Elucubrações Perigosas…

Há 15 anos escrevi um artigo com o título “How Far Can a Doctrine Change Without Becoming Something Else?”. Esse artigo, que foi publicado nos Proceedings of the Second Assembly of World Religions [Anais da Segunda Assembléia de Religiões Mundiais], Los Angeles, EUA, 1990), está disponível aqui no blog no URL http://liberalspace.net/2014/05/26/how-far-can-a-doctrine-change-before-becoming-something-else/.

Quase 80 anos antes, em 1923 J. Gresham Machen, na época professor do Seminário Teológico de Princeton, escreveu um livro chamado Christianity and Liberalism em que argumentava que o Liberalismo Teológico (contra o qual ele se batia) tinha ultrapassado o limite (ao qual, muito tempo depois, eu fiz referência): o Liberalismo havia se tornado “something else” — não era mais Cristianismo, era uma outra religião: uma religião imanentista, sem o sobrenatural; secular, sem o sagrado; focada na ética de Jesus, na regra áurea, na visão de que “o céu é um lugar aqui na Terra” e que, portanto, o Reino dos Céus não será nada mais do que a Terra transformada (por nós, naturalmente).

Quando escrevi o artigo em 1990 não havia lido o livro de Machen ainda (embora já houvesse escrito sobre Machen). Hoje, quando já o li e reli, sinto uma semelhança enorme entre o que ele diz e a resposta que tentei dar à pergunta que fiz no título do meu artigo. Foi a consciência de que o “How Far” tem um limite, e que esse limite pode ser ultrapassado, e muitas vezes é, que me fez concluir, por volta de 1970, quando desisti de ser pastor (teria de ser ordenado naquela época), que Bultmann (inter alia: muitos outros com ele) havia ultrapassado esse limite, e que eu poderia até continuar sendo bultmanniano, mas não seria mais cristão… Ergo… devo procurar outra coisa para fazer. Como ser teólogo, em vez de pastor… (embora eu soubesse, da história que escrevi no seminário sobre o movimento Fundamentalista, que teólogos também podem perder o emprego por heresia).

A triste conclusão dessa linha de pensamento é que, ou se é conservador ou ortodoxo, ou, então, rapidamente se deixa de ser cristão para adotar uma “religião secular”, que hoje se manifesta, entre os evangélicos, como “religião de auto-ajuda”, “religião da prosperidade”, etc. No extremo, a “esquerda teológica”, a teologia da libertação et alia deixaram de ser alternativas cristãs para se tornar outras religiões, seculares, políticas, em alguns casos (não todos) revolucionária. O mesmo vale (no meu entender) para teologias feministas, teologias negras, marrons, amarelas, vermelhas, etc.

Ainda bem (para ele) que Machen morreu (cedo) antes de ver que o Liberalismo Teológico contra o qual ele se bateu tão corajosa e valentemente, e perdeu (pois teve de sair da igreja e do Seminário que ele amava — fato que lhe causou uma morte prematura, provavelmente por desgosto), era uma versão muito “light and soft” de algo que hoje se tornou “heavy and hard”.

O que me impediu de continuar liberal foi honestidade intelectual, de um certo tipo: a convicção de que isto não é aquilo, de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, e que não se deve fazer de conta que uma coisa é a outra.

O que me impediu de me reconhecer fundamentalista ou conservador também foi honestidade intelectual, só que de outro tipo. Minha capacidade de pensar e refletir (aparentemente dada por quem me “projetou” (designed) assim) me impediu de reconhecer que a maior parte do que eles, fundamentalistas e mesmo conservadores, defendiam e continuam a defender era verdade (embora a hermenêutica deles seja mais honesta do que a dos liberais).

Será que há um “tertium quid”? Será que o “tertium quid” está em um Cristianismo não doutrinário? Ou será que isso já é Liberalismo?

Em São Paulo, 17 de Agosto de 2015

Billy Graham: Homem de Visão

Como parte de meu curso sobre História da Igreja Contemporânea (Século 20 e 21) estou estudando o Movimento (Neo-)Evangélico – pelo qual Billy Graham é um dos grandes responsáveis. Comprei duas autobiografias dele, várias biografias e vários livros sobre o seu trabalho.

Lendo, ontem à noite, uma das biografias de Billy Graham, deparei-me com um relato acerca do chamado “Pacto de Modesto” (por causa da cidade de Modesto, CA, onde foi feito), firmado entre ele e os principais membros de sua equipe por volta de 1948-1949 —  antes, portanto, de ele alcançar mega-sucesso. A Cruzada de Los Angeles em 1949, que o projetou nacionalmente, ainda não havia acontecido. Billy Graham reuniu sua equipe e passou vários dias estudando a história do movimento evangelístico e, especialmente, as razões por que grandes evangelistas, depois de alcançar grande sucesso, com frequência falharam e terminaram suas carreiras em fracasso. Eles elaboraram uma lista de quatro grandes “pitfalls” — perigos, ameaças — que vale a pena conhecer:

1) Mau uso de recursos financeiros

2) Escândalo sexual ou comportamento sexual impróprio

3) Exagero na divulgação das conquistas e realizações

4) Indisposição com outros pastores e com as igrejas estabelecidas

Nesse mesmo encontro de Modesto eles decidiram o que deveriam fazer para não sucumbir a esses riscos. As providências foram as seguintes:

1) Na área financeira,

A) Adotar a norma de total transparência: ninguém, na organização, poderia receber receitas não declaradas e contabilizadas ou fazer despesas não autorizadas coletivamente e do conhecimento de todos os membros sêniores da equipe

B) Contratar auditores externos para examinar, entre outras coisas, normalmente examinadas, a aplicação rigorosa do item A.

2) Na área de contato com o sexo oposto, nunca receber, viajar ou tomar refeições sozinho com alguém do sexo oposto (exceto no caso de parentes próximos).

3) Na área de exagero acerca das realizações, contratar uma empresa externa para coletar, trabalhar e divulgar as estatísticas do trabalho, realizar a contagem (ainda que estimativa) do número de pessoas presentes em cada evento, do número de pessoas que responderam ao apelo, e registrar a presença de celebridades e pessoas importantes, não cabendo à organização do próprio Billy Graham realizar nenhuma dessas atividades.

4) Na área de conflito com outras denominações e igrejas ou líderes religiosos, tomar todas as providências possíveis para não concorrer com outras igrejas e não entrar em conflito com outros líderes religiosos, promovendo os eventos em horas que não conflitavam com eventos regulares de outras igrejas, esclarecer que as Crusadas não tinham igrejas próprias e não estavam associadas com nenhuma igreja estabelecida, sendo adenominacional ou transdenominacional, recomendar explicitamente aos presentes nos eventos que, depois de concluído o culto, aqueles que houvessem se decidido seguir o Cristianismo procurassem uma igreja de sua escolha, não criticar as denominações ou igrejas estabelecidas, etc. 

Tanto quanto se sabe, ao longo dos seus 60 anos de ministério (de 1945 a 2005, quando se aposentou), Billy Graham nunca se afastou um milímetro desses princípios e cuidou para que ninguém em sua organização o fizesse. Em Los Angeles, em 1949, apesar da demanda, a Crusada não tinha encontros nos domingos de manhã e, à noite, só tinha um evento depois das 20h30, quando nenhuma igreja estava reunida.]

O que me surpreende é que, tão jovem, quando tinha apenas cerca de 30 anos, Billy Graham tenha conseguido perceber com tanta clareza quais haviam sido, e continuariam a ser, as grandes armadilhas no caminho de um grande evangelista. Isso explica a sua reputação acima de qualquer suspeita ao alcançar seus 96 anos de vida (97, no dia 7 de Novembro, Deo volente). 

Em São Paulo, 9 de Agosto de 2015

Ainda o Casamento Gay (agora a propósito da decisão da Suprema Corte americana)

Comento abaixo um artigo escrito por John MacArthur (que eu não conheço), com o título “Uma carta aberta aos pastores sobre o casamento gay nos EUA”. Encontrei o artigo postado no Facebook via José André (meu amigo de longa data, presbítero da Igreja Presbiteriana de Santo André, na qual cresci), que o retirou (já traduzido por uma instituição chamada “Olhai e Vivei”) do Blog “Bereianos – Apologética Cristã Reformada” disponível no seguinte endereço: http://bereianos.blogspot.com/2015/06/uma-carta-aberta-aos-pastores-sobre-o.html#.VZKiXGDIie4. O blog aparentemente o retirou da Revista Monergista. O local original de publicação em Inglês foi uma fonte chamada “The Master’s Seminary”. Não conferi nada disso: as informações estão contidas no blog.

Como digo abaixo, não concordo com quase nada que diz o artigo, que passo a transcrever, para a seguir colocar meus comentários (que também coloquei no blog e no Facebook).

[Início do artigo original traduzido]

A Suprema Corte neste país [EUA] promulgou seu julgamento. As manchetes informam que um pouco mais da metade dos juízes da Suprema Corte consideram a liberdade de orientação sexual, um direito para todos os americanos. Esta troca de valores não aparece como uma surpresa para nós. Já sabemos que o deus deste século cega as mentes daqueles que não acreditam (2 Cor. 4:4). O dia 26 de junho de 2015 fica como um marco americano de demonstração desta antiga realidade.

