Primavera à Vista: Abaixo os Xiitas e os Mercenários

O atual governo federal, pilotado pelo PT, tem sustentação de basicamente dois grupos: xiitas e mercenários.

Os Xiitas

Os xiitas são os “guerrilheiros” do governo (“guerrilheiros” no sentido figurado e, em alguns casos, não). Estão sempre ativos (por isso são chamados de “ativistas”), montando dossiês, inventando esquemas mirabolantes (“aloprados”), criando central de boatos, enchendo o saco dos outros, fora e dentro da Internet.

Na sexta-feira, estava na sala de espera de uma Clínica Oftalmológica Especializada, e dois senhores conversavam sobre a Petrobrás, lastimando que o PT esteja acabando com a maior empresa brasileira, falando na compra da refinaria de Pasadena, comentando o prejuizo dos investidores que compraram ações da companhia, etc. Nisso um velhinho magrela (velhinho, para mim, é alguém que, na minha estimativa tem pelo menos uns cinco anos a mais do que eu: este aparentava ter mais de 75) se meteu na conversa para dizer que quem começou afundar a Petrobrás foi o Fernando Henrique, pois ele privatizou pelo menos 30% das ações, que agora estão nas mãos do capitalismo internacional, que, mesmo assim, a compra da refinaria de Pasadena tinha sido um bom negócio, que deu lucro, pois no preço estava incluído o estoque de petróleo, que foi vendido e trouxe receitas, que vale a pena investir na Petrobrás, principalmente agora que as ações estão baixas, etc. (O último argumento é até digno de consideração). Foi escorraçado pelos outros dois. Mandaram o velhinho cuidar da vida dele, pegar as economias que porventura tivesse e investir tudo em ação da Petrobrás, etc.

Na Internet, em especial no Facebook, os xiitas aparecem. No momento estão meio acuados, hesitam, mas vira e mexe dão a cara pra levar porrada. Ontem mesmo um comentou um post meu. Entrei no perfil do cara e ele lá nega que a Petrobrás tenha pago mais de 1 bilhão de dólares pela refinaria de Pasadena: diz que foi bem menos do que a metade disso – e que (repetindo o argumento do velhinho de sexta-feira) o preço ainda incluía insumos que foram vendidos e que trouxeram receita cujo valor deve ser abatido do preço. . .

Os xiitas parecem ser principalmente de dois tipos. Uns são iguais à “velhinha de Taubaté”, do Luís Fernando Veríssimo: acreditam em tudo que o governo e o partido lhes dizem. São fideístas. Creem até no absurdo. O velhinho da Clínica Oftalmológica me parece ser desse tipo. Outros são leninistas: acreditam que a verdade é irrelevante, e, portanto, são pragmáticos num sentido nojento: inventam mentiras, ou usam mentiras inventadas por terceiros, sabendo plenamente que são mentias, porque acreditam que o fim justifica os meios. Esses são os construtores de dossiês e os inventores das lorotas que as “velhinhas de Taubaté” engolem sem mastigar. O cara que comentou meu post no Facebook é desse tipo.

Nem todos os xiitas são petistas: há entre eles gente da “ala esquerda” do PSOL, do PCdoB, e de outros partidecos da extrema esquerda. Juntando todos, eles não teriam sido capazes de causar a destruição que os onze anos de governo chefiado pelo PT está causando. Para isso, o PT tem precisado e dependido também de mercenários.

Os Mercenários

Os mercenários são os que aderiram ao governo mediante um pagamento ajustado: dão-lhe apoio comprado, são gente a soldo. São os que se julgam espertos e que estão sempre “na situação”. O PMDB é a principal fonte deles, mas há vários outros partidecos, e alguns não tão “decos”, que se especializam no comércio de apoio ao governo.

Em geral vemos essa raça no Congresso, onde têm uma densidade razoável. O Congresso atual é governista – mas os presidentes do Senado e da Câmara são do PMDB. . .

Sem os mercenários, os petistas, apenas com seus aliados xiitas, não teriam, por si sós, sido capazes de aprovar muita coisa. Tudo o que foi feito contou com o apoio de gente que não é xiita, mas está disposta, por dinheiro ou algum outro interesse (poder, por exemplo, que no Brasil oportunamente se converte em dinheiro), a apoiar os guerrilheiros. O mensalão aconteceu por isso: de um lado havia os xiitas mais ilustrados, chefiados pelo José Dirceu, dispostos a comprar apoio, do outro mercenários dispostos a vender apoio. Não deu noutra coisa.

Mas há mercenários também na Mídia (inclusive aqui na Internet). Mas há uma diferença importante entre os mercenários no Congresso e os mercenários na Mídia. No Congresso, um voto é um voto. O deputado ou senador pode ser uma sumidade e o voto dele vale a mesma coisa que o voto dos 300 picaretas que o Lulla um dia criticou (que ele ainda não tinha o poder nas mãos e, portanto, não precisava dos picaretas). Na Mídia, uma opinião tem peso diferente da outra. Se você pagar um picareta para defender ou promover seus interesses na Mídia, o feitiço pode virar contra o feiticeiro: o efeito pode ser contrário ao desejado.

Por isso, acho que o Políbio Braga está certo no seu vídeo “O PT perdeu a guerra cibernética e não adiante espernear”, disponível no YouTube, no seguinte endereço:  https://www.youtube.com/watch?v=rRWzlySlUQc. Os xiitas do governo federal não são em número suficiente, nem têm capacidade suficiente, para preencher todos os espaços da Mídia defendendo e promovendo o governo com um mínimo de competência. O mais das vezes, fazem um papel ridículo. Isso está claro, hoje, mas ficou claro apenas recentemente: aqui na Mídia, em especial na Internet, e, dentro dela, claramente no Facebook, o PT e seus xiitas, e, por conseguinte, o governo federal, perderam a guerra. Perderam de longe muito longe.

Quando alguém publica no Facebook uma crítica ao governo e ao PT – e há milhares publicadas a cada dia – e vem, seja um xiita malcheiroso, seja ou um mercenário ensaboado, tentar contestar, ele é, como disse o Políbio, liminarmente escorraçado – virtualmente linchado. Descobrimos, no Facebook, que cada um de nós constrói, por esforço e talento, mas a duras penas, um grupo de pessoas que o seguem ou acompanham, porque gostam do que dizemos ou compartilhamos, ou concordam com o que normalmente escrevemos ou distribuímos. Usando os recursos de privacidade do Facebook, podemos dar uma sintonia fina ao grupo que nos segue ou acompanha, isolando-o dos xiitas e mercenários: queremos alcançar o maior número de pessoas, mas de pessoas “certas”, não de espíritos de porco que só nos seguem ou acompanham para atazanar, criticar, procurar usar a nossa influência, duramente alcançada, para distribuir o seu lixo. Nesse caso, bloqueamos a pessoa, ou (se são amigos fora da rede) a colocamos em uma lista de amigos restritos… Os que não sabem fazer isso muitas vezes desistem de manter sua conta no Facebook por causa da atazanação dos espíritos de porco.

Eu descobri, também a duras penas, que o meu perfil ou a minha linha do tempo, é meu, é propriedade privada: outras pessoas só publicam ali se eu deixo e o que eu deixo. Nem mesmo os meus amigos mais chegados, nem mesmo a minha mulher (que reclamou disso), têm acesso irrestrito e não-monitorado ao meu perfil ou à minha linha do tempo para publicar coisas de seu interesse.

