A Escola e as Redes Sociais

Artigo publicado no dia 20/06/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione:

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/a-escola-e-as-redes-sociais

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Meu artigo anterior, A revolução da desintermediação, gerou alguns comentários longos. A alguns eu respondi na seção de comentários do próprio blog. No entanto, resolvi abrir uma exceção para escrever um artigo inteiro acerca do comentário de Rose Marie Dubinskas. Acho que ela tocou em algumas questões importantes cuja discussão merece ficar num plano mais amplo.

Transcrevo aqui, na íntegra, o comentário que ela deixou no blog, para que os leitores possam tê-lo como pano de fundo do meu artigo e fazer referência a ele com mais facilidade.

Diz Rose Marie:

Não acredito que seja algo tão simples assim. Não se trata simplesmente de “desintermediar”, ou seja lá qual for o termo, a educação. A escola precisa e deve ser mais do que um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos. Tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram. Deve privilegiar as descobertas e os caminhos percorridos para se chegar a determinados objetivos e não ter como meta a pura e simples aquisição do conhecimento. Deve proporcionar um convívio no qual as relações sejam questionadas e os métodos sejam avaliados mais do que os resultados. Reduzir o trabalho do professor a um mero cuidador de pessoas é minimizar demais a sua importância. Nem as escolas de educação infantil têm mais esse caráter. As redes sociais têm sim a sua importância, mas por si só não substituem o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento. Muito eu teria ainda para dizer em relação aos espaços escolares, mas aqui não há como fazê-lo com a amplitude e a importância merecidos. Há que se trabalhar neles e vivenciar a beleza das relações que ali se desenvolvem, num processo muito mais amplo do que um simples aprender técnico e funcional. Aprender a fazer uma bomba através da internet parece muito simples, mas a ética, o porquê construir uma bomba e suas consequências não são, de maneira nenhuma, objeto de discussão no processo.”

Cara Rose Marie…

Há algumas questões que você levanta em seu comentário sobre as quais nós (acredito) realmente discordamos. Há uma ou outra questão colocada por você sobre a qual acredito que não fui interpretado corretamente. E, naturalmente, há questões sobre as quais concordamos.

Vejamos.

1.) Você afirma: “A escola precisa e deve ser mais do que um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos.” A sua redação sugere que a escola deve ser isso (“um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos”) e mais alguma coisa. Eu discordo de que a escola deva ser isso – e mostrarei nos itens seguintes (em especial no item 2) as razões que tenho para discordar. Acho que, se ela continuar a existir, ela forçosamente vai ser outra coisa (sem o “mais”): a) OU, se ela não se transformar, ela vai se tornar um mero lugar de custódia de crianças e adolescentes, sem maior significado para a sua aprendizagem; OU, se ela se dispuser a se reinventar, ela vai se tornar alguma coisa que não é NEM “um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos” NEM um local de custódia de crianças e adolescentes. Neste caso, voltará a ser um ambiente de aprendizagem.

2.) Por que eu acho que a escola não é nem deve ser “um ambiente onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos”? Que ela (falo da escola básica) não é um ambiente “onde se discute o conhecimento humano acumulado ao longo dos séculos” me parece evidente. Esse conhecimento é discutido (se o termo “discutir” for levado a sério) em livros e artigos escritos por gente que realmente domina esse conhecimento. A escola básica tem simplesmente tentado repassar aos seus alunos uma leve ideia do que é esse conhecimento.  O pior é que o tem feito de uma maneira tal que a maior parte dos alunos acaba por não querer ter mais nada que ver com esse legado intelectual. Deveria a escola básica tentar se tornar nesse ambiente? Creio que não. Ela tem, a meu ver, funções muito mais importantes, voltadas para o futuro, não para o passado, e, além disso, a função que você sublinha já vem sendo exercida satisfatoriamente por outras instituições e pessoas: universidades, institutos de pesquisa, a mídia especializada, estudiosos independentes, intelectuais autônomos, críticos, autores em geral. (No entanto, é bom que se frise que o estudo do passado, por parte daqueles que, por alguma razão, têm interesse nele, pode ser extremamente valioso. Eu próprio tenho enorme interesse no estudo da história da filosofia – mas não acho que a história da filosofia, nem mesmo a filosofia, deva se tornar estudo obrigatório nas escolas de educação básica para todos os alunos).