Nos próximos dias, irão esperar de você, como um pastor, que forneça comentários sensatos e conforto para o seu rebanho. Este é um momento crítico para os pastores, e surge como um lembrete de que uma formação adequada é crucial para um pastor. Estou escrevendo esta mensagem curta como de um pastor para outro. Os meios de comunicação estão cheios de atualizações, e eu não preciso juntar a minha voz nessa briga. Em vez disso, eu quero ajudá-lo a pastorear sua igreja nesse momento confuso. Além dos artigos úteis no blog Preaching and Preachers, eu também quero transmitir os pensamentos abaixo que, creio eu, vão ajudar a enquadrar a questão de uma maneira bíblica.

1 – Nenhum tribunal humano tem a autoridade de redefinir o casamento, e o veredicto de ontem não muda a realidade do casamento que foi ordenado por Deus. Deus não foi derrotado nesta decisão, e todos os casamentos serão julgados de acordo com fundamentos bíblicos no Ultimo Dia. Nada irá prevalecer contra Ele (Provérbios 21:30) e nada vai impedir o avanço de Seu Reino (Dan 4:35).

2 – A Palavra de Deus pronunciou seu julgamento sobre toda nação que redefiniu o mal como o bem, a escuridão como a luz, e o amargo como o doce (Isaías 5:20). Como uma nação, os EUA continuam a colocar-se na mira do julgamento. Como proclamador da verdade, você é responsável por nunca comprometer estas questões. De todas as maneiras, você deve se manter firme.

3 – Esta decisão prova que estamos claramente em minoria, e que somos um povo separado (1 Pedro 2: 9-11; Tito 2:14). Como escrevi no livro “Why Government Can’t Save You”, as normas que moldaram a cultura ocidental e a sociedade americana deram lugar ao ateísmo prático e ao relativismo moral. Esta decisão simplesmente acelerou a taxa de declínio dos mesmos. A moralidade de um país nunca vai ser mais alta que a moralidade de seus cidadãos, e sabemos que a maioria dos americanos não têm uma cosmovisão bíblica.

4 – A liberdade religiosa não é prometida na Bíblia. Na América, a Igreja de Jesus Cristo tem desfrutado de uma liberdade sem precedentes. Isso está mudando, e a nova norma pode, na verdade, incluir a perseguição (o que será algo novo para nós). Nunca houve um momento mais importante para homens talentosos ajudarem a liderar a igreja ao lidar, de forma competente, com a espada do Espírito (Efésios 6:17).

5 – O casamento não é o campo de batalha final, e os nossos inimigos não são os homens e mulheres que procuram destruí-lo (2 Coríntios 10:4). O campo de batalha é o Evangelho. Tenha cuidado para não substituir a paciência, o amor e a oração por amargura, ódio, e política. A medida que você guiar cuidadosamente seu rebanho afastando-o das armadilhas perigosas que aparecem à frente, lembre-os do imenso poder do perdão por meio da cruz de Cristo.

6 – Romanos 1 identifica claramente a evidência da ira de Deus sobre uma nação: a imoralidade sexual seguida da imoralidade homossexual culminando em uma disposição mental reprovável. Esta etapa mais recente nos lembra que a ira de Deus veio na íntegra. Vemos agora mentes reprováveis em todos os níveis de liderança – no Supremo Tribunal Federal, na Presidência, nos gabinetes, na legislatura, na imprensa e cultura. Se o diagnóstico da nossa sociedade está de acordo com Romanos 1, então, também devemos seguir a receita encontrada em Romanos 1 – não devemos nos envergonhar do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação! Neste dia, é nosso dever divino fortalecer a igreja, as famílias, e testemunhar o evangelho ao tirar os absurdos pragmáticos que distraem a igreja de sua missão ordenada por Deus. Homossexuais (como todos os outros pecadores) necessitam ser avisados do juízo eterno iminente e precisam ter o perdão, a graça e a nova vida, amorosamente oferecidos através do arrependimento e da fé no Senhor Jesus Cristo.

Em última análise, a maior contribuição ao seu povo será a de mostrar paciência e uma confiança inabalável na soberania de Deus, no Senhorio de Jesus Cristo, e na autoridade das Escrituras. Mire seus olhos no Salvador, e lembre-os de que quando Ele voltar, tudo será corrigido.

Estamos orando para que você proclame firmemente a verdade, e que se posicione de maneira inabalável em Cristo.

[Final do artigo original transcrito]

Com todo o respeito, discordo de basicamente tudo. Os Estados Unidos da América, enquanto entidade política, não são um país religioso, muito menos cristão. São um país em que a religião é separada do estado, que, assim, só pode ser entendido como laico ou não religioso.

O que acabou de acontecer na Suprema Corte americana foi uma decisão jurídica que afirmou a validade, em todo o território nacional, de contratos de união civil (normalmente chamados de “casamentos civis”) entre duas pessoas não casadas de qualquer sexo (ou gênero, se preferem) — e, acrescente-se, raça, cor, nacionalidade, religião, preferência política, etc. No momento, era apenas o primeiro desses quesitos que estava em jogo — sexo ou gênero. Mas já houve época em que casamento civil interracial era banido. Provavelmente, num futuro não muito distante, o estado vai liberar casamento entre mais de duas pessoas (a chamada união poliafetiva ou poliamorosa, antigamente chamada de poligamia).

Não há nada antirreligioso nessas decisões, como não havia na decisão concernente ao divórcio — embora os católicos e os evangélicos conservadores também tenham protestado. O estado está regulando contratos de união civil entre duas (e oportunamente mais de duas) pessoas não casadas (e oportunamente já casadas — nada havendo que impeça uma pessoa de ter múltiplas uniões civis). Não se está desafiando Deus, ou a Bíblia. Não nos esqueçamos de que os Patriarcas da Fé do Velho Testamento, Abraão, Isaque e Jacó, eram todos “poliamorosos” ou polígamos — e alguns heróis do Velho Testamento chegaram até mesmo a ter conjunções carnais, como diz o pessoal do direito, incestuosas).

Cada igreja ou cada grupo social tem total liberdade de definir um casamento mais significativo ou profundo ou espiritual ou carregado de valores do que o civil da forma que quiser. Pode decidir que ele será exclusivamente hétero e entre apenas duas pessoas (necessária e comprovadamente virgens, se preferem), durará para sempre, não podendo ser desfeito (mesmo que um dos envolvidos, ou os dois, estejam sofrendo de forma desesperadora por causa desse casamento por causa de violência mental ou física, ou manipulação invasiva dos seus direitos por parte do outro cônjuge).

Num estado laico não faz sentido que evangélicos, católicos e judeus — para não falar nos maometanos — tentem impor seus valores religiosos em todo mundo. Imaginem que os judeus ortodoxos resolvam que um homem só pode casar se for circuncidado. Vocês acham justos que o estado adote esse ponto de vista religioso e obrigue todo humano masculino a se circuncidar? Não faz sentido, não é verdade? Também não faz sentido querer que duas pessoas, para se casar e viver em família, tenham de ser de sexos ou gêneros diferentes.

Por fim, já faz muito tempo que a finalidade principal do casamento civil não é a procriação, mas, sim, a parceria, o companheirismo, o apoio mútuo, etc. Erra, portanto, e fundamentalmente, demonstrando uma imperdoável pobreza de espírito, Hélio Schwartsman, na Folha de hoje (30/6/2015), quando afirma que “O casamento, vale lembrar, é um mecanismo através do qual o indivíduo pede ao Estado licença para manter relações sexuais com outra pessoa.” Nem de longe. Relações sexuais regulares fazem parte do casamento da maioria das pessoas — mas não de todas. Mas estão longe de ser a única razão para o casamento — em especial numa sociedade liberada como a nossa, em que a maior parte das pessoas começa a ter relações sexuais bem antes de se casar (sem pedir para ninguém, muito menos para o governo), em muitos casos mantém relações sexuais extraconjugais, e, findo o casamento, continua a ter uma vida sexual regular e normal (em alguns casos, até em asilos de idosos).

Em Cortland, 30 de Junho de 2015.

As Igrejas, o Casamento e a União Civil

TESE: AS IGREJAS DEVERIAM TIRAR O CASAMENTO, PROPRIAMENTE DITO, DAS MÃOS DO ESTADO, DEIXANDO-LHE APENAS COM A UNIÃO CIVIL  — EM VEZ DE TENTAR IMPOR A SUA VISÃO DO CASAMENTO AO ESTADO.

Tenho escrito bastante — basta olhar neste meu blog (http://liberal.space) sobre a reação dos evangélicos ao chamado “casamento gay” (e outras variantes de “casamento” que vêm por aí, como a bigamia, a poligamia (disfarçada de poliamorismo), etc.

Encontrei agora há pouco um artigo recente de Roger E. Olson, grande teólogo arminiano, com quem tenho mantido contato nos últimos tempos. O link para o artigo segue abaixo. Vale a pena ler. Mas como o artigo está em Inglês, faço um resumo em minhas palavras do que me parece ser essencial nele.

O que Olson propõe, basicamente, é que as igrejas evangélicas, em vez de se sentirem acuadas pelo estado, reagindo de forma irracional e tentando obrigar o estado a adotar seus valores e suas práticas, deveriam tomar a iniciativa e anunciar aos quatro ventos (cada uma delas — se conseguissem fazer isso mais ou menos de maneira “sinfónica” seria ainda melhor) o seguinte:

A lei da maioria dos países ocidentais é construída em cima do princípio da separação entre igreja e estado. É por isso que o estado não se mete, por exemplo, com a questão de quem pode ser ordenado pastor / padre, bispo, etc. Essa é uma questão puramente eclesiástica, que cada igreja decide por si — sem que seja necessário que as igrejas estejam de acordo exceto na questão de que essa é uma questão que diz respeito exclusivamente a elas. Elas também decidem se devem “desordenar” alguém e como — ou se, uma vez ordenado, a pessoa recebe uma característica indelével. Decidem se podem ordenar mulheres, gays, etc. O estado não tem nada que ver com isso.

