Para além da euforia: artigos sobre a vitória no “bid” pela Olimpíada de 2016

Vários artigos na Folha de hoje (04/10/2009) sobre o fato de que o Brasil ganhou o “bid” para sediar as Olimpíadas de 2016. Em geral, artigos sensatos, não ufanistas. Vale a pena lê-los.

Transcrevo-os aqui para que gerem um debate positivo, para além do “sou brasileiro, com muito orgulho”…

Como brasileiro, fiquei contente com o fato de que o Brasil conseguiu trazer para cá uma Olimpíada. Mas, do ponto de vista político, fico com nojo da exploração que está sendo feita do fato. E me causam arrepio as besteiras que têm sido ditas.

Concordo com Janio de Freitas:

“ACHAR QUE O BRASIL "conquistou cidadania no mundo" porque sediará uma Olimpíada daqui a sete anos não é só uma elaboração mental estapafúrdia, que por si não causaria espanto, é uma demonstração de que Lula não tem noção do que seu governo faz, nem do seu próprio fazer na Presidência.”

Concordo com Juca Kfouri (apesar de ele ser corintiano):

“PRIMEIRO é preciso dizer que a escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 foi fruto de um trabalho brilhante. Pura ficção, mas brilhante. Quem viu o Pan-2007 não tem por que acreditar em nenhuma das promessas feitas e sabe que aquela cidade maravilhosa que os filmes mostraram não existe. É claro, porém, que pode existir. Bastará gastar o que está previsto, de fato, nela.”

E concordo especialmente com Vinicius Torres Freire:

“Sob o pretexto da preservação da "imagem do país", quantos "aditamentos de contratos" virão? Quantas revisões orçamentárias, quantas verbas extraordinárias e emergenciais serão requisitadas devido a falta de planejamento, inépcia, superfaturamentos ou por furto puro e simples? Vide o Pan. Vide a Copa, que mal começa mas já custa caro.”

Já vimos o filme. Vamos vê-lo mais uma vez na Copa do Mundo de Futebol de 2014, e, depois de dois anos, na Olimpíada de 2016.

Por fim, concordo mais uma vez com o Juca Kfouri:

“É difícil exercitar a esperança quando a experiência já ensinou o que precisava em relação aos que comandarão o projeto olímpico. Gente que fechou as portas aos maiores empresários do Rio de Janeiro e que fez questão de acumular cargos, como faz Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e do comitê organizador da Olimpíada. Assim como, aliás, Ricardo Teixeira acumula os cargos de presidente da CBF e do comitê organizador da Copa do Mundo, diferentemente do que acontece e aconteceu em todas as outras partes do mundo, basta lembrar de Michel Platini, na Copa da França, ou de Franz Beckenbauer, na da Alemanha. Lula não gostava dessa gente e a colocou no topo do mundo. Sem se preocupar em ter uma política esportiva para o país. Se a Rio-2016 mudar tal estado de coisas, valerá a pena. A ver.”

Aqui estão os textos na íntegra.

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MARCO ANTONIO VILLA

Saudades do barão


Seria bom aproveitar as próximas eleições e, pela primeira vez, transformar a política externa em tema eleitoral


AS TRAPALHADAS na condução da crise de Honduras sintetizam de forma cristalina a ação do Itamaraty nos últimos sete anos. É um misto de voluntarismo com irresponsabilidade. Algumas vezes, Celso Amorim mais parece um líder estudantil do que ministro das Relações Exteriores.

O Brasil não tem nenhuma vinculação histórica com a América Central.

Contudo, o governo brasileiro insistiu em ter participação direta na crise hondurenha. Queria demonstrar liderança regional numa área historicamente de influência norte-americana.

Como uma espécie de recado do "cara" para Barack Obama, comunicando que o Brasil era a nova potência da região. Potência sem "marines", mas com muita retórica e bazófia.

Claro que tinha tudo para dar errado, como se, em um filme de faroeste, John Wayne fosse substituído por Oscarito.

A aventura alcançou o ápice quando Zelaya chegou à embaixada brasileira. Minutos depois, recebeu a adesão de centenas de seguidores. Logo o local virou um acampamento. A tradição latino-americana se impôs. Muitos discursos, acusações, traições e atos de valentia sem nenhuma consequência prática. E tudo isso na embaixada brasileira, território nacional.