3.) Você afirma: “Reduzir o trabalho do professor a um mero cuidador de pessoas é minimizar demais a sua importância”. Também acho. Nisso concordo totalmente com você. Mas eu não propus que isso acontecesse. Apenas previ que poderia acontecer. Minha previsão foi (e continua sendo) que, SE a escola não se transformar e reinventar, ela se tornará um local de mera custódia de crianças e adolescentes, e, nesse caso, os professores se tornarão meros cuidadores de pessoas. (Já que estamos tratando disso, não considero cuidar de pessoas uma atividade desprezível: acho-a extremamente importante. Mas ela é uma função, em si mesma, despida, ou vazia, de significado pedagógico).  SE, no entanto, a escola se transformar e reinventar (como eu sinceramente desejo, embora ache cada vez mais difícil, à medida que passa o tempo e ela permanece fundamentalmente inerte), o trabalho do professor terá de ser forçosamente redimensionado para que se torne novamente relevante para a aprendizagem dos seus alunos. (Para aqueles que se preocupam com o que será dos atuais professores se as mudanças aqui imaginadas acontecerem, é preciso ressaltar que pode ser que haja mais oportunidades de trabalho para facilitadores da aprendizagem do que há hoje para professores. Em espaços de aprendizagem diferenciados, a presença de pessoas que estejam dispostas e interessadas em ajudar a aprendizagem dos outros é sempre muito bem-vinda!).

4.) Você afirma: “[A escola] tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram”. Aqui tenho de dizer, como costumo dizer no meu Facebook, “hummmm…”. De um lado, acho extremamente importante que as pessoas tenham lugares assim, onde se relacionem uns com os outros de maneira significativa; onde não só troquem experiências vivenciadas em outros lugares, mas também criem e vivenciem experiências que contribuam para seu crescimento, para seu desenvolvimento, para sua aprendizagem; onde gostem de estar, porque percebem que estar ali contribui, não só para a sua aprendizagem, mas, também, para o seu lazer e seu bem-estar, e, não raro, para o seu crescimento e desenvolvimento profissional. Perfeito! Só que o lugar que você descreve se parece muito mais com Facebook do que com uma escola típica… :)

5.) Digamos que você me responda que afirmou que a escola “tem que ser” um lugar assim, não que ela seja, hoje, um lugar assim. Se você me disser isso, eu simplesmente lhe direi que a escola atual, para se tornar um lugar assim, terá de sofrer um processo de transformação tão radical que representará sua total reinvenção. Ou vejamos:

5.a) Em primeiro lugar, Facebook (ou locais semelhantes) não é um local que as pessoas são obrigadas a frequentar. A escola básica é. Só isso já faz uma diferença enorme. As pessoas frequentam Facebook se quiserem e quando querem. Em geral o fazem quando estão interessadas em conversar, trocar ideias, compartilhar suas fotos ou ver e comentar as fotos dos outros, provocar ou cutucar (em mais de um sentido) seus amigos, ficar sabendo de gente que não vê há muito tempo, descobrir o que é que está alegrando, irritando ou de alguma forma agitando as pessoas, comentar os acontecimentos e as notícias do dia, tirar sarro dos torcedores dos times rivais que perderam etc.

5.b) Em segundo lugar, Facebook é um local em que a maioria das pessoas passam no máximo uma ou duas horas por dia (exceto alguns fanáticos como eu que ficam com o Facebook aberto quase o dia inteiro). A escola é um local em que crianças e adolescentes passam, hoje, cerca de quatro a cinco horas por dia, duzentos dias por ano – e há quem defenda a ideia de que devam passar até o dobro disso. (É uma característica extremamente positiva desta rede social que a gente possa monitorá-la o tempo todo, pelo computador e pelo telefone, sem precisar dedicar-lhe atenção total, pois isso permite que a gente lhe dê alguma atenção o tempo todo sem lhe dar toda atenção em nenhum momento…).

