O que será dos meus hard disks?

Quando nos lembramos de que não iremos viver para sempre, em geral nos preocupamos com o que irão fazer, depois de nossa morte, com as coisas que para nós são tão importantes. A minha enorme coleção de livros, que não parece ser de interesse para nenhum de meus filhos, nem, por enquanto, para nenhum de meus netos… Minha mulher também não parece se interessar muito pela maioria deles. Milhares de revistas que separei porque continham algo importante… A minha papelada, que enche dezenas de arquivos de aço com gavetas… A minha grande coleção de discos em vinil, de CDs… A minha também grande coleção de fitas VHS, de DVDs… A minha coleção de alicates, chaves de fenda, ferramentas de vários tipos, medidas em centímetros e em polegadas… Minha coleção de corujas, tartarugas e elefantes em miniatura, amealhada ao longo de tantos anos.

Hoje cedo, dia 20/8, quando ainda estava em Sydney (agora estou no avião voando de Sysdney para San Francisco), conversava pelo MSN Messenger com minha amiga Adriana Portella, hoje também Hollenbeck (a mãe do Nicholas) – que ainda estava no sábado, dia 19/8 (em Watertown, Wisconsin, onde ela mora).  Ela levantou uma questão que imediatamente passou a me preocupar: “O que será de nossos hard disks quando a gente morrer?”

O problema com essa pergunta é que nenhuma resposta parece ser suficientemente adequada para ela.

Se os nossos herdeiros resolverem, em respeito à nossa privacidade, simplesmente reformatar tudo, sem ler nada, nossos segredos estarão preservados mas, além de morrermos fisicamente, a maior parte do que pensamos e sentimos, e que deixamos registrado em arquivos .doc de Microsoft Word, .ppt de Microsoft PowerPoint, .pst de Microsoft Outlook, ou então na história preservada de nossos papos pelo (agora) Windows Live Messenger (ex MSN Messenger), nas fotos .jpg que tiramos, nos filminhos .wmf ou .mpg que produzimos ou simplesmente guardamos…  A reformatação de tudo isso deixará ferido para sempre o nosso orgulho: ninguém se interessou o suficiente pelo que fomos, pensamos e sentimos, pelas coisas que achávamos importantes, para querer preservar alguma coisa do estava armazenado em nossos hard disks.

Por outro lado, se resolverem fuxicar a nossa vida, podem encontrar coisas que os deixarão surpresos – quando não indignados. É incrível quão pouco os nossos parceiros, os nossos filhos, os nossos netos, os nossos outros parentes, conhecem da gente. Fazemos blogs – mas poucos dos parentes os lêem sistematicamente. O meu está no Live Spaces (antigo MSN Spaces). Mas também escrevemos uma quantidade enorme de textos que não colocamos em blogs. Escrevi livros, capítulos de livros, artigos, prefácios, posfácios, etc. que ninguém de minha família jamais leu. Tenho milhares e milhares de slides, correspondentes a palestras que ministrei, em arquivos de Microsoft PowerPoint que ninguém de minha família jamais viu.  Participo de dezenas de listas de discussão, nas quais escrevo, diariamente, dezenas de mensagens, de que ninguém de minha família jamais tomou conhecimento. Envolvi-me em brigas homéricas em algumas dessas listas, e nessas brigas nem sempre me comportei de forma impecável (em termos de elegância no trato e na linguagem) – e minha família nunca ficou sabendo delas. Troquei e-mails pessoais com gente que ninguém de minha família conhece – e com gente que minha família nem imagina que exista e que seja importante para mim. O mesmo vale pelos papos pelo Windows Live Messenger.  Se minha família fosse fuxicar os meus hard disks, quanta surpresa teria… Seria um redescobrir do marido, do pai, do avô – na verdade, um descobrir, porque nunca tomaram conhecimento desse meu eu, para eles, desconhecido, mas que é conhecido, às vezes bem conhecido, por meus companheiros de listas, de e-mails, de papos no Messenger… E que em muitos aspectos é o meu eu mais íntimo!