Nem todo mundo quer ou sabe fazer isso. Assim, é possível entrar no perfil ou na linha do tempo de quem discorda de nós e atazana-los. Mas eu resolvi não fazer isso. Só escrevo no perfil aberto ou na linha do tempo não protegida dos outros para, se meus amigos, desejar-lhes um feliz aniversário, ou lhes dar parabéns por alguma coisa — nunca para brigar, contestar, encher o saco deles. (No passado já cheguei a fazer isso — mas mudei de ponto de vista e de modo de agir).

Assim, quando um xiita ou um mercenário tenta usar o meu perfil ou a minha linha do tempo, escorraço com ele — como manda o Políbio Braga. Mando para o espaço. Já fiz isso até com pessoas que eram minhas amigas fora do Facebook mas que não sabem usar o Facebook com um mínimo de respeito ao direito de propriedade dos outros.

Se não fizermos isso, toda vez que publicarmos algo negativo sobre o governo federal ou as suas estatais, alguém vai aparecer e tentar, no mínimo, mudar de assunto: “E a privatização das teles?” “E o mensalão mineiro?” “E as licitações do metrô paulista?”. Não conseguindo contra-argumentar no mérito, tentam mudar de assunto ou insinuar que o que foi feito é coisa que todo mundo faz. “Sou, mas quem não é?

Uma nota final, importante. Os mercenários não são ideologicamente leais ao governo federal: eles apenas o apoiam enquanto o apoio compensa. E, como bem disse Malcolm Gladwell, em seu fantástico livro The Tipping Point, cenários mudam, primeiro um pouquinho e gradualmente. Mas, de repente, gente, no caso da política brasileira, vê-se um monte de gente séria e importante, que um dia apoiou o governo do PT, deixar de apoia-lo e começar a critica-lo, como Hélio Bicudo, Ferreira Gullar, Fernando Gabeira. . . Aos poucos, a crítica ao governo cresce, ganha consistência. O governo ajuda, fazendo um monte de besteira, metendo a mão no dinheiro público como se fosse sua fortuna particular. Chega um momento em que os pratos da balança começam a mudar de posição e chega a hora esperada em que de fato mudam de posição: esse o “tipping point”.

Alcançado o tipping point a tendência é que a crítica se torna revolta e a oposição começa a se tornar avassaladora.

Coisas antes improváveis acontecem. A maioria dos estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina se rebelam contra a minoria de seus colegas que ocupam a reitoria. Avançam sobre eles, deixam-nos acuados. Sobem no mastro da bandeira e trocam a bandeira vermelha pela bandeira brasileira. Visitam a Reitora bunda mole e a pressionam a resistir. Mas ela se comporta como uma mercenária. . .

Não nos esqueçamos: a lealdade dos mercenários muda quando eles percebem que o cenário está mudando numa direção desfavorável a eles. Começam ficando meio em cima do muro, farejando o vento, e, conforme o caso, mudam de lado. Isso aconteceu em 1984-1985. O exemplo maior foi o José Sarney – que saltou de líder do partido de sustentação da ditadura militar para o primeiro presidente civil da “Nova República”. . . Não podemos confiar neles – mas sua mudança de lado indica que os dias da situação estão contados.

Acho que isso está acontecendo no Congresso agora. Antes de saltar do navio, os mercenários tentam aumentar seu preço o máximo possível — até o ponto em que (no caso) o PT não consegue mais pagar, porque os mercenários percebem que sua fonte de dinheiro vai se esgotar em menos de um ano: a roubalheira, a corrupção, o aparelhamento.

Quanto o PT precisa anunciar publicamente que está oferecendo um curso sobre “Ativismo na Internet” para a xiitada é porque a coisa está ficando feia para eles.

É nessa hora que nós, anti-petistas, nós, anti-corrupção, nós, defensores da liberdade, nós que não gostamos de mexer com política que ficamos com aquela sensação horrível de mãos sujas, devemos intensificar nossa ação. A balança está virando para o nosso lado: alcançamos o tipping point, aquele ponto em que a maré vira.

É verdade que temos um Inverno pela frente ainda antes de chegar à nossa Primavera. Mas ela está à vista.

Em São Paulo, 31 de Março de 2014.

Mobilidade, Redes Sociais e Escola

Ontem à noite (22/11/2012) tive o privilégio e o prazer de participar de um debate sobre “Mobilidade, Redes Sociais e Educação”, nas dependências da Editora Moderna, com transmissão pela Internet (som e vídeo) pela Moderna TV. Ele fez parte das atividades finais do WebCurrículo 2012 da PUC-SP, que são coordenados por Renata Aquino (que agora também faz parte do quadro de colaboradores da Moderna).

Moderado por Neli Mengalli, da Secretaria de Estado da Educação, o debate envolveu (no presencial) apenas minha amiga Alice Carraturi, hoje do Grupo ABC, e a mim. Mas muitos participaram do debate de forma virtual: MSN, Skype, chat, e-mail, etc.  

Vou tentar sistematizar, aqui e agora, o que disse, ontem, de forma não tão sistemática.

Embora não tenha tido nenhuma influência na escolha do tema, gostei bastante dele, porque me permitiu encaixar algumas pecinhas do quebra-cabeça “tecnologia e escola” que tem me desafiado por mais de 30 anos (desde 1980, quando asumi a direção da Faculdade de Educação da UNICAMP e comecei a me envolver nos projetos de uso dos computadores na aprendizagem, coordenados pelos Profs. Fernando Curado, do Instituto de Computação, e Raymond Paul Shepard, meu colega da Faculdade de Educação).

Há tempo que brinco com uma ideia: a de que as pessoas (e até as instituições) em geral são razoavelmente boas para detectar quais são seus inimigos. Uma pessoa casada que entre numa festa com seu cônjuge em geral é capaz de identificar, em pouco tempo, de maneira quase intuitiva, quem ali pode representar uma ameaça ao seu relacionamento. Um liberal identifica socialistas por pouquíssimos sinais – e, talvez, vice-versa. Trazendo essa reflexão para o assunto tema do debate, professores e escolas identificam com surpreendente eficiência quais são seus principais inimigos, especialmente quando a questão é tecnologia. E mobilidade e redes sociais claramenten estão entre esses inimigos.

É desnecessário insistir que, ao falar em mobilidade e redes sociais, estamos tratando de realidades que, hoje, existem por causa das tecnologias digitais, centradas no computador, que começaram a surgir a partir da invenção do ENIAC, apresentado ao mundo em Fevereiro de 1946.

Então vejamos.

I.  A MOBILIDADE

O que é mobilidade?

No sentido em que o termo nos interessa aqui, mobilidade não é, pura e simplesmente, a capacidade de se mover de um lugar para outro, ou de se locomover. Isso, até certo ponto, nossas pernas, em bom estado de funcionamento, já tornam possível — e as tecnologias de transporte, envolvendo a bicicleta, a moto, o carro, o ônibus, o metrô, o trem, o navio, o avião, estendem e ampliam essa capacidade. Outros animais, como o cavalo, também fazem isso.

Mobilidade, no sentido em que o termo nos interessa aqui, é a capacidade de fazer algo a partir de qualquer lugar (anywhere), em qualquer momento (anytime). Ou seja, a capacidade de fazer algo independente de onde estamos e da hora (ou do dia). No caso da educação, mobilidade é “lifelong, anytime, anywhere learning“: a possibilidade de aprender sempre, a qualquer hora, em qualquer lugar, ao longo da vida toda. Ou a educação ubíqua, da hora em que a gente nasce até o momento da nossa morte, amém.

