“El Secreto de Sus Ojos” – 4

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o filme, e gosta de surpresa, não leia esta quarta parte de meu comentário sobre “El Secreto de Sus Ojos”: ela contém um “spoiler” (uma revelação que tira a surpresa do filme).

Este é um filme cheio de detalhes preciosos. Na segunda parte da minha resenha, destaquei alguns (a porta que abre e fecha, a máquina de escrever sem o “a”…). Aqui está outro – este mais denso, do ponto de vista filosófico.

Ao final (1h55m) do filme descobrimos que Isidoro Gómez, o assassino representado por Javier Godino, é mantido em cárcere privado, em condições sub-humanas, por longos vinte e cinco anos, por Ricardo Morales, o marido da jovem assassinada, representado por Pablo Rago. Durante todo esse tempo, meio século, Morales só alimentou Gómez o suficiente para que este continuasse vivo. Não lhe dirigiu sequer a palavra. Supõe-se que ninguém mais chegou perto do prisioneiro esse tempo todo – até que o policial, Benjamín Esposito, representado por Ricardo Darín, descobriu a cela secreta do prisioneiro.

É esta a pena, pior do que a morte, que Morales escolheu e aplicou para o assassino de sua mulher.

Quando Esposito chega perto de Gómez, a primeira pessoa (com a exceção de Morales) que o vê ou que é visto por ele, o prisioneiro lhe diz:

“Por favor… peça a ele… peça a ele… ainda que seja… que ao menos fale comigo…“

Naquele momento em que finalmente encontra alguém que não é seu carcereiro, depois de vinte e cinco anos vivendo a casca de pão seco e água, em condições sub-humanas, imundas, a coisa que o prisioneiro pede é que se fale com ele… “Por favor… pídale… pídale que… aunque sea… por lo menos me hable” (a frase exata é muito difícil de entender, no que talvez seja a única falha técnica do filme – embora a fala rouca e semi-inteligível do prisioneiro possa ter sido um recurso técnico invocado pelo diretor para realçar o fato de que o prisioneiro não falava há vinte e cinco anos).

Não é atendido.

Uma bela lição àqueles de nós que não gostam muito de conversar, que gostam de ficar calados, ensimesmados. A ausência total e forçada da fala humana é uma das maiores punições que se pode infligir ao ser humano. Reduz-nos ao nível da animalidade talvez mais rápido do que qualquer outro fator.

Em São Paulo, 2 de Março de 2010

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