Educação a Distância “Suficientista”

Artigo que publiquei, com o título acima, e no URL abaixo, no Blog das Editoras Ática e Scipione em 29/08/2011.

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http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-a-distancia-suficientista

Conheço Wilson Azevedo há cerca de quinze anos. Quando o conheci ele era pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e responsável pelo site e pelas listas de discussão da igreja. Já naquela época era também responsável por um interessante programa de EaD – Educação a Distância na área teológica no Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro.

Desde então, convivemos na lista EduTec, que criei em outubro de 1998, da qual ele foi não só um dos participantes mais ativos, mas o meu principal consultor pro bono. Encontramo-nos várias vezes em eventos da área de tecnologia e educação – especialmente os que envolviam EaD, como as reuniões promovidas ou apoiadas pela ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância, criada e dirigida por nosso amigo Fred Litto, hoje aposentado da USP.

O Wilson e eu já trabalhamos juntos em alguns empreendimentos, como um curso presencial sobre o uso de tecnologia no trabalho eclesiástico para pastores e administradores de igreja, ministrado nas dependências de educação religiosa da Catedral Evangélica de São Paulo, e um curso a distância sobre escolas inovadoras, em que José Pacheco, Rosely Sayão e eu discutimos escolas inovadoras com que estivemos envolvidos (na ocasião, Pacheco falou sobre a Escola da Ponte, onde sua filha estudou quando a família morou em Portugal; Rosely abordou sua experiência como articulista da Folha de S. Paulo e eu falei sobre a Lumiar).

Recebi, recentemente, um anúncio de que o Wilson estaria ministrando um curso a distância sobre ambientes minimalistas para EaD. Resolvi me inscrever. Começou na segunda-feira passada (22/9), e vai durar apenas duas semanas. O Wilson leva a sério o minimalismo até na duração dos cursos dele…

O primeiro texto que li para o curso foi do próprio Wilson: um artigo que tem o título de “O Minimalismo Tecnológico em Educação Online e a Inclusão Educacional e Digital no Brasil”. Fiquei entusiasmado com o que li (embora discorde de alguma coisa, como vai ficar evidente aqui). Sempre soube, desde os tempos da EduTec, que o Wilson era um “minimalista tecnológico”. Para explicar que bicho é esse, vou ter de fazer um preâmbulo relativamente longo…

Naquela época, fim da década de 1990, estava começando a se tornar possível redigir e-mails “formatados”. Para os usuários de e-mail de hoje essa noção nem faz mais sentido, porque e-mail formatado é tudo o que eles conhecem: uma mensagem na qual você pode escolher o tipo gráfico (fonte), o tamanho e o estilo (normal, negrito, itálico, sublinhado etc.) das letras que você vai usar, acentuar as palavras, incluir links para sites, assim como fotos, desenhos, gráficos etc.
Antes disso ser tecnologicamente possível, porém, os e-mails precisavam ser redigidos em “texto puro”, isto é, sem nenhuma formatação, usando tipo de letra que fosse default no seu computador (em geral o que hoje se chama Courier), tudo de um tamanho só – sem acentos, sem links, sem fotos, sem desenhos, sem gráficos. Algo que fazia lembrar pobreza franciscana.
Para deixar claro que a gente queria dizer “é” e não “e”, a gente precisava escrever ” e’ ” ou “eh”… Além da pobreza, sofrimento (pelo menos para quem não estava acostumado a escrever sem acento). Naquele contexto, se alguém tentasse enviar um e-mail com texto formatado, a maioria dos sistemas de e-mail não era capaz de decodificar a metainformação que especificava como o texto deveria ser recebido e o resultado eram códigos ilegíveis ou, pelo menos, muito difíceis de serem lidos.

Pois bem… Naquela época em que todos estávamos entusiasmados com a possibilidade de escrever e-mails com tipos gráficos exóticos, com letras de cores e tamanhos chamativos, o Wilson não se deixou seduzir: continuou partidário do e-mail com texto puro, porque imaginava que muitos de seus interlocutores usassem um mínimo de tecnologia. Continua assim até hoje.

Mas o que parecia apenas uma mania virou um referencial teórico interessante e sofisticado… Acho que, ao final do curso, o referencial teórico vai ficar mais sofisticado ainda, porque há muita gente boa entre os parcos treze alunos da turma. (O curso dele não é minimalista só na duração: também no número mínimo de alunos com o qual funciona).

Gosto disso. Se o curso do Wilson durasse seis meses, ou mesmo seis semanas, eu não teria optado por fazê-lo – não tenho tanto tempo disponível. Se exigisse que eu fosse a um Centro de Apoio ou a uma universidade para assistir a uma videoconferência, ou para fazer uma prova, eu passaria longe do curso. Mas duas semanas (na verdade, dez dias úteis, cerca de uma hora por dia, em média), em que posso trabalhar em casa, tarde da noite ou de madrugada, é algo perfeitamente factível.

