Verdade, dogmatismo e intolerância (mais uma vez)

Nos últimos posts (e em alguns outros anteriores) tratei da questão da verdade: da sua busca (em geral humilde) e da crença (em geral orgulhosa) em sua posse.

A busca da verdade é em geral humilde porque só busca quem não possui – e não possuir algo tão importante quanto a verdade só pode produzir no despossuidor um sentimento de humildade.

A convicção de que se está de posse da verdade, entretanto, implica que a busca da verdade terminou, posto que ela foi encontrada. Se encontramos a verdade e estamos de posse dela, não há por que continuar a buscá-la.

Por isso, a crença na posse da verdade em geral gera o dogmatismo: se estou de posse da verdade, eu sei o que é a verdade. Assim, em vez de procurá-la, basta que eu a anuncie, repita, pregue…

O dogmatismo, por sua vez, acaba por engendrar o orgulho, em geral presunçoso: tanta gente procura a verdade e não a acha, e aqui estou eu de posse dela! Eu devo estar fazendo algo certo para merecê-la! A posse da verdade se dá, no entender do seu presumido possuidor, de uma de duas maneiras: ou porque ele, estando a procurar a verdade, encontrou-a, por seus próprios méritos, ou porque, sem que ele a procurasse, a verdade lhe foi por alguma razão revelada! Ambas as maneiras geram orgulho e presunção.

Se estou de posse da verdade, por que pretender humildade, por que não me orgulhar disso, por que não declarar aos quatro ventos que eu tenho a verdade e os outros, que de mim discordam, simplesmente estão errados (ou por ignorância, ou por ma fé, ou por teimosia)?

Por fim, o dogmatismo e o orgulho geram, o mais das vezes a intolerância: se estou de posse da verdade, por que perder tempo discutindo questões que já considero resolvidas? Por que, na verdade, tolerar o erro dos que discordam de mim? Se eu tiver como obrigar os outros a concordar comigo, que possuo a verdade, seja pelo uso da força, seja pelo uso da manipulação dissimulada, eu devo fazê-lo – é assim que raciocinam os dogmáticos.

Quando se está buscando a verdade, o erro até se justifica, porque, errando, podemos eventualmente chegar mais próximos da verdade (vide Popper, mencionado a este respeito no penúltimo post). Mas quando se acredita estar de posse da verdade, o erro deixa de ter papel importante: por que, então, tolerá-lo?

Assim, a crença na posse da verdade leva ao dogmatismo, ao orgulho, e, finalmente, à intolerância.

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Ludwig Wittgenstein, em seu famoso livro de aforismos, Philosophical Investigations, sugeriu que os diferentes universos de discurso em que vivemos são incomensuráveis – i.e., não podem ser comparados e cotejados com outros. Isso porque, segundo ele, cada universo de discurso é, como se fosse, um “language game”, um jogo de linguagem com suas próprias regras. Dentro do jogo, é sempre possível discutir se uma regra foi violada ou não. Mas não é possível, de dentro de um jogo, avaliar as regras do outro – nem ficar fora de todo jogo e comparar um jogo com outro.

Assim, da mesma forma que não posso criticar o jogo de xadrez a partir do jogo de damas, muito menos a partir do jogo de ping pong, não posso criticar o jogo da religião a partir do jogo da ciência ou do jogo da filosofia… Cada jogo tem suas próprias regras, e cada um de nós pode jogar diferentes jogos em diferentes momentos – mas só pode jogar um jogo de cada vez. Quando estamos jogando um determinado jogo, ficamos presos – encasulados, engaiolados – dentro dele.

Discordo dessa visão de Wittsgenstein, porque estou convicto de que não só é possível criticar um universo de discurso a partir de outro, como também é possível alcançar um certo ponto neutro e objetivo a partir do qual posso comparar os méritos e deméritos relativos de dois ou mais universos de discurso. Abrir mão dessa convicção é abrir mão da possibilidade de a razão interferir em nossos juizos.

Creio que Wittgenstein, ao chamar os diferentes universos de discurso de jogos pré-julgou o relacionamento que eles têm, ou podem ter, uns com os outros. Além disso, jogos são atividades que são definidas arbitrariamente. Não têm uma relação com a realidade física ou social que possa ser analisada pela razão. Os universos de discurso têm – ou pretendem ter.

