50 Anos de Atlas Shrugged

Na próxima quarta-feira, dia 10 de Outubro, cinqüenta anos atrás, no ano de 1957, foi publicado o livro Atlas Shrugged, de autoria de Ayn Rand — o mais profundo romance de análise política do século XX. Um romance engajado de uma escritora radicalmente liberal.

Os críticos literários não gostaram — o que não é novidade. A esquerda — em especial a esquerda marxista — detestou. Mas o público leitor gostou.

Um pouco antes da virada do século a Random House, editora americana, resolveu elaborar duas listas dos 100 melhores livros de ficção do século XX. Para a primeira, solicitou a opinião dos seus editores; para a outra, a opinião do público leitor. Não há surpresa no fato de que as duas listas quase não têm sobreposições. Atlas Shrugged ficou no primeiro lugar na lista dos leitores, seguido de The Fountainhead, também de Ayn Rand (publicado em 1943). As duas listas completas estão disponíveis no site da Random House, no endereço:

http://www.randomhouse.com/modernlibrary/100bestnovels.html 

O fato de Atlas Shrugged haver ficado em primeiro lugar na lista dos leitores é surpreendente por várias razões. Uma delas é que o livro tem, em sua edição de capa dura, quase 1.200 páginas. Outra, que essas páginas contêm discussões filosóficas bastante densas acerca da natureza humana, do trabalho, do sexo, da felicidade; da lógica, do conhecimento e da verdade; da ética e dos valores; da liberdade e dos direitos individuais; da política, do estado e do governo; da economia, da livre iniciativa, da propriedade privada. O livro é uma defesa intransigente do liberalismo, sem adjetivos, e do capitalismo, que é sua expressão na área econômica. A defesa do capitalismo tem como base não só o fato de que ele é o único sistema econômico capaz de realmente produzir riqueza e desenvolvimento (econômico, social e humano), mas também o único sistema econômico compatível com um regime político livre e, portanto, justificável moralmente.

A natureza filosófica de Atlas Shrugged pode ser percebida na simples leitura do título de suas três partes: "Não-Contradição" ("Non-Contradiction"), "Ou Um Ou Outro" ("Either-Or") e "A é A" ("A is A"). Esses três títulos se referem aos três princípios básicos da Lógica, a saber: o princípio da Não-Contradição (nenhum enunciado pode ser verdadeiro e falso), o princípio do Terceiro Excluído (um enunciado tem de ser ou verdadeiro ou falso, não há uma terceira possibilidade), e o princípio da identidade (se um enunciado é verdadeiro, então ele é sempre verdadeiro; se ele é falso, então ele é sempre falso).

É um tributo à habilidade lingüística de Ayn Rand, para quem o Inglês não era a língua mãe (ela nasceu na Rússia em 1902 só veio para os Estados Unidos já adulta, em 1926), que ela tenha conseguido tal domínio dessa língua que seu livro é um considerado um clássico da literatura americana.

É um tributo à habilidade literária de Ayn Rand — que inclui as habilidades de construir um enredo fascinante e definir personagens marcantes — que Atlas Shrugged, apesar do tamanho e da complexidade da trama, tenha vendido mais de seis milhões de cópias em suas várias edições (incluindo as traduções).

A história, narrada na terceira pessoa, se passa nos Estados Unidos, em algum momento depois da guinada daquele país para a esquerda, durante o New Deal (década de 30, começo da década de 40). Provavelmente a data melhor para situar os eventos seja por volta do final da década de 40 e início da década de 50 (que é o período em que o livro estava sendo escrito). Na história, os vários países europeus já se tornaram "Repúblicas Populares" ("People’s Republics"), isto é, já se tornaram socialistas, e os Estados Unidos caminham rapidamente na mesma direção. O governo americano, "em nome do povo", interfere aberta a decididamente na economia, com leis e decretos ("diretivas") que buscam "igualizar as oportunidades empresariais", mas que tornam cada vez mais difícil para os empreendedores realmente competentes produzirem livremente, isto é, sem involuntariamente descumprirem ou intencionalmente burlarem alguma determinação governamental. A tentativa de "igualizar as oportunidades empresariais" é feita em nome do princípio marxiano de que os que têm competência e habilidade devem obrigatoriamente ajudar os que precisam: "de cada um conforme a sua habilidade, a cada um conforme a sua necessidade".

