Eu era pobre e feliz… e não sabia

O título da autobiografia de Simone Signoret, durante anos a grande dama do cinema francês, e, por um bom tempo, mulher de Yves Montand, é notável: La nostalgie n’est plus ce qu’elle était A nostalgia não é mais o que era — nem ela escapa das mudanças do nosso tempo…

Hoje amanheci me sentindo meio esquisito, com uma sensação no peito que, paradoxalmente, era de vazio e de opressão, como se, dentro dele, houvesse, ao mesmo tempo, muito pouco e demasiado… E senti saudade de um tempo em que a vida era simples e descomplicada, sem problemas, sem angústias, sem sofrimento (real sofrimento)… O tempo da infância. Aquele tempo em que, para usar as sábias palavras de Ataúlfo Alves (em “Vida de minha Vida”), a gente “era feliz e não sabia…” E senti nostalgia. Nostalgia da boa, não aquela que não é mais o que era.

Meu pai, nos idos dos anos 50, escreveu uma crônica chamada “Tempos que não voltam mais”, para um programa chamado “A Hora da Saudade”, da antiga Rádio Tupy (se bem me lembro). Na crônica, linda (vou ver se a acho para transcrevê-la aqui), ele invocava Casemiro de Abreu, em “Meus Oito Anos”. Ali o poeta dizia: “Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”… A principal lembrança de meu pai era o jogo de futebol na Praça da Matriz, em Patrocínio, usando uma bola de meia…

Bola de meia!!! Que pobreza! E, no entanto, que felicidade a dele!

Estava, aqui, “me, myself and I”, como diz o título da música de Billie Holiday, quando encontrei o artigo de Anna Veronica Mautner, na Folha de hoje (24/7/2008), “Onde foi parar o campinho?” (transcrito abaixo). E daí minha memória viajou livre, e minha nostalgia transpôs os limites, conectando todas as memórias mencionadas nos parágrafos anteriores.

Isso, porque eu também tive o meu campinho. Era meu, não porque ficasse em terreno de propriedade da família (a família não tinha quase nada), mas porque ficava em frente à minha casa, na Travessa Particular, 10, em Santo André, entre as ruas Senador Flaquer e Onze de Junho. Neste tempo de condomínios e edifícios de luxo, com nomes e endereços nobres, ninguém mais mora em “travessa”. Travessa é coisa de vila, e morar em travessa é coisa de pobre. E eu era pobre — embora, para parodiar o grande Ataúlfo — eu não sabia. Na verdade, não tinha a menor consciência do fato.

O ano era 1952, eu tinha oito anos (como no poema de Casemiro), e havíamos acabado de nos mudar para Santo André. Meu pai, Oscar Chaves, era pastor protestante (presbiteriano). Muitos dos pastores de hoje têm dinheiro. Não o meu pai. Ganhava uma miséria da igreja, o que tornava a vida apertada em casa. Apenas sei disso olhando em retrospectiva. Na época parecia que todo mundo era assim, e, portanto, não havia razão para nos considerar diferentes. Em casa tomávamos um leite em pó ruim, detestável, meio salgado, que os americanos doavam para os países pobres (acho que pela Aliança para o Progresso)… Sobremesa (goiabada de lata) só quando meu pai pagava a caderneta no armazém do português, uma vez por mês… Talvez seja por isso que, de vez em quando, fico meio desesperado por doce até hoje…

Mas deixo a pobreza temporariamente de lado para me concentrar na felicidade.

A felicidade era o campinho na frente de casa. Chamar aquilo de “campinho” pode dar a impressão errada, pode evocar nas pessoas de hoje a imagem de um espaço regular, gramado, com goleiras, quem sabe até marcado de cal… Não. O campinho da Travessa Particular era apenas um terreno baldio, cheio de mato, pedras, cacos de vidro, com apenas uma pequena clareira, onde a gente jogava bola. As goleiras eram marcadas por pedras e tijolos. Se a bola passava meio alta, era uma briga para decidir se havia sido gol ou se a bola havia passado por cima… (por cima de quê???). Nada disso, porém, impedia que a gente jogasse bola no campinho e, com o tempo, fosse aumentando a clareira, de tanto pisar no mato circundante.

Em 1952 a instituição da bola de meia já havia desaparecido. A gente jogava com bola de borracha ou, quando havia (que glória!), de couro (chamada de “bola de capotão”)… Logo depois do almoço a meninada começava a juntar para o joguinho que durava quase a tarde toda. O problema é que muitas vezes não havia bola… Era necessário esperar por algum felizardo que tivesse uma bola para a gente começar a jogar. O dono da bola, naturalmente, tinha privilégios: podia começar escolhendo quem iria jogar do seu lado (uma vantagem enorme, porque sempre havia um craque no grupo, que era disputado pelos dois lados). E, naturalmente, ele decidia quando o jogo terminava. Bastava a mãe gritar o nome do dono da bola naquele tom inconfundível de urgência numa das casas da redondeza, e o jogo estava terminado, como se um juiz houvesse dado o apito final. Quando isso acontecia, o resto da meninada se sentava no chão empoeirado e ficava conversando, ou, então, jogando bolinhas de vidro (então chamadas “fubecas” em Santo André), enquanto esperava uma nova bola, que raramente vinha.

