O crime, a polícia… — e os bandidos?

Excelente artigo do Carlos Heitor Cony na Folha de hoje, 24 de julho de 2008. Transcrevo-o abaixo.

Apesar de erros e excessos cometidos por policiais, não podemos viver sem a polícia. A função policial é, como parte da atribuição maior de manter a lei e a ordem, parte essencial da função do estado. Não vamos sobreviver como sociedade civilizada como uma sociedade em que a polícia é detestada e temida pela população não criminosa.

E o Cony ressalta bem o papel da mídia na criação dessa situação em que detestamos e tememos mais a polícia do que os criminosos que ela deve combater.

Em 24 de julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de julho de 2008

Era de paz

CARLOS HEITOR CONY

RIO DE JANEIRO – Uma nova realidade somada a outras realidades: a instituição policial não apenas caiu no descrédito da população, mas passou a ser detestada. Há motivos para isso, alguns históricos, outros mais recentes, como a morte de inocentes durante as operações contra supostos criminosos.

A julgar pelo noticiário da mídia, não existem bandidos a não ser aqueles fardados que dispõem de armas fornecidas pelo Estado. São eles que, sozinhos, promovem aleatoriamente os tiroteios, matam cidadãos honestos e são responsáveis por todas as balas perdidas que fazem vítimas fatais.

É notório o despreparo de grande parte dos policiais. Cometem erros de interpretação, de truculência, de precipitação etc. Mas, a julgar pelas matérias veiculadas na mídia, a impressão resultante é que todos os dias sai dos quartéis um bando de assassinos que só retornam a seus alojamentos deixando cinco, seis ou mais corpos nas ruas.

Não fosse a polícia, viveríamos um estado de graça permanente, sem roubos, assaltos, seqüestros e chacinas. Os supostos bandidos, apesar de disporem de arsenal sofisticado, são pessoas de bem, aceitos por suas comunidades, alguns deles até são promovidos a heróis que defendem os oprimidos contra o arbítrio do poder constituído.

Pelo menos aqui no Rio, o governo estadual adotou oficialmente a política do confronto com o crime. Mas a realidade que se depreende do noticiário é que não mais existe crime, mas supostos criminosos que são assassinados implacavelmente por aqueles que são pagos para proteger a população.

Se houver um plebiscito para acabar com a polícia, não será surpresa se a maioria votar pela sua extinção, na esperança de viver em paz, sem supostos bandidos e sem balas perdidas.

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