24 de Dezembro

Na Lapônia, a essas horas, Papai Noel (aka São Nicolau, Santa Claus, "o bom velhinho", etc.) está se preparando para sua longa viagem de entrega rápida. Quem sabe já tenha saído. Não são nem sete da manhã aqui em Salto, mas a Lapônia está quatro horas na frente. Espero que tenha todas as suas renas em boa forma, e que nenhuma tenha sido abatida neste ano que finda para se tornar churrasco nas mesas dos restaurantes típicos da Finlândia.

Há menos de dois meses estive lá pertinho da Lapônia. Fui até Oulu, na parte central da Finlândia — mais um pouquinho e poderia ter visitado Papai Noel. Contentei-me com uma réplica: um Papai Noel de enfeite, lindo de morrer, que hoje enfeita a minha lareira, ao lado da árvore de Natal. Lareira é algo que combina com Natal e com Papai Noel. Em geral se acredita que ele desce pelo chaminé da lareira. Por isso é que as crianças penduram na lareira suas meias — ou o que lhes faz as vezes — para que ele as recheie de presentes. Nos países do Norte faz sentido essa associação entre Natal, Noel, frio, neve e lareira. Aqui no Brasil, é algo discrepante. Mas quem liga? O pobre velhinho tem de vestir uma roupa quente, usar uma barba que esquenta ainda mais o rosto, portar um gorro… tudo isso a temperaturas que chegam a 30 graus — ou passam.

Há anos a TAM obrigava seus funcionários, durante o Natal, a usar gorrinhos de Noel. Há dias, num hotel no Rio, do lado da Catedral Presbiteriana, na Silva Jardim, debaixo de um calor que chegava aos 35 graus, as funcionárias da recepção, do restaurante e do bar estavam todas de gorros vermelhos e verdes. Os rapazes, não. Perguntei à moça que me atendia a razão de os rapazes não terem gorro. Ela disse: "Vá saber". Fiquei sem saber. Provavelmente a razão é que os rapazes acharam que ficariam ridículos usando os gorrinhos — no que provavelmente estavam certos. As moças pelo menos ficavam com uma carinha graciosa de Assistentes do Papai Noel (Santa’s Helpers), como aquelas que a gente vê nos shoppings, levendo as crianças indefesas até o colo do Papai Noel.

Ouvi reportagem na TV há uns três dias sobre o número de cartas que são enviadas por crianças para o Papai Noel. Um grupo de voluntários as responde. Fico imaginando o que dizem em suas respostas. Entre as crianças que escrevem provavelmente há crianças de classe média e acima, cujos pais (não noéis) lêem as cartas e têm condições de atender ao pedido. Mas e as outras? O que dizer a elas? O que dizer a uma criança que pede um presente que ela com certeza não vai ganhar? "Querido Renato: Papai Noel recebeu seu pedido de presente. Infelizmente o estoque de bicicletas este ano está baixo, razão pela qual ele vai lhe entregar uma bola de borracha com o distintivo do Corinthians. Um abraço." (A bola foi fabricada antes da queda do Corinthians para a segundona, e, decepcionados com os times, os corinthianos se vingaram contra os fabricantes de bola. Resultado: bolas corintianas em liqüidação que aumentaram o estoque de Papai Noel. E eu, nem no Natal deixo de cutucar os gambás. Que meus amigos corintianos me desculpem — por incrível que pareça, tenho alguns: o mais antigo, Aharon Sapsezian, que lá de Genebra chorou a incompetência do seu time; Ana Maria Tebar, que já deveria ter trocado de time em deferência à Marina; Gandhi Ferrari, que faria melhor em torcer pelo Uberlândia FC…).

Ontem fiquei durante quase quatro horas, sem fazer nada além de jogar conversa fora, olhando o céu de plenilúnio que se abriu bem em frente o meu terraço aqui no sítio. A cada pequeno intervalo, um avião passava no alto, sempre na mesma rota, que passa por cima de Campinas, vai seguindo sobre a Anhangüera e, depois, a Bandeirantes, até chegar perto da Marginal, quando vira para a esquerda e se dirige a Cumbica. Toda vez que volto dos Estados Unidos e o tempo está bom identifico Campinas do alto. Dá para ver o campo da Ponte Preta, o campo do Guarani (que corre risco de ser vendido para pagamento de dívidas), o shopping Iguatemi, o Carrefour, o Leroy Merlin, a Decathlon… Se tivesse um pouco mais de tempo localizaria minha casa. Mas daqui do sítio a gente só vê as luzinhas piscantes aparecerem de um lado e rapidamente cruzarem o espaço. No início da noite, passavam por cima da lua. Depois passaram no rumo da lua. Lá pela meia-noite a lua já havia subido tanto que os aviões passavam por baixo dela no céu.

Impressionante o luar. Apagamos as luzes da casa e não fez diferença nenhuma em nossa capacidade de enxergar. Coisa linda é uma lua cheia. Lembrei-me de "A lua vai surgindo cor de prata no alto da montanha verdejante"… Ouvíamos música, Sueli, Rodrigo e eu — fornecidas pelo meu iPod. Seleção musical minha. Bing Cosby, Dean Martin, Frank Sinatra, Perry Como, George Whitakker, Rod Stewart, Tony Bennett, Engelbert Humperdinck, Charles Aznavour, Jacques Brel, Yves Montand, Gilbert Bécaud, Jane Morgan, Patti Page, Billie Holiday, Doris Day, Connie Francis, Anne Murray, Joan Baez, Edith Piaf, Madeleine Peyroux, Patricia Kaas, e, no que diz respeito a conjuntos, The Ames Brothers, The Platters, Simon and Garfunkel, Abba, Bee Gees, Fifth Dimension (Aquarius, Let the sunshine in), The Carpenters, Peter Paul and Mary, The Mamas and the Papas… Saudosismo para ninguém botar defeito. Ninguém brasileiro na coleção. Efeito do colonialismo cultural, dirão os esquerdopatas. Dizem isso ao mesmo tempo em que celebram Natal e fazem de conta que são Papai Noel para os pobres, sem perceber a contradição. Celebram o nascimento de um judeu na Galiléia, usando como símbolo da data um velhinho que, em lenda, vive no mais Norte da Europa…

Mas não vou ficar ranzinza neste dia. Na árvore há presentes para mim também, não apenas para as crianças. Passarei o Natal este ano apenas com o Rodrigo e família (Adriana, Gabriela e Felipe). A Tatiana estará celebrando o Natal com a família do Alexandre — e levará o Gabriel com ela. A Patrícia e a Andrea estão lá em Cortland, com o Rubens e o Rick, e, naturalmente, com o Marcelo, a Olivia e a Madeline. Sobrou pouca gente aqui para o Natal do sítio este ano. Mas não será menos alegre por isso. No domingo comemos bacalhau. Ontem, pintado na brasa. Hoje comemoraremos com camarão. Só pratos oriundos da água. Nada de leitoa, pernil, tender… Para acompanhar, vinho. Distribuiremos os presentes mais cedo, porque as crianças dormem cedo. Depois comeremos sossegados, ouvindo mais música do iPod. Quem sabe acharei umas músicas natalinas, Christmas Carols tocados pela New York Symphony Orchestra.

No ano passado deixei aqui neste Space uma anti-mensagem de Natal. Houve quem gostou, houve quem não gostou. Este ano deixo esta mensagem simples, desejando a todos um Natal Feliz e, naturalmente, um Ano Novo Próspero. Próspero, no meu dicionário, quer dizer cheio de grana, com muita saúde, pleno de realizações — e isso tudo traduz felicidade.

Em Salto, 24 de Dezembro de 2007.

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