De agora em diante, casamento, propriamente dito, seria uma questão puramente eclesiástica, deveriam anunciar as igrejas. O que estado regulamenta e celebra não é, de forma alguma, casamento, mas apenas um contrato, que podemos, daqui para frente, chamar simplesmente de união civil (seguindo a prática que já se adota).

De agora em diante, se alguém diz “eu sou casado”, a implicação lógica seria de que é casado em alguma igreja segundo suas regras — e não teria nada que ver se a pessoa tem ou não uma união civil — ou várias — perante o estado.

Cada igreja (como faz com a ordenação de seu clero) decide quem pode casar e em que circunstâncias, se um com um ou um com muitos, se pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo, etc. Decide também se, uma vez casados, podem se descasar, e, caso isso seja admitido, se os descasados podem recasar.

Para casar, as igrejas não devem exigir que os “nubentes” tenham antes celebrado uma união civil perante estado. Podem te-lo feito como podem não o fazer. Trata-se de procedimentos distintos. Quem se casa (evidentemente na igreja) pode ou não celebrar também uma união civil para ser titular de algum benefício que exija a união civil como pré-condição (ser beneficiário de uma pensão civil ou militar, por exemplo). Para as igrejas não faria diferença se quem quer se casar (nela, evidentemente) já é unido civilmente com outro(a/s) perante o estado.

É isso. Leiam o artigo. Vale a pena, se você ficou interessado com este “appetizer”.

http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2015/06/some-thoughts-and-a-proposal-about-the-religion-and-marriage-issue/

Em Salto, 5 de Junho de 2015

No dia seguinte Olson publicou um “addendum” ao seu artigo do dia anterior. Ele pode ser lido aqui:

http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2015/06/follow-up-to-my-post-about-marriage/

Em São Paulo, 6 de Junho de 2015

O Estado do Bem Estar Social, da Virtude e da Moralidade é uma Quimera – diz Santo Agostinho

Comecei a reler ontem à noite um livro que li pela primeira vez em 1968 e que comprei em 1973. O livro havia sido publicado dez anos antes pela Columbia University Press. Trata-se de The Political and Social Ideas de St. Augustine, de Herbert A. Deane.

Lembro-me de o livro ter-me impressionado quando o li pela primeira vez, como leitura para um Seminário sobre as Ideias Políticas, Sociais e Econômicas de Calvino, recomendada pelo meu querido mestre de História da Igreja na Idade Média e na Reforma, Ford Lewis Battles (o tradutor da edição mais conceituada das Institutas de Calvino, a publicada pela Library of Christian Classics). Na ocasião Battles observou que as ideias politicas de Calvino, em especial sua visão do papel do Estado, eram bastante realistas, muito longe do utópico ou mesmo do idealista. Disse Battles nessa ocasião que Calvino, nesse respeito, havia sido influenciado por Agostinho — e foi nesse contexto que recomendou a leitura do livro de Deane, que li em cópia encontrada na Biblioteca do Seminário. Battles salientou ainda que, talvez exagerando um pouco, Calvino, como Agostinho, via o Estado de forma negativa, como um mal necessário. Foi nessa aula que ouvi pela primeira vez a afirmação de que Agostinho via o estado como nada mais do que um bando de ladrões. Battles observou por fim que Agostinho e Calvino, em termos de visão do Estado, estavam no grupo de filósofos políticos realistas, entre os quais se encontrava também Maquiavel.

Isso tudo me ficou na cabeça e, cinco anos depois, quando trabalhava no Claremont College, em Claremont, CA, encontrei o livro de Deane numa livraria e o comprei e reli, por estar dando um curso de Filosofia Política na ocasião. Sei que o reli porque a cópia que comprei em Agosto de 1973, um mês antes de começar meu curso, está toda rabiscada e anotada por mim.

Mas voltemos ao presente, passados 42 anos da segunda leitura e 47 da primeira. Nesse ínterim aprendi bastante Filosofia Política, em especial em combate com a esquerda e em defesa do Liberalismo Clássico de feição Smithiana e Randiana. A terceira leitura de Deane me surpreendeu já na Introdução. Ali Deane faz um breve apanhado da História do Pensamento Político dos gregos até o final do Império Romano no Ocidente, em 476, para se concentrar no pensamento de Agostinho (354-430). Ressalta ele na Introdução a diferença básica que existia entre a forma positiva e otimista com que os gregos viam o Estado e seu papel na vida de uma nação e dos seus cidadãos e a forma razoavelmente blasé e indiferente com que Jesus e os cristãos primitivos o viam.

Para os gregos (clássicos) o Estado tinha, entre suas funções, a de promover a boa vida de seus cidadãos, cuidando de educa-los e treina-los (paideia), bem como de promover o seu bem-estar (eudaimonia), para que eles se tornassem pessoas virtuosas e boas e se realizassem como “pessoas enquanto cidadãos” do Estado, assim encontrando a sua felicidade. Para os gregos (antigos) o Estado era “o foco central dos interesses e das atividades do homem” e “a encarnação de seus mais elevados valores” (pp.7-8). Deane observa que, depois dos gregos, três séculos Antes de Cristo,, só os regimes totalitários do Século 20 voltaram a ter uma visão tão exaltada do Estado — que estaria, entretanto, no Século 20, sob controle do partido totalitário (p.8).

Deane contrasta com essa visão idealista-utópica do Estado a visão do Estado de Jesus e dos cristãos primitivos. Eles encaravam o Estado de forma blasé e indiferente (quando não hostil), embora não negassem que lhe deviam lealdade, exceto quando o Estado interferia com seu dever cristão. Viam as funções do Estado, porém, de forma restritiva e negativa. O Estado existia, segundo eles, para manter a ordem, punir os malfeitores, e, assim, proteger os bons cidadãos. Melhor definição do Estado Mínimo Liberal é difícil de encontrar.

Ressalte-se que Jesus e os cristãos primitivos acreditavam que o mundo iria terminar em breve — quiçá durante a vida deles. Isso explica, talvez, pelo menos em parte, o fato de o Novo Testamento não prestar muita atenção ao Estado e suas funções. Jesus enfatizou que o seu reino não era deste mundo — isto é, não era um reino terreno que pudesse vir a conflitar com o Estado Romano promovendo subversão e revolta. Ele insistiu que seus seguidores não deviam ter interesses políticos (poder) e econômicos (riqueza) — neste caso, nem mesmo do plano mais mundano do que iriam comer e vestir no dia seguinte. A ideia é que seus seguidores deviam ficar indiferentes a esses ideais que movem tanta gente em outros círculos. E Jesus deixou claro que seus seguidores não deveriam promover anarquismo e rebelião ou demonstrar hostilidade para com o Estado. Deviam pagar seus impostos, dando ao Estado o que a ele pertence (o dinheiro que ele cunhou). Jesus não questionou a autoridade pela qual Pilatos o julgou e se irritou quando Pedro cortou a orelha do soldado por ocasião de sua prisão — colando-a de volta de lugar.

A ideia por detrás dessa postura dos cristãos primitivos é que não é o Estado que cuida da vida dos seus cidadãos (além de protege-los contra violência de terceiros), não é o Estado que os educa e promove o seu bem estar moral, cultural e em outras esferas, e não é o Estado que os torna virtuosos e felizes. O Estado cuida da ordem pública e protege seus cidadãos apenas contra a violência de terceiros. Em função disso, porém, merece o respeito dos cidadãos e tem direito de cobrar impostos — exceto, naturalmente, quando extrapola seus limites. É tudo.

Essa foi a visão cristã do Estado até que, numa reviravolta inesperada, o Imperador Constantino se converteu ao Cristianismo e, dentro de setenta anos, a partir dessa data (312), todo mundo no Império Romano se tornou cristão automaticamente — sem escolha. A partir dessa data o Cristianismo começou a mudar — porque os servidores do Estado, e até mesmo sua força militar (o Exército), agora eram todos inevitavelmente cristãos.

Difícil pretender, nesse contexto, que o dever do cristão em relação ao Estado é apenas respeita-lo e pagar-lhe impostos que sejam justos. Nesse momento o dinheiro dos impostos estava sendo usado, entre outras coisas, para construir grandes igrejas e magníficas basílicas e catedrais para o Cristianismo, tornado religião estatal. Difícil ser contra imposto numa situação dessas, mesmo que o imposto chegasse aos níveis que alcança hoje no Brasil — em que o Estado, em vez de construir Igrejas, constrói estádios de futebol para manter o povo entretido e feliz. Mas voltemos ao que importa.

Agostinho desenvolveu sua filosofia política neste contexto — e, segundo Deane, tentou unir o ideal de Estado dos gregos e o ideal de Estado dos cristãos.

A solução salomônica de Agostinho foi manter os dois ideais — mas jogando o ideal do Estado dos gregos para a vida futura, para a Cidade de Deus, e mantendo o ideal do Estado dos cristãos primitivos, e radicalizando-o a ponto de passar de indiferença ao Estado para uma hostilidade indiscutível a ele, para esta vida, para a Cidade dos Homens. Aqui, nesta vida, o Estado não passa de um bando de ladrões (algo que não é nenhuma novidade para os brasileiros não-ingênuos).