Essa mobilidade hoje é viabilizada pelas tecnologias digitais móveis, em especial os smart phones, os tablets e os notebooks — equipamentos que são todos parentes muito próximos uns dos outros e do computador digital.

Num passado remoto (digamos por volta de 1950, quando entrei na escola, a televisão chegou ao Brasil e nossa seleção perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai em pleno Maracanã), nossa mobilidade (no sentido definido) era mínima.

Para fazer um telefonema de Santo André (onde eu morava) para Campinas (onde minha avó materna morava) minha mãe tinha de se dirigir à Central da Companhia Telefônica Brasileira – CBT (e só havia uma central em Santo André), pedir à telefonista que fizesse uma ligação para a casa da minha avó (que, mais bem de vida, porque meu tio trabalhava na CBT, tinha telefone em casa), e esperar – às vezes mais de duas horas. Não havia micro ondas, os circuitos eram poucos, quase nada era automático, e a qualidade da comunicação, uma vez estabelecida, péssima, cheia de ruídos esquisitos. Naquela época era inconcebível – inimaginável mesmo – que pudéssemos fazer um telefonema para qualquer lugar do mundo enquanto andávamos pela rua (ou, pior, enquanto dirigíamos um carro – mas eu nem sabia dirigir então: pouca gente tinha carro naqueles anos que antecederam o governo JK).

Com a expansão da rede de telefonia (meu tio, Anello Sanvido, teve participação nesse processo, instalando estações de micro ondas na serra do Japi, na região de Cabreúva), e a consequente popularização dos telefones fixos, conseguimos uma linha em casa e, então, podíamos chamar minha avó a partir de casa, sem precisar ir ao centro de Santo André. Mas, inicialmente, ainda precisávamos usar os serviços da telefonista. Depois surgiu a “discagem direta” e, ainda depois, a “discagem direta à distância”, o famoso DDD que, como sigla, ainda está conosco até hoje. O DDI, “discagem indireta internacional”, só veio muito depois.

Mas o telefone fixo, apesar de ter facilitado muito a nossa vida, não nos deu mobilidade no sentido em que o termo está sendo usado aqui. Esta só chegou com o telefone móvel, aquilo que em Portugal se chama de telemóvel e aqui se chama de celular. Com ele, podemos não só fazer telefonemas para qualquer lugar do mundo (inclusive para telefones fixos) a partir de qualquer lugar (anywhere) e a qualquer momento (anytime), como também podemos, usando sua versão dita “esperta” ou “inteligente” (smart), e também a partir de qualquer lugar e a qualquer hora, enviar e receber mensagens instantâneas de texto, até mesmo mesmo com fotos, aceder à Internet, nos orientar no espaço (através do GPS), consultar endereços, fazer anotações (que são imediatamente sincronizadas com nosso computador principal), saber que horas são (o celular substituiu os relógios de pulso), ser notificados de eventos (o celular substituiu as agendas e os relógios despertadores),  ouvir música (ou rádio), tirar fotos (que são imediatamente enviadas para as redes sociais), baixar filmes e assistir a eles, etc.

O celular é a tecnologia digital símbolo da mobilidade.

Com tantos recursos, não é de surpreender que a maioria das escolas proíba seus alunos de usa-los dentro delas — ou mesmo de traze-los para dentro delas. Como disse atrás, os professores e as escolas são rápidos e eficientes para identificar seus inimigos… (Mas mais sobre isso adiante).

II. AS REDES SOCIAIS

Ontem no debate alguém disse (como Jesus um dia disse acerca dos pobres) que “as redes sociais sempre as tivemos conosco”. Sem dúvida. A família é uma rede social, a comunidade outra, e assim vai. O fenômeno que interessa aqui são as redes sociais possibilitadas e viabilizadas pela tecnologia digital, que nos permitem entrar em contato com pessoas de qualquer lugar do mundo e interagir, conversar, dialogar, discutir e colaborar com elas — além, naturalmente, de trocar informações, fotos, vídeos, etc.. Combinadas com as tecnologias digitais móveis, podemos fazer isso a partir de qualquer lugar e a qualquer hora…

O FaceBook disponível em um smartphone potente, como o iPhone ou seus concorrentes que usam Android ou Windows, é o símbolo desse tipo de rede social.

Novamente, não é de surpreender que a maior parte das escolas proíba seus alunos de usar o FaceBook dentro da escola a partir de seus celulares — que em regra também são proibidos. Nos computadores da escola disponíveis para os alunos o FaceBook não raro está bloqueado. Como disse antes, os professores e as escolas são fantásticos em sua capacidade de identificar seus inimigos…. (Ainda falarei mais sobre isso adiante).

III. A ESCOLA

O tema de debate era, em última instância, a educação. Parece-me não haver dúvida de que a mobilidade e as redes sociais são aliadas poderosas de alguns tipos de educação — como, por exemplo, dos vários tipos de educação não-formal, que têm lugar  fora da escola, através das interações diversas que mantemos uns com os outros. Mas não era esse tipo de educação que os organizadores do debate tinham em mente: eles estavam pensando na educação formal, isto é, na educação escolar — vale dizer, na escola. Por isso, nesta seção vou falar apenas dela.

Parece-me que, hoje, as pessoas, em geral, inclusive os professores, quando estão fora da escola, dão grande valor à mobilidade e à interação que as redes sociais viabilizam e facilitam.

Afinal de contas, no Brasil há mais telefones celulares do que gente. A mobilidade é uma das expressões da nossa liberdade. Mais do que isso: ela nos garante um espaço de liberdade totalmente nosso, próprio, privado… Por isso muita gente protege seus celulares com senhas complicadas e não gosta que os outros metam o bedelho neles. (Muitos gostam de, de vez em quando, vasculhar os celulares de seus namorados, amantes e cônjuges, para verificar se, na liberdade privada que os celulares lhes proporcionam, eles não violaram seus compromissos afetivos, um telefonema, um torpedo, um e-mail sendo o registro da indiscrição…).

No tocante às redes sociais, nada menos do que um bilhão de pessoas (ou seja, cerca de 15% dos habitantes do mundo) tem uma conta ativa em apenas numa delas, o FaceBook: isto é, mantêm ali um perfil e uma linha do tempo que são regularmente atualizados com informações, check-ins, fotos, vídeos, clips de vários tipos, relatórios de jantares e viagens, declarações de amor, etc. As redes sociais estendem e ampliam os limites do nosso mundo. Há gente que se apaixona por uma pessoa que encontrou no FaceBook, que mora do outro lado do mundo, e que, muitas vezes, tem uma língua materna totalmente diferente e uma cultura que… Deus me livre! (Peço desculpas aos multiculturalistas e outros relativistas…).

A escola, em contraste, simplesmente não gosta dos celulares (mobilidade) e do FaceBook (redes sociais). Por isso os proíbe dentro da escola, com pleno apoio dos professores. As razões para esse fato são muito simples e fáceis de compreender. Passo a resumi-las em seguida.

a) A Escola, a Mobilidade, e a Liberdade

A escola talvez seja, em nossa sociedade, a instituição menos sensível ao nosso deseja e à nossa necessidade (hoje imperiosos) de mobilidade — e menos sensível ao nosso desejo e à nossa necessidade de liberdade.

Primeiro, a escola é obrigatória numa faixa etária que cada vez se torna mais ampla. No início, a escola não era obrigatória. Depois ficou obrigatória dos sete aos dez anos. Depois, dos sete aos quatorze. Hoje, aqui no Brasil, dos seis aos quatorze. Há gente já lutando para que a obrigatoriedade se estenda dos seis aos dezessete, abrangendo todo o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. E há quem lute pela obrigatoriedade da Educação Infantil.