Quando o governo hondurenho cercou o prédio, o ato foi considerado autoritário. Imagine o que faria Fidel Castro se um líder anticastrista entrasse na embaixada brasileira em Havana e de lá insuflasse a população cubana à rebelião…

Celso Amorim declarou diversas vezes que lá em Honduras estava sendo jogada a sorte da democracia na América. Não era possível transigir com princípios democráticos e legais.

Era necessário não retroceder.

Estranhamente, essa determinação não é aplicada na América do Sul.

Mais ainda quando nossos vizinhos agem deliberadamente contra os interesses brasileiros, violando tratados, leis e contratos.

Tivemos o caso das refinarias da Petrobras na Bolívia, que foram tomadas abusivamente pelo governo local. Tivemos a insistência paraguaia impondo a revisão do tratado de Itaipu 15 anos antes do seu término. Tivemos as sucessivas violações do tratado do Mercosul realizadas pela Argentina e as abusivas medidas adotadas pelo governo equatoriano contra empresa brasileira.

A tudo isso o governo Lula assistiu passivamente. Não moveu um dedo.

Pelo contrário, concordou com as arbitrariedades, desmoralizou as gestões anteriores do Itamaraty e, assim, abriu caminho para que amanhã um governo resolva, de moto próprio, descumprir um tratado ou acordo.

A simpatia política com os governos chamados bolivarianos e subserviência a eles chegou ao ponto da absoluta irresponsabilidade.

A Colômbia, que tem tentado estabelecer uma política de cooperação com o governo Lula para melhorar a fiscalização da fronteira, é sistematicamente tratada com hostilidade, inclusive nos fóruns regionais.

Já a Venezuela, que disputa claramente espaço político com o Brasil e que não perde uma oportunidade para debilitar os interesses brasileiros na região (como durante a encampação das refinarias da Petrobras na Bolívia), é tratada como aliada, mesmo tendo uma política externa agressiva, sustentada por fabulosas compras de modernos armamentos. E, como o que está ruim pode piorar, a Venezuela vai entrar no Mercosul.

A diplomacia brasileira tentou por todos os meios ter presença diretiva em vários organismos internacionais e no Conselho de Segurança da ONU.

Como necessitava de votos, considerou natural ignorar graves violações dos direitos humanos em vários países (como o genocídio de Darfur), apoiou ditadores (como Muammar Gaddafi) e até fez campanha para um aspirante a diretor-geral da Unesco notabilizado por declarações de cunho antissemita. Mesmo assim, os candidatos brasileiros foram derrotados, e a estratégia fracassou.

O presidente Lula transformou o Itamaraty em uma espécie de Íbis, clube de futebol pernambucano celebrizado pelo número de derrotas.

O Brasil precisa ter papel relevante nos organismos e nas negociações internacionais. Disso ninguém discorda. Mas a maturidade econômica do país não condiz com uma política externa inconsequente. Não é com base em aventureirismo que o país vai ser respeitado. E muito menos servindo de cavalo de troia de bufões latino-americanos.

Um dos grandes desafios para o século 21 brasileiro é a construção de uma política externa global, que enfrente os desafios da nova ordem internacional. Um bom caminho para dar início a essa discussão é aproveitar a próxima eleição e, pela primeira vez, transformar a política externa em tema eleitoral.


MARCO ANTONIO VILLA , 54, historiador, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".

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JANIO DE FREITAS

O lugar no mundo


Com alguns erros, a verdade é que Lula deu ao Brasil projeção na política internacional que o país jamais tivera


ACHAR QUE O BRASIL "conquistou cidadania no mundo" porque sediará uma Olimpíada daqui a sete anos não é só uma elaboração mental estapafúrdia, que por si não causaria espanto, é uma demonstração de que Lula não tem noção do que seu governo faz, nem do seu próprio fazer na Presidência.

Com alguns erros menores e inevitáveis, porque na ação política a linha reta é quase inexistente, a verdade é que o governo Lula deu ao Brasil uma projeção na política internacional que o país jamais tivera. Nem a participação da FEB e de um bravo grupo de aviação de caça é lembrada nas histórias da Segunda Guerra, nem ao chegar à dimensão de oitava economia mundial o Brasil se tornara mais considerado nas formulações internacionais.