A visão idealista, quiçá romântica, do Estado que faz o bem, educa, promove o bem-estar e a virtude, é, neste mundo, utópica — quimérica mesmo. É isto que nos ensina Agostinho. Quem está mais interessado nesta vida do que na outra faria bem em adotar o seu realismo político e partir para a briga para reduzir as funções do Estado ao mínimo que os cristãos primitivos consideravam indispensável — na verdade, um mal necessário.

Em São Paulo (Bela Vista, Rua Genebra, em homenagem a Calvino), 28 de Maio de 2015

Contrato Civil de Convivência e Casamento (Religioso)

Confesso que tenho enorme dificuldade para entender por que cristãos evangélicos e católicos mais conservadores se incomodam tanto com o casamento de pessoas do mesmo sexo e assuntos correlatos. Já escrevi sobre isso aqui. O que vou dizer, em sua substância, não é, portanto, novidade para ninguém que acompanha o meu blog ou minhas discussões no Facebook. Mas vou tentar repetir meus argumentos de uma maneira bem simples e clara.

Vivemos, aqui no Brasil, numa sociedade laica em que o estado e a religião são separados. Custou para que chegássemos a essa condição — e corremos o risco de perde-la. Durante a maior parte do tempo na história do Cristianismo houve muito envolvimento do estado na religião e da religião no estado. Aqui no Brasil, até a problamação da República, também. Há muitos países, ainda hoje, desenvolvidos ou não, em que esse envolvimento continua. Na Inglaterra a Rainha é a chefe da Igreja Anglicana, e na Alemanha cobra-se dos cidadãos um imposto destinado a sustentar as igrejas. Mas aqui no Brasil, felizmente, o estado é hoje laico e separado da igreja, que, por sua vez, é livre para se organizar da forma que bem quiser. A separação entre a igreja e o estado e a liberdade religiosa foram grandes conquistas dos cristãos evangélicos (inspirados pelo liberalismo). No Século 19 a Igreja Católica se opunha a essas medidas, inclusive no Brasil, porque (até 1899) era a religião oficial, sendo mantida, em princípio, pela monarquia.

É forçoso reconhecer que duas pessoas podem viver juntas (conviver) numa mesma casa sem que isso seja regulado pelo estado — independentemente do sexo delas e do tipo de vida que levam em sua privacidade e intimidade. Até há bem pouco tempo, muitos casais que queriam viver juntos simplesmente se “juntavam” ou se “amigavam”, vivendo em “concubinato”, como “amasiados”, e tendo uma multidão de filhos. Também comum era a situação de um homem que, tendo uma mulher “oficial”, tinha, também, uma “filial”, tendo filhos com ambas. Há muito tempo a Globo mostrou uma série em que Ney Latorraca, no papel do Seu Quequé, tinha três mulheres (uma oficial e duas filiais). E há um filme em que Regina Casé tem três maridos — provavelmenete nenhum deles oficial. Os protagonistas dessas histórias simplesmente ignoravam a possibilidade de que sua convivência viesse a ser regulamentada pelo estado.

Num determinado ponto de nossa história, o estado resolveu regular esse tipo de convivência e incentivar a sua oficialização, em especial por duas razões (nenhuma delas moral, é bom que se diga):

  • o fato de que pessoas que vivem juntas podem adquirir bens imóveis depois do início de sua convivência e o estado regula a posse. a transferência e a transmissão por herança de bens imóveis;
  • o fato de que pessoas que vivem juntas podem, se forem de sexo diferente, vir a ter filhos, que, enquanto são menores, fazem jus a algum tipo de proteção do estado.

Quando resolveu regular a convivência entre duas pessoas, o estado resolveu considera-la um “contrato civil”. Infelizmente, especialmente por causa (no Brasil) da influência da Igreja Católica, resolveu chamar esse tipo de convivência de “casamento”, à semelhança daquilo que a Igreja Católica já fazia em relação a um de seus sacramentos. Os protestantes, em regra, não consideravam o casamento um sacramento e apenas solicitavam a bênção de Deus para os casais que resolviam se casar, oficialmente — no civil, naturalmente.

Ainda por influência da Igreja Católica, o estado brasileiro resolveu considerar esse “Contrato Civil de Convivência” (CCC) indissolúvel (a não ser pela morte de um dos contratantes e em algumas outras situações), e resolveu exigir que os contratantes fossem apenas dois e de sexos diferentes: um homem e uma mulher. Resolveu, também, que o homem era a pessoa mais importante nesse contrato, chamando-o de “Cabeça do Casal”.

Felizmente, o estado brasileiro resolveu, em 1977 (quase 38 anos atrás), remover a cláusula de indissolubilidade dessa sociedade civil, permitindo que ela fosse dissolvida (encerrada), criando o divórcio. Antes havia o desquite (que até pouco tempo se chamava de “separação judicial”, que cessava os deveres da coabitação mas não dissolvia a sociedade. Com o divórcio, a sociedade conjugal foi considerada solúvel. No início, por pressão da Igreja Católica, o estado manteve a exigência de que uma pessoa só podia se divorciar uma vez e especificou em detalhe as condições em que o divórcio poderia ser pleiteado — deixando a uma das partes o direito de se opor à pretensão da outra de dissolver o contrato de casamento. Depois eliminou a exigência de que alguém só pudesse se divorciar uma vez e, mais recentemente, tornou o divórcio sob demanda, ainda que de interesse de apenas um dos contratantes, uma realidade. Nesse processo, instituiu-se igualdade entre os contratantes, eliminando a figura do Cabeça do Casal.

Ao mesmo tempo, legisladores e tribunais oficializaram, pouco a pouco, a convivência de fato entre um homem e uma mulher não casados, considerando-a equivalente ao casamento, quando houvesse impedimento para as partes se casarem oficialmente (especificando que essa seria a condição ideal). A “união estável” já aparece na Constituição de 1988, no artigo 226, parágrafo 3: “§ 3º – Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.” Com o tempo, legisladores e tribunais eliminaram, gradualmente, as exigências estabelecidas para a união estável (convivência duradoura não formalizada como casamento), admitindo até mesmo que os “unidos” já fossem casados com outras pessoas sem haverem se divorciado delas (desde que separados de fato).

O passo seguinte, mais recente, foi Supremo Tribunal Federal (STF) admitir, a despeito do que diz a Constituição Federal (na passagem citada acima), que o estatuto da união estável se aplicava, também, à convivência entre pessoas do mesmo sexo, oficializando, na prática, o chamado “casamento gay”.

A decisão do STF desagradou os gays e os religiosos conservadores, neste caso, tanto evangélicos como católicos. Os gays queriam que suas uniões fossem reconhecidas como casamentos no sentido pleno do termo para que ficasse patenteada sua igualdade de direitos com os héteros. Os religiosos conservadores insistiam que o reconhecimento de uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo descaracterizava a família, e se opunham à possibilidade, agora plenamente admissível, de que casais (pares) gays oficialmente adotassem crianças como filhos (crianças essas que, no caso da união entre duas mulheres, poderiam ser filhos delas mesmas, não sem alguma ajuda externa…).

O protesto dos religiosos conservadores será maior ainda quando legisladores e tribunais admitirem uniões estáveis de mais de duas pessoas — aquilo que hoje se chama, meio eufemisticamente, de “uniões poliamorosas” ou “uniões poliafetivas” (eufemismos para poligamia). Isso fatalmente se dará — mais cedo do que muita gente imagina.

[Acrescentado em 28/4/2015, dia seguinte ao da publicação: Vide o artigo de Reinaldo de Azevedo sobre os pontos de vista  acerca da poligamia do advogado e professor de Direito Luiz Edson Fachin, indicado para o Supremo Tributal Federal pela Presidente Dilma Rousseff, em:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/esta-vai-para-o-senado-alem-de-teorico-dos-direitos-da-amante-fachin-candidato-ao-stf-tambem-flerta-com-a-poligamia-e-enxerga-em-quem-discorda-nada-mais-do-que-gosma/]

Enfim… a única solução sensata que antevejo para essa situação conflitiva é distinguir claramente entre, de um lado, de um instituto civil, o “Contrato Civil de Convivência”, que seria o novo nome do casamento civil, e, do outro lado, de um instituto religioso, chamado “Casamento Religioso” (que poderia manter o nome sacramental e até mesmo eliminar o qualificativo “religioso”, por inexistir o “casamento civil”).

Eliminar-se-iam, também, no processo, o chamado “Casamento Religioso com Efeito Civil”, o direito de padres, pastores, e rabinos presidir sobre a celebração dos CCC, etc.

Um CCC seria, dali para a frente, um ato puramente civil, realizado em Cartório, entre duas ou mais pessoas, independentemente de seu sexo. Ficaria instituída a poligamia, que, diferentemente do que acontece hoje em sociedade muçulmanas (por exemplo), poderia ser de vários homens com várias mulheres e vice-versa (como no filme da Regina Casé). O contrato poderia, como qualquer outro contrato, especificar o tempo de sua duração, ou, alternativamente, ser por tempo indeterminado, deixando claro o ritual a ser seguido caso uma das partes quisesse dissolvê-lo (no caso de contrato entre duas pessoas) ou sair dele (no caso de contrato entre mais de duas pessoas). O contrato especificaria, ainda, o regime de bens, à semelhança do que hoje acontece com o chamado casamento civil e outras coisas que os contratantes houvessem por bem incluir nele.

