“El Secreto de sus Ojos” – 2

El Secreto de sus Ojos - 2

Sem querer revelar o enredo do filme, queria destacar alguns temas da história e algumas características do filme.

Começo com as características.

O filme trata do assassinato frio e brutal de uma jovem – linda, casada e aparentemente feliz. Mas é muito diferente de filmes americanos que tratam de tema semelhante. “El Secreto de sus Ojos” não é um filme de ação, em que sai tiro por todo lado, assassinatos em que o sangue espirra na tela, perseguições mirabolantes de automóvel em ruas movimentadas… O filme trata mais do que se passa na cabeça das pessoas, no seu âmago, que leva algumas a cometer crimes horrendos, outras a tentar lidar com a perda, outras a não descansar enquanto não elucidarem o que de fato se passou, e por quê…

O filme é razoavelmente longo (129 minutos) e não é rápido: tem um ritmo tranqüilo, diferentemente de thrillers americanos. O suspense não é daqueles que deixa você com o coração na mão o tempo todo. A trilha sonora não deixa você estressado… O filme termina, depois de mais de duas horas, e você fica sentado na poltrona olhando a tela com a porta fechada e apenas o título do filme sobreposto à imagem: “El Secreto de sus Ojos”.

O título do filme, em Espanhol (e em Português) contém uma ambigüidade. Trata-se do segredo (ou o secreto!) dos olhos de quem? De Espósito? de Irene? do assassino? Quem traduziu o título para o Inglês encontrou dificuldade e saiu pela tangente: “The Secret of Their Eyes” – pluralizou o “sus”, que, em Espanhol (e em Português) pode se referir a uma pessoa só, ou a várias pessoas, do sexo masculino ou feminino. São os olhos de quem que trazem um segredo? Uma só pessoa ou várias? Será que os olhos, destinados a ver, são capazes de esconder segredos?

Quanto aos temas do filme. Há vários.

O primeiro é o risco, que todos corremos, de “vivir una vida vacia, una vida llena de nada”…  Espósito é aquele que corre esse risco e carrega essa reflexão. Quando começa o filme (em 1999) ele está aposentado – mas carrega essa sensação de que viveu uma vida vazia, cheia de nada. Tem no peito um amor enorme,que já dura 25 anos, desde 1974 – mas o contém, porque é um amor por sua chefe, de nível social e educacional maior do que o seu… E que, durante a parte final da história, estava casada e com dois fihos… O que leva uma pessoa que é capaz de agir e lutar por aquilo em que acredita no plano profissional a não ter coragem de agir e lutar pelo amor que lhe consome o peito? A se contentar com uma vida vazia, cheia de pequenos nadas que não a preenchem? Seria esse o segredo? Seriam os seus os olhos que ocultam o segredo?

Esse amor é tão grande que muitos de nós o descreveriam como paixão… Mas há paixões e paixões, como nos revela o segundo tema do filme.

Esse segundo tema é complexo… Sandoval, o personagem coadjuvante representado por Guillermo Francella, em determinado momento do filme diz algo assim: “Um cara pode mudar qualquer coisa. Pode mudar sua face, sua casa, sua família, seu amor, sua religião, seu Deus. Mas há algo que ele não pode mudar. Ele não pode mudar a sua paixão…”

A sugestão aqui é que nossa paixão última é um valor ou uma causa maior que, aparentemente, antes de ser escolhido(a) por nós, nos escolhe e, para o resto da vida, nos impede de ser diferentes… A justiça, por exemplo – aquela fome e sede por justiça… Ou a liberdade – que leva alguns, como Patrick Henry, o revolucionário americano, a dizer, em 1776: “Será a vida tão valiosa, ou a paz tão doce, que estejamos dispostos a pagar por elas o preço da sujeição, da submissão, da escravidão? Que o Deus Todopoderoso nos livre disso! Não sei que curso de ação os demais irão escolher. Mas quanto a mim, ou eu tenho liberdade, ou prefiro a morte”. A liberdade era a paixão de Patrick Henry. A paixão dele continua a inspirar a paixão de muita gente. Essa paixão não é uma paixão sensual: é uma paixão-valor, uma paixão-causa.

Podemos mudar de amor, diz Sandoval, mas não conseguimos nos livrar desse tipo de paixão… Espósito conseguiu resistir por vinte e cinco anos ao amor que o consumia. Mas não conseguia resistir à paixão que o movia a procurar o assassino, para fazer com que ele recebesse a punição que merecia…

Mas que punição seria essa???

O terceiro tema começa girando em torno da reação de que alguém que vê a pessoa a quem ama assassinada fria e brutalmente. Sua vida era “cheia de graça” e, de repente, um criminoso a esvazia de sentido. O que fazer com esse assassino desumano, se ele for encontrado? Qual seria a punição adequada para um crime desse porte? Matar o criminoso com as próprias mãos, para vê-lo estrebuchar ali na nossa frente? Ou, mais civilizadamente, lutar pela sua condenação à pena de morte? Muitos acham que a pena de morte é punição exagerada, não importa o crime. Mas o filme nos mostra que a morte, em certas situações, é uma punição branda demais. Em um segundo, o assassino está morto – sem descobrir o que é sofrer, minuto após minuto, vinte e quatro horas por dia, dia após dia, ano após ano, a sensação de viver uma vida esvaziada de sentido… Mas se a morte é uma punição branda demais para um crime tão brutal, qual seria a punição adequada? Esse o dilema do viúvo. Mas era também o dilema de Espósito. Seria o dilema de quem o encontrasse primeiro…

Mas para punir o assassino, é preciso identificá-lo e encontrá-lo…

O quarto, o tema do olhar (que dá título ao filme)… A única pista que os investigadores que desvendaram o crime (Espósito e Sandoval) encontraram para levá-los ao criminoso foram fotos antigas, em que alguém (que não o marido) olhava a vítima… O olhar, aqui, continha seus segredos – a pulsão do futuro assassino. Mas também foi o olhar do psicopata que revelou aos investigadores a pista que lhes permitiu identificá-lo. O olhar, no caso, não só oculta: também revela. E como revela!!! Como um olhar diz coisas – não só para quem é o destinatário daquele olhar, mas também para os ciscunstantes que olham o olhar do outro… (Muitas vezes não nos damos conta de que nosso olhar é olhado…). Olhares revelam interesse, amor, paixão, cobiça, indiferença, desamor, ódio, desprezo… Há olhares que machucam mais do que muitas palavras. Que machucam mais do que muitas porradas, talvez… Lembro-me de que meu pai conseguia fazer com que a gente ficasse gelado d
e medo do outro lado da sala apenas com um olhar…

Por fim, o quinto tema: provavelmente só um apaixonado (no sentido revelado por Sandoval) realmente consegue entender o outro… A paixão-valor ou paixão-causa do criminoso era seu time de futebol, o Racing… Só outro apaixonado pelo Racing ajudou Sandoval a chegar ao criminoso. Espósito, a quem o futebol não interessava, não via sentido naquela linha de investigação. Sandoval, em meio a toda sua bebedeira, viu – e isso o levou ao criminoso (e, infeliz e indiretamente, por engano, à sua própria morte).

É isso, por enquanto… Quem saiba eu ainda descubra mais coisas no filme, à medida que continue a pensar sobre ele. Como, por exemplo, a convicção de Espósito de que, em meio àquele crime horrível, havia uma história linda para contar…

Em São Paulo, 1 de Março de 2010
(Dia em que faz oito anos que tive meu enfarto)

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