No artigo que mencionei, Wilson faz uma apologia extremamente interessante dos princípios do minimalismo tecnológico em EaD. O minimalismo teórico envolve outros princípios, como a simplicidade e a parcimônia, e possui uma justificativa teórica e pragmática que vale a pena divulgar.

Exceto no caso de algumas universidades, em especial no Estado de São Paulo, onde a Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa tinha um link exclusivo com o Fermilab, de Chicago, a internet chegou ao Brasil apenas em 1995, graças aos esforços do então ministro Sérgio Motta – que pode ser considerado o primeiro mártir da internet brasileira. Ele “peitou” o sistema Telebrás, que queria uma internet “chapa branca” para o Brasil e conseguiu, com o apoio de FHC, que o acesso à rede para os usuários finais fosse propiciado por provedores privados.

Mesmo assim, nos dez anos que se seguiram (1995-2005) a internet foi coisa “de rico”, vamos dizer assim. O preço do hardware era proibitivo, o preço do software era muito alto e o preço do acesso não era baixo, apesar da entrada da iniciativa privada no negócio, e, portanto, da concorrência. O resultado foi que, durante esse período, quase só as classes A e B tiveram acesso à internet.

A partir de 2005, por aí, segundo o Wilson, o cenário mudou em muitos aspectos:

a) O preço do hardware caiu significativamente: hoje é possível comprar um netbook por cerca de dez prestações mensais de 65 reais, mais ou menos;

b) O preço do software também caiu, mas em proporção menor, embora exista hoje no mercado uma quantidade grande de software gratuito – e o brasileiro pessoa física continue a utilizar software pirateado, malgrado a ilegalidade da prática;

c) Os provedores de acesso à internet também baixaram o preço e melhoraram um pouco a qualidade do acesso à chamada “banda larga” de 256 Kbps, 512 Kbps e 1 Mbps, já havendo, “no andar de cima”, como diz o Elio Gaspari, empresas oferecendo acesso por fibra óptica de até 100 Mbps). A concorrência do acesso à internet pelo telefone celular e, mais recentemente, pelos tablets que usam tecnologia celular, tem contribuído com a redução do custo do acesso.

Fora do plano tecnológico, agora no plano educacional, quase todo mundo na faixa etária da escolarização obrigatória hoje está matriculado. A matrícula no Ensino Médio cresceu, o número de Escolas Técnicas cresceu significativamente e, principalmente, melhorou o acesso ao Ensino Superior, com a criação de mais universidades públicas federais, com o aumento de vagas nos Cefet e Fatec, e com a criação do Prouni.

Com mais gente completando a Educação Básica e mais gente frequentando a universidade ou faculdade, aumentou significativamente a demanda pelo acesso à internet. Como o acesso à internet (em seu tríplice aspecto de harware, software e acesso, propriamente dito) estava mais barato, muito mais gente se tornou “digitalmente incluída”, como diz o jargão. E essa gente era predominantemente das classes C, D e até mesmo E. Com isso, aumentou a demanda por EaD.

Diante desse quadro, nossa responsabilidade como educadores não se exaure em oferecer a essa clientela composta pelos “emergentes digitais” cursos a distância que exigem, na ponta do usuário, tecnologia extremamente sofisticada, estado da arte. Ou seja: o cenário parece estar pronto para uma abordagem minimalista à EaD – que é o que o Wilson preconiza e oferece.

Na verdade, a discussão no curso tem deixado claro que uma abordagem minimalista é útil até mesmo em contextos em que o argumento financeiro (o custo) não se aplica. É possível defendê-la, no contexto de EaD, argumentando que, em muitos contextos em que existe tecnologia sofisticada disponível para o usuário, o “maximalismo tecnológico” (usar tudo a que se tem direito) em geral funciona como uma distração para o usuário que não contribui, necessariamente, para que a quantidade e qualidade do seu aprendizado melhorem proporcionalmente ao investimento feito.

Isso posto, é preciso esclarecer melhor o que está envolvido na proposta minimalista.

Na discussão tem ficado claro que o minimalismo em EaD, embora combata a “obesidade tecnológica”, não propõe a “anorexia tecnológica”. No caso da alimentação, refeições adequadas são aquelas em que as pessoas comem, em quantidade suficiente, comida de qualidade: saudável, nutritiva, gostosa. Não é preciso que, na alimentação, a gente se empanturre, encha e limpe o prato, de comida pesada, gordurosa, ultratemperada – isso só produz azia e má digestão (e, talvez, doença coronariana). Nem é preciso que a gente quase não se alimente e saia da mesa morrendo de fome. O princípio minimalista fica entre o “tudismo” e o “nadismo”, defendendo, na realidade, o “suficientismo”.