O casamento, propriamente dito, passaria a ser algo estritamente religioso, sem implicações no plano civil, sendo regulado por cada religião, igreja ou denominação conforme suas convicções. A Igreja Católica, por exemplo, poderia considera-lo indissolúvel. Protestantes mais liberais poderiam admitir a sua dissolução e especificar em que condições ele poderia ser dissolvido (sendo possível manter a cláusula de “sob demanda” atual). Poderia também se especificar que o casamento só poderia ser realizado entre duas pessoas de sexo diferente, um homem e uma mulher. A Igreja Católica poderia até mesmo definir que o casamento fosse estritamente para a procriação, não para o companheirismo e o prazer, e exigir que os nubentes apresentassem prova de fertilidade para poder celebrar o casamento entre eles.

Com isso acabaria a pressão dos gays para que, no plano civil, sua união fosse idêntica à de pessoas heterossexuais. Ela seria. E acabaria a pressão, no plano da sociedade civil e do Congresso, para proibir o casamento gay, ou a adoção de crianças por partes de casais (ou pares) gays, etc. E cada religião, igreja ou denominação adotaria o casamento que lhe parecesse mais acertado para os seus membros. Não teriam, como não têm hoje, o direito de definir como viveriam os que não são seus membros.

Acabaria, também, essa excrescência que é o Estatuto da Família. A família é uma realidade social e ao estado não cabe regula-la. A única coisa que se admitiria é que o estado tornasse oficiais as convivências civis, permitindo que as partes celebrassem um CCC, caso o desejassem. Ao estado não caberia sequer incentivar essa celebração. Nada impediria, portanto, que as pessoas que assim o desejassem vivessem na “informalidade”, resolvendo os problemas de propriedade, de guarda dos filhos menores, e outros à medida que surgissem e da forma que achassem melhor. Hoje em dia pessoas que não são casadas já podem adquirir bens em conjunto ou “em condomínio”. E pais de crianças tidas fora do casamento ou de uniões estáveis podem ser acionados para lhes reconhecer a filiação, lhes dar pensão alimentícia e cuidar de outros aspectos de seu desenvolvimento enquanto menores.

A solução aqui proposta consolidaria a liberdade religiosa e a separação entre o estado e a igreja no plano da convivência entre as pessoas. E deixaria tanto os gays como os Cunhas e Felicianos sem algumas de suas bandeiras políticas, despoluindo nossos olhos e ouvidos.

Em São Paulo, 27 de Abril de 2015

Casamento Homossexual, Poligamia / Poliandria, Casamento Poliafetivo, Casamento Incestuoso (Entre Pessoas Relacionadas por Parentesco)

As Evangélicos, em especial àqueles que se opõem ao Casamento Entre Homossexuais, recomendo a leitura do artigo abaixo de Roger E. Olson, Professor de Teologia e Pastor Batista, em seu blog.

O artigo é acompanhado de 35 comentários, com resposta de Olson à maioria dos comentários, e um follow-up do autor.

Na verdade, o artigo vai bem além do Casamento Entre Homossexuais (que ele considera um fait accompli no plano civil) e levanta a questão “What Now?” acerca de outras possíveis (e prováveis) variantes de casamento.

Olson faz uma referência histórica e sociológica da questão do divórcio. Primeiro era proibido, depois se permitiu em circunstâncias bastante controladas (adultério, abandono, maus tratos), depois se incluiu o simples “desamor” (ainda que de apenas um dos cônjuges) como causa legítima para divórcio, e, finalmente, se instituiu o “no fault divorce”, ou divórcio sob demanda (de comum acordo ou unilateral, sem nenhum direito de contestação por parte do outro cônjuge).

Olson então dirige uma pergunta aos defensores (sejam eles gays ou não) do Casamento Entre Homossexuais, que é a seguinte:

Aprovado no plano civil o Casamento Entre Homossexuais (como inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, o será, em todos os países ocidentais, mesmo que não seja chamado de “casamento”), o que obstará, do ponto de vista racional e jurídico, que se aprove também a Poligamia ou Poliandria (casamento de uma pessoa com várias outras do outro ou do mesmo sexo), o Casamento Poliafetivo (casamento de muitos com muitos, o sexo dos cônjuges sendo irrelevante ou imaterial), e Casamento Incestuoso (Casamento entre Parentes Diretos, desde que, sendo os dois de sexos diferentes, um ou ambos se esterilizem para evitar prole com problemas)?

Vale a pena ler o artigo, os comentários dos leitores e o follow-up do autor.

Artigo Inicial:

http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2014/11/why-not-polygamy-a-question-to-advocates-of-gay-marriage/

Comentários no mesmo URL

Follow-up:

http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2014/11/follow-up-to-my-immediately-preceding-post-re-marriage/

Em São Paulo, 19 de Novembro de 2014.

Por que se dividem as igrejas?

I. Introdução ao Tema

Desde que comecei a me interessar pela História da Igreja Cristã me fascinaram as chamadas cisões (também chamadas de cismas, termo masculino) dentro da igreja. Igrejas, sejam elas, nos extremos, igrejas locais ou a própria religião cristã, como tal, se dividem: separam-se, (geralmente) em duas, passando a existir, na melhor das hipóteses, em relações amistosas, como instituições irmãs, ou, na pior hipótese, como instituições inimigas, que combatem (ou pelo menos regularmente criticam) uma à outra.

O que se chama, genericamente, de Protestantismo é resultado de uma cisão dentro da Igreja Católica Apostólica Romana — até aquela ocasião o principal ramo do Cristianismo. Consumada a cisão, entre 1517 e 1530, criou-se um novo ramo do Cristianismo: o ramo reformado, que, logo, não era um ramo unificado, nem mesmo muito unido, dividindo-se em luterano, calvinista, anglicano, radical, etc. Outros surgiram rapidamente, mas no devido tempo. Curiosamente, foi o ramo calvinista, o segundo criado, e não o luterano, que herdou, em alguns países, o nome de “Igreja Reformada” (que especialmente nos Estados Unidos e no Brasil é predominantemente presbiteriano).

Mas a própria Igreja Católica Apostólica Romana, cindida em 1515-1530, já era resultado de uma cisão anterior que separara, de forma aparentemente definitiva (já vai fazer mil anos), em 1054, um Cristianismo até então unificado. Ali criaram-se “dois Cristianismos”: o Romano (com sede em Roma) e o Bizantino (com sede em Constantinopla, cujo nome era conhecido também como Bizâncio. A Igreja Bizantina é geralmente chamada hoje em dia de Ortodoxa, porque, com a queda de Constantinopla na mão dos árabes em 1453, a sede da Igreja Bizantina saiu de lá e perambulou por países mais ou menos próximos, ficando, finalmente, em Moscou. Por isso se fala, muitas vezes, em “Igreja Ortodoxa Russa”.

Mas sempre houve cisões dentro do Cristianismo — mesmo do Cristianismo nascente, cuja identidade não estava ainda plenamente estabelecida. Por volta do ano 50 ficou caracterizado, no chamado Concílio de Jerusalém, um evento descrito em Atos dos Apóstolos cap. 15 e comentado por Paulo na Epístola aos Gálatas cap. 2, o princípio de uma divisão entre Cristãos Judaizantes, com sede em Jerusalém, e Cristãos Gentios, com sede em Antioquia. Paulo era claramente o líder desta facção, a outra sendo liderada por Pedro ou por Tiago, irmão de Jesus. Essa divisão, segundo tudo indica, não se consumou, por uma razão simples. Os Cristãos Judaizantes viam o Cristianismo não como uma religião independente, mas como um ramo (uma seita) do Judaísmo. Ao concordarem, no Concílio de Jerusalém, com a validade do Cristianismo Gentio, estavam, na realidade, sacramentando uma cisão no Judaísmo — o que torna o próprio Cristianismo, originalmente, uma cisão dentro do Judaísmo. Os Cristãos Judaizantes acabaram sendo absorvidos pela nova religião (o Cristianismo Gentio virou apenas Cristianismo) ou foram reabsorvidos pelo Judaísmo.

Fui, virtualmente desde que nasci (1943) até os meus 24 anos (1967). membro da Igreja Presbiteriana do Brasil — criada, por volta de 1859, pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, ela própria, de certo modo, criada (oficialmente, em 1709) principalmente pela Igreja Reformada da Escócia, esta criada (em por volta de 1560) dentro do conjunto das Igrejas Reformadas (calvinistas), que passou a existir (a partir de cerca de 1536-1541) dentro das igrejas da Reforma, movimento que (a partir de cerca de 1517-1530) se separou da Igreja Católica Apostólica Romana, que, por sua vez, se separou da Igreja Católica Apostólica Bizantina (em 1054). Nesse período de 24 anos, fui membro menor da Igreja Presbiteriana de Lucélia, SP, de Irati, PR, de Marialva, PR, de Maringá, PR, de Santo André, SP, e de São Paulo (Igreja do Jardim das Oliveiras, na Alameda Jaú, hoje não mais parte da Igreja Presbiteriana do Brasil). Na Igreja Presbiteriana de Santo André (então havia apenas uma desse ramo das presbiterianas na cidade) fiz minha pública profissão de fé, em 1960, deixando de ser “membro menor”, para ser “membro comungante”. Na transição de 1966 para 1967, transferi-me da Igreja Presbiteriana de Santo André (da qual meu pai era pastor) para a Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras (da qual era pastor o Rev. José Borges dos Santos Júnior). A minha transferência se deu já dentro de um processo de cisão da Igreja Presbiteriana do Brasil, que acabou por se consumar apenas em 1978, com a criação da Igreja Presbiteriana Unida, à qual a Igreja do Jardim das Oliveiras passou a pertencer (com várias outras igrejas locais que, naquela ocasião, deixaram a Igreja Presbiteriana do Brasil.