Além disso, o tempo de permanência diária na escola também tem aumentado. Quando eu frequentei a Escola Primária, no início da década de 50, eram três horas (das quais cerca de meia hora, no mínimo, se perdia com entrada, recreio e saída). Depois passou para quatro, para cinco… Há gente já lutando para que as crianças em idade escolar fiquem na escola nada menos do que o dia inteiro, em período integral — e que se reduza, na escola, o tempo que seria “desperdiçado”, isto é, ou passado fora da sala de aula ou, dentro da sala de aula, usado para qualquer outra coisa que não seja aula…

Mas isso não basta: há gente que acha que é preciso aumentar a quantidade dos dias letivos. Eles já foram 160, passaram para 180 e, depois, para 200, onde estão hoje… E há quem lute para que cheguem a 220, quem sabe 245 (para que a gente, segundo consta, ultrapasse o Japão…).

A escola está virando uma prisão com uma “sentença de doze anos” (título de um livro sobre a escola: The Twelve-Year Sentence) em que, diferentemente das prisões de regime aberto, as crianças só não vão dormir lá… E isso durante o período mais bonito de suas vidas, dos seis aos dezessete anos, em que elas estão no auge de sua energia, de sua curiosidade e de sua capacidade de aprender… Período em que poderiam estar fruindo a vida e, ao mesmo tempo,  aprendendo, fora da escola, uma enormidade de coisas que despertam sua curiosidade e o seu interesse e que lhes serão extremamente úteis no futuro!

E a escola acredita que os alunos, seus detentos, não têm absolutamente nada que contribuir para ela além de seus corpos e, espera ela, a atenção de suas mentes… Por isso não lhes dá nenhuma liberdade de decidir o que farão, uma vez dentro da escola, e o que aprenderão, durante seu tempo de confinamento…

A escola não admite nenhuma mobilidade e liberdade na aprendizagem de seus alunos. Se os alunos ficassem amarrados às carterias, com esparadrapo fechando suas bocas, muita escola acharia isso ótimo. (Muitos dirão que exagero aqui…). 

A escola determina que, para fazer o que ela quer que façamos e aprender o que ela deseja que aprendamos, saiamos de nossas casas, em horários às vezes madrugatícios, para ir até ela (da mesma forma que em 1950 tínhamos de sair de nossas casas para ir até a Central Telefônica para ligar para a avó), em horários rigidamente fixados (para alegria de muitos alunos, depois de dez minutos de atraso eles são proibidos de entrar). Quando o nosso tempo diário lá termina, somos colocados para fora (também para grande alívio dos alunos). Depois de passar um certo número de anos lá, também somos colocados para fora (graduamos ou somos jubilados, por exemplo).

Felizmente ninguém ainda inventou a moda de que, porque se admite, hoje, que a educação dura a vida inteira, a gente deva passar a vida inteira na escola…

E a escola não deixa os alunos, enquanto estão lá dentro, manter contato com o mundo exterior, com a vida que existe lá fora, através de seus celulares e das redes sociais.

b. A Escola, Estruturas Hierárquicas Piramidais e Redes Horizontais Flat

Se desconsiderarmos o Exército e a Igreja Católica, a escola (em especial a pública) talvez seja a estrutura organizacional mais hierárquica, numa forma piramidal, que temos no Brasil (quiçá no mundo): um ministro da Educação lá em cima; vinte e sete secretários estaduais da educação, um em cada unidade da Federação; diretores regionais (quase uma centena no Estado de São Paulo); diretores de escolas; professores. Paralelamente à cadeia de comando, propriamente dito, há órgãos ou pessoas com funções normativas ou de assessoria: um Conselho Nacional da Educação, vinte e sete Conselhos Estaduais da Educação, Conselhos Municipais da Educação (nem todos os municípios), e, dentro da escola, Coordenação Pedagógica (às vezes ramificada em várias).

Na sala de aula, o professor é a autoridade maior. Ali naquele pedaço do sistema ele manda.

Na extremidade, o aluno, que não apita nada sobre nada. Nem sobre que roupa ele usa para ir à escola nem sobre se pode ir ao banheiro da escola quando ele, digamos, está precisando (ou simplesmente querendo tomar um ar — num Congresso a gente muitas vezes sai da sala só para isso).

As redes são estruturas flat, achatadas, mais horizontais do que verticais. Embora uma rede social como o FaceBook tenha um comando, que define as características da rede e as normas para sua utilização, em princípio a participação na rede é livre: torna-se membro quem quer, e o membro escolhe ou aprova os seus contatos (chamados erroneamente de “amigos”) e interage com eles quando e como desejar. Há participantes que são muito seletivos em relação aos seus contatos, outros que são muito liberais, aceitando quase qualquer pessoa que queira participar de sua “rede pessoal de contatos”. Há participantes que postam muito e aqueles que raramente põe a cara na rede. Para cada postagem sua, você pode escolher quem vai recebe-la ou ve-la. Os relacionamentos são horizontais, não piramidais, não havendo cadeia de comando.

As redes sociais são, portanto, o oposto da escola, da mesma forma que a mobilidade também o é.

c. Enfim…

A mobilidade (através principalmente dos celulares) e as redes sociais (hoje usadas em boa parte através de celulares) estão aqui. Elas são nossa principal forma de contato com a tecnologia hoje em dia.

As escolas também estão aqui — e há bem mais tempo. Todos nós passamos por elas. Embora haja computadores (em geral desktops) na maior parte das escolas hoje, os celulares e as redes sociais ainda são em grande parte proibidos lá dentro.

É esse o quadro.

É bom que haja clareza sobre esse quadro: trata-se de uma batalha. Os professores e as escolas sabem disso. Sabem que, se a escola perder essa batalha, ela, apesar de sua ubiquidade, ficará com os dias contados. Pelo menos na forma em que hoje a conhecemos.

A maior parte dos professores e das escolas, embora saibam disso, não admitem publicamente que o sabem. Seu discurso público é de que é preciso admitir a tecnologia na escola “mas com calma e bom senso”. A virtude, dizem, está no meio: em deixar a tecnologia entrar na escola, mas no ritmo da escola e só até certo ponto, sendo direito e obrigação da escola regulamentar o seu uso para que ele não acabe por descaracterizar a escola.

Ana Teresa Ralston, ex-gerente de educação da Microsoft e diretora de tecnologia da Abril Educação, uma vez disse, numa discussão sobre tecnologia, redes sociais e a escola, que esta (a escola) tem uma estratégia terrivelmente eficiente: deixar que aquilo que inicialmente não é escola entre na escola, mas engolir o que é novo e diferente, digeri-lo, e regurgita-lo na forma de escola… Em outras palavras: a escola aparentemente não resiste, ela apenas domestica, remove as presas e as garras, amansa, torna o bicho inofensivo, incapaz de atacar…

Será que é disso que precisamos? De uma tecnologia domesticada e amansada? Ou será que precisamos de uma tecnologia que desafia e subverte, que sugere novos caminhos, que obriga a escola, esse resquício semi-fabril da Sociedade Industrial, a se reinventar?

