A esquerda e Cuba: dois pesos e duas medidas

Tenho me dedicado, nos últimos tempos, a estudar a ilogicidade da esquerda. Ou talvez o nome certo seja a logicidade dialética da esquerda… Nada melhor para evidenciá-la do que as várias subscrições de brasileiros de esquerda ao manifesto de "cientos de intelectuales" em defesa da liberdade e autonomia do povo cubano.

Nós tivemos a nossa ditadura militar no Brasil. Começou cinco anos depois da ditadura cubana de Fidel Castro e durou vinte anos — menos da metade do que a ditadura do El Comandante já dura.

Durante a ditadura brasileira um monte de brasileiro foi morto, ou foi expulso do país, ou teve de sair daqui correndo para não ser preso ou morto. Perderam seus bens e propriedades. Ficaram exilados um bom tempo. Voltaram quando da anistia — concedida enquanto os militares ainda estavam no poder. Puderam voltar tranqüilamente. Nenhum dos exilados foi preso ao entrar no país. Foram considerados heróis nacionais. Alguns chegaram a se candidatar à Presidência da República, outros se tornaram ministros, outros senadores, outros deputados federais. Tudo gente fina. Hoje a gente sabe que alguns tinham vocação de larápios, mas tudo bem. Ladrões ou não, ninguém duvida de sua brasilidade ou de seu patriotismo. Boa parte deles está sendo generosamente indenizada pelo governo brasileiro. Patati-patatá.

A ditadura brasileira é considerada de direita. Os que foram perseguidos por ela são, em geral, considerados de esquerda (embora nem todos o fossem, é bom que se diga: a esquerda não teve nenhuma exclusividade na luta contra a ditadura brasileira).

No caso da sanguinária ditadura cubana, houve mortes (ninguém pode esquecer "el paredón"), houve gente que foi expulsa, houve gente que teve de sair de lá fugida para não morrer. Perderam todos os bens e propriedades que tinham. Foram para Miami. Lá se estabeleceram e muitos deles se enriqueceram através de seu trabalho, tornando-se multimilionários.

A ditadura cubana é comunista — ditadura de esquerda. Os que foram perseguidos por ela são, em geral, considerados de direita.

O que se nota agora é que a esquerda mundial, incluindo nossa esquerdinha chique (a esquerda chamada Pierre Cardin ou cu de veludo, composta de auto-denominados intelectuais, e que inclui, entre os intelectuais, artistas de novela, cantantes, etc. — se bobear até jogador de futebol famoso vira intelectual no Brasil se estiver do lado ideológico certo), trata a ditadura cubana e suas vítimas de forma diferente da que tratou a ditadura brasileira e suas vítimas.

Fidel não é, para a esquerda, um pulha. É um herói, que trata bem os cubanos, tanto que é admirado até por um carregador de malas (a mensagem está circulando na Internet). Se procurar bem, a esquerda vai achar engraxates, limpa-botas, putas, travestis, etc., que acham o fétido ditador uma pessoa profundamente humana, atenciosa com os humildes, até carinhosa com gente que, segundo o ideário socialista, não deveria estar recebendo toda essa atenção, porque lá todo mundo seria igual, do ponto de vista econômica e social, não é mesmo? Igualmente pobre e miserável e igualmente oprimido, é o que quero dizer — com a exceção de Fidel, Raúl e uns poucos apaniguados.

Em suma: os ditadores militares brasileiros foram uns pulhas, uns canalhas, etc. etc. O ditador militar cubano é um herói profundamente humano para a esquerda. Ele está há quase 50 anos no poder, não porque nunca fez eleições — mas porque o povo cubano o adora!!! Para nós mortais que não somos de esquerda é difícil entender porque o déspota cubano nunca decidiu testar a adoração dos seus súditos.

Mas continuo.

Os que foram mandados para fora do Brasil, estes são os heróis aqui. Continuam a ser heróis mesmo depois que se provou que estavam envolvidos em corrupção (só porque foram aprendizes de guerrilheiros na selva). Ninguém nunca duvidou de sua brasilidade e de seu direito de voltar e assumir posições de proeminência no cenário nacional.

No caso de Cuba, a esquerda demonizou aqueles que Fidel expulsou de Cuba ou obrigou a se exilarem em Miami. São pulhas, canalhas, e tudo que é nome feio que que a esquerda chique se permite dizer em público. (Em privado falam palavrões cabeludos como todo mundo quando estão com raiva, como estão agora, que o reinado de Fidel está chegando ao fim). Os cubanos de Miami, para a esquerda, não são cubanos. Se voltarem para Cuba quando Fidel morrer ou cair, não serão vistos como heróis pela esquerda: serão golpistas. Na verdade, não serão considerados nem golpistas, porque para serem considerados golpistas teriam de ser considerados cubanos, e a esquerda se recusa a considerá-los assim. Serão considerados como invasores americanos, a mando de Bush.

Para a esquerda, diferentemente dos exilados brasileiros que voltaram ao seu país e receberam as boas-vindas da esquerda, os exilados cubanos não têm direito nenhum de voltar à sua terra natal, se estabelecer, um dia se candidatar a deputado, senador ou até mesmo à Presidência de Cuba.

A esquerda, inclusive a brasileira, tem dois pesos e duas medidas para julgar ditadores e exilados. Esse o sentido da lógica dialética. Se o ditador é de esquerda, é herói. Se o exilado é de esquerda, é herói. Quando são considerados de direita, são pulhas, canalhas, e pior — sejam ditadores ou exilados.

A esquerda está querendo caracterizar as movimentações dos cubanos de Miami para voltar à sua terra natal como tentativa de invasão da ilha pelos americanos — não como planos de exilados cubanos para o retorno à casa depois de quase 50 anos de exílio. A esquerda diz que o povo cubano corre risco de ser atacado — e sua autonomia corre o risco de ser violada. Como se essa autonomia não viesse sendo sistematicamente violada nos últimos 50 anos por um ditador despótico e sanguinário, que não reconhece a liberdade de expressão, de associação e de ir-e-vir de seu povo, bota na cadeia quem critica o regime, prende e arrebenta, mata friamente. O que os cubanos de Miami vão fazer é ajudar os seus irmãos — que sofreram por 50 anos na própria casa, não conseguindo fugir, apesar das tentativas de fuga em bóias de pneu, em jandadas e barcos improvisados — a restabelecer a autonomia que o povo cubano perdeu a partir de 1959.

Quem está disposto a defender o povo cubano que não conseguiu fugir de casa é, agora, o povo cubano que precisou e pode fugir para Miami, e que agora vai voltar — e, suspeito, ser considerado como herói, como deve, pelo povo cubano que vai ser liberado.

Está próxima a hora de verificarmos se o povo cubano adorava mesmo Fidel — ou se era puro medo. Está próxima a hora de ver o que o povo cubano prefere, depois de 50 anos de ditadura e doutrinação comunista.

Viva Cuba! Viva o povo cubano! Fora Fidel e os comunistas.

Torço para que Fidel recupere a sua saúde para ser colocado no "paredón", como fez com tantos. Mas suspeito que os cubanos se contentarão com prendê-lo e deixá-lo morrer com o triste recorde de ditador mais longo e sanguinário da história de Cuba. São mais civilizados do que ele.

Em Perth, Austrália, 10 de agosto de 2006 (9 de agosto aí no Brasil).

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