De 1967 até 1972, enquanto estudei no Pittsburgh Theological Seminary e na University of Pittsburgh, nos Estados Unidos, e morei nas dependências do Seminário, frequentei a igreja que se chamava então United Presbyterian Church in the USA, e que se chama hoje Presbyterian Church – USA. Na verdade, durante esse período, preguei quase todo domingo, quase sempre em uma igreja diferente, através da “Preaching Association” do Seminário.

De 1972 a 2011, ou seja, durante longos 39 anos, não fui membro de nenhuma igreja.

Em Novembro de 2011, tornei-me membro da Primeira Igreja Presbiteriana Independente do Brasil de São Paulo, conhecida como a Catedral Evangélica de São Paulo, da qual sou membro até o presente. A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil é uma cisão, efetivada em 1903, da Igreja Presbiteriana do Brasil.

Essa breve introdução ao tema das cisões dentro do Cristianismo e da Igreja Presbiteriana já serve de explicação para o meu interesse no assunto.

II. As Principais Causas de Cisão

Analisando as cisões mais importantes que ocorreram dentro da História da Igreja Cristã, podemos concluir que os seguintes fatores tiveram um papel preponderante entre as causas das diversas divisões:

  • Divergências teóricas ou conceituais em relação às coisas em que se deve acreditar, às coisas em que não se deve acreditar, e as coisas em que há liberdade de acreditar ou não (divergência doutrinária é como vou rotular isso);
  • Divergências práticas ou comportamentais em relação a como se deve comportar, a como não se deve comportar, e às condutas que podem ser adotadas ou rejeitadas livremente (divergência prática é como vou rotular isso);
  • Divergências litúrgicas ou cultuais em relação a como se deve realizar os eventos comunitários de adoração a Deus, se ele deve se realizar em templos ou pode se realizar em qualquer lugar, se ele deve ser sério, solene, majestoso, ritualístico e programado em detalhe ou pode ser alegre, cheio de vida (avivado, vivificado, etc.), espontâneo, até certo ponto improvisado ao saber das circunstâncias e dos interesses (divergência litúrgica é como vou rotular isso);
  • Divergências na forma de organizar e administrar a igreja, incluindo, na forma de organização, se a igreja é organizada de forma mais “monárquica e hirarquizada” (com um líder central, arcebispos, bispos, etc.) ou mais “republicana e federativa” (mais horizontal, com líderes eleitos, alternância no poder, etc.), e até mesmo o estilo pessoal de gestão de alguns pastores (que podem ser autoritários e quase ditatoriais mesmo em igrejas organizadas de forma republicada e federalizada e que se imaginam democráticas), etc. (divergência quanto à organização e gestão é como vou rotular isso);
  • Divergências acerca do modo de ver o essencial ou fundamental no Cristianismo, se é conformidade da fé pessoal com as doutrinas aceitas como padrão, se é uma transformação na vida (conversão, regeneração, nascer de novo, tornar-se uma nova pessoa), se é o processo de condução da vida pessoal (santificação), se é um fluxo constante de experiências consideradas religiosas ou de relacionamento (comunhão) com Deus, se é a convivência dos crentes uns com os outros (a chamada comunhão dos santos), se é o amor e o serviço ao próximo (caridade), ou alguma outra coisa (divergência na forma de entender o essencial da religião é como vou rotular isso);
  • Divergências na forma de estruturar o processo de formação de clérigos e outras lideranças (divergência na forma de  formar lideranças é como vou rotular isso).
  • Divergências pessoais entre grupos de membros, líderes e liderados, incluindo divergências acerca de questões sociais e políticas (como a abolição da escravatura, no século 19, , aborto, divórcio, homossexualidade, busca de espaço e poder por parte de líderes ou aspirantes a líderes) e outras questões não necessariamente religiosas (divergência pessoal ou em questões externas é como vou rotular isso).

Espero, em artigos seguintes, analisar alguns cismas que foram (de alguma forma, direta ou indiretamente) importantes em minha vida, como cristão, protestante, presbiteriano, e presbiteriano independente.

Em São Paulo, 3 de Novembro de 2014, revisado em Salto em 6 de Abril de 2017

Fatos, Narrativas, e Novos Fatos (estes gerados, em parte, pelas Narrativas)

Transcrevo, abaixo, uma página e meia do livro Christianity’s Dangerous Idea, de Alister E. McGrath, publicado em 2007, pela Harper, nos Estados Unidos e comercializado também em e-book. O texto, infelizmente, está em Inglês, mas está disponível em Português nas pp. 67-68 da tradução brasileira, de Lena e Regina Aranha, sob o título A Revolução Protestante (Editora Palavra, Brasília, 2012).

A razão para a transcrição dessa pequena passagem de um livro que, em Português, chega a 532 páginas, está no fato de que ontem (25/8/2014) publiquei um artigo aqui no meu blog “Liberal Space” com o título de Verdade e Mito (http://liberalspace.net/2014/08/25/verdade-e-mito/). Nesse artigo comentei um artigo muito interessante de Denis Lerrer Rosenfield chamado “Verdade e Narrativa”, e foi publicado no Estadão naquele mesmo dia, ou seja, 25/8/2014. O artigo de Rosenfield está disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,verdade-e-narrativa-imp-,1549100/.

Hoje cedo (26/8/2014) estava me preparando para uma aula acerca da Reforma Protestante, em especial sobre a transição da Reforma Alemã de Lutero para a Reforma Suíça Francesa de Calvino, e encontrei a passagem abaixo transcrita, que é relevante para a discussão de ontem, embora com algumas diferenças significativas.

No texto McGrath argumenta que, no início, não existia algo que pudesse ser chamado de “A Reforma”, quanto mais “A Reforma Protestante”. Havia, isto sim, a partir do final do século 15 (ou mesmo antes, se a gente inclui Wycliff e Huss no quadro), uma série de movimentos e iniciativas individuais visando reformar aquilo que se chamava de Cristandade – uma síntese, ora confortável, ora atribulada, ora conflitante – entre o Cristianismo, chamado de “poder espiritual”, representado, homogenicamente, até então, pela Igreja Católica Romana, liderada pelo Papa, e os diversos “poderes temporais” ou “poderes seculares”, quais sejam, principados, estados e impérios existentes e em processo de consolidação na Europa que, a partir de 1519, encontravam na figura do jovem Carlos V (19 anos, apenas), o titular do chamado Sacro Império Romano (na verdade, uma macroentidade que abrangia a Alemanha e algumas regiões vizinhas na parte central da Europa, mas com ambições realmente imperiais), sua figura mais representativa. [Em geral se refere ao “império” nazista de 1939-1945 como sendo “O Terceiro Reich”. Bem, o Sacro Império Romano é, na visão de muitos alemães, o primeiro dos três “Reichs”. Vide sobre isso, inter alia, https://sites.google.com/site/caroluschess/medieval-history/charlemagne/list-of-holy-roman-emperors].

Voltando ao que mais importa.

Havia, portanto, no início do século 16, na Europa, uma série de movimentos e iniciativas individuais visando reformar a Cristandade – alguns com ênfases mais teológicas (doutrinárias e litúrgicas), outros com ênfases mais político-institucionais, outros com ênfases mais filosóficas e macro-políticas (visando, por exemplo, remover de vez a ingerência do chamado “poder espiritual” sobre o “poder temporal”, introduzindo, portanto, a ideia liberal de separação entre igreja e estado). Não nos esqueçamos de que, desde o Papa Inocêncio III, pelo menos, a Igreja Católica, o poder espiritual, pretendia ter ascendência sobre os poderes temporais, podendo até destituí-los. O fato de que os vários poderes temporais frequentemente resistissem a essa tese não impedia que a igreja a defendesse e lutasse para aplica-la.

Não havia, portanto, unidade entre os vários movimentos de reforma. Não raro eles se viam competindo entre si. Quando o movimento inspirado e, em parte, liderado por Calvino extravasou os limites territoriais de Genebra e da Suíça, e penetrou, entre outros locais, em terras alemães (no Palatinado, por exemplo), o movimento inspirado por Lutero reagiu, vendo, no Calvinismo, o inimigo.

Se os vários movimentos de reforma não conseguiam se ver, inicialmente, como parte de um movimento maior, derivando dele sua identidade, muito menos se enxergavam como um movimento de reforma Protestante – o nome nem existindo ainda, até mais tarde.

