A felicidade

No dia 6 de Maio de 2005 (cinco dias antes de encontrar a Paloma no SENAC da Lapa) ministrei uma palestra na PUC do Rio de Janeiro, num evento patrocinado pelo Instituto Telemar (hoje Instituto Oi Futuro), cuja coordenação, na área da educação, estava nas mãos de Maíra Pimentel – como, de resto, continua até hoje. Escolhi como tema e título para a palestra o seguinte:

“A educação, a felicidade, o tempo e a vida”.

Comecei falando sobre a educação e a escola. Disse que a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida pouco tem que ver com aquela educação que receebemos na escola. A maior parte do que a gente aprende na escola não serve pra viver… E isto porque ou não serve pra nada, ou só serve pra gente continuar na escola…

A educação que importa, a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida, a gente a adquire vivendo… e fruindo a vida.

No meu Discurso de Formatura no Curso Clássico, em Novembro de 1963,citei uma quadrinha de um poeta de Americana, Antonio Zoppi, encontrada em um livrinho chamado Uma Vida que Nasce, que dizia:

Sapiência não se esmola,
Tem de ser adquirida:
Na doce vida da escola
Ou na acre escola da vida.

Já estava parcialmente preocupado com a temática naquela Primavera de 1963. Meu discurso assinalava (entre outras coisas) que no JMC (escola do tipo internato em que fiz o Curso Clássico) a gente aprendia nas aulas mas também muito (e coisas mais importantes) na vida ali no internato, fora das aula. Ali, fora das aulas, o JMC era uma escola de vida, melhor, talvez, do que a escola circunscrita pelas paredes das salas de aula. Mas a quadrinha de Zoppi enfatiza que a vida, ela própria, é uma escola (mesmo quando não tem relação nenhuma com qualquer a escola, dentro ou fora das salas de aulas). 

Fiz um levantamento, nos mais de 30 anos em que dei aula para as primeiroanistas do curso de Pedagogia da UNICAMP, sobre os objetivos possíveis para a escola. Listava vinte possíveis objetivos para a escola e pedia que elas os hierarquizassem segundo sua preferência. Aquele que fosse o principal objetivo da escola ficaria em primeiro lugar. E assim por diante. O objetivo colocado em vigésimo lugar, não seria, na realidade, um objetivo que a escola deveria perseguir.

“Ajudar os alunos a alcançar a felicidade” sempre apareceu em penúltimo lugar. (Em último lugar sempre apareceu: “Ajudar os alunos a alcançar sucesso financeiro”.

No tocante à felicidade, isso é, no meu entender, uma séria aberração. A felicidade tem que ver com nosso projeto de vida e com nossos valores.

Ser feliz (diferentemente de estar contente), é uma condição duradoura, não um estado momentâneo. É feliz aquele que, sobre o alicerce de seus valores, é capaz de definir seu projeto de vida e transformá-lo em realidade. Em outras palavras, feliz é aquele cujos valores determinam os seus sonhos e que é capaz de transformar os seus sonhos em realidade.

Transcrevo abaixo um artigo de Stephen Kanitz, publicado na VEJA de 22 de Junho de 2005 – quarenta e cinco dias depois da minha palestra. O artigo definir a felicidade. É um artigo interessante, que vale a pena ler. Mas, estranhamento, o artigo não menciona valores. E isso considero uma falha grave.

Diz Kanitz:

“O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.”

Para ele, portanto, como se constata na última frase, “ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer”.

Para ele, ser feliz não é, necessariamente, eliminar essa distância, conseguindo ter tudo o que se quer. Muitas vezes, queremos muito uma coisa (ou uma pessoa), e quando a alcançamos, o ter aquela coisa (ou aquela pessoa) não mais nos faz feliz – porque agora passamos a querer mais…

Se não conseguimos nem sequer encurtar um pouco a distância entre o que se tem e o que se quer, tendemos a desanimar, achando que a felicidade não existe – é uma quimera.

A felicidade, para ele, está em contrar “a distância certa” entre aquilo que se tem e aquilo que se quer. O sonho deve sempre ser ajustado de modo a ficar um pouco à frente da realidade, para que haja uma tensão sadia entre o sonho e a realidade que nos motiva e nos leva a continuar lutando.

É muito interessante essa sugestão… Só faltam os valores.

Valor é aquilo que a gente luta para ganhar ou manter…

Há valores que são meios, coisas que só se tornam valores porque nos permitem fazer coisas que de fato queremos (e.g. dinheiro)

A realização da nossa vida, no sentido mais pleno do termo, isto é, não a nossa mera sobrevivência, é o valor maior que temos – o valor que não é meio para nada, que é um fim em si mesmo. essa realização é a nossa felicidade. O que nos traz a felicidade é a realização de nossos valores  – não o alcançar daquilo que meramente queremos.

