Tempus fugit… ergo, carpe diem

Que o tempo passa não é novidade alguma. Todo mundo sabe disso. Mas muitos não percebem que ele foge. Quem foge, anda depressa, corre. O tempo é assim. Passa depressa demais. Pela pressa com que passa, faz com que muitas vezes não o vejamos passar. O dia em que a gente falsificava a caderneta escolar para entrar em filme proibido para menores de 14 anos parece que foi ontem. Depois era a ânsia para que chegassem os 18 anos para a gente finalmente poder ver filme realmente proibido – hoje, quando filmes que eram realmente proibidos no meu tempo passam na Seção da Tarde, ninguém nem sequer entende a ansiedade com que a gente esperava os 18 anos… Depois, o medo de ficar velho aos 30… Tudo isso passa depressa, vôa…

Mais dois dias e chega o Outono — minha estação favorita. Será meu sexagésimo sétimo Outono. Nasci no finzinho do Inverno de 1943. Pena que, aqui em SP, as folhas das árvores não mudem de cor, em preparação para sua queda no Inverno. Mas mesmo sem o festival de cores, gosto do Outono. Talvez porque eu esteja no Outono da vida.

Meu sobrinho me perguntou no Facebook, quando dei as boas-vindas ao Outono de 2010: Como é o Outono da vida?

Tentei responder. Transcrevo aqui (com pequenas modificações: nunca consigo transcrever um texto meu sem modificá-lo um pouco).

A ordem em que dizemos as estações do ano é lógca: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

A Primavera é a época que segue ao nascimento, em que as plantas brotam, vicejam, dão suas primeiras flores, frutificam pela primeira vez… As cores são novas, como nova é a pele das crianças e dos jovens: sem manchas e rugas.

O Verão é a época da exuberância da idade adulta, cheia de energia e realizações. É no Verão que em geral a nossa pele adquire manchas (em geral do Sol) e começa a se enrugar. É no Verão que as pessoas, inconformes com a passagem do tempo, começam a buscar as cirurgias plásticas…

No Outono, as folhas mudam de cor nas árvores, os cabelos, nas cabeças — e, em alguns casos, começam a cair, tanto as folhas como os cabelos. Mas há uma sensação de quietude e calma no ar. Nem o vento consegue balançar facilmente uma árvore totalmente sem folhas… Não há mais aquela ansiedade por fazer coisas no plano material. Há o desejo de fruir o que se construiu, e experimentar algumas delícias da vida para as quais não se teve tempo antes… É a hora de coletar e, quem sabe, botar no papel (ou no disco rígido) as memórias.

O Inverno… bem, o Inverno é o frio, os dias mais curtos e com menos luz, o prenúncio do fim. No caso das estações, prenúncio de um recomeço. Quem sabe no nosso caso também.

Muitos não chegam ao Outono, porque algum acidente, alguma doença, ou a vontade de algumm assassino não deixou. É um privilégio estar no Outono. É a época por excelência da fruitio vitae. A compensação de chegar à velhice, como uma vez disse a grande e sempre linda Ingrid Bergman, é que você adquire uma consciência viva de que não morreu cedo demais…

Mas, como disse um dia aquele estraga-prazeres do Rubem Alves, não é fácil, quando a gente chega ao Outono, passar a pensar em sua idade em termos, não de quantos anos você já viveu, mas em termos de quantos anos você ainda tem para viver… Mas a gente aprende. Karl Popper disse uma vez que o que torna a nossa vida valiosa é o fato de que ela tem fim, que a gente pode morrer. Se a gente não morresse, se a vida fosse interminável, ela não teria valor. Os jovens, que acreditam ainda ter um monte de anos pela frente, a arriscam desnecessariamente.

Ayrton Senna, que depois de amanhã faria 50 anos, é exemplo disso. Se não fosse corredor de F-1, provavelmente estaria vivo aqui entre nós ainda. Mas nós provavelmente nem saberíamos quem era, não teríamos, por ele, o reconhecimento que temos. E provavelmente não haveria o Instituto Ayrton Senna, e a Viviane Senna Lalli não seria a personalidade que se tornou.

Tudo, na vida, tem suas compensações. Fazemos trocas e permutas o tempo todo. Um pouco mais de excitação na juventude, em troca, quem sabe, de um pouco menos de vida… Um pouco mais de vida, em troca, quem sabe, de um pouco menos de excitação e glamour.

O mesmo sobrinho que me perguntou como é o Outono da vida colocou uma citação do atual Papa no FaceBook:

“Não sou um homem que está constantemente inventando e contando piadas. Mas acho que é importante olhar para o lado divertido da vida, aproveitar sua dimensão alegre, não levar tudo tão seriamente, não privilegiar o seu lado trágico. Eu diria que isso é indispensável para o meu ministério. Um escritor disse uma vez que os anjos podem vovar porque não se tomam muito a sério… Talvez pudéssemos também voar um pouquinho se não nos considerássemos assim tão importantes”. (Papa Bento XVI).

É isso. Belo texto.

O tempo foge. Por isso, aproveite a vida. Voe um pouco. Mas saiba que nem todo vôo aterriza tranqüilamente. Se não julgássemos a nossa vida tão importante e valiosa, voaríamos mais – a arriscaríamos mais.

Para vocês, Epitáfio, dos Titãs. A primeira música (da “nova geração”) que a Paloma me deu.

Titãs – Epitáfio

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos

Tempus fugit. Ergo, carpe diem. 

Em São Paulo, 19 de Março de 2010

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