A tese de McGrath, que ele parece ter absorvido, em parte, de Dorothea Wendebourg (citada na Nota 3 do texto transcrito), é que esses diversos movimentos foram se considerando parte de um movimento que tinha como intenção não só reformar a Igreja Católica, mas criar um novo conjunto de igrejas (as Igrejas Protestantes), assim redesenhando o mapa religioso da Europa, e, ainda mais, produzir até mesmo um novo modelo de organização política da sociedade, com a separação entre estado e igreja, tolerância religiosa, e, por conseguinte, pluralismo religioso dentro de um mesmo estado, etc. tudo isso demorou muito para acontecer e, de certo modo, só se pode dizer que aconteceu em retrospectiva, como a narrativa dominante (assumida pelos Protestantes) do que teria acontecido, à medida que foram se caracterizando, para os Protestantes, dois inimigos perigosos: primeiro, a Igreja Católica, o inimigo original; segundo, o Estado (que, no entanto, inicialmente, foi aliado dos Protestantes na lita contra a Igreja Católica em muitos casos). Neste segundo caso, não houve uniformidade. Por um bom tempo, e em muitos lugares, as Igrejas Protestantes, tendo ganho a luta com a Igreja Católica, se tornaram igrejas estatais – em alguns casos tentando reprimir não só a Igreja Católica como Igrejas Protestantes concorrentes. Isso se deu, em grande medida, na Alemanha, mas, principalmente, na Inglaterra. E o grande mérito da Reforma Protestante que aconteceu nos Estados Unidos está no fato de que ela, apesar de idas e vindas (porque ela foi da Inglaterra e da Holanda para o continente americano no Norte), ela foi bem sucedida em separar a igreja do estado.

De qualquer forma, é importante registrar que uma narrativa, que não corresponde muito bem aos fatos históricos “wie sie eigentlich gewesen sind” (como eles de fato e verdadeiramente ocorreram), acabou por gerar fatos históricos novos, estes sim, acontecidos de fato e verdadeiramente.

Aqui está o texto do McGrath – que está rapidamente se tornando meu historiador da Igreja favorito.

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Alternatives to Luther

1. Diversification of the Reformation

The name of Martin Luther dominates most popular accounts of the origins and development of Protestantism. By 1519 Luther’s name was beginning to be known more widely, especially within humanist circles. Luther himself was somewhat despondent about the outcome of the debate with Johann Eck at Leipzig, feeling that he had been outwitted and outmaneuvered by the canny theologian from Ingolstadt. Yet humanist networks were buzzing with the news of a hitherto unknown Augustinian monk who had laid down a formidable challenge to papal authority. Luther was about to be hailed as a leading representative of the case for reform of the church and would attract support from even such a luminary as Erasmus of Rotterdam.

Yet other reforming movements were springing up elsewhere in Europe around this time, initially without any knowledge of Luther’s activities and aspirations. It is now clear that uncoordinated reforming initiatives were breaking out in many parts of Europe in the 1510s, often in response to local situations or inspired by local heroes. Many of Europe’s great cities became epicenters of reforming movements that responded to and addressed their local situations. Recent scholarship, in stressing the intellectual and sociological heterogeneity of the first phase of the Reformation, has made it virtually impossible to think of it as a single, coherent movement. [1]

2. The Heterogeneity of Early Protestantism

The Reformation is best conceived as a series of initially independent reforming movements with quite distinct agendas and understandings of the nature of theology and its role in the life of the church. Through the complex networks of the interchange of people, correspondence, and publications that were characteristic of this age, these originally independent movements came to achieve at least a partial degree of alignment over the following decade. Yet this identity was not determined by the movement’s origins, as if this could be frozen in time and declared to be permanently normative. In a tangled and not fully understood process of reappraisal, reorientation, and reappropriation, it would emerge over time. [2]

The concept of “Protestantism” arose from an attempt to link a series of events in the early sixteenth century to form a common narrative of transformation. For the historian, there has never been a thing called “Protestantism”; rather, there were a number of movements, each with its own distinctive regional, theological, and cultural agendas. To speak of “the rise of Protestantism” is to offer a controlling narrative that links these potentially disparate events as part of a greater, more significant movement. So persuasive was this emerging narrative that many of the reforming groups scattered across Europe realigned their sense of identity and purpose to conform to it. As these movements began to locate themselves on a historical and conceptual map, each came increasingly to identify itself in terms of what was perceived as a greater overarching movement. A subtle process of realignment led to a growing sense of institutional and intellectual identity. Yet that identity was initially conceived primarily in terms of two movements—the Lutheran Reformation in northeastern Germany and the Zwinglian Reformation in eastern Switzerland. The idea that these two movements were as the two sides of the same Protestant coin represents a later retrojection by historians and Protestant apologists.

The suggestion that there exists a universal notion called “Protestantism” must therefore be viewed with considerable caution, as must the traditional idea that Luther’s personal religious views somehow define the essence of this putative “Protestantism.” As will become clear, Protestantism designates a family of religious movements that share certain historical roots and theological resources. Luther—admired and respected in some quarters, less so in others—is certainly one of those resources. As we shall see, Protestantism developed into a coherent entity through a complicated history of negotiations and compromises in the late 1520s and 1530s, during which time it was often unclear who was “in” and who was “out,” let alone what the final outcome might be. Everything was in a state of flux, and the various reforming movements of the era shared no clear sense of a common set of beliefs, values, or ways of interpreting the Bible.

In a highly insightful study on the unity of the Reformation, Dorothea Wendebourg argues that the “unity” of the Reformation emerged retrospectively, primarily in response to later Catholic criticisms of the movement [3]. Protestantism developed its sense of identity primarily in response to external threats and criticisms rather than as a result of shared beliefs. In one sense, the idea of “Protestantism” can be seen as the creation of its opponents rather than of its supporters. The history of Protestantism repeatedly demonstrates that a shared sense of identity that transcends denominational and confessional boundaries depends on there being a credible common enemy—a role that has been played, until very recently, by Catholicism. In this chapter, we explore some of the early alternatives to Luther that sprang up throughout western Europe during the 1520s and early 1530s and the negotiations that ensued to define the characteristics of the movement and maximize the potential for collaboration in the face of shared threats and foes. We begin by noting the tensions and disagreements within the original reforming faction at Wittenberg.

NOTES

[1] See Hans-Jürgen Goertz, “Eine ‘bewegte’ Epoche: Zur Heterogenität reformatorischer Bewegungen,” in Wegscheiden der Reformation: Alternatives Denken vom 16. bis zum 18. Jahrhundert, edited by Günter Vogler (Weimar: Bohlaus Nachfolger, 1994), 23–56; Alister E. McGrath, The Intellectual Origins of the European Reformation, 2nd ed. (Oxford: Blackwell, 2003), 182–89.

[2] For a collection of excellent attempts to make sense of what happened, see Bruce Gordon, ed., Protestant History and Identity in Sixteenth-Century Europe, 2 vols. (Aldershot, UK: Ashgate, 1996).

[3] Dorothea Wendebourg, “Die Einheit der Reformation als historisches Problem,” in Reformationstheorien: Ein kirchenhistorischer Disput über Einheit und Vielfalt der Reformation, edited by Berndt Hamm, Bernd Moeller, and Dorothea Wendebourg (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1995), 31–51.

[Emphases added]

Em São Paulo, 26 de Agosto de 2014

Verdade e Mito

Este artigo vai fazer um voo panorâmico sobre alguns assuntos da maior importância, aterrissando em dois ou três lugares importantes. 

1. Estalos de Vieira 

Começo com algo bastante pessoal. Todo mundo já ouviu falar do famoso “Estalo de Vieira”. Mesmo assim esclareço o significado da expressão. O Vieira do estalo é, naturalmente, o Padre Antonio Vieira (1608-1609). Consta — se fato ou não, pouco vem ao caso — que o Padre Vieira era de entendimento meio limitado, até que, um dia, deu-se-lhe algo como um “estalo” em sua mente e ele passou a compreender com clareza aquilo que antes tinha extrema dificuldade para entender. Desde então, toda vez que alguém, meio que de repente, e de forma um pouco misteriosa, quase miraculosa, pelo menos muito coincidentosa, compreende claramente algo que, até aquele momento, lhe era meio confuso, ou de sentido pelo menos meio difuso, diz-se que teve um “Estalo de Vieira”. 

Pois bem. Hoje tive (mais) um Estalo de Vieira. Antes, já tive vários – o que é prova de que, no geral, sou meio tapado, estando a requerer esses tais estalos com certa frequência. Felizmente, tenho-os tido pela enorme generosidade de quem os controla (s’il y en a, como dizem os franceses: se é que existe que os controle). 

Só que meu estalo de hoje não foi, em si, muito misterioso ou miraculoso — embora tenha envolvido uma boa dose de coincidência (ou daquilo que eu já chamei de “provincidência”, que é uma mistura de providência e coincidência que não se compromete com definir o quanto, ali, é providência, o quanto é coincidência). Tive meu estalo lendo o artigo de Denis Lerrer Rosenfield no Estadão de hoje. Denis é um brilhante filósofo que trabalha na UFRGS e é, entre outras coisas, colunista do Estadão. Tive o privilégio de conviver com ele durante três dias num colóquio do Liberty Fund numa deliciosa pousada em São Roque, SP, em Julho de 2008.  Esse mês é, para mim, cheio de lembranças muito agradáveis e importantes, que peço vênia para não detalhar. 

2. A História-Verdade e a História-Narrativa (ou: Verdade e Mito)

O artigo do Denis, para voltar ao que aqui importa, tem o título de “Verdade e Narrativa” (http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,verdade-e-narrativa-imp-,1549100/). É um artigo fantástico. Minha atenção foi chamada para ele por uma referência num artigo de Rodrigo Constantino, no blog da VEJA, que também é um artigo muito bom, com o título “Os Mitos Históricos Seduzem mais do que os Fatos: É a Narrativa que Importa!“. O artigo do Rodrigo está disponível em http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/os-mitos-historicos-seduzem-mais-do-que-os-fatos-e-a-narrativa-que-importa/. 

