Primavera no sítio

O mês passado (Setembro/2007) fez seis anos que comprei meu sítio em Salto, SP. Muita gente me disse, quando o comprei, que a compra de um sítio em geral traz duas alegrias: a primeira, quando se compra; a segunda, quando se vende… Sei não. Passados seis anos, só tive alegrias com o sítio. Os quatro alqueires iniciais se tornaram oito e o lugar está muito mais bonito do que era — embora já fosse bonito quando o comprei. É verdade que foi aqui que tive o meu infarto, no dia 1/3/2002, cinco anos e meio atrás. Mas o sítio não foi  culpado. Pelo contrário. Tenho tido aqui meus melhores momentos. Ao chegar aqui, sinto paz, tranqüilidade, serenidade. Arrumei meu canto direitinho. Construí uma casa nova, com um quarto e um banheiro excelentes, uma sala grande onde pendurei meus quadros, e um mezanino de 90 m2 onde oportunamente será meu escritório (no momento está vazio).

Adoro escadas em caracol. Não sosseguei aqui no sítio até que inventei o mezanino ao qual acedo por uma ida escada em caracol em ferro fundido. Lá em cima é o meu esconderijo, o meu refúgio tranqüilo (como dizia Pearl Buck). Tenho "uma rede preguiçosa" onde cochilo nos dias não muito quentes. (Nos dias quentes, cochilo no quarto, que tem ar condicionado). Para lá vou quando a casa está muito cheia e barulhenta. De lá vejo a paineira da entrada e a terra preparada para plantar beringelas. Sinto-me, lá, imagino, como Voltaire se sentia em seu recanto Les Délices, a poucos quilômetros de Genève, CH, hoje em Fernay Voltaire – FR, em plena Savóia.

Nesta Primavera, a despeito da estiagem, as flores começaram a florir cedo e as árvores frutíferas a dar suas frutas — frutonas e frutinhas: no momento a enorme jaqueira está cheia de jacas (é um risco estacionar debaixo dela, a despeito da sombra convidativa) e as jabuticabeiras, pitangueiras e amoreiras estão carregadas de frutas.

Tudo o que é bom tem seu lado ruim… Um dia desses notei umas manchas roxas nas pedras mineiras que circundam a piscina. Peguntei ao caseiro o que estava causando aquilo. Ele me respondeu com a simplicidade e precisão das pessoas simples: “O senhor não vai acreditar, seu Eduardo, mas esses filhos das putas dos passarinhos comem amora e depois vêm cagar aqui em cima – com tanto lugar pra cagar por aí… E daí mancham as pedras…“ Fazer o quê? Mesmo que houvesse um banheirinho público para eles, seria inútil. Deve ser uma delícia (para um passarinho, naturalmente) cagar lá do alto e ver a bosta bater nas pedras mineiras limpinhas lá embaixo…

As plantas "floríferas" estão começando a florir. As primaveras, assanhadas, soltam suas flores primeiro: brancas, rosas, liláses, champanhes, vermelhas, roxas… Mas perdem em beleza para as orquídeas que abraçam vários de meus coqueiros e palmeiras. Quando compramos ou ganhamos uma orquídea, deixamos que ela fique no vaso por um tempo e, depois, a transplantamos para um dos coqueiros ou palmeiras. Ficam lindas lá. As heras também resolveram abraçar os coqueiros e palmeiras. Nas árvores maiores há folhagens que começam a esconder os troncos frondosos.

E os passarinhos? Nunca vi tantos como este ano, talvez por causa da quantidade excepcionalmente grande de frutas. Há canários, sabiás, bem-te-vis, pintassilgos, joão-de-barros (só um coqueiro tem quatro casinhas), beija-flores, andorinhas, rolinhas, pica-paus, chupins do brejo (bonitos, mas malandros e sem-vergonhas: botam seus ovos nos ninhos dos outros passarinhos para não ter de chocar seus ovos…), bigodinhos, pássaros pretos, anus-pretos, anus-brancos, quero-queros, tico-ticos (ticos-reis), maritacas, periquitos, pardais (naturalmente), pombas (naturalmente)… Papagaios aparecem de vez em quando, em bandos — até doze já contei em uma só árvore. Já apareceram aqui araras azuis e vermelhas, sempre em pares. E (que Deus me perdoe) até um simpático tucano já apareceu por aqui. (Simpático tucano não seria um redundância? Eles são todos tão finos, tão bem falantes, tão bons de bico! Por isso escolheram esse símbolo…). Siriemas aparecem de vez em quando, com seu canto triste e melancólico… Meu pai adorava o canto de siriema. Quando criança, tínhamos um isco (78 RPM, naturalmente) das Irmãs Castro chamado "Siriema do Mato Grosso". Começava assim: "Ah, siriema do Mato Grosso, teu canto triste me faz chorar…". Há, naturalmente, os predadores. Hoje um gavião malvado (existe gavião que não o seja?) perseguiu uma pombinha linda que acabou colidindo contra o alambrado e morrendo, deixando viúva a sua parceira, que guardava o ninho, bem na área da casa). E há minhas corujas, também pássaros predadores, mas que têm uma cara séria mas bondosa. São menos malvadas do que os gaviões. Não saem por aí perseguindo pombinhas indefesas. Sou apaixonado por minhas corujas, talvez porque sejam o símbolo da sabedoria… Dei ao sítio o nome de "Canto da Coruja" porque, na primeira vez que vim aqui, com o corretor, vi duas corujas nos mourões da cerca de entrada. Faz seis anos e elas (ou suas descendentes) continuam lá, lindas, impassíveis. O termo "canto", naturalmente, é ambíguo: tanto pode significar morada como pode significar voz. Gosto da voz delas também. Um canto assim sem maiores modulações, mas simpático.

