado para atender às necessidades da Sociedade Industrial. Embora não tenha ainda sido enterrada em algumas partes do mundo, essa sociedade claramente já está morta. Foi substituída por uma sociedade diferente, extremamente dinâmica e em rápida evolução, que já foi chamada de Sociedade da Informação e do Conhecimento. Mas informações e conhecimentos se tornam obsoletos muito rapidamente. Por isso, mais recentemente, essa nova realidade tem sido rotulada de forma diferente: Sociedade da Criatividade, Sociedade da Inovação, Sociedade da Aprendizagem.

Não há diferença significativa entre a escola de hoje e a escola inventada, na primeira metade do século 19, para atender basicamente a duas necessidades da Sociedade Industrial:

a)   Capacitar a população que, abandonando o ambiente rural, procurava, nas cidades, emprego nas fábricas, para que ela aprendesse a ler, escrever e contar (fazer as operações aritméticas básicas) e, assim, pudesse entender instruções, diretivos, e manuais simples e se comunicar de forma clara e precisa;

b)   Transmitir à população, em geral, mas em especial aos migrantes do campo e aos imigrantes estrangeiros, os conhecimentos, valores, costumes e tradições tidos como essenciais no novo tipo de sociedade em que eram chamados a viver, para que pudessem a ela se ajustar sem maiores problemas.

O olhar dessa escola, estruturada segundo o modelo da fábrica industrial, estava voltado para o presente (emprego na fábrica) e para o passado (preservação da sociedade). Sua função era preparar pessoas para a realização do trabalho rotineiro da fábrica e para o exercício das formas básicas de convivência em sociedade.

O mundo, entretanto, mudou substantivamente nos últimos 70 anos, desde o final da Segunda Guerra Mundial, e ainda mais rápida e radicalmente nos últimos 35, desde a invenção e inacreditável popularização dos computadores pessoais e seus derivados (smart phones, tablets, etc.).

Hoje, em países como os EUA, a chamada indústria cultural — músicas, filmes, vídeos, programas de TV, livros, revistas, e software – é o principal produto de exportação.

Essa indústria é o resultado do exercício, pelos indivíduos, de sua imaginação e criatividade, e de sua capacidade de explorar, através de inovações sucessivas, o valor econômico de suas ideias. Seus produtores / autores transformam ideias em riqueza. Eles literalmente fazem dinheiro. (É por isso que a sociedade atual é a mais rica que jamais existiu. Essa riqueza está distribuída desigualmente porque também é desigual a distribuição da imaginação, da criatividade e da capacidade de inovação.)

É por isso que a sociedade em que a indústria cultural predomina sobre as atividades econômicas convencionais (indústria de extração, agropecuária, indústria manufatureira e de transformação, e mesmo o comércio e os serviços convencionais, de natureza rotineira) é chamada hoje de Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem.

Nela se olha para o futuro. Nela se privilegia a imaginação, a criatividade, a inovação. Nela se foca a solução de problemas. Nela se requer colaboração, não trabalho individual. Nela se exige desapego a velhos paradigmas. Nela se remunera a capacidade de desaprender para depois reaprender. Nela, em suma, aprender é se tornar capaz de fazer o que não se conseguia fazer antes: é resolver problemas, criar, inventar, inovar, dar à luz o novo — muito mais do que absorver, assimilar e aplicar o velho.

Será que a escola que temos, criada e organizada para atuar a Sociedade Industrial, sobreviverá na Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem?

Alguém está vendo uma escola adequada a essa nova realidade mesmo entre nossas melhores escolas? Mesmo nos países que se classificam nos primeiros lugares no PISA?

Eu, não.

A Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem exigirá novas formas de aprender e novos ambientes de aprendizagem, permeados de tecnologia, que transcenderão em muito os limites do que hoje chamamos “educação escolar”. Será um grave erro continuar a chamar de escola esses novos ambientes de aprendizagem, onde se aprenderá, de forma diferente, a fazer coisas diferentes.