Auxiliado pelo equívoco dos países desenvolvidos que o supõem um operário autêntico e reformador do Brasil, fantasia da embasbacada imprensa europeia e norte-americana, Lula teve o mérito de operar uma confusa identificação do seu exacerbado personalismo com o país. E estendeu de um ao outro atenções e benevolências que abriram portas e presença em centros de decisão.

Dá uma ideia dessa fusão inovadora, e do seu processo, a comparação com o personalismo de Fernando Henrique, não menos exacerbado, mas que confinou seus objetivos aos limites pessoais dos títulos, condecorações e outras projeções individuais.

A ação externa do governo Lula é parte de um contraste agudo. Lula produz nas relações internacionais um passo primordial e extenso de descolonização do Brasil. No plano interno, porém, a política econômica e suas projeções sociais preservam o colonialismo ante essa espécie de metrópole mundial que são os capitais internacionais combinados, com suas ramificações internas completando o sistema colonizante.

Ainda estamos por saber se tal contraste é uma contradição, decorrente do conservadorismo de Lula, ou se é como um habeas corpus -provavelmente parte das propostas de José Dirceu no planejamento do governo Lula- para tornar aceita a política externa e, em especial, sua realçada face latino-americana.

Sob críticas internas muito azedas, capazes de ver no erro de uma indicação para a Unesco uma condenação de toda a política externa, é no entanto inegável que o Brasil chegou a uma expressão internacional que não depende da safra de soja e dos êxitos da Vale. E não foi a concessão da Olimpíada que lhe trouxe a nova condição. Lula, pelo visto, não sabe, mas foi o contrário, a "cidadania no mundo" já conquistada é que levou o Brasil a obter a Olimpíada. Com a ajuda, isso Lula sabe, de caríssimo marketing e outros recursos menos citáveis.

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VINICIUS TORRES FREIRE

"Alegria, alegria"


Olimpíada no Rio mostra que a reputação mundial do país melhora mais rápido do que as condições reais da vida


"POR QUE NÃO?" Por que não Olimpíadas no Brasil? "O sol é tão bonito", dizia Caetano Veloso. Porque "os teus príncipes são companheiros dos ladrões", dizia o português-baiano padre Vieira citando Isaías, e "porque furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse". A citação não é nada original, mas furta-se de modo também tão recorrente que é difícil não pensar no quanto se poderá furtar de um governo refém de um compromisso internacional irrevogável como a Olimpíada.

Sob o pretexto da preservação da "imagem do país", quantos "aditamentos de contratos" virão? Quantas revisões orçamentárias, quantas verbas extraordinárias e emergenciais serão requisitadas devido a falta de planejamento, inépcia, superfaturamentos ou por furto puro e simples? Vide o Pan. Vide a Copa, que mal começa mas já custa caro.

"O sol se reparte em crimes", "E eu nunca mais fui à escola", dizia o Veloso: ainda somos selvagens e ignorantes, apesar de melhoras no último decênio. Temos, porém, a oportunidade de corrigir alguns barbarismos e confirmar a boa opinião de que ora gozamos pelo mundo, coisa um tanto equívoca. Podemos fazer dessas despesas nada prioritárias em Copas e Jogos algo de útil ou, ao menos, a preço justo. É uma ambição modesta. Há muito oba-oba sobre o benefício econômico da empreitada. A "literatura" sobre o assunto é bem controversa. As melhorias derivadas das obras olímpicas poderiam ser realizadas, a custo menor, sem a cenoura dos jogos.

O México fez a Olimpíada de 1968 e a Copa de 1970. Depois disso, ainda viveu mais um quarto de século de ditadura "institucional". Hoje, ainda meio pobre como nós, fica ainda mais perto dos EUA e tão longe de Deus como sempre.

Sim, naqueles tempos mais simples os jogos eram mais modestos. Exigiam bem menos do que as Olimpíadas da globalização da tralha esportiva de grife, dos jogos pós-Moscou de supermercantilismo esportivo, da disseminação da TV colorida, via satélite, e da política espetacular, midiática. Olimpíadas hoje exigem mais competência e rendem mais publicidade e propaganda.