IV. “HOW PEOPLE LEARN” (título de um livro: Como as Pessoas Aprendem)

A pressão cresce para que a sociedade como um todo se torne educativa em vez de simplesmente ampliar o raio de ação da escola: sociedade educativa e desescolarizada

Ivan Illich, em 1971, lançou o brado pela desescolarização da sociedade (Sociedade sem Escolas, talvez a maior crítica à institucionalização da educação em escolas) — em favor da ubiquidade de uma função educacional em todas a vida social…

Paulo Freire, amigo de Illich, nos alertou para o fato de que ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém é capaz de se educar sozinho: todos nós nos educamos uns aos outros, disse ele, através da interação, da conversa, do diálogo, da discussão, com a mediatização do mundo (não da escola).

Pesquisadores altamente credenciados pesquisam e nos dizem “como as pessoas aprendem”. Em seu livro How People Learn John Bransford, hoje da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos (que fica pertinho da Microsoft), nos mostra como crianças aprendem: não através do ensino, mas vendo os outros fazer coisas que lhes parecem interessantes, decidindo tentar fazer essas coisas, tentando, falhando, tentando de novo, recebendo apoio e ajuda, tentando de novo até conseguir, e, em alguns casos, até alcançar o nível de “alto desempenho” (high performance). “Ninguém educa ninguém”. Ninguém precisa nos ensinar a aprender (um contrassenso). Nascemos sabendo como aprender. E nascemos sabendo que precisamos dos outros para aprender. Mas não precisamos que nos ensinem: precisamos que nos ajudem, apoiem, instiguem, facilitem às vezes, problematizem outras vezes, que sejam nossos coaches, nossos mentores, quem sabe de vez em quando nossos conselheiros e orientadores… Mas a aprendizagem é nossa, bem nossa, só nossa, não podemos deixar que continuem tentando a rouba-la de nós.

Por que precisamos nos educar?

Precisamos nos educar porque (diferentemente de algumas outras espécies animais) nós, humanos, nascemos basicamente inacabados, incompletos, totalmente incapazes de fazer qualquer coisa, a não ser aprender… Se alguém não cuidar da gente, por algum tempo, não sobrevivemos. Enquanto cuidam de nós, nós cuidamos de aprender, com aqueles nos rodeiam.

Aprender não é assimilar ou absorver informações e conhecimentos que nos são repassados ou transmitidos pelas gerações mais velhas. Aprender é construir capacidades, tornar-se capaz de fazer coisas que antes não conseguíamos fazer. Aprender é, em outras palavras, desenvolver competências e habilidades – é nos desenvolver a nós mesmos, com a ajuda dos semelhantes.

E para que nos educamos?

Educamo-nos para que não nos tornemos parasitas permanentes, dependendo o tempo todo dos outros, sejam eles os pais, a família ou o governo. Educamo-nos para nos tornar, primeiro independentes, mas, em última instância, livremente interdependentes. Aprendemos para alcançar nossa realização (vale dizer, felicidade, ou eudaimonia, como diziam os gregos) como pessoas, como profissionais, como cidadãos.

O foco da educação é o futuro, não o passado.

Para saber o que precisamos aprender é preciso definir aonde queremos chegar com o nosso desenvolvimento. Essa definição, felizmente, não é necessariamente feita pela natureza (como no caso de algumas espécies animais) nem pelos outros (a menos que os deixemos fazer isso por nós): ela é feita em grande medida por nós. Cada um deve decidir por si próprio (o que não quer dizer que seja sem ajuda, apoio, orientação e aconselhamento) qual é o seu projeto de vida, o que quer fazer de sua vida, qual é o seu futuro…

A definição do que devemos aprender depende dessa decisão prévia. É verdade que há algumas competências e habilidades que, numa sociedade complexa e desenvolvida como a nossa, todos devem desenvolver: dominar a língua materna, em sua forma oral e escrita, comunicar-se efetivamente com os outros, argumentar, ser capaz de defender os próprios pontos de vista e as linhas de ação escolhidas e convencer os outros de que são, conforme o caso,  verdadeiros, bons, dignos, justos, belos, sustentáveis…

E é preciso reconhecer que somos diferentes uns dos outros. Por isso, devemos aprender coisas diferentes, e devemos aprende-las em ritmos e de maneiras diferentes…

A camisa de força da escola que quer que todos aprendam a mesma coisa, na mesma idade, do mesmo jeito, se um dia funcionou na era industrial em que os parâmetros eram a padronização e a massificação (padronizar para massificar), não vai mais funcionar numa sociedade em que as pessoas são livres, podem fazer o que querem, onde e quando quiserem, interagindo com seus semelhantes e respeitando seus iguais direitos. Hoje o foco é  a personalização da educação — e a tecnologia pode nos ajudar a alcançar escala nessa personalização (ou “customização”), sem precisar recorrer à padronização e à massificação.

Nesse quadro, ou a escola se reinventa, ou ela, sempre acostumada a devorar, digerir e domesticar os desafios, desta vez será engolida por eles. Da mesma forma que os tutores pessoais privados foram um dia por ela engolidos.

 

Em São Paulo, 23 de Novembro de 2012.

A Igreja como Comunidade Virtual dos Crentes (short)

Versão mais curta do artigo anterior, publicada na Revista Visão, da Catedral Evangélica de São Paulo (Primeira Igreja Presbiteriana Independente)

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Frequentamos a igreja, em regra, uma vez por semana, com vários objetivos: adorar a Deus, fortalecer a fé, aprender mais sobre a Bíblia, ter comunhão com os irmãos.

Vou me concentrar inicialmente na comunhão entre os irmãos.

A tecnologia atual nos permite ver a igreja como uma comunidade também virtual, sem limitações espaço-temporais. Nessa visão, a igreja (diferentemente do templo) deixa de ser um lugar físico que se frequenta uma vez por semana para se tornar a comunidade daqueles que comungam uma mesma fé e prática e consideram importante estar em comunhão uns com os outros.

A comunhão presencial que acontece na visita semanal ao templo é muito limitada: a igreja deveria estar presente na vida das crentes também nas horas que passam longe do templo. Na verdade, o tempo todo.

As tecnologias hoje disponíveis tornam isso possível.

Em seu livro The Church of Facebook Jesse Rice sugere que as tecnologias atuais estão abalando a ideia tradicional de comunidade. Hoje milhões de pessoas se conectam umas com as outras através das redes sociais, trocam informações, fazem amizades, cultivam relacionamentos, até mesmo se apaixonam, apoiam os que estão deprimidos, discutem, aprendem… As redes sociais nos permitem estar o tempo todo sintonizados com nossos amigos, acompanhando suas ações, compartilhando suas alegrias e tristezas… Elas tornam possível um nível de comunhão entre amigos inimaginável até há pouco tempo…

Irmãos na fé são mais do que amigos, não é mesmo?

Se Martin Buber estava minimamente certo ao dizer que Deus não está aqui ou ali, mas entre um e outro, a comunhão com o próximo é a principal forma de nos aproximarmos de Deus.

É possível também agregar ao virtual os demais objetivos da frequência ao templo, como, por exemplo, a adoração a Deus. Hoje, na Primeira Igreja, já temos irmãos que nunca vemos presencialmente: os que de longe assistem aos nossos cultos pela Internet. Eles poderiam se integrar a essa comunidade virtual de comunhão e, também, de adoração. Os muito idosos, os doentes, os presos ao leito ou à casa, poderiam também se sentir visitados diariamente pela presença envolvente da igreja…

Também a educação cristã se beneficiaria dessa igreja virtual. Numa comunidade assim poderíamos aprender, não tanto pela via do ensino e da instrução, mas, sim, pelo compartilhamento de ideias, do diálogo que nos faz crescer e propicia o nosso desenvolvimento como seres humanos, da discussão que aprofunda o nosso entendimento, porque nos permite compreender melhor o mundo, a vida, a nós mesmos, quiçá a Deus.

