Polêmica na academia paulista

Transcrevo, abaixo, matéria publicada na VEJA: http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml.

Só faltou incluir a UNICAMP no artigo…

No final de março deste ano, os alunos da UNICAMP invadiram o prédio da Reitoria, tomaram o Gabinete do Reitor e as demais instalações da Reitoria, e, no dia seguinte, a sala do Conselho Universitário. Ficaram lá durante quase uma semana. O Reitor foi literalmente exilado. A Reitoria ganhou uma liminar de reintegração de posse e… professores da universidade foram à Justiça para pedir que a ordem de reintegração fosse revogada…

Havia reclamações específicas por parte dos alunos — mas sobre elas se sobrepôs a exigência de que o governador Serra cessasse a "intervenção" na universidade, revogando os decretos baixados desde o início do ano que afetam o ensino superior. A Reitoria, no início, disse que algumas exigências dos alunos não poderiam ser atendidas — e que essa posição era inegociável (e.g., exoneração da coordenadora da moradia estudantil). Depois cedeu tudo, concordando até com a saída da infeliz, cuja permanência havia sido considerada inegociável.

Como se vê, quando a Reitoria está invadida e nem o Reitor pode pôr os pés lá, a universidade facilmente abre mão de sua autonomia… Certamente, os alunos invasores não terão deixado de perceber isso. Na próxima invasão (e a da USP é a invasão seguinte, ainda que noutra universidade do sistema) aumentarão suas apostas.

Em Taipei, 12 de maio de 2007

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http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml 

VEJA – Edição 2008 – 16 de maio de 2007

No caminho certo

O governador Serra enfrenta o atraso que ainda reina na USP

Camila Pereira

Vandalismo na invasão à reitoria: ação corporativa contra a transparência

O obscurantismo abomina o conhecimento. A queima de livros durante a Inquisição, a depredação, no ano passado, de um centro de pesquisas da companhia Aracruz por uma horda de 2 000 militantes teleguiada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os exemplos atravessam eras e continentes. O obscurantismo pode tornar-se pior quando combinado com a praga do corporativismo. Foi o que ocorreu no último dia 3 na Universidade de São Paulo, a maior instituição de ensino superior e pesquisa do país. Um bando de 300 alunos invadiu o prédio da reitoria, depredou suas dependências e ocupou o gabinete da reitora Suely Vilela. Os manifestantes passaram a usar internet e telefone livremente para divulgar seu protesto, que, na última sexta- feira, já durava uma semana. Qual é a razão para tanto vandalismo? Entre reivindicações oportunistas, como a melhor conservação dos prédios da universidade, os depredadores de prédios públicos querem impedir que o governador José Serra exija mais transparência dos gastos das três universidades estaduais — além da USP, a Unesp e a Unicamp.

A queda-de-braço começou porque Serra resolveu incluir as contas das três universidades no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios (Siafem). O sistema monitora a movimentação do caixa de órgãos públicos — ou seja, permite aos contribuintes acompanhar o uso de seu dinheiro e, aos administradores, avaliar a eficiência da gestão financeira. A medida, mais que salutar, foi vista como um ataque à autonomia universitária pelos sindicatos de professores e de funcionários da USP, as entidades que estão por trás da manifestação. Trata-se de uma desculpa esfarrapada. O Judiciário e o Legislativo, poderes independentes, também recebem recursos do governo estadual. E também estão no Siafem. Por que as universidades mereceriam tratamento diferenciado? "Em nome da autonomia, criou-se o mito no Brasil de que universidades estão acima de qualquer fiscalização", afirma o economista Gustavo Ioschpe. "É preciso mostrar como se gasta cada centavo."

No caso, não se trata de centavos: o orçamento executado da USP em 2005 foi de 1,9 bilhão de reais. O gasto anual por aluno anda na casa dos 12 000 dólares. Esse valor, em relação ao PIB per capita do estado de São Paulo, é quatro vezes maior do que o custo por estudante nas universidades dos ricos países da OCDE. A produtividade não acompanha esse gasto. Apesar da excelência nas áreas de pesquisa e pós-graduação, a USP ainda tem desempenho fraco em critérios acadêmicos importantes (veja o quadro). O governador Serra cumpre seu papel de administrador ao enfrentar esses problemas e resistir às pressões corporativas. Age com a autoridade de quem foi presidente da União Nacional dos Estudantes e teve longa carreira como professor em instituições como a própria Unicamp e Princeton, nos EUA. Não é ele quem quer destruir a autonomia da USP.

QUADRO

Alto Custo, Baixa Produtividade

* O custo anual de um aluno da USP é quatro vezes maior do que nas universidades dos países ricos

* Professores ou alunos da USP jamais ganharam um Prêmio Nobel. A Universidade de Buenos Aires tem cinco.

* Na USP o ensino é gratuito. Na Coréia do Sul, e até na China comunista, a universidade é paga.

* Quando se mede a repercussão da publicação de textos científicos, a USP fica em 266º lugar numa lista de 287 instituições. 

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