Vou resumir o artigo do Denis, embora o título do artigo do Rodrigo já quase faça isso… 🙂 

Ele começa fazendo referência ao excelente filme de Clint Eastwood chamado Flags of Our Fathers, que em Português recebeu o título A Conquista da Honra – gosto mais do título original, que eu teria traduzido por Bandeiras de Luta dos Nossos Pais. (Vide http://www.imdb.com/title/tt0418689/?ref_=nm_flmg_dr_9). [Em colchetes, esclareço que acho todos os filmes de Clint Eastwood excelentes: para mim, ele é o melhor diretor vivo de Hollywood.]. 

No filme, um velho soldado, ex-combatente da batalha de Iwo Jima, uma batalha crucial para o desfecho da Segunda Guerra na sua frente no Pacífico, narra como ele e cinco companheiros tiraram uma foto, ao lado da bandeira americana, para comprovar a vitória americana na batalha. Essa foto se tornou um ícone – sendo considerada o símbolo da “virada” americana na guerra contra o Japão. Aquela foto regimentou a opinião pública e, com o seu apoio, os Estados Unidos acabaram ganhando a guerra. 

Acontece que a foto dos seis soldados com a bandeira foi tirada quando a guerra já estava basicamente ganha. A foto original, tirada pelos soldados que realmente ganharam a batalha, se perdeu, e o que a substituiu foi uma foto “fake“, de quem levou a fama sem ter sido responsável pelo sucesso no campo de batalha. Mas foi a “narrativa”, vale dizer, o “mito” que se tornou a “história”, não no sentido de a história real, vivida, mas no sentido de a história narrada. 

O ponto do artigo de Denis é que, infelizmente, no fundo, é a história narrada que prevalece — enquanto a história real se perde no esquecimento. Por essa razão é que historiadores e pretensos historiadores lutam tanto para controlar qual é a história-narrativa que vai prevalecer e, no futuro, contar como se fosse a história-verdade, a história realmente vivida. 

Ele toma como exemplo a nefasta Comissão da Verdade, que, na realidade, é uma Comissão da Inverdade, que tenta reescrever a história, procurando mostrar que os terroristas, assaltantes de bancos, assassinos do período da Ditadura Militar foram heróis democráticos a quem a Pátria deve honrar e celebrar. Ela quer impor a sua narrativa como verdade, fazer de conta que a sua história-narrativa é a história-verdade. [Essa crítica à assim chamada “Comissão da Verdade” tem sido pisada e repisada por Percival Puggina em seu blog “Conservadores e Liberais”, que merece ser visitado: http://www.puggina.org/.%5D

Em resumo: a narrativa (história-narrativa) que, por qualquer meio, ainda que cheio de invenções, inverdades e meias verdades (que, na realidade, são meias mentiras) é capaz de conquistar a opinião pública acaba prevalecendo e passando por história, como se fosse a história-verdade. Os palestinos dominam essa arte como ninguém, lembra-nos o Rodrigo. 

A distinção entre História-Narrativa e História-Verdade nada mais é do que a distinção entre Mito e Verdade. 

3. Rudolf Bultmann 

Como disse atrás, o meu “estalo” de hoje não é misterioso ou miraculoso, é apenas “coincidentoso”. 

Nos últimos dias, desde quinta-feira à noite, tenho revisitado (como se diz hoje em dia) o pensamento de Rudolf Bultmann, teólogo que comecei a ler há cinquenta anos e que, desde então, nunca parou de me influenciar de alguma forma. É aí que está a coincidência (ou, como disse acima, provincidência: a leitura do artigo do Denis e a releitura de Bultmann se tocaram e, em vez de produzir um curto-circuito, produziram o meu estalo de hoje – ajudaram-me a reinterpretar Bultmann.

Para o cristão comum, leigo em teologia e nas sofisticações do pensamento acadêmico, o Novo Testamento da Bíblia cristã (vamos nos ater a ele) contém vários gêneros literários: ficção inspiradora (as parábolas), preces (o Pai Nosso), ensinamentos morais (as Bem-Aventuranças), e, naturalmente, história — entendida pelo cristão comum como história-verdade. 

O que, para esse cristão comum, é história-verdade no Novo Testamento? Os três primeiros evangelhos, chamados de Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), parte do quarto evangelho (João), o livro de Atos dos Apóstolos (supostamente escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas), etc. Nos evangelhos sinóticos está contida basicamente a história de Jesus de Nazareth, desde seu nascimento até sua morte, ressurreição e ascensão aos céus. Tudo isso, para o cristão comum, é história-verdade, isto é, fato histórico inegável. 

Bultmann nega que aquilo que os evangelhos sinóticos relatam sejam fatos históricos, “wie sie eigentlich gewesen sind” (como eles de fato aconteceram — a frase era muito usada pelos historiadores científicos do século 19, todos positivistas, que, mirabile dictu, realmente acreditavam que o historiador consegue descobrir o que de fato aconteceu na história). Para ele, o que temos nos evangelhos, inclusive nos sinóticos, é kerygma – termo que pode ser traduzido como “narrativa daqueles que vieram a acreditar que Jesus de Nazareth era o Messias prometido a Israel, ou, num contexto menos judaizante, o Filho de Deus”. Em outras palavras: o que os evangelhos sinóticos relatam não é história-verdade, mas, sim, história-narrativa, esforço de quem acredita em algo e quer, através de sua narrativa, persuadir os demais a acreditar também…

O surpreendente é que Bultmann não chega a essa conclusão para denunciar a substituição da história-verdade pela história-narrativa no caso dos evangelhos sinóticos. Para ele, o que importa não é a verdade histórica (que os historiadores científicos positivistas ingenuamente imaginavam poder descobrir), mas, sim, a verdade-narrada, a verdade-confessada, a verdade-proclamada. 

Por isso, Bultmann, que se considera cristã, sem maiores qualificativos, não tem o menos problema em admitir que, pelo menos no entender dele, nada se alteraria, em relação à fé cristã, se, per impossibile, se demonstrasse que Jesus de Nazaré nunca viveu e morreu como todo mundo, nunca ressuscitou e subiu aos céus. Para ele a ressurreição de Jesus de Nazaré é algo que não aconteceu dois mil anos atrás na Palestina, mas, sim, algo que acontece hoje (como vem acontecendo desde o início do Cristianismo) na pregação da igreja cristã, sempre que alguém, em decorrência da pregação da igreja, tem a experiência existencial de realmente encontrar, na figura de Jesus de Nazaré, o Messias, o Cristo e o Senhor de sua vida. 

O “Jesus da História”, para Bultmann, não importa. Não importa nem mesmo se houve um Jesus histórico (isto é, que verdadeiramente existiu em algum momento no primeiro século de nossa era na Palestina). O que importa é o “Cristo da Fé”, proclamado na narrativa do Novo Testamento. Uma vez admitido isso, nada impede, pelo contrário, que se faça uma distinção “clara e distinta” entre os livros históricos e os livros confessionais do Novo Testamento, como é o caso das cartas paulinas. 

4. Conclusão do Estalo 

Na minha leitura de Bultmann, até hoje, sempre considerei como mais importante o fato de que ele mostra que a visão de mundo do Novo Testamento é, basicamente, uma visão mítica, não uma visão científica, enquanto que a visão de mundo do homem moderna é, basicamente,  uma visão científica. Nessa leitura, a visão mítica do mundo se contrasta com a visão científica do mundo, vale dizer, com a verdade científica; e a verdade científica é verdade real, não uma construção narrativa… E, nessa leitura, seria preciso reinterpretar a visão mítica do mundo encontrada no Novo Testamento. Segundo essa visão mítica, seres espirituais “do andar de cima do mundo”, isto é, que habitam o céu (Deus, os anjos e outros espíritos “do bem”), lutam, incessantemente, com seres espirituais “do andar de baixo do mundo”, isto é, seres que habitam o inferno (Diabo, anjos caídos e outros espíritos “do mal”), para controlar a nossa vida aqui “no andar térreo” e, por esse controle, determinar se, um dia, depois de nossa morte, vamos habitar no céu ou no inferno (para sempre). A proposta de Bultmann seria procurar reinterpretar essa visão mítica, de acordo com os cânones da ciência (e da filosofia) moderna,  para chegar a um relato sério e honesto do que acontece com nossa vida aqui na Terra (que é o único local que conhecemos), em que nos vemos atraídos, ora para o bem, ora para o mal, em que, embora convencidos de que devemos fazer o bem (ou viver “segundo o espírito”), nos vemos lamentavelmente atraídos para fazer o mal (para viver “segundo a carne”), que possa nos oferecer uma saída para esse dilema e nos permita alcançar um viver autêntico e realizado… 

O problema com essa leitura bultmanniana é que ela desconsidera o fato de que, segundo ele, a forma de passar de uma existência inautêntica para uma existência autêntica tem, necessariamente, que ver com o “evento da salvação” (Heilsgeschehen), que, por sua vez tem que ver com a morte de Jesus de Nazareth e sua ressurreição como o Cristo em quem devemos acreditar e ao qual devemos dedicar a nossa vida, para que ela se torne autêntica e realizada… MAS, nada disso é verdade histórica, ou história-verdade, mas, sim, história-narrativa, ou seja, mito — um outro mito, mais palatável ao homem moderno, mas, apesar disso, um mito, nevertheless (que quer dizer never the less…).  

O esforço de Bultmann, em outras palavras, está no mesmo plano que o esforço da “Comissão da (in)Verdade”. 

Em São Paulo, 25 de Agosto de 2014