A igreja, assim redefinida, seria igualmente um ambiente de crescimento, se não na fé, em si, pelo menos na sua compreensão, na sua articulação com a vida diária, nas suas implicações para a conduta no trabalho, no lazer, na vida doméstica.

Quem sabe a criação, para a Primeira Igreja, de uma comunidade virtual seria um primeiro passo para o surgimento de uma igreja que transcenda os limites do centro histórico da cidade, e mesmo, pioneiramente, os da cidade em si, e se torne um ambiente amplo de comunhão, adoração e formação, 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Para que isso aconteça, não basta criar uma comunidade virtual num site da Internet. É preciso ver a participação no site como parte integrante de nossa vida cristã e ver a coordenação do site como um ministério da igreja — ou como uma outra plataforma em que os atuais ministérios podem desenvolver o seu trabalho. O acolhimento de novos membros, de visitantes, dos que assistem ao culto pela Internet, poderia ser feito também nesse espaço virtual. Ali também poderiam ser divulgadas notícias e informações acerca de eventos que acontecerão na igreja e fora dela, aniversários, casamentos, doenças, falecimentos, trabalhos dos diversos ministérios, sociedades e fundações da igreja, etc.

Por último, mas não menos importante, a comunidade virtual poderia ser um posto avançado de evangelização que leva em conta o fato de que as pessoas, hoje, passam cada vez mais tempo no espaço virtual.

(*) Eduardo Chaves, professor aposentado de Filosofia da UNICAMP, é, com sua mulher Paloma Machado, membro da Primeira Igreja.

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Escrito em 6 de Dezembro de 2011 e publicado aqui em 28 de Dezembro de 2011

A Igreja como Comunidade Virtual dos Crentes

Antes de entrar no assunto central deste artigo e começar a falar na igreja como comunidade virtual, vou falar rapidamente sobre a escola e a aprendizagem. Esse incursão na filosofia da educação servirá de introdução ao tema.

A escola é uma instituição social que todos conhecemos, no mínimo por termos passado por ela. Hoje em dia as pessoas são obrigadas a frequentar uma escola durante um determinado tempo (no Brasil, durante nove anos, período correspondente ao chamado Ensino Fundamental), na infância e adolescência (dos seis aos quatorze anos). Durante esse período de escolarização obrigatória, a frequência à escola é intensiva: pelo menos quatro a seis horas por dia, cinco dias por semana, ao longo de pelo menos duzentos dias por ano. Diversos instrumentos legais proíbem que crianças e adolescentes nessa faixa etária trabalhem, para que possam dedicar à escola sua atenção integral. No Brasil, várias iniciativas buscam fazer com que a frequência à escola obrigatória se dê em período integral (o dia inteiro) — e também se cogita de aumentar em dez por cento o número de dias letivos.

A obrigatoriedade da frequência à escola nessa faixa etária é hoje exigida em virtualmente todos os países desenvolvidos porque se concluiu, em algum momento, que o confinamento que ela impõe é propício para que as pessoas aprendam o mínimo indispensável para viver suas vidas (no plano pessoal, profissional e social) com certo nível de autonomia e competência. Na verdade, mesmo sem obrigatoriedade, alguns optam por continuar a frequentar a escola depois dos quatorze anos, por bem mais tempo (fazendo nela o Ensino Médio, o Ensino Superior, a Pós-Graduação, etc.).

O principal objetivo da frequência à escola é a construção da aprendizagem. No entanto, sabe-se que as pessoas podem e devem aprender, e de fato aprendem, ao longo de toda a vida, desde o nascimento (talvez até mesmo no útero materno) até a morte. Por causa disso, instituições como a UNESCO enfatizam hoje a importância do que chamam de “aprendizagem ao longo da vida toda” (lifelong learning) e “aprendizagem em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere learning“). Na verdade, reconhece-se que a maior parte das coisas importantes que aprendemos, nós as aprendemos fora da escola: no lar, na comunidade, na igreja, no trabalho, nos momentos de lazer. Hoje em dia, dada a evolução das tecnologias de informação e comunicação, a educação a distância, em que a aprendizagem é mediada pela tecnologia, está se tornando cada vez mais difundida. Por meio da tecnologia, podemos aprender o tempo todo, interagindo com outras pessoas (mesmo que elas estejam fisicamente distantes) e acedendo às informações de que precisamos para fazer o que queremos.

As propostas atuais de reinvenção da escola partem do pressuposto que a escola é muito mais do que um lugar físico que se frequenta por um tempo. A escola, reinventada, seria um ambiente de permanente e constante aprendizagem, que englobaria tanto o plano presencial como o plano virtual (neste caso, mediado pela tecnologia).

o O o

A igreja, como a escola, é uma instituição social. Nenhuma lei nos obriga a frequentar uma igreja por um determinado número de anos numa determinada fase de nossa vida. Mesmo assim, sem obrigatoriedade, muitos o fazem – pelo menos por umas duas horas, um dia por semana, em regra aos domingos, durante a vida toda.

O principal objetivo da frequência à escola é a aprendizagem. E o principal objetivo da frequência à igreja, qual é? Sem pretender elaborar uma listagem exaustiva, creio que podemos dizer que, neste caso, há vários objetivos: adoração a Deus, formação cristã, fortalecimento da fé, comunhão com os irmãos, etc.

Vou deixar de lado, por um momento, os três primeiros objetivos citados para me concentrar no quarto: comunhão entre os irmãos.

Se pensarmos sobre a igreja em termos análogos àqueles em que se vem pensando sobre a escola, poderíamos cogitar da reinvenção da igreja. Nessa visão, a igreja (diferentemente do templo) deixa de ser um lugar físico que se frequenta durante duas horas aos domingos e passa a ser a comunidade dos crentes, isto é, daqueles que comungam os aspectos centrais de uma determinada fé e prática e consideram importante viver em comunhão uns com os outros. Talvez seja mais ou menos isso que os teólogos de antigamente entendiam pela expressão “igreja invisível” (ecclesia invisibilis). Nessa linha, a comunhão que acontece numa visita semanal ao templo é muito limitada: a igreja (devidamente reinventada) precisaria estar presente na vida das pessoas durante a maior parte de suas vidas — isto é, também nas horas que elas passam longe do templo. Enfim, o tempo todo.

Isso quer dizer que, levando a ideia adiante, precisamos de algo não só semelhante a “lifelong churching” — isso, até certo ponto, já existe hoje — mas semelhante a comunhão em qualquer momento e em qualquer lugar (“anytime, anywhere, communion“). Isso hoje pode ser feito com o apoio das mesmas tecnologias que permitem a reinvenção da escola. As tecnologias de informação e comunicação hoje disponíveis viabilizam essa ideia.

Em seu livro The Church of Facebook: How the Hyperconnected are Redefining Community, Jesse Rice, da Igreja Presbiteriana de Menlo Park, CA, no coração do Vale do Silício, sugere que as tecnologias que revolucionaram a forma pela qual nos relacionamos uns com os outros e acedemos às informações de que precisamos para viver nossas vidas estão também provocando um abalo sísmico na nossa ideia de comunidade. Cada dia que passa milhões de pessoas se conectam umas com as outras através das redes sociais, trocam informações, fazem amizades, cultivam esses relacionamentos, até mesmo se apaixonam, apoiam os que estão deprimidos, aprendem… As redes sociais nos permitem estar o tempo todo sintonizados com nossos amigos, acompanhar suas ações, compartilhar suas alegrias e tristezas… Elas tornam possível um nível de comunhão entre amigos inimaginável até pouco tempo…

Irmãos na fé são mais do que amigos, não são?

o O o

Se Martin Buber estava minimamente certo ao dizer que Deus não está aqui ou ali, mas entre um e outro, a comunhão com o próximo é a principal forma de nos aproximarmos de Deus.

