O debate sobre a tecnologia e a educação continua…

Transcrevo, abaixo, um artigo de Simon Schwartzman, de 21/01/2011, distribuído por e-mail hoje e publicado em http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=2003&lang=pt-br. O título do artigo é “O Milagre da Tecnologia”.

Coloquei, no FaceBook, um comentário, que transcrevo abaixo, com algumas modificações e com uma significativa complementação.

Faz 31 anos este ano que milito na área de educação e tecnologia (anteriormente chamada de Informática Educativa, Informativa Educacional ou Informática Aplicada à Educação). Interessei-me por essa área assim que me tornei diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, em 1980, e tive de encaminhar à FINEP (Financiadora de Projetos, do Governo Federal), um projeto de pesquisa de dois colegas meus: Raymond Paul Shepard, da Faculdade de Educação, e Fernando Curado, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciências da Computação). Concluí que, se tinha de encaminhar o projeto, deveria pelo menos lê-lo. A leitura me fez ficar interessado na área, na qual imediatamente me envolvi. Ainda em 1980 e em 1981 participei dos primeiros Seminários de Informática Educativa convocados pela Secretaria Especial de Informática (SEI) – o primeiro em Brasília, o segundo em Salvador. Em decorrência deles, criei na UNICAMP, em 1983, o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), para hospedar a primeira tentativa do governo brasileiro de financiar pesquisas sobre o assunto, o Projeto EDUCOM. Esse projeto era financiado pela FINEP, tinha a coordenação geral da Secretaria Especial de Informática, com o apoio do MEC, e era microgerenciado pela FUNTEVÊ. Vinte e seis universidades brasileiras submeteram projetos e cinco foram selecionadas: a Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), com projeto coordenado por Paulo Gileno Cysneiros, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com projeto coordenado por Antonio Mendes, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com projeto coordenado por Lydinéa Gassmann, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com projeto coordenado por Léa Fagundes e Lucila Costi Santarosa, e a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), através do NIED, em projeto coordenado por mim.

O debate continua o mesmo…

Em 1983, ano da criação do NIED, publiquei um artigo na revista Em Debate, do INEP, em que apontava para esse “either-or” que o Simon apresenta. A linguagem era, naquela época, um pouco diferente, mas o problema era o mesmo.

Naquela época não se falava quase nada no Brasil acerca de construtivismo, mas se falava bastante sobre “aprendizagem significativa” (“meaningful learning”, David P Ausubel), “aprendizagem por descoberta” (“discovery learning”), etc. Na área da tecnologia, nos anos 80, a linguagem de programação LOGO, de Seymour Papert, que havia estudado com J Piaget, em Genebra, era a bandeira carregada pelos defensores desse lado da batalha – assistida por bandeiras menores como Computer-Assisted Learning (CAL). Como se pode ver, a ênfase, aqui, era em aprendizagem.

Do outro lado, estavam os defensores da educação tradicional – os que defendem a tese (defendida por Simon no artigo abaixo) – de que “não se faz boa educação sem bons professores, escolas organizadas e estudantes estimulados e incentivados [vale dizer, motivados] a trabalhar”. Essa tese é defendida hoje também pelos partidários da observação e da emulação da Finlândia, da Coréia do Sul, de Hong Kong, de Cingapura… Na área da tecnologia, nos anos 80, a bandeira desse lado da batalha era a Instrução Programada, ou Computer-Assisted Instruction (CAI) – assistida por bandeiras menores como as Máquinas de Ensinar (“Teaching Machines”), propostas por B F Skinner. Como se pode ver, a ênfase aqui era em ensino e instrução.

Meu artigo de 83 falava máquinas de ensinar vs ferramentas de aprender. Mas o problema é o mesmo que é tratado por Schwartzman.

De um lado, uma educação focada na aprendizagem, e, por conseguinte, centrada no aluno. A preocupação aqui, é com processos, com o desenvolvimento de habilidades e competências. A forma de aprender é a forma natural de aprender fora da escola, o aprender decorrente da curiosidade natural, o aprender fazendo: observando, querendo fazer o mesmo (a questão da motivação começa resolvida), tentando, errando, recebendo feedback e ajuda, tentando de novo, conseguindo fazer em nível elementar, recebendo mais feedback e ajuda, melhorando o desempenho, até que… A avaliação, neste caso, se dá por observação e interação. Imaginem o Bernardinho avaliando o desempenho da nossa seleção de vôlei masculina…. Se existe um exemplo claro desse paradigma de aprendizagem é o desenvolvimento de habilidades e competências como andar, nadar, jogar bola, entender a fala e falar… O aprender, aqui, se dá fazendo aquilo que se quer aprender.