Apesar das nossas tigradas, a medalha de organizador de jogos internacionais é de fato uma promoção. Os estrangeiros parecem acreditar que, em 2016, vão encontrar pistas para correr com menos buracos do que nossas estradas, que haverá ônibus, lençóis limpos e que não serão assassinados. Assim como têm acreditado que não serão tungados ao investir aqui, embora, como diga Delfim Netto, o Brasil e seus juros sejam um dos últimos perus do mundo. Por falar em dinheiro, sediar jogos mundiais e receber qualificações de crédito melhores são condecorações parecidas: não mudam grande coisa, mas indicam mais boa vontade.

Melhor assim do que má vontade. Na sexta-feira, um economista do Citigroup dizia à agência de notícias financeiras Bloomberg que "o Brasil está chegando. Chegou ao palco global. Isso [a Olimpíada] é uma espécie de prêmio para as excelentes políticas do Brasil". É meio besteira, mas não é gratuito e foi o tom geral dos comentários, do "Wall Street Journal" aos diários argentinos. Em termos políticos, é um gol.

vinit@uol.com.br

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JUCA KFOURI

Uma chance de ouro


Sediar uma Copa do Mundo de futebol e os Jogos Olímpicos pode fazer do Brasil o país do século 21


PRIMEIRO é preciso dizer que a escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 foi fruto de um trabalho brilhante. Pura ficção, mas brilhante.

Quem viu o Pan-2007 não tem por que acreditar em nenhuma das promessas feitas e sabe que aquela cidade maravilhosa que os filmes mostraram não existe.

É claro, porém, que pode existir. Bastará gastar o que está previsto, de fato, nela.

Em segundo lugar, é preciso dizer com todas as letras e sem nenhuma ironia que nunca, jamais, o Brasil teve um presidente da República como Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca, jamais e em tempo algum.

Nenhum governo antes tirou tantos milhões de brasileiros da linha de pobreza, diferença maior dele em relação a todos os seus antecessores.

Porque, de fato, um presidente preocupado com os excluídos, coisa que os outros só conheceram na teoria, enquanto Lula foi um deles, na prática.

E nenhum governo antes do dele conseguiu projetar tanto o Brasil internacionalmente, não à toa chamado de "o cara" pelo surpreendentemente derrotado poderoso presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Sim, reitere-se aqui que a vitória carioca é a maior surpresa do colunista em quase 40 anos de exercício do jornalismo.

Mas Lula simplesmente não só trouxe os dois maiores eventos mundiais para o Brasil como, ainda por cima, se não fez da crise internacional apenas uma marolinha, tratou de impedir que fosse um tsunami por aqui.

Bem ele, o único que não falava inglês na comitiva quase totalmente da elite branca que o país mandou para Copenhague.

Fenômeno, sem dúvida, fabulosamente macunaímico, cercado por inúmeras histórias mal contadas, algumas que até envolvem assassinato, como a do prefeito de Santo André, Celso Daniel.

Desnecessário dizer que haverá roubalheira. Como haveria, já foi dito, também em Tóquio, em Chicago, em Madri e está havendo em Londres, que receberá a Olimpíada de 2012. Mas nós não vivemos nem nos Estados Unidos nem na Espanha nem no Japão. Nem na Inglaterra.

E desnecessário dizer que fiscalizaremos -e descobriremos uns 10% das tramoias. Ainda mais em ano eleitoral, como 2010.

É difícil exercitar a esperança quando a experiência já ensinou o que precisava em relação aos que comandarão o projeto olímpico.

Gente que fechou as portas aos maiores empresários do Rio de Janeiro e que fez questão de acumular cargos, como faz Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e do comitê organizador da Olimpíada.

Assim como, aliás, Ricardo Teixeira acumula os cargos de presidente da CBF e do comitê organizador da Copa do Mundo, diferentemente do que acontece e aconteceu em todas as outras partes do mundo, basta lembrar de Michel Platini, na Copa da França, ou de Franz Beckenbauer, na da Alemanha.

Lula não gostava dessa gente e a colocou no topo do mundo. Sem se preocupar em ter uma política esportiva para o país.