O que me deixa perplexo, hoje, é que tão poucos tivessem uma bola. Eu só vim ter a minha primeira bola de capotão (número 3) quando preenchi um álbum de figurinhas de futebol em 1954. Para completá-lo, precisei da ajuda de meu pai, que me deu uns trocados para eu comprar a dificílima figurinha da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), última do álbum, carimbada, que parecia nunca sair nas balas (as figurinhas naquela época vinham em balas, às vezes se sujavam quando as balas, do tipo “paulistinha”, melavam). Descobri um menino que tinha a bendita figurinha que me faltava, e implorei ao meu pai os trocados necessários para comprá-la. Ele me deu, eu a comprei, e ganhei minha bola. Pela primeira vez eu poderia ser o dono da bola…

Mas eu tinha um ciúme doido dela. Tinha medo de ela ficar arranhada e esfolada nas pedras — ou, pior, de ela furar ao bater num caco de vidro. E havia sempre o perigo de um chute forte e mal direcionado fazer com que a bola caísse na oficina do seu Isaque — daí seria o fim definitivo: ninguém tinha lembrança de o seu Isaque haver jamais devolvido uma bola… A minha bola logo se arranhou e esfolou toda, perdeu a cor alaranjada que tinha, quando nova… Mas, por um tempo, era a melhor bola do pedaço — o que me fazia o rei do campinho… O pessoal me implorava para ir jogar — e eu, morrendo de vontade, fazia doce… (a expressão não existia então, mas a coisa, sim).

Não sei que fim levou a minha primeira bola. Durou um bocado. Deve ter morrido de velha. Depois de um tempo ganhei no Natal uma número cinco. Naquela época não era costume ganhar presentes caros — e uma bola de capotão número 5 era um presente caro em minha casa então…

Eu era pobre… e feliz (e não sabia!).

Um dia desses eu fiz uma referência ao “meu tempo” e alguém disse que o meu tempo era hoje. Talvez seja. Mas aqueles tempos distantes, na proletária Santo André dos campinhos de rua, e que (como os jogos com bola de meia de meu pai na Praça da Matriz de Patrocínio) também não voltam mais, eram muito meus. E a nostalgia que me dá lembrar deles é “minha, bem minha, de ninguém a tomei”…

Da pobreza não sinto saudade. Não sou como aqueles intelectuais que enaltecem a pobreza. Mas da felicidade simples e descomplicada que a acompanhou na minha infância, sim, sinto falta dela.

Em Campinas, 24 de Julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de Julho de 2008

Onde foi parar o campinho?

ANNA VERONICA MAUTNER


[…] CABE À SOCIEDADE PROPICIAR ESPAÇO PARA A EXPERIÊNCIA DOS PAPÉIS SOCIAIS QUE DEVERÃO SER ASSUMIDOS POR ADULTOS


O velho campinho foi o espaço livre onde se brincava na cidade grande. O medo acabou com ele. Vivendo e nos defendendo de forças que nos empurram -de um lado para a vala comum da estandardização e de outro para a premência de sermos únicos e diferentes de todos-, ficamos sem tempo e espaço para brincar e curtir.

Para nossos filhos, púberes ou pré-adolescentes que vivem em grandes cidades sem espaço lúdico, o impacto dessas forças acaba invadindo o cotidiano.

Não dá para eles realizarem tranqüilamente as escolhas que essa dicotomia coloca. É no lúdico que são feitas as escolhas descompromissadas, que funcionam como exercício de autonomia. Criança brinca; adolescente e adulto curtem o que lhes é agradável. No lúdico, pomos à prova o nosso potencial.

Por meio de acertos e erros, aprendemos a refletir sobre nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Nessa encruzilhada entre “eu e nós”, é forjado nosso eu, que será tão mais claro quanto mais tivermos tido tempo de faz-de-conta.

Na falta de espaço para experiências emocionais, encontram-se as fontes dos sentimentos de vazio interior e da dificuldade de criar empatia. É aí que o pré-adolescente se sente mal-cuidado e tenta salvar sua integridade existencial forjando experiências que podem ir de violência a apatia.

A agressão pode se voltar contra o meio material (prédios, ruas, jardins) e também contra pessoas. Depredação, pixação e quebra-quebra podem ser vistas como o uso do meio como brinquedo. Essas ações são de grupos aos quais faltaram condições de estabelecerem um imaginário satisfatório.

A sociedade civil vem falhando no provimento do espaço urbano lúdico, onde meninos exercitem liderança, potência, dominação, submissão etc., de que vão precisar no futuro.

Onde estão os quintais, as escadas e os corredores onde as meninas brincavam de casinha, de escolinha e de salão de beleza? Não se impede que as meninas também joguem bola, futebol, amarelinha, queimada.

O espaço livre é necessário para encontrarmos liberdade de entrar e de sair, de participar e de abandonar, de excluir e de ser excluído, fatos inevitáveis na vida de todo cidadão livre.

Fala-se mais em tornar a aprendizagem formal agradável do que em fornecer espaços lúdicos e prazerosos. O jovem que é impedido de fazer parte de várias galeras deixa de se exercitar para a vida adulta.

Sem pretender que isso seja tomado como receita, cito clubes, acampamentos de férias, parques, praias, bandas de música, grupos de teatro, a rua e a praça. Cabe à sociedade propiciar espaço para a livre experiência dos variados papéis sociais que deverão ser assumidos por adultos.

Os espaços livres fazem falta.

Neles se podia brincar longe de casa, sem supervisor. Mas isso era num tempo em que havia espaço e segurança. Vamos tentar reinventá-los?


ANNA VERONICA MAUTNER
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora)
amautner@uol.com.br

  1. Meu querido.Ontem eu tambem estava me sentindo assim. Saudade dos momentos felizes da minha infância.A cronica que o nosso pai escreveu foi enviada ao "Programa da Saudade" em 1954 e lida pelo seu apresentador Decio Pacheco da Silveira na Radio Difusora de São Paulo.Tenho uma copia da cronica datilografada  naquela antiga máquina de escrever ERIKA. Foi o pai que datilografou. Está guardada comigo. Se vc quiser mando pra vc.Amo muito voce!Beijos

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