Desde que comprei o sítio comecei a colecionar corujas de todos os tipos: madeira, argila, palha, pedra, cristal. Tenho várias dezenas delas. Os amigos me presenteiam corujas (enfeites) de vez em quando. Até minha ex-mulher me deu duas corujas que ela comprou numa "garage sale" lá nos Estados Unidos, onde mora. (Gente civilizada é assim mesmo: minha ex-mulher de vez em quando nos visita aqui, quando minha filha com ela está aqui no Brasil, e traz seus irmãos, cunhados e sobrinhos — que considero como se também meus fossem, porque a gente se separa do cônjuge, não necessariamente dos parentes).

E, por fim, entre os pássaros há os taperás. Deixei os taperás por último porque eles são o pássaro símbolo de Salto. O estribilho do hino de Salto, cuja letra foi escrita pelo saltense Archimedes Lammoglia, diz: "Salto! Da linda cascata, das praças floridas, dos bandos de taperás… Salto! Que eles encantam, voando e cantando pra lá e pra cá".

Da última vez que fiz um censo das plantas frutíferas que tenho aqui, registrei (algumas não são propriamente árvores frutíferas, como a Batata Doce e o Hortelã, mas vá lá — é possível fazer doce ou sorvete com seus produtos): abacate, abóbora, acerola, ameixa, amora, banana, batata doce, cana de açúcar, carambola, castanha, cenoura, cereja, coco, fruta do conde, hortelã, jaca, jabuticaba, laranja (vários tipos), limão, lichia, mamão, manga (vários tipos), maracujá, mexerica, milho, pitanga, tangerina, uvaia… Ainda pretendo plantar cupuaçu, graviola, mangaba e uva.

Metade do sítio tinha cana de açúcar, que, agora, este ano, está sendo substituída por beringela. Dois terços da outra metade eram pasto — agora vendi minhas vaquinhas, meus bezerros e meu tourinho (a seca deixou o pasto inviável) e estou substituindo o pasto por plantação de beringelas também. Tornei-me um micro-produtor rural no sentido estrito da palavra. Gosto do cheiro da terra revirada pelo arado, para ficar pronta para o plantio — como gosto do cheiro da terra molhada pela chuva (que está demorando para chegar) e, por incrível que pareça, do cheiro do curral.

Durante meus primeiros oito anos vivi um bom tempo em sítio, perto de Marialva, PR. Lembro-me de ver meu pai atirando (com sua garrucha de cano serrado) em gambás, lagartos e cobras que vinham atacar os ovos das galinhas. Lembro-me dele cortando o pescoço das galinhas com um machadinha para o almoço de domingo — e lembro-me, distintamente, de que, algumas vezes, a galinha sem pescoço saía correndo pelo quintal, para cair, morta, lá adiante, despescoçada. Horrível — tanto que me lembro perfeitamente até hoje da cena. Eu, de pijamas, olhando, e o meu pai, de gravata (pastor não tira a gravata nem para ir ao banheiro), assassinando a galinha… Fiquei tão "traumado" (como dizia uma professora amiga nossa, que há muito não vemos) que não consigo nem destroncar o pescoço de uma galinha.

Vou parando. Deveria estar trabalhando — e isto, pra ser franco, não parece muito com trabalho…

Em Salto, 7 de Outubro de 2007

  1. Lindo, lindo!!!!!
    Estava sentindo falta de ler seus textos.
    Entro todo dia aqui para me deliciar com suas palavras!
    Te amo!
    Eliane

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  2. Sabe que o meu sitio, que aqui não tem esse nome, não é tão exuberante como o seu, mas tem tudo de lindo também. Dê uma olhada no meu espaço quando quizer. Ainda está no princípio mas já tem algumas flores bonitinhas. Para além disso foi por aqui perto que foi filmado "A casa dos Espíritos" Sabia?

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  3. Sem dúvida que o seu "sitio" é o lugar onde melhor me sinto. O seu caseiro é tal e qual um alentejano português e os seus passarinhos são tal e qual os meus… Espero que tenha recebido a minha mensagem. Boa noite Eduardo

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