5.c) Em terceiro lugar, no tempo que eu passo no Facebook eu faço o que eu quero – apenas aquilo que me interessa. Se eu estou a fim de ver fotos dos amigos, é isso que eu faço. Se estou disposto a discutir união estável de homossexuais, procuro um lugar onde isso esteja sendo discutido ou começo uma discussão sobre a questão. Em outras palavras: o uso de meu tempo, enquanto estou no Facebook, é totalmente discricionário: sou eu que decido o que vou fazer quando estou lá. “Discricionário” quer dizer, segundo oDicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, “livre de condições, de restrições; arbitrário”. O uso do tempo que a criança e o adolescente são obrigados a passar na escola é exatamente o oposto disso: totalmente condicionado, controlado, determinado por terceiros. Em muitas escolas, até para ir ao banheiro é preciso pedir permissão – e casos são conhecidos em que a permissão foi negada, com consequências desastrosas.

5.d) No Facebook cada um se junta com seus amigos, com sua turma, com aqueles com os quais têm interesses comuns. Ali, muitas vezes, especialmente entre os mais jovens, o fato de pertencer à mesma faixa etária é poderoso aglutinador. Pré-adolescentes de onze ou doze anos dificilmente se enturmam com coroas de quarenta ou cinquenta anos: juntam-se preferencialmente com amigos da mesma idade. É com eles que gostam de conversar. E sua conversa às vezes é ininteligível para os mais velhos. Como pré-teens, às vezes fazem (ou sofrem) distinções que, para os mais velhos, parecem absurdas: não aceitam, por exemplo, os teens – ou são por eles rejeitados… É difícil de imaginar que, na escola, queiram estabelecer “relações humanas” e fazer “troca de experiências” com seus professores… Ou que estes, enquanto na escola, queiram fazer o mesmo com seus pré-teens.

5.e) O que foi descrito no item anterior talvez seja um caso especial de algo mais abrangente: no Facebook as “relações humanas” e as “trocas de experiência” se fazem entre iguais. Ali não há hierarquia. A escola, porém, é uma instituição totalmente hierarquizada, dominada por aqueles que são investidos de autoridade: diretores, coordenadores, professores… É difícil imaginar relações humanas e troca de experiências genuínas entre os alunos e as figuras de autoridade que, na escola, detêm o poder de colocar os alunos fora da sala, dar-lhes ou obter-lhes uma suspensão, ou até mesmo deflagrar processos que podem culminar em sua expulsão da escola. Relacionamentos desse tipo em geral se dão entre pares – e alunos e professores na escola definitivamente não são iguais, estão longe de ser pares.

5.f) No Facebook todo mundo aprende, todo mundo se diverte, todo mundo é capaz de encontrar algo que sirva para sua atividade profissional. Na escola, espera-se que uns aprendam – os alunos – e outros ensinem – os professores. Facebook se parece muito mais com o ambiente de aprendizagem descrito por Paulo Freire emPedagogia do Oprimido: ali ninguém educa ninguém, mas também ninguém se educa sozinho: todos se educam uns aos outros, em comunhão, em “curtição” mútua… A escola está muito longe disto. Ali uns são educadores, outros são educandos.

5.g) No Facebook ninguém é pago para fazer o que quer (com uma ou outra exceção, talvez). A participação é totalmente voluntária. Na escola, o professor é pago para estar ali e para realizar um conjunto específico de tarefas. Se ele não as realiza, ou as realiza mal, ele pode (dependendo do tipo de escola em que atua) até perder o emprego… O aluno, cuja presença ali é obrigatória e involuntária, é, por assim dizer, o insumo básico do trabalho do professor. Em escolas particulares, se os alunos se vão, porque os professores são ruins, os professores também se vão… Sem alunos, uma escola particular fecha. Uma escola pública tem, de certo modo, alunos cativos – as crianças e os adolescentes que moram numa determinada região e não podem (ou não querem) pagar uma escola particular, são obrigados a frequentar uma escola daquela região, com pouca flexibilidade. Esse ambiente é muito pouco condizente com significativos relacionamentos pessoais e troca de experiências entre alunos e professores.

5.h) Basta, não?