Se a Rio-2016 mudar tal estado de coisas, valerá a pena. A ver.

blogdojuca@uol.com.br

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SERGIO MAGALHÃES

O que quer se desenvolver, o Rio ou a Barra?

ESPECIAL PARA A FOLHA

É excepcional a oportunidade oferecida para o desenvolvimento do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos.

As Olimpíadas, contudo, não são uma panaceia para problemas urbanos. Degradação ambiental, crescimento de favelas e violência não se superam por mágica. Mas é justo esperar que os investimentos previstos e o sentimento de promoção da cidade possam estruturar uma recuperação consistente.

Há dois condicionantes, porém: 1) o adequado tratamento ambiental que venha a ser desenvolvido até lá, no sentido da sustentabilidade urbana; 2) a coerência entre a marca da cidade e o palco dos Jogos. Por que isso pode preocupar?

Porque há uma questão urbanística importante: a ambiguidade quanto à região a ser desenvolvida prioritariamente. É a cidade ou a Barra da Tijuca?

Entre os mais importantes legados projetados está a despoluição da baía de Guanabara, fundamental para a reestruturação urbanística da cidade.

Um segundo legado poderá ser a revitalização do centro.

O centro do Rio é o seu lugar histórico. Dispõe da melhor acessibilidade e conexões metropolitanas. É o núcleo principal dos empregos. Seu processo de esvaziamento tem se exacerbado pelo abandono de edifícios e áreas antes ocupados pelo governo federal.

Sofre também com o estímulo à ocupação da Barra, distante 40 km. Com 200 mil habitantes (2% do total), a Barra tem recebido investimentos públicos desproporcionalmente à sua participação demográfica.

Embora os Jogos estejam projetados para ocorrerem em quatro áreas (sul, centro, norte e Barra), é na Barra que se prevê a Vila Olímpica.

Algumas modalidades têm exigências de lugar, como esportes náuticos, na lagoa Rodrigo de Freitas e em Copacabana (sul). Ou pelo aproveitamento de arenas existentes, como o estádio João Havelange (norte) e o Maracanã (centro expandido). Já os equipamentos da Barra, como a Vila, não tem especificidade de localização. Ao contrário, é o bairro que demanda a construção de infraestrutura para os Jogos.

A escolha da Barra foi justificada pela disponibilidade de grandes áreas livres. Em que pese a baixíssima densidade populacional, que torna proibitivo investir em transporte de massa, essa decisão seria a mais adequada, já que não se vislumbrava outra região com áreas passíveis de aproveitamento.

Mas, felizmente, as coisas mudaram. O município anunciou como prioritário o desenvolvimento da região portuária (centro), onde há grandes áreas disponíveis, públicas, para cujo aproveitamento já houve acordo entre Lula, o governador e o prefeito. A sinergia que não havia antes, entre as decisões federadas, hoje é inconteste.

Tal disponibilidade tem potencial construtivo muito superior ao necessário para a Vila e demais arenas projetadas. De frente para a baía recuperada, a Vila poderá servir de fomento à moradia no centro, a sinalizar novo século de desenvolvimento. Por certo se constituirá como o coração dos Jogos-2016. É justo que assim seja, pois disporá da melhor infraestrutura de transporte, com duas linhas de metrô mais as três novas linhas que poderão resultar da transformação dos trens suburbanos em metrô, promovendo integração por transporte de massa de 70% da população.

Assim, o palco dos acontecimentos olímpicos estará indissociado da imagem ambiental do Rio. Os Jogos de 2016 podem representar o papel que as obras de Pereira Passos desempenharam no início do século 20, quando a ideia de cidade maravilhosa foi constituída -e que, hoje, pode ser recuperada.


SERGIO MAGALHÃES é arquiteto, doutor em Urbanismo, professor do Prourb e da FAU-UFRJ

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Com a Olimpíada, Brasil pode superar "vira-latice"

Para especialistas, realização dos Jogos é oportunidade para derrubar complexo

Vitória põe país como polo nas relações internacionais, mas sucesso esportivo e na organização serão decisivos para consolidar autoestima

LEONARDO CRUZ
MARIANA BASTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

"Deixamos de ser um país de segunda classe. Ganhamos a cidadania internacional", bradava o presidente Lula logo após a escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Para alguns especialistas consultados pela Folha, a declaração de Lula em Copenhague simboliza um processo de projeção do país no cenário internacional e ajuda a alimentar o espírito ufanista que dominou os discursos da comitiva brasileira em Copenhague.