Na verdade, até aqui encarei apenas a função “comunhão com os irmãos” da frequência à igreja. Mas é possível agregar também as demais funções, como, por exemplo, a adoração a Deus. Hoje, na Catedral Evangélica, já temos irmãos que nunca vemos presencialmente: os que de longe assistem aos nossos cultos pela Internet. Eles poderiam se integrar a essa igreja reiventada, a essa comunidade virtual de comunhão e, também, de adoração. Os muito idosos, os doentes, os presos ao leito ou à casa, poderiam também se sentir visitados diariamente pela presença envolvente da igreja…

Como estou convicto de que (a) a educação é a principal forma de desenvolvimento humano; (b) a educação é fruto da aprendizagem, muito mais do que do ensino ou da instrução; e (c) a aprendizagem é, eminentemente, colaborativa, e, portanto, tem lugar na interação, no relacionamento, na comunhão… — como estou convicto disso sou forçado a reconhecer que a igreja, assim reinventada como comunidade virtual, teria, no fundo, também uma função fundamentalmente educativa (formativa). Mas ela seria educativa, não tanto pela via do ensino e da instrução, mas, sim, pela via do compartilhamento de ideias e até mesmo de dúvidas, do diálogo que nos faz crescer e propicia o nosso desenvolvimento como seres humanos, da discussão e do embate de ideias que aprofundam o nosso entendimento, porque nos permitem compreender melhor o mundo, a vida, a nós mesmos, quiçá a Deus.

Creio que uma das frases mais felizes de Paulo Freire, o mais conhecido dos educadores brasileiros, é: “Ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros, em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Pedagogia do Oprimido).

A igreja, assim redefinida e virtualizada, seria um ambiente também de crescimento, se não na fé, em si, pelo menos na sua compreensão, na sua articulação com a vida diária, nas suas implicações para a conduta no trabalho, no lazer, na vida doméstica.

Quem sabe a criação, para a Catedral Evangélica, de uma comunidade virtual (parecida com um site de relacionamento, como FaceBook) seria um primeiro passo para a criação de uma igreja que transcenda os limites do centro histórico da cidade, e mesmo da cidade em si, e se torne um ambiente de comunhão, adoração e formação, 24/7: 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Para que isso aconteça, não basta criar uma comunidade virtual num site da Internet. É preciso ver a participação no site como parte integrante de nossa vida cristã e ver a coordenação (ou animação) do site como um ministério da igreja — ou como uma outra plataforma (além da presencial) em que os atuais ministérios podem desenvolver o seu trabalho. O acolhimento de novos membros, de visitantes, dos que assistem ao culto pela Internet, poderia ser feito também nesse espaço virtual. Ali também poderiam ser divulgadas notícias e informações acerca de: eventos que acontecerão na própria igreja e fora dela (neste caso, palestras, concertos, cursos, etc.); aniversários, casamentos, doenças, falecimentos; trabalhos dos diversos ministérios, sociedades e fundações da igreja; campanhas (como a de assinatura de O Estandarte, recolhimento de mantimentos ou agasalhos, etc.); sugestão e venda de livros; etc. Além disso, pedidos de oração poderiam ser feitos ali, orientação e apoio pastoral também poderiam ser em parte fornecidos ali, com respostas ou orientações rápidas sobre questões levantadas pelos membros acerca de doutrina, exegese, hermenêutica, conduta, etc.

Por último, mas não menos importante, a comunidade virtual poderia ser um posto avançado de evangelização que leva em conta o fato de que as pessoas, hoje, passam cada vez mais tempo conectadas ao virtual.

(*) Eduardo Chaves, é Bacharel e Mestre em Teologia pelo Pittsburgh Theological Seminary, de Pittsburgh, PA, EUA, e Doutor em Filosofia pela University of Pittsburgh, da mesma cidade. Ele é professor aposentado da UNICAMP, onde lecionou filosofia da educação e filosofia política durante quase 33 anos, de 1974 a 2007. Ao mudar para São Paulo, em 2008, passou a frequentar a Primeira Igreja, da qual é membro desde 2010, com sua mulher Paloma Machado.

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Escrito em 14 de Novembro de 2011 e transcrito aqui em 28 de Dezembro de 2011

Tecnologia, Redes Sociais e Educação

Tecnologia, na minha forma de ver, é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar sua vida mais fácil ou mais agradável.

Ela inclui coisas tangíveis (hardware), como equipamentos, instrumentos e dispositivos diversos, e coisas intangíveis (software), como linguagens, sistemas numéricos, sistemas de notação (musical, por exemplo), métodos, procedimentos, princípios, regras de organização, etc.

Assim, a linguagem verbal, que inclui a fala e a escrita, é tecnologia. Comunidade, embora possa parecer estranho a alguns, também é tecnologia.

Olhando o desenvolvimento da espécie, houve época em que os seres humanos se comunicavam por gestos, expressões faciais e grunhidos (como outros animais), não pela linguagem verbal, que foi uma invenção que surgiu em tempo oportuno. Primeiro o ser humano inventou a linguagem oral – a fala; depois de muito tempo, a linguagem escrita – o texto. Até hoje, porém, há sociedades que ainda vivem numa cultura exclusivamente oral, desconhecendo a escrita.

Olhando a questão do ponto de vista do desenvolvimento do indivíduo, nascemos sem saber falar, ler e escrever. Aprendemos primeiro a falar e, depois de algum tempo, a ler e a escrever. Alguns indivíduos, entretanto, passam a vida inteira sem aprender a ler e a escrever.

Embora, hoje, possa parecer natural viver em ambientes comunitários (cidades, bairros, condomínios), a história nos mostra que houve época em que o ser humano vivia como nômade, vagando de lugar em lugar em pequenos bandos familiares, e vivendo da caça, da pesca ou de árvores frutíferas, onde as encontrassem, não em comunidades semelhantes às que temos hoje, sedentárias, com divisão de trabalho, mercado para a troca de bens e serviços produzidos por cada um, forma própria de organização e governo, etc. Estas só foram inventadas a partir de determinado momento na evolução da espécie humana.

No nível macro, as comunidades de tipo mais genérico, criadas para atender aos vários interesses comuns ou afins de pessoas que não são ligadas por laços de sangue, custaram para aparecer.

No nível micro, levou mais tempo ainda para que os seres humanos inventassem comunidades de finalidade específica – como, por exemplo, as de aprendizagem (tanto as comunidades de artesãos e aprendizes como as chamadas em Inglês de communities of scholars).

Mas o que tudo isso tem que ver com a educação? Tem bastante.

Por muito tempo, a fala e a comunidade (em especial a comunidade familiar estendida) foram as principais tecnologias usadas na educação. Antes da invenção da escrita alfabética e da consequente invenção do texto, educava-se em família, com as pessoas vivendo juntas, conversando, explicando, mostrando como fazer as coisas.

Fora do âmbito familiar, Sócrates, que considero o maior educador que tivemos, usava apenas a fala como tecnologia no seu processo pedagógico focado no diálogo. Dispensava até mesmo a comunidade. Seus alunos vinham a ele individualmente e ele lidava com eles de forma personalizada, um a um. Apenas conversava com eles.