6.) Você afirma, Rose Marie: “As redes sociais têm sim a sua importância, mas por si só não substituem o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”. De novo sinto vontade de dizer “hummmm”. Começo com uma pergunta, não sobre o que você diz, mas sobre o que você aparentemente sugere: as escolas que você conhece favorecem e estimulam “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”? Continuo: de que redes sociais virtuais você participa? Pergunto isso porque conheço várias redes sociais virtuais que, exceto, naturalmente, pelo toque e o olhar, fazem exatamente isso.

Meu grupo de discussão na internet, o EduTec.Net, que existiu, em sua forma original, durante quase três anos, era uma rede social que propiciava, favorecia e estimulava, para cerca de mil participantes, exatamente isso: “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, a sensação de pertencimento”. Parece impossível que isso pudesse ser feito para cerca de mil pessoas de uma vez, mas era – embora para uns, mais do que para outros. Uma vez, um dos membros teve seu jovem filho assassinado em Búzios por um ladrão que queria lhe roubar o relógio. Foi com seus amigos da EduTec.Net que ele compartilhou a notícia e buscou apoio e ajuda. Uma outra jovem, jornalista em Alagoas, uma vez, lia as mensagens do grupo no computador do seu trabalho, quando, emocionada com o teor da troca, começou a chorar quietinha… Um colega insensível viu e disse: “Chorando por quê? Isso é apenas uma tela de computador”. Ao que ela respondeu: “É uma tela… mas do outro lado tem gente! Gente mais humana e compreensiva do que você…”. É por isso que há pessoas que chegam a se apaixonar nesses ambientes por pessoas de quem ainda não sentiram o toque e o olhar.

7.) Concluindo: vou resumir o essencial daquilo que você diz que é importante que a escola seja – aquilo que você afirma que a escola “tem que ser”: “[A escola] tem que ser um lugar onde as relações humanas, a vivência e a troca de experiências se desenvolvam naturalmente e façam parte do dia a dia daqueles que nela se encontram”. Você deixa subentendido que a escola deve ser um ambiente que favoreça “o aconchego do encontro entre as pessoas, o sentir-se acolhido e amado entre seus semelhantes, a troca, o compartilhar, o toque, o olhar e a sensação de pertencimento”. Parece-me, Rose Marie, que você propõe que a escola, para se tornar novamente um agente significativo de aprendizagem e de desenvolvimento humano, precisa se tornar algo muito parecido com uma rede social. É exatamente isso que eu venho sugerindo neste blog desde o início. Mas, diferentemente de você, não acho que a escola já seja isso. Na verdade, acredito que, para se tornar isso, ela terá de se reinventar. Terá de se transformar a tal ponto que ficará irreconhecível como escola, porque terá quebrado o paradigma atual da educação escolar.

8.) Mais uma coisa, porém, antes de terminar, apenas para não deixar uma referência lá de trás ficar solta no espaço. Disse, no item 2, que a escola tem funções muito mais importantes (do que discutir o passado), voltadas para o futuro. No meu entender, e, creio, também no seu, educar não é transmitir a herança cultural do passado. (Talvez você dissesse que não é apenas isso). Para mim, educação é a mesma coisa que desenvolvimento humano. O ser humano nasce com inúmeros potenciais e uma enorme capacidade de aprender, mas sem saber, ou saber fazer, efetivamente, nada. Para que se desenvolva, que transforme seus potenciais em realidade, que construa ou domine competências, que alcance autonomia. Tudo isso se conquista através da aprendizagem, que é um processo de se tornar capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. Para que consiga viver uma vida propriamente sua, única, diferente da vida de todos os outros, uma vida que o realize como pessoa, como profissional, como cidadão, cada um precisa, como parte da sua educação, escolher um projeto de vida, com base em seus valores, e adquirir as competências que tornarão esse projeto de vida uma realidade. É por isso que a educação tem que ver com o futuro, não com o passado. Ela é o mecanismo que o ser humano inventou para permitir que os membros da espécie não só sobrevivam desassistidos, mas criem para si mesmos vidas que os realizem plenamente.

Obrigado, Rose Marie, por me ajudar a escrever este artigo.

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Em São Paulo, 4 de Julho de 2011

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