Em São Paulo, 27 de Maio de 2013

[Este artigo foi escrito a pedido da Futuro – Educador / Educar, onde dei uma palestra mais ou menos sobre o mesmo tema. Ele foi originalmente publicado no site do evento, no URL:

http://www.futuroeventos.com.br/educar/noticias/educacao-3-0-escola-futuro-chegou-nao/

VERSÃO COMPACTA

Educação 3.0: A Escola do Futuro chegou? – NÃO!

Nos últimos 250 anos tem havido um só modelo de Educação Escolar, que permanece firme até hoje. Foi inventado para atender às necessidades da Sociedade Industrial – embora hoje vivamos na sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem.

Não há diferença significativa entre a escola de hoje e a escola inventada para atender basicamente a duas necessidades da Sociedade Industrial:

a) Capacitar a população que procurava emprego nas fábricas a ler, escrever e contar;

b) Transmitir à população, em especial a migrantes do campo e imigrantes estrangeiros, os conhecimentos, valores, tradições e costumes tidos como essenciais na sociedade em que eram chamados a viver.

O olhar da escola estava voltado para o presente (emprego na fábrica) e para o passado (preservação da sociedade). Formação para o trabalho e a cidadania.

O mundo, entretanto, mudou substantivamente nos últimos 70 anos e mais rápida e radicalmente nos últimos 35 (ca 1977).

Hoje, em países como os EUA, a indústria cultural — músicas, filmes, vídeos, programas de TV, livros, e software – é o principal produto de exportação.

A indústria cultural é o resultado do exercício, pelos indivíduos, da imaginação e criatividade, da capacidade de explorar, por inovações, o valor econômico das ideias. Seus autores transformam ideias em dinheiro.

Como a escola que temos sobreviverá numa era que privilegia imaginação, criatividade, inovação, que olha para o futuro, que remunera a capacidade de desaprender para reaprender, que requer colaboração, que foca a solução de problemas, que exige desapego a velhos paradigmas – em suma, em que aprender é resolver problemas, criar, inventar, inovar, dar à luz o novo, muito mais do que absorver, assimilar e aplicar o velho?

Alguém está vendo uma escola adequada a essa realidade mesmo entre nossas melhores escolas? Eu, não.

Em São Paulo, 10 de Maio de 2013

  1. Professor (mestre) Eduardo, concordo com as suas colocações. estou participando como gestora, de um novo modelo de Escola de Ensino Médio Integral,(SEE/SP) onde as premissas do programa são a Educação Interdimensional, o Protagonismo Juvenil, os quatro pilares da Educação ( lembrando o meu tempo de IAS e suas excelentes capacitações) e a Pedagogia da Presença. Todo o processo gira em torno do Projeto de Vida do aluno e envolve disciplinas eletivas ( na nossa UE temos eletivas de cinema, inteligências múltiplas, O sorriso do Palhaço, entre outras) e os clubes juvenis totalmente criados e organizados pelos alunos. A aprendizagem ocorre de maneira natural nestes momentos em que os alunos são desafiados a solucionarem problemas, a serem criativos, participativos, corresponsáveis, autônomos e solidários. O atitudinal é considerando tanto quanto e até,em vários momentos, tendo mais foco do que o conceitual e o procedimental. Também não creio que seja ainda a escola ideal mas, acredito que estar incomodado com a que temos e buscar desestruturá-la visando desenvolver um novo modelo, já é um bom começo.

    Abçs

    Denise Toss
    Diretora de Escola

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  2. Oi, Denise… Que bom reencontra-la por aqui. Concordo que vai ser necessário haver uma transição em que temos ambientes de aprendizagem (no caso, escolas) que ainda não o ideal mas que já são um avanço significativo em relação ao que tínhamos. Onde é sua escola?

    Eduardo

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    • Olá professor Eduardo,

      A escola que estou gerindo é a E.E. Professora Zulmira de Almeida Lambert em São Vicente. O programa utiliza a tecnologia de gestão da Odebrecht – TGE e está sendo um ótimo aprendizado. O ICE é parceiro da SEE e eu lembro muito do IAS e de tudo o que aprendi com vcs.

      Abçs

      Denise

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