Pelo menos três características do método socrático são importantes aqui. Primeiro, Sócrates educava na praça – no lugar em que as pessoas viviam, não em um local separado, segregado da vida do dia a dia. Segundo, a conversa era centrada nos interesses dos seus interlocutores: não era pautada pelos interesses do mestre. Terceiro, os alunos tinham participação ativa no processo. Podemos dizer (usando conceitos atuais) que, com Sócrates, temos uma educação inserida na vida real, personalizada, centrada nos interesses dos alunos e focada na sua aprendizagem ativa e interativa.

É curioso (e até certo ponto triste) que não tenha ocorrido a Sócrates criar uma comunidade de alunos interessados nas mesmas coisas e questões para que eles se beneficiassem não só da interação com ele, o mestre-parteira, que os ajudava a dar à luz suas próprias ideias, mas também do diálogo uns com os outros – ou seja, da aprendizagem colaborativa. Tanto quanto sabemos, Sócrates nunca criou uma comunidade de aprendizagem, como uma escola…

É também curioso que Sócrates tenha optado por não usar, e mesmo rejeitar, os recém-aparecidos textos (livros manuscritos) na educação de seus discípulos. Na verdade, criticou uso do texto como tecnologia educacional: ele não traz nenhum benefício e prejudica a aprendizagem, enfraquecendo a memória e substituindo o diálogo…

É verdade que, logo depois de Sócrates, e sob a liderança de discípulos seus, apareceram liceus e academias, ou seja, escolas mais ou menos parecidas com as que hoje temos. Isso indica que, a partir dessa data, comunidades específicas de aprendizagem, compostas de pessoas com interesses de aprendizagem comuns ou afins, apareceram no cenário educacional. Essas comunidades de aprendizagem fizeram uso bastante eficaz da tecnologia da fala.

No período pós-socrático, e por muito tempo depois, a educação fez uso quase que exclusivamente das tecnologias da comunidade e da fala. No entanto, porque houve necessidade de racionalizar ou otimizar o processo, um mestre passou a se ocupar de vários alunos – e, com isso, perderam-se algumas características importantes da pedagogia socrática: a personalização, o foco no aluno e nos seus interesses, o diálogo… E a educação saiu da praça e passou a ter lugar dentro da escola, perdendo contato com a vida real.

Dessa forma, gradativamente, processos vitais e processos cognitivos foram se distanciando, a educação foi se despersonalizando, o foco foi se transferindo do aluno e seus interesses para o professor, seus interesses e especialidades, e a aula, unidirecional, não dialógica ou “discutitiva”, passou a ser a metodologia favorita, em lugar do questionamento dialógico (ou do diálogo questionador) de Sócrates. E, assim, os alunos deixaram de dar à luz as próprias ideias para adotar as ideias dos mestres…

De Sócrates até a invenção da prensa de tipo móvel, no século XV da era cristã, o texto foi muito pouco usado na educação. Livros manuscritos existiam, mas eram poucos e, por isso, tão preciosos que ficavam trancados (até mesmo acorrentados) em bem guardadas bibliotecas (vide O Nome da Rosa). Quase não eram usados na educação.

Com o aparecimento do livro impresso, a partir de 1455, isso mudou, e o uso do texto se disseminou rapidamente, o livro passando, gradualmente, a competir com a fala pela condição de principal tecnologia utilizada na educação. Mas a comunidade continuou a ocupar um papel totalmente secundário. Os dois, o livro e a fala, encontraram uma forma pacífica de convivência.

Com o livro impresso surgiu (a partir da Reforma Protestante) a escola moderna, organizada em torno de um currículo definido por uma autoridade central, com os professores ocupando o papel de protagonistas no palco principal. A vida escolar dos alunos passou a ser totalmente regimentada, com pouca ou nenhuma liberdade. Seu ofício passou a ser ficarem quietos, prestar atenção ao que dizia o professor, anotar os pontos relevantes e fazer, no tempo livre, até mesmo em casa, as leituras exigidas ou recomendadas pelo professor.

Mais ou menos três séculos depois surgiu a escola pública, de massa, controlada pelo Estado, que adotou o mesmo modelo.

A escola moderna é, certamente, uma comunidade de aprendizagem. No entanto, a comunidade existente na escola moderna é, em grande parte, criada por imposição, não pela união de interesses comuns e afins. Nela, o protagonismo estudantil, a personalização da educação e o método dialógico, que imperaram sob Sócrates, se perderam totalmente, e o modelo de educação se consolidou.

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) digitais, centradas inicialmente no acesso à informação escrita, e, logo depois, na comunicação um-para-muitos (o Telecurso, o Ensino a Distância, o site na Web, etc.), se prestaram muito bem, num primeiro momento, a reforçar o paradigma educacional da escola moderna, centrado na transmissão de informações de um (o mestre) para muitos (os alunos). Elas foram usadas para dar suporte e sustentação para esse modelo tradicional, bem como para estendê-lo cuidadosamente.

O computador, o projetor multimídia, o telão, a lousa eletrônica e até mesmo a Internet (especialmente a Web) reforçaram o modelo, dando-lhe maior eficiência. A comunicação continuava a ser de um para muitos.

O Ensino à Distância permitiu que o alcance do modelo fosse ampliado, levando ao aparecimento de telecursos, teleaulas, ensino virtual, etc. – atividades que, exceto pela distância, eram bastante semelhantes às aulas presenciais.

Mas, um dia, surgiram as redes sociais, das quais Facebook é o exemplo mais completo.

Ainda não sabemos, com precisão, como as redes sociais vão afetar a educação. O estabelecimento escolar tem resistido a elas, e (de sua perspectiva) com boa razão, porque elas representam uma ameaça significativa ao paradigma educacional vigente.

Vejamos por quê.

a) A rede social é uma ampla comunidade genérica que permite a criação de inúmeras comunidades específicas de pessoas com interesses comuns ou afins.

b) As comunidades específicas são criadas pelos próprios usuários a partir de seus interesses e os demais usuários agregam-se a comunidades de terceiros também conforme os seus interesses.

c) Na rede social, mesmo quando comunidades específicas são criadas para servir os objetivos de instituições, a comunicação rapidamente se torna muitos-para-muitos.

d) A rede social já incorporou a tecnologia do texto, da imagem, do vídeo, do e-mail, da mensagem instantânea, e muito em breve incorporará a tecnologia da fala.

e) Na rede social o texto é usado não só para a comunicação interpessoal (substituindo a fala, enquanto esta não está disponível) como também para a publicação ou republicação de textos, fato que faz das redes sociais não só redes de pessoas, mas, também, verdadeiras mídias sociais.

f) Os textos publicados na rede social em geral são curtos (nunca um livro, nem mesmo um ensaio), objetivos, relevantes e pertinentes ao foco de uma comunidade específica e geram imediata repercussão e discussão.

g) Consequentemente, a rede social é um ambiente extremamente adequado para uma educação personalizada, ativa, interativa, colaborativa, pautada pelos interesses dos participantes, em que, nas palavras de Paulo Freire, ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho, mas todos se educam uns aos outros, em diálogo e comunhão.

É apenas questão de tempo para que o paradigma mude. O processo de sua subversão está em curso. Sócrates, o subversor por natureza, se visse o que está acontecendo, daria pulos de alegria.

Em São Paulo, 10 de Março de 2011

Originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione, http://aticascipione.comunidadespraticas.com.br/eu-amo-educar/tecnologia-redes-sociais-e-educacao/