De outro lado, uma educação focada no ensino e na instrução, e, por conseguinte, centrada no professor. A preocupação aqui, é com resultados, com a absorção e assimilação das informações transmitidas pelos professores. A forma de aprender aqui não é natural. O professor fala e os alunos, passivamente, ouvem, anotam, depois lêem material complementar. Como os alunos têm de absorver e assimilar informações em que, em regra, não estão interessados, o problema da motivação é central: o professor tem de motivá-los. Se são bons (como alguns artistas de palco de cursinhos pré-universitários), conseguem que os alunos gostem deles e prestem alguma atenção no que dizem – mas não que se interessem pelo conteúdo que estão a  transmitir. A avaliação, neste caso, se dá por testes, provas e exames: afere-se se os alunos absorveram e assimilaram (por um tempo) o conteúdo que os professores lhes transmitiram (delivered).

(Em parêntese, poucas expressões me causam mais nojo do que “content delivery” e “instruction delivery”.)

Voltemos à tecnologia.

Embora a escola tente domesticar o computador, transformando-o em um máquina de ensinar, que ajude seus professores a ensinar melhor aquilo que ela quer que os alunos aprendam (e os alunos a absorver e assimilar melhor aquilo que a escola quer que eles aprendam – e que os professores, de boa ou má vontade, ensinam), os alunos não têm o menor interesse nisso e não participam desse jogo.

Uma aula sobre algo que os alunos não têm interesse em aprender continua a lhes ser algo absolutamente intragável, mesmo que ministrada com a mais atualizada parefernália tecnológica, e os alunos têm total clareza sobre isso. É por isso que rapidamente esquecem o que lhes foi transmitido. É por isso que, ao final do ano, quando passaram nos exames finais, queimam os cadernos e livros usados. O Rubem Alves um dia disse que esse ritual de esquecimento, simbolizado pela queima de cadernos e livros, é a maior evidência que temos da saúde mental dos jovens. Nem a escola tradicional consegue destruí-la.

Rubem Alves tem o apoio de ninguém menos do que Samuel Butler e Karl R Popper nessa tese.

Em Erewhon (mais ou menos Nowhere, Nenhum Lugar, de trás para diante), publicado anonimamente em 1872, Samuel Butler afirma que a razão por que as escolas e os professores não causam maior dano aos alunos está no fato de que, por mais que elas (escolas) e eles (professores) tentem, nunca conseguem que os alunos os levem suficientemente a sério…

Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (The Open Society and its Enemies), obra monumental publicada na década de 40,  ele diz que Platão é o inventor de nossas escolas secundárias e universidades – e que ele não consegue imaginar melhor prova de que nossos jovens são inteligentes e criativos do que o fato de que esse sistema avassalador de educação não conseguiu varrer a inteligência e a criatividade da face da Terra nesses últimos 2.500 anos…

A escola e muitos educadores (e analistas) não conseguem entender isso.

As inúmeras pesquisas que mostram que computadores não ajudam os alunos a aprender melhor os conteúdos disciplinares que a escola insiste em lhes transmitir (deliver) estão absolutamente certas, porque os alunos (corretamente, diga-se de passagem) não estão interessados em aprender isso.

Mas os computadores podem nos ajudar a transformar a educação e a reinventar os ambientes de aprendizagem. (Embora eu tenha adquirido na Internet domínios como novaescola.net e escolanova.net, acho que deveríamos deixar os termos “escola”, “professor” e “ensino” para os partidários da velha educação e não tentar colocar vinho novo em odres velhos).

Mas essa transformação da educação e essa invenção de novos ambientes de aprendizagem não acontecerá automaticamente. É preciso que queiramos fazer isso – e que os burocratas do ensino (o MEC, as SE, os Conselhos de Educação), os educadores e analistas da educação, os sindicatos e assemelhados, as editoras de livros didáticos, os donos de “sistemas de ensino” (eita expressão mais apta – é exatamente isso que eles são) não atrapalhem demais…

Aqui está o artigo do Simon.