Que o leitor me desculpe: adoro neologismos. Por isso já usei tantos aqui. E dou outro exemplo.

O liberalismo político clássico, que propõe e defende o “Estado mínimo”, é, nessa linha, suficientista. É contra a proposta de que o Estado seja tudo (como era no mundo comunista) e contra a proposta de que o Estado seja nada (como é a proposta anarquista do não-Estado). O liberalismo político clássico defende a existência de um Estado forte (mas pequeno), exigindo que suas funções sejam clara e especificamente delimitadas e restringidas ao mínimo essencial.

O básico da discussão, até agora, é esse.

Na discussão, porém, foi sugerido um complicômetro interessante – por um médico. Disse ele mais ou menos o seguinte: no passado, em que a tecnologia era bem mais simples, quase minimalista, a “experiência operatícia” de um paciente que tivesse de se submeter a uma cirurgia do abdomem era, digamos, maximamente complexa. Ele ficava internado alguns dias, sofria um corte significativo em sua barriga, tinha uma recuperação lenta, e tinha de se conformar com viver com uma cicatriz feia para o resto da vida. Hoje, com microtecnologia ultrassofisticada, a operação se faz em poucos minutos, o acesso aos órgãos internos se dando pelos “orifícios naturais” do corpo, e o paciente muitas vezes vai embora para casa sem trauma e sem cicatriz, com uma “experiência operatícia” mínima.

Em suma: o que importa, para o usuário para o paciente é que sua operação seja indolor, rápida, sem deixar cicatriz, e, se possível, barata – e que, naturalmente, que seja eficaz, isto é, resolva o seu problema. Se, para isso, é necessário que se use tecnologia ultrassofisticada, maximalista, que seja.

Aplicando esse princípio à EaD, teríamos o seguinte: o importante é que a experiência de aprendizagem do aluno seja eficaz (isto é, que ele realmente aprenda o que precisa ou deseja aprender), indolor, rápida, sem sequelas negativas, e (ele espera) barata. Se, para isso, quem propicia essa experiência precisa usar tecnologia sofisticada, que use…

O complicômetro a que fiz referência está no fato de que a analogia médico-cirúrgica sugere que é necessário distinguir (pelo menos) dois problemas:

O primeiro problema envolve uma questão de dois lados: de um lado, a tecnologia que se usa ou aplica em determinado contexto (cirúrgico, pedagógico etc.); de outro lado, a experiência (“operatícia”, “aprenditícia” ou que nome quisermos dar a ela) que as pessoas envolvidas nesse contexto têm em decorrência do uso ou aplicação da tecnologia.
O outro problema diz respeito ao segundo lado da questão anterior (as pessoas envolvidas) e também possui dois lados: a experiência de quem propicia o uso ou aplicação da tecnologia; e a experiência do próprio beneficiário do uso ou aplicação da tecnologia.

Neste segundo problema, temos que, para o operado, a experiência “operatícia”, quando o médico usa a tecnologia maximalista mencionada, é minimalista. Ele não sente quase nada. Ele, na realidade, nem é paciente, no sentido estrito do termo, porque não sofre nada! Para o médico, entretanto, há uma curva de aprendizagem significativa, tanto no uso da tecnologia em si como na aplicação das novas técnicas cirúrgicas que a tecnologia torna possíveis – porque, para propiciar ao paciente operado a experiência minimalista (quase nihilista, ou nadista) de não sentir quase nada, de não ficar com cicatriz etc., o médico teve de aprender a usar essa tecnologia sofisticada, isto é, maximalista!

[Parêntese: será que há resistência, entre os membros da classe médica, à necessidade de estar sempre reaprendendo a profissão, como parece haver entre os professores? Parece-me que não, mas posso estar enganado.]

No caso da educação, porém, não queremos que o aluno seja equivalente ao paciente operado, que não faz nada e é só objeto da ação de outrem: queremos que o aluno participe, seja ativo, interativo, colaborativo no processo de sua própria aprendizagem… Por isso, é difícil, se não totalmente impossível, imaginá-lo, no contexto de EaD, totalmente sem acesso à tecnologia (como acontece com o paciente operado). Mesmo no caso de um telecurso oferecido pela televisão, o aluno precisa fazer uso do aparelho de televisão (que é tecnologia), e, portanto, não se compara exatamente ao paciente de uma operação (embora, admitamos, neste caso fique perto).

Espero ter despertado o interesse dos leitores pelo tema…

Em São Paulo, 29 de Agosto de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

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