Além disso, há muita coisa que escrevo para mim mesmo… Meus hard disks estão cheios de pequenas notas que rabisco para mim mesmo, no Notes do Microsoft Outlook, no Microsoft Notebook, às vezes em arquivos do Microsoft Word ou até mesmo do Notepad e do (um de meus programas favoritos) Notetab Pro. Verdadeiros diários, sem o nome.

Fico me lembrando de um dos filmes mais lindos que já vi: The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison). Francesca, já viúva, morreu. E deixou um baú para seus dois filhos (um casal) – com cadernos e relíquias, cheios de surpresa. Nos cadernos, a história de um amor vivido em segredo. Entre as relíquias, fotos e lembranças diversas do amor vivido com Robert Kincaid. Os filhos ficaram inicialmente chocados e revoltados. O filho homem quase teve um ataque ao ficar sabendo que sua mãe havia traído o seu pai – reação de homem. A filha mulher pareceu compreender mais rápido. Ambos relutaram em concordar com jogar as cinzas da mãe no mesmo lugar em que haviam sido jogadas as de Robert Kincaid… No fim, os dois entenderam. Apesar de terem vivido com sua mãe durante cerca de trinta anos, não a haviam conhecido de fato, no que ela tinha de mais íntimo.

Entre as minhas coisas há os meus sites, mais de trinta, hoje hospedados todos no Globat.com. Minha família nem toma conhecimento deles, exceto, talvez, de vez em quando, do chaves.com.br. No entanto, gente desconhecida da minha família considera importantes o aynrand.com.br, o 4pilares.net, o contaoutra.net, o fora.com.pt — até mesmo o vovodudu.net… Será que alguém vai cuidar desses sites depois de eu ter morrido??? Duvido muito. Ninguém sabe quanto eu pago por mês para manter esses sites no ar, muito menos como pagar, caso valha a pena mantê-los no ar. (By the way, o preço que irá custar para manter um deles no ar é o mesmo que custará mantê-los todos no ar – armazeno-os todos no mesmo local, por um preço que me permite manter trinta domínios no ar em uma conta só. O pagamento é anual.) Quando o contrato anual vencer, Globat enviará uma cobrança automática para meu cartão de crédito. Mas como eu terei morrido, meu cartão de crédito terá sido cancelado. Não conseguindo debitar o valor de um novo contrato anual, Globat cancelará meu espaço no hard disk deles, e meus 30 sites irão para o espaço. Tenho cópia deles nos meus hard disks, mas será que alguém vai achar? Um aspecto importante da minha vida terá sido apagado para sempre.   

[Como sou otimista, vou ajudar o trabalho de meus descendentes, caso eles decidam manter meus sites no ar. Estes são os trinta domínios hospedados em Globat.com: chaves.com.br, infoutil.org, edutec.net, 4pilares.net, escola2000.net, unicamp.net, vovodudu.net, livremente.net, escolanova.net, jmc.org.br, mindware.com.br, contaoutra.net, palestras.net, myblogs.net, cronicas.info,  aynrand.com.br, liberty.com.br, trivium.org.br, mathetics.net, educhange, hughakston.net, newed.net, mindtools.org, autobio.info, paideia.com.br, racionalmente.net, fora.com.pt, learningpathways.net, rotary-saldo.net, lucelia.info. A propósito, tenho setenta outros domínios que não estão sendo hospedados no momento, a não ser em MyDomain.com, que deixa a gente estacionar os domínios lá de graça. Mas é demais ter qualquer esperança em relação a eles…]

Enfim, é isso. E, talvez, muito mais. Não sei por que tenho pensamentos fúnebres quando estou voando.

Sobre o Pacífico, 20 de agosto de 2006, às 18h19, hora de Sydney – 5h19, hora de Salto. As vaquinhas, os bezerros, as galinhas e os galos do meu sítio estão acordando. Deles tenho certeza de que alguém vai cuidar.

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