A Igreja como Comunidade Virtual dos Crentes

Antes de entrar no assunto central deste artigo e começar a falar na igreja como comunidade virtual, vou falar rapidamente sobre a escola e a aprendizagem. Esse incursão na filosofia da educação servirá de introdução ao tema.

A escola é uma instituição social que todos conhecemos, no mínimo por termos passado por ela. Hoje em dia as pessoas são obrigadas a frequentar uma escola durante um determinado tempo (no Brasil, durante nove anos, período correspondente ao chamado Ensino Fundamental), na infância e adolescência (dos seis aos quatorze anos). Durante esse período de escolarização obrigatória, a frequência à escola é intensiva: pelo menos quatro a seis horas por dia, cinco dias por semana, ao longo de pelo menos duzentos dias por ano. Diversos instrumentos legais proíbem que crianças e adolescentes nessa faixa etária trabalhem, para que possam dedicar à escola sua atenção integral. No Brasil, várias iniciativas buscam fazer com que a frequência à escola obrigatória se dê em período integral (o dia inteiro) — e também se cogita de aumentar em dez por cento o número de dias letivos.

A obrigatoriedade da frequência à escola nessa faixa etária é hoje exigida em virtualmente todos os países desenvolvidos porque se concluiu, em algum momento, que o confinamento que ela impõe é propício para que as pessoas aprendam o mínimo indispensável para viver suas vidas (no plano pessoal, profissional e social) com certo nível de autonomia e competência. Na verdade, mesmo sem obrigatoriedade, alguns optam por continuar a frequentar a escola depois dos quatorze anos, por bem mais tempo (fazendo nela o Ensino Médio, o Ensino Superior, a Pós-Graduação, etc.).

O principal objetivo da frequência à escola é a construção da aprendizagem. No entanto, sabe-se que as pessoas podem e devem aprender, e de fato aprendem, ao longo de toda a vida, desde o nascimento (talvez até mesmo no útero materno) até a morte. Por causa disso, instituições como a UNESCO enfatizam hoje a importância do que chamam de “aprendizagem ao longo da vida toda” (lifelong learning) e “aprendizagem em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere learning“). Na verdade, reconhece-se que a maior parte das coisas importantes que aprendemos, nós as aprendemos fora da escola: no lar, na comunidade, na igreja, no trabalho, nos momentos de lazer. Hoje em dia, dada a evolução das tecnologias de informação e comunicação, a educação a distância, em que a aprendizagem é mediada pela tecnologia, está se tornando cada vez mais difundida. Por meio da tecnologia, podemos aprender o tempo todo, interagindo com outras pessoas (mesmo que elas estejam fisicamente distantes) e acedendo às informações de que precisamos para fazer o que queremos.

As propostas atuais de reinvenção da escola partem do pressuposto que a escola é muito mais do que um lugar físico que se frequenta por um tempo. A escola, reinventada, seria um ambiente de permanente e constante aprendizagem, que englobaria tanto o plano presencial como o plano virtual (neste caso, mediado pela tecnologia).

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A igreja, como a escola, é uma instituição social. Nenhuma lei nos obriga a frequentar uma igreja por um determinado número de anos numa determinada fase de nossa vida. Mesmo assim, sem obrigatoriedade, muitos o fazem – pelo menos por umas duas horas, um dia por semana, em regra aos domingos, durante a vida toda.

O principal objetivo da frequência à escola é a aprendizagem. E o principal objetivo da frequência à igreja, qual é? Sem pretender elaborar uma listagem exaustiva, creio que podemos dizer que, neste caso, há vários objetivos: adoração a Deus, formação cristã, fortalecimento da fé, comunhão com os irmãos, etc.

Vou deixar de lado, por um momento, os três primeiros objetivos citados para me concentrar no quarto: comunhão entre os irmãos.

Se pensarmos sobre a igreja em termos análogos àqueles em que se vem pensando sobre a escola, poderíamos cogitar da reinvenção da igreja. Nessa visão, a igreja (diferentemente do templo) deixa de ser um lugar físico que se frequenta durante duas horas aos domingos e passa a ser a comunidade dos crentes, isto é, daqueles que comungam os aspectos centrais de uma determinada fé e prática e consideram importante viver em comunhão uns com os outros. Talvez seja mais ou menos isso que os teólogos de antigamente entendiam pela expressão “igreja invisível” (ecclesia invisibilis). Nessa linha, a comunhão que acontece numa visita semanal ao templo é muito limitada: a igreja (devidamente reinventada) precisaria estar presente na vida das pessoas durante a maior parte de suas vidas — isto é, também nas horas que elas passam longe do templo. Enfim, o tempo todo.

Isso quer dizer que, levando a ideia adiante, precisamos de algo não só semelhante a “lifelong churching” — isso, até certo ponto, já existe hoje — mas semelhante a comunhão em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere, communion“). Isso hoje pode ser feito com o apoio das mesmas tecnologias que permitem a reinvenção da escola. As tecnologias de informação e comunicação hoje disponíveis viabilizam essa ideia.