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O milagre da tecnologia

Simon Schwartzman

Educação Básica 2011-01-21

No Brasil adoramos os milagres, que permitem resolver grandes problemas  sem precisar passar pelos processos dificeis de organização, planejamento, estudo, trabalho e investimento. Se nossa educação anda tão mal (apesar das grandes comemorações de pequenas melhorias que surgiram em algumas avaliações recentes), quem sabe que as novas tecnologias de informação e comunicação nos permitirão sair na frente? Com apoio do BNDES, o Governo Federal lançou no ano passado o Programa Um Computador por Aluno – PROUCA.

Várias Secretarias de Educação, entre as quais a do Rio de Janeiro, estão aderindo: no final de dezembro de 2010 foi assinado um convenio pelo qual, na cidade  do Rio,  “todos os 246 mil alunos do segundo segmento (6° ao 9° anos), de 397 escolas, terão computadores nas salas de aula.”

Ótimo, não é? Infelizmente,  quase todos os estudos sobre o uso de computadores em escolas mostram que eles não fazem diferença nos resultados da educação, e podem até ser prejudiciais.  Por exemplo, um estudo do Banco Mundial feito na Colômbia mostrou que “estudantes em escolas que receberam computadores e professores para seu uso não se deram melhor em testes do que estudantes em grupos de controle. Os pesquisadores não encontraram nenhuma diferença nos resultados dos testes quando olharam componentes específicos  em matemática e linguagem, como álgebra, geometria, gramática e uso de paráfrases em espanhol”.

Várias explicações foram apresentadas para isto, uma delas sendo que os professores não usavam muito os computadores, ou os usavam para ensinar como usar o computador, e não para ensinar os conteúdos das disciplinas.

Recentemente, circulou na Internet um artigo de  Clayton M. Christensen, especialista em temas de inovação da Harvard Business School, baseado em um livro seu de 2008,  ’Disrupting Class’, cujo resumo e critica pode ser visto por exemplo aqui. Basicamente, o que ele diz é que os computadores realmente não servem para o ensino convencional,  mas podem ter um efeito importante se forem utilizados de forma não convencional, para que cada estudante possa encontrar seu próprio caminho.

Não por acaso, estas idéias foram retomadas e defendidas em um artigo recente de Rafael Parente, que é Subsecretário de Educação da Cidade do Rio de Janeiro (“Aula de Ruptura”). Uma das teses principais de Christensen, apresentada por Parente, é que  “a chave para a transformação da sala de aula com tecnologia é como ela será implementada. Precisamos começar a inovação através de uma ruptura, não para competir com paradigmas existentes e servir clientes atuais, mas para conquistar aqueles que não estão sendo servidos, chamados de não-consumidores. Dessa maneira, tudo o que uma nova abordagem tem de fazer é ser melhor do que a alternativa, que não existe.”

Fica a pergunta de se é isto que o Ministério da Educação e as Secretarias municipais e estaduais que estão comprando todos estes computadores pretendem fazer.  Será que a idéia é acabar de vez com o ensino regular, com conteúdos bem definidos,  professores bem capacitados e alunos incentivados a trabalhar, que ainda não conseguimos implantar, e partir logo para um novo ensino revolucionário e individualizado, segundo um modelo tirado das teorias de inovação das escolas de business,  que não sabemos exatamente como deve ser?

Transferindo as idéias de Christensen para o Brasil, quem seriam os “não consumidores”  que não estão sendo servidos pela educação?  Os que abandonaram as escolas ou os que estão matriculados hoje, mas recebendo educação de má qualidade?

O ponto principal, que nenhuma tecnologia vai resolver, é que não se faz boa educação sem bons professores, escolas organizadas e estudantes estimulados e incentivados a trabalhar. Com estes ingredientes, então as novas tecnologias podem ajudar muito. Sem eles, elas servem muito pouco. Seria importante ter clareza sobre estas coisas antes de embarcarmos tão confiantes nas maravilhas das novas tecnologias (que, aliás, com os tablets, tornarão todos estes milhares de computadores obsoletos em  muito pouco tempo).

Address: http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=2003&lang=pt-br

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Em Salto, 22 de Janeiro de 2011.

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