Seria a superação do "complexo de vira-latas"? O termo cunhado pelo cronista Nelson Rodrigues expressa "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo".

"O complexo de vira-latas já virou complexo de cocker spaniel", analisa Sergio Miceli, professor de sociologia da USP.

"A escolha do Rio tem grande repercussão por lidar com o esporte, algo de grande interesse nacional e internacional. Mas a autoestima do brasileiro já melhorou nos últimos anos por causa de uma série de indicadores econômicos e sociais positivos", completa Miceli.

Nos últimos anos, o Brasil consolidou sua posição como principal líder regional nas negociações com EUA e Europa.

Além disso, foi um dos articuladores do fortalecimento do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, como palco de negociações internacionais, em detrimento do G8.

Para se afirmarem definitivamente no cenário internacional, muitos países emergentes, como o Brasil, usaram a Olimpíada como instrumento.

Nas últimas décadas, os casos mais emblemáticos são os da Coreia do Sul e da China.

Em 1988, os sul-coreanos demonstraram sua pujança econômica como tigre asiático ao sediarem a Olimpíada de Seul.

Vinte anos depois, foi a vez dos chineses. Eles exibiram os Jogos mais exuberantes de todos os tempos diante de 4,4 bilhões de espectadores. Gastaram cerca de US$ 40 bilhões e seu principal legado foi imaterial. A China exibiu-se para o mundo todo como uma das maiores potências atuais.

Para especialistas, o Brasil segue uma trajetória similar.

"A mídia dá uma visibilidade cósmica aos Jogos. Em um mundo no qual se opera muito com a imagem, isso [sediar uma Olimpíada] tem um impacto colossal", declara o economista Carlos Lessa.

O país, aliás, encerra o ciclo de grandes eventos esportivos sediados pelos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), países emergentes, em uma década.

Após Pequim-08, haverá em 2010, em Nova Déli (Índia), os Jogos da Comunidade Britânica. Quatro anos depois, o Brasil sediará a Copa do Mundo, e Sochi, na Rússia, a Olimpíada de Inverno. Em 2016, o Rio de Janeiro complementa o ciclo.

"Não que o Brasil tenha virado uma potência, mas a escolha do Rio para sediar a Olimpíada é mais um indicador do rearranjo da posição brasileira no mundo. É a cereja do bolo," afirma Sérgio Miceli.

Anteontem, inclusive, paralelamente à comemoração nas ruas do Rio, milhares de brasileiros demonstravam com humor seu otimismo na internet.

O termo "Yes, we créu" -paródia ao "Yes, we can", do presidente americano Barack Obama- virou hit no Twitter, microblog usado no mundo inteiro. Sempre associado à Olimpíada no Rio, ele liderou a lista de expressões mais usadas durante toda a sexta-feira.

Para o antropólogo carioca Gilberto Velho, a sensação de ufanismo e deslumbramento do povo vem acompanhada ainda por uma certa desconfiança sobre a capacidade de o país obter ganhos materiais por abrigar os Jogos Olímpicos.

"Saí nas ruas de Ipanema hoje [anteontem] à tarde para sentir o espírito e vi que as pessoas estão animadas. Mas tem muita gente cética, muita gente preocupada por causa de experiências anteriores", diz Velho, em referência ao Pan de 2007, cujo orçamento foi de R$ 3,7 bilhões, muito superior ao originalmente estimado.

"O Pan foi muito frustrante para muita gente. Houve desde o não cumprimento de promessas básicas até o desvio de recursos financeiros. Coisas que foram abandonadas. Então, espera-se que não haja nada similar na Olimpíada porque isso gera uma desmoralização. Dá muito medo", pontua.

Mesmo que o país se saia bem na organização dos Jogos, ainda há a possibilidade de o brasileiro voltar a assumir o complexo de vira-latas. Para o historiador Manolo Florentino, o país terá que ter um êxito similar no âmbito esportivo.