Em seu livro The Church of Facebook: How the Hyperconnected are Redefining Community, Jesse Rice, da Igreja Presbiteriana de Menlo Park, CA, no coração do Vale do Silício, sugere que as tecnologias que revolucionaram a forma pela qual nos relacionamos uns com os outros e acedemos às informações de que precisamos para viver nossas vidas estão também provocando um abalo sísmico na nossa ideia de comunidade. Cada dia que passa milhões de pessoas se conectam umas com as outras através das redes sociais, trocam informações, fazem amizades, cultivam esses relacionamentos, até mesmo se apaixonam, apoiam os que estão deprimidos, aprendem… As redes sociais nos permitem estar o tempo todo sintonizados com nossos amigos, acompanhar suas ações, compartilhar suas alegrias e tristezas… Elas tornam possível um nível de comunhão entre amigos inimaginável até pouco tempo…

Irmãos na fé são mais do que amigos, não são?

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Se Martin Buber estava minimamente certo ao dizer que Deus não está aqui ou ali, mas entre um e outro, a comunhão com o próximo é a principal forma de nos aproximarmos de Deus.

Na verdade, até aqui encarei apenas a função “comunhão com os irmãos” da frequência à igreja. Mas é possível agregar também as demais funções, como, por exemplo, a adoração a Deus. Hoje, na Catedral Evangélica, já temos irmãos que nunca vemos presencialmente: os que de longe assistem aos nossos cultos pela Internet. Eles poderiam se integrar a essa igreja reiventada, a essa comunidade virtual de comunhão e, também, de adoração. Os muito idosos, os doentes, os presos ao leito ou à casa, poderiam também se sentir visitados diariamente pela presença envolvente da igreja…

Como estou convicto de que (a) a educação é a principal forma de desenvolvimento humano; (b) a educação é fruto da aprendizagem, muito mais do que do ensino ou da instrução; e (c) a aprendizagem é, eminentemente, colaborativa, e, portanto, tem lugar na interação, no relacionamento, na comunhão… — como estou convicto disso sou forçado a reconhecer que a igreja, assim reinventada como comunidade virtual, teria, no fundo, também uma função fundamentalmente educativa (formativa). Mas ela seria educativa, não tanto pela via do ensino e da instrução, mas, sim, pela via do compartilhamento de ideias e até mesmo de dúvidas, do diálogo que nos faz crescer e propicia o nosso desenvolvimento como seres humanos, da discussão e do embate de ideias que aprofundam o nosso entendimento, porque nos permitem compreender melhor o mundo, a vida, a nós mesmos, quiçá a Deus.

Creio que uma das frases mais felizes de Paulo Freire, o mais conhecido dos educadores brasileiros, é: “Ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros, em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Pedagogia do Oprimido).

A igreja, assim redefinida e virtualizada, seria um ambiente também de crescimento, se não na fé, em si, pelo menos na sua compreensão, na sua articulação com a vida diária, nas suas implicações para a conduta no trabalho, no lazer, na vida doméstica.

Quem sabe a criação, para a Catedral Evangélica, de uma comunidade virtual (parecida com um site de relacionamento, como FaceBook) seria um primeiro passo para a criação de uma igreja que transcenda os limites do centro histórico da cidade, e mesmo da cidade em si, e se torne um ambiente de comunhão, adoração e formação, 24/7: 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Para que isso aconteça, não basta criar uma comunidade virtual num site da Internet. É preciso ver a participação no site como parte integrante de nossa vida cristã e ver a coordenação (ou animação) do site como um ministério da igreja — ou como uma outra plataforma (além da presencial) em que os atuais ministérios podem desenvolver o seu trabalho. O acolhimento de novos membros, de visitantes, dos que assistem ao culto pela Internet, poderia ser feito também nesse espaço virtual. Ali também poderiam ser divulgadas notícias e informações acerca de: eventos que acontecerão na própria igreja e fora dela (neste caso, palestras, concertos, cursos, etc.); aniversários, casamentos, doenças, falecimentos; trabalhos dos diversos ministérios, sociedades e fundações da igreja; campanhas (como a de assinatura de O Estandarte, recolhimento de mantimentos ou agasalhos, etc.); sugestão e venda de livros; etc. Além disso, pedidos de oração poderiam ser feitos ali, orientação e apoio pastoral também poderiam ser em parte fornecidos ali, com respostas ou orientações rápidas sobre questões levantadas pelos membros acerca de doutrina, exegese, hermenêutica, conduta, etc.

Por último, mas não menos importante, a comunidade virtual poderia ser um posto avançado de evangelização que leva em conta o fato de que as pessoas, hoje, passam cada vez mais tempo conectadas ao virtual.

(*) Eduardo Chaves, é Bacharel e Mestre em Teologia pelo Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, EUA, e Doutor em Filosofia pela University of Pittsburgh, da mesma cidade. Ele é professor aposentado da UNICAMP, onde lecionou filosofia da educação e filosofia política durante quase 33 anos, de 1974 a 2007. Ao mudar para São Paulo, em 2008, passou a frequentar a Primeira Igreja, da qual é membro desde 2010, com sua mulher Paloma Machado.

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Escrito em 14 de Novembro de 2011 e transcrito aqui em 28 de Dezembro de 2011

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