Como já disse no post anterior, tomando emprestada uma idéia de Karl Popper, o que torna a vida o valor supremo é o fato de ela ter duração limitada e desconhecida: pode terminar a qualquer hora… Os jovens em geral não se dão conta disso: pensam que têm todo o tempo do mundo. São os mais velhos que em geral percebem que seu recurso mais valioso não é dinheiro ou qualquer outro: é tempo… Tempo de vida.

Tempo é vida!

E onde fica a educação nisso tudo?

O ser humano nasce incompetente e, por causa disso, totalmente dependente, sem autonomia, sem ser capaz de assumir responsabilidade pelos seus atos, pelo seu destino. 

Mas nasce com uma enorme capacidade de aprender. Aprender é se tornar capaz de fazer aquilo que antes não se era capaz de fazer.

A educação é o processo que, através da aprendizagem, nos torna competentes para viver e autônomos para escolhar nossa vida

Viver não é apenas sobreviver, manter-se vivo… Viver é ser capaz de fruir a vida, ser feliz… O papel fundamental da educação é nos ajudar a viver a vida que, com base em nossos valores (aquilo que lutamos para ganhar ou manter), escolhemos para nós mesmos…

Assim, o papel fundamental da educação é nos a definir um projeto de vida, com base em nossos valores, e transformá-lo em realidade. Em outras palavras: o papel fundamental da educação é nos ajudar a ser felizes…

O tempo é um recurso interessante… É igual para todos: um dia tem 24 horas para todo mundo, rico ou pobre, culto ou inculto, britânico, suíço ou brasileiro. No entanto, uns conseguem fazer muita coisa em um dia, outros vêem os dias passar sem conseguir fazer grande coisa…

Administrar o tempo não é tornar-se escravo do tempo, mas tornar-se senhor dele. Administrar o tempo não é ficar obsecado com o relógio: é definir prioridades e levá-las a sério. Tem tempo, não aquele que não faz nada, mas aquele que sabe administrar prioridades e fazer o que realmente importa para ele.

Não somos donos de boa parte de nosso tempo – pois o vendemos (em troca de dinheiro)… Mas a importância do dinheiro está no fato de que ele também nos permite comprar tempo.  A solução do dilema está em conseguir ganhar dinheiro fazendo o que realmente importa…

Ser produtivo, portanto, não é estar sempre ocupado. (Na verdade, gente muito ocupada em geral não é muito produtiva…). Ser produtivo é saber administrar o tempo, ter prioridades, ter sentido de direção, saber para onde se vai.

Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida

Quem dentre nós tem um projeto de vida, ou seja, realmente sabe o que deseja e espera da vida?

Quem dentre nós tem um plano para onde deseja estar na vida daqui a 5, 10, 20, 50 anos?

“Quem não sabe para onde vai nunca vai chegar lá – ou acaba indo para qualquer lugar” (Vide Alice no País das Maravilhas).

A importância da administração do tempo está em que, quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida… Quem administra o tempo, ganha vida, ainda que viva o mesmo tempo que os outros. Prolongar a vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Mas ganhar mais vida, administrando o tempo, está ao alcance de todos!

Para planejar estrategicamente a vida o primeiro passo é determinar onde estamos e escolher aonde queremos chegar. Escolher aonde queremos chegat é definir um projeto de vida.

A natureza da educação tem que ver com mudança: transformar o ser incompetente, dependente, inautônomo, arresponsável que nasce em um adulto capaz, competente, livre, autônomo para escolher sua vida e responsável pelas escolhas que faz…

Muitos de nós tentamos mudar os outros, ou as instituições, antes de entender que a mudança começa conosco: em realidade, só conseguimos mudar a nós mesmos

A educação deve ser voltada para a vida, nos capacitar para viver a nossa vida. Isso envolve a construção de competências, habilidades, valores, atitudes – e a aquisição de conhecimentos e informações. Mas a competência central é a de planejar estrategicamente a vida – para a qual a administração do tempo é essencial

Sem isso, ninguém será realmente feliz

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http://veja.abril.com.br/220605/ponto_de_vista.html 

Ponto de vista

Stephen Kanitz

Uma definição de felicidade

"Felicidade é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros"

Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de auto-ajuda definem felicidade como "estar bem consigo mesmo", "fazer o que se gosta" ou "ter coragem de sonhar alto". O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.

O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início de carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências, sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem exagerada demais nem tacanha demais. Se sua ambiç
ão não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.

Quantos gerentes depois de promovidos sofrem da famosa "fossa do bem-sucedido", tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque "chegaram lá"? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando, observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma dinâmica contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a lcançar em todas as etapas da vida e você será muito feliz.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard

(www.kanitz.com.br)

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Em São Paulo, 20 de Março de 2010

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