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O que eu acho curioso, mas totalmente injustificado, no discurso dos dogmáticos é o fato de que, a partir de seu universo de discurso, sentem-se totalmente em liberdade para criticar outros universos de discurso. Um cristão evangélico, digamos da igreja Assembléia de Deus, não tem o menor problema em criticar diversas doutrinas da Igreja Católica que ele rejeita. Em geral tem argumentos prontos para criticar, por exemplo, as doutrinas da infalibilidade papal, da mediação de Maria e dos santos, etc. No entanto, em regra não tem o menor interesse em sequer conhecer quais as críticas que os católicos fazem a algumas doutrinas favoritas suas, como, por exemplo, a do batismo do Espírito Santo e a da glossolalia (falar em línguas estranhas). O católico, em geral, comporta-se de maneira semelhante em relação às outras variantes do Cristianismo.

Ou seja, para os dogmáticos, Wittgenstein está errado na medida em que é possível criticar um universo de linguagem (os das demais pessoas) a partir do próprio (o meu)… No entanto, os dogmáticos raramente se interessam em conhecer as críticas que os demais universos de linguagem fazem ao seu… Defendem, assim, uma análise crítica de uma mão só… – não uma discussão crítica de duas mãos!

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Em Inglês há uma expressão interessante  “to think out of the box”: pensar fora da caixa – a caixa sendo as gaiolinhas que presentam os universos de discurso em que transitamos. A vida racional pressupõe e exige que sejamos capazes de fazer isso. Wittgenstein afirmou que isso é impossível – e, conseqüentemente, negou a possibilidade da operação da razão na avaliação de nossos universos de discurso. Para ele, a razão só opera dentro de um universo de discurso, ou language game – não entre eles.

A maior parte dos dogmáticos religiosos é wittgensteiniana nesse sentido… Dadas suas premissas, conseguem argumentar até de forma bastante racional. Mas são incapazes de analisar e avaliar racionalmente suas premissas. Se a premissa é a de que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus e a única regra de fé e prática, raciocinam bem dentro da premissa, tentando compatibilizar textos bíblicos que parecem incompatíveis uns com os outros, tentando mostrar que são verdadeiros mesmo textos que claramente parecem falsos, tentando justificar a aceitação de textos que claramente parecem ter conotação ou conseqüências imorais… Mas não conseguem colocar suas premissas em cheque – muitas vezes recusando-se até mesmo a ler textos ou autores que poderiam levá-los a fazer isso… 

Por ora, é isso. Continuo depois.

Em São Paulo, 2 de Abrild de 2009

  1. Todos nós temos as nossas verdades. Mesmo quando afirmamos que a verdade não existe ou que não temos nenhuma. Mesmo quando dizemos que ela existe sim, mas não estaremos nunca certos de tê-la alcançado. Mesmo quando afirmamos que ela é sempre provisória. Isso não implica, necessariamente, dogmatismo. O dogmatismo não consiste no fato de termos nossas caixas ( religião, cultura, time… ) mas na recusa de sairmos dela para conhecer outras e, desta forma, ampliarmos o seu espaço. Entendo que ser humano é ser aprendiz. Essa é a grande aventura da vida: aprender os outros e o universo que nos envolve.

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  2. Achei sua avaliação esplendida, a verdade é uma só, não entendo como ainda temos tantas variações e conflitos entre a religião, razão e filosofia. apesar de serem artigos distintos todos buscam um motivo racional para viver, as pessoas esperam, que o mundo seja um lugar magico e as vezes de pura realidade, baseando a filosofia entre uma dessas realidades, obviamente que uma delas e a verdadeira realidade e a outra é simplesmente uma farsa! e obvio que hoje eu tenho uma conclusão rígida sobre religião e razão. duvido que ao passar dos anos minhas teorias se modifiquem. espero que a verdade que eu acredito seja sim real, e com isso o mundo a veja como uma verdade e não como uma opinião entre milhões de teorias e contos bíblicos. Obrigado!

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