"O brasileiro não aceita ser segundo colocado", avalia o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Se a escolha do Rio infla o ego nacional agora, o desempenho do país na competição de 2016 tem grande chance de causar um sentimento de frustração, porque é improvável que o país se mostre uma potência olímpica", completa.

Foi justamente essa frustração, advinda de uma das maiores derrotas brasileiras dentro de campo, que fez Nelson Rodrigues criar o termo "complexo de vira-latas". O revés diante do Uruguai na final Copa de 1950, justamente o último grande evento esportivo sediado no Brasil, deixou o país atônito e criou o Maracanazo.

"Perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: porque Obdulio [Varela, capitão uruguaio] nos tratou a pontapés, como se vira- -latas fôssemos", afirmava a crônica de Nelson Rodrigues.

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MARCELO PRONI

Receber Jogos é, de fato, um bom negócio?

ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos últimos anos, várias metrópoles têm gastado centenas de milhões de dólares em candidaturas olímpicas. Certamente, estão convencidas de que é bom negócio. Querem repetir os êxitos de Barcelona-92, Sydney-00 e Pequim-08.

O impacto da realização dos Jogos pode ser bastante positivo. Crescimento do PIB, impulso ao turismo internacional, aumento das oportunidades de emprego e reestruturação urbana são algumas das benesses.

E tornar-se uma metrópole mundialmente admirada ajuda a estabelecer novo posicionamento na economia global para receber fluxos de pessoas, de mercadorias e de capitais.

Investir na cidade deve ser a prioridade para sediar os Jogos.

Além de instalações esportivas, é importante pensar nas facilidades de transporte e comunicação, na questão ambiental, na segurança e conforto de turistas, atletas e jornalistas.

Em relação ao legado para a cidade, Barcelona-92 tornou- -se paradigma por ter ajudado a superar a estagnação dos anos 80 e ter se tornado uma cidade moderna. A maioria dos investimentos foi feita na infraestrutura, deixando para a população legado muito maior do que o esportivo, em especial na revitalização de áreas de convivência, no aumento da autoestima e na qualidade de vida.

Por sua vez, Sydney-00 tornou-se referência em razão da despoluição da Homebush Bay e da preocupação com o desenvolvimento sustentável.

Portanto os Jogos podem ser catalisadores no almejado processo de alquimia do Rio, pois legitimam investimentos públicos em estrutura; criam otimismo e tornam atraentes investimentos privados em turismo e em atividades de serviço; e ajudam a preservar o ambiente.

Em acréscimo, podem difundir no mundo todo a imagem de uma cidade maravilhosa…

Pode acontecer, contudo, de os Jogos não trazerem o legado esperado. Foi o que ocorreu em Atenas-04 por causa do medo do terrorismo, que reduziu as receitas com o turismo e ampliou os gastos com segurança.

Nesse caso, o legado incluiu grande dívida para o governo grego. Ainda houve denúncias de superfaturamento de obras, uso indevido de recursos públicos e corrupção. E as instalações agora ociosas sugerem que a verba poderia ter sido aplicada em áreas mais prioritárias.

A questão do financiamento é crucial, pois o Estado deve assumir papel central na alocação de recursos. As receitas do marketing olímpico podem pagar a festa (e até gerar lucros à organização), mas não pagam a construção do local da festa nem o suporte logístico. No Rio, os três níveis de governo se responsabilizam pelos gastos com equipamentos urbanos e instalações esportivas. Por isso, é preciso que a execução dos orçamentos seja transparente.

Deve-se considerar que os efeitos positivos não beneficiarão a todos da cidade de forma homogênea. Alguns segmentos serão mais beneficiados.

Se a aplicação de recursos nos Jogos provocar o adiamento da ampliação do sistema de saúde, impedir que a prefeitura eleve salários dos funcionários públicos ou levar o governo federal a reduzir suas transferências para o saneamento básico, grande parcela da população pode ser prejudicada.

Por isso, é preciso continuar fortalecendo as políticas públicas de combate às desigualdades sociais e regionais. Finalmente, há vários motivos para crer que a economia brasileira terá um bom desempenho na próxima década.

Para que o investimento estatal nos Jogos tenha retorno satisfatório, é fundamental que todas as ações sejam coordenadas entre os níveis de governo e criem sinergias positivas entre setor público e setor privado.