A estratégia do governo regulamentador, como cinicamente revelada pelo Dr. Floyd Ferris, um dos diretores do Instituto Nacional de Ciência (State Science Institute), não é que todos os empresários cumpram essa miríade de normas e regulamentos. A intenção é que todos os empresários se tornem, inevitavelmente, criminosos, por ser impossível produzir sem quebrar alguma norma ou regulamento governamental. Como o poder governamental é, acima de tudo, o poder de punir os criminosos, o governo, assim, adquire um enorme poder de barganha, vendendo favores através de esquemas cada vez mais corruptos.

(Qualquer semelhança com o Brasil de hoje é pura coincidência…)

(O governo não tem nenhum poder de barganha com o inocente: sua força advém do fato de que ele pode punir — aqueles que quebram suas leis. Se as leis forem mínimas e racionais, pouca gente as descumpre. Se existirem, porém, em grande quantidade e formarem um emaranhado indecifrável de normas e regulamentos de interpretação sempre obscura e questionável, todo mundo se torna criminoso e, portanto, passível de punição por parte do governo. Como é virtualmente impossível punir todo mundo, o governo seleciona aqueles que ele, sob a ameaça de punição, quer "enquadrar".)

Nesse quadro, começa a aparecer um desenvolvimento interessante e curioso, que fornece o elemento central do enredo do romance. Quando a pressão se torna perto de insuportável para um grande industrial, ele desaparece sem deixar vestígio. Às vezes destrói sua indústria antes de partir, outras vezes a deixa intacta, na certeza de que, sem ele, ela não vai durar muito. Gradativamente vai se mostrando que esses desaparecimentos não são atos de covardia individuais, sem coordenação, mas, sim, parte de uma greve dos empresários realmente competentes e produtivos, dos quais depende a economia nacional — greve inicialmente pequena, mas que ganha momento e começa a preocupar não só os empresários que ainda não aderiram, mas o próprio governo que, pouco a pouco, percebe que a economia está entrando em colapso.

O objetivo da greve é mostrar ao mundo quem sai realmente perdendo quando quem entra em greve… As greves tradicionais, feitas pelos trabalhadores contra os empresários (especialmente do setor industrial), tentam mostrar que os trabalhadores são os reais produtores, a fonte real da riqueza dos empresários industriais, que os exploram, retendo para si a "parte do leão" do preço de venda dos produtos (a "mais valia"). A greve dos empresários industriais procura mostrar que eles são os reais geradores de riquezas, criando-as com sua capacidade criativa (suas idéias inovadoras) e produtiva (sua habilidade de transformar essas idéias em realidade, isto é, em pr
odutos e serviços). Sem eles a maior parte dos trabalhadores não teria trabalho e literalmente morreria de fome (como freqüentemente acontecia antes do regime capitalista e aconteceu nos regimes comunistas). Os empresários industriais são, portanto, o Atlas que segura o mundo nas costas. Ao entrar em greve, eles estão sacudindo os ombros e deixando o mundo literalmente ir para o brejo.

Atlas Shrugged foi publicado pela Random House nos Estados Unidos. O livro foi publicado em Português, no Brasil, em 1987,  trinta anos depois de sua publicação nos Estados Unidos, sob o título Quem é John Galt? A tradução é de Paulo Henriques Britto e a publicação foi feita pela Editora Expressão e Cultura, do Rio de Janeiro. No momento a edição brasileira parece estar esgotada. Tenho duas cópias dela, uma em um volume, dentro de uma caixinha de papelão, e outra em dois volumes. 

Em Salto, 10 de Outubro de 2007.

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