MARCELO PRONI é doutor em educação física e professor do Instituto de Economia da Unicamp

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ELIANE CANTANHÊDE

50 anos em 7

BRASÍLIA – Os EUA descem (do topo), o Brasil sobe (da base emergente). Obama murcha, Lula infla. As mútuas cutucadas continuam, e o contraste diz muito: um chegando cabisbaixo de volta a Washington e outro falando de Copenhague ao mundo. É o retrato do momento e uma projeção do futuro.

Internamente, o Brasil está em festa, recuperando a autoestima, o orgulho, a ambição. Ou seja, as Olimpíadas de 2016 reforçam os projetos de Lula para 2010 e embalam o seu sonho de disputar a Presidência em 2014 e voltar em 2015.

Mas, se o Rio é a "Cidade Maravilhosa, de encantos mis", nem tudo ali é festa. A Olimpíada será em 2016, e os Jogos, porém, começam desde agora: os cem metros rasos para garantir o metrô e o acesso à Barra da Tijuca, o salto triplo para construir e reformar a Vila Olímpica, o revezamento para despoluir a baía de Guanabara e a lagoa Rodrigo de Freitas, quatro sets para duplicar a rede hoteleira.

Sem falar nas modalidades em que o Brasil e o Rio, em particular, não sobem ao pódio: combate à violência, à polícia corrupta, às balas perdidas, às metralhadoras e, ultimamente, até às granadas; e o campeonato de superfaturamento que multiplica misteriosamente os orçamentos, como no Pan.

O desafio é o de 50 anos em 7, para a urbanização das favelas, o ataque ao crime organizado, a inclusão social e soluções para saúde, educação e o menor abandonado.

As Olimpíadas trazem uma profusão de emoções, desde o choro de Lula, a alegria do carioca e "o orgulho de ser brasileiro" até o medo das enormes responsabilidades.

No discurso de Copenhague, forte, emocionado e irônico em relação a Obama, Lula admitiu "alegria e preocupação". Não explicou, nem precisava. A alegria é pela vitória estonteante, com seus efeitos externos e internos. A preocupação é com o que vem por aí. Botar a casa em ordem para uma Olimpíada não é fácil, nem só uma festa.

elianec@uol.com.br

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CARLOS HEITOR CONY

Razão e paixão

RIO DE JANEIRO – Modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila, quer dizer, emendando o carioca Noel Rosa, eu sou do Rio. Uma vitória suada, mas esperada. No painel das finalistas, o Rio já se destacava pela economia das letras (apenas três) que indicava uma logomarca, um cidade, um país que começa a botar as manguinhas de fora em vários departamentos da realidade internacional.

Em sete anos, o Rio terá a oportunidade de criar todas as condições materiais e técnicas para a realização de um evento mundial do porte de uma Olimpíada. Em 1950, quando não passávamos de grupo ainda atolado no subdesenvolvimento, sediamos uma Copa do Mundo e construímos em tempo recorde o maior estádio do planeta.

Veio depois o Rio-92, com mais de cem chefes de Estado e de governo; vieram os Jogos Pan-Americanos; o alinhamento com o Bric -países que se destacarão ao longo do século 21. A louvar, mais uma vez, o sucesso de Carlos Arthur Nuzman, presidente de nosso comitê olímpico, que já se firmara nos Jogos Pan-Americanos com sua diplomacia e capacidade.

Louvor também a Lula, a quem não poupamos críticas diversificadas, mas que na hora das horas veste a camisa do povo com seu jeitão inconfundível. Num pequeno -e feliz- discurso em Copenhague, ele expressou uma aparente contradição, falando que a vitória do Brasil foi a vitória da paixão e da razão.

Razão e paixão geralmente se encontram em situações opostas, uma negando a outra. Contudo, o resultado do Comitê Olímpico Internacional conseguiu premiar os dois polos da condição humana, fazendo a razão e a paixão decidirem uma guerra pacífica que constituiu um ponto significante para o bom entendimento da humanidade.

PS: por motivo de viagem, o cronista ficará alguns dias fora da coluna.

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Em Salto, 4 de Outubro de 2009

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