Fatos, Narrativas, e Novos Fatos (estes gerados, em parte, pelas Narrativas)

Transcrevo, abaixo, uma página e meia do livro Christianity’s Dangerous Idea, de Alister E. McGrath, publicado em 2007, pela Harper, nos Estados Unidos e comercializado também em e-book. O texto, infelizmente, está em Inglês, mas está disponível em Português nas pp. 67-68 da tradução brasileira, de Lena e Regina Aranha, sob o título A Revolução Protestante (Editora Palavra, Brasília, 2012).

A razão para a transcrição dessa pequena passagem de um livro que, em Português, chega a 532 páginas, está no fato de que ontem (25/8/2014) publiquei um artigo aqui no meu blog “Liberal Space” com o título de Verdade e Mito (http://liberalspace.net/2014/08/25/verdade-e-mito/). Nesse artigo comentei um artigo muito interessante de Denis Lerrer Rosenfield chamado “Verdade e Narrativa”, e foi publicado no Estadão naquele mesmo dia, ou seja, 25/8/2014. O artigo de Rosenfield está disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,verdade-e-narrativa-imp-,1549100/.

Hoje cedo (26/8/2014) estava me preparando para uma aula acerca da Reforma Protestante, em especial sobre a transição da Reforma Alemã de Lutero para a Reforma Suíça Francesa de Calvino, e encontrei a passagem abaixo transcrita, que é relevante para a discussão de ontem, embora com algumas diferenças significativas.

No texto McGrath argumenta que, no início, não existia algo que pudesse ser chamado de “A Reforma”, quanto mais “A Reforma Protestante”. Havia, isto sim, a partir do final do século 15 (ou mesmo antes, se a gente inclui Wycliff e Huss no quadro), uma série de movimentos e iniciativas individuais visando reformar aquilo que se chamava de Cristandade – uma síntese, ora confortável, ora atribulada, ora conflitante – entre o Cristianismo, chamado de “poder espiritual”, representado, homogenicamente, até então, pela Igreja Católica Romana, liderada pelo Papa, e os diversos “poderes temporais” ou “poderes seculares”, quais sejam, principados, estados e impérios existentes e em processo de consolidação na Europa que, a partir de 1519, encontravam na figura do jovem Carlos V (19 anos, apenas), o titular do chamado Sacro Império Romano (na verdade, uma macroentidade que abrangia a Alemanha e algumas regiões vizinhas na parte central da Europa, mas com ambições realmente imperiais), sua figura mais representativa. [Em geral se refere ao “império” nazista de 1939-1945 como sendo “O Terceiro Reich”. Bem, o Sacro Império Romano é, na visão de muitos alemães, o primeiro dos três “Reichs”. Vide sobre isso, inter alia, https://sites.google.com/site/caroluschess/medieval-history/charlemagne/list-of-holy-roman-emperors].

Voltando ao que mais importa.

Havia, portanto, no início do século 16, na Europa, uma série de movimentos e iniciativas individuais visando reformar a Cristandade – alguns com ênfases mais teológicas (doutrinárias e litúrgicas), outros com ênfases mais político-institucionais, outros com ênfases mais filosóficas e macro-políticas (visando, por exemplo, remover de vez a ingerência do chamado “poder espiritual” sobre o “poder temporal”, introduzindo, portanto, a ideia liberal de separação entre igreja e estado). Não nos esqueçamos de que, desde o Papa Inocêncio III, pelo menos, a Igreja Católica, o poder espiritual, pretendia ter ascendência sobre os poderes temporais, podendo até destituí-los. O fato de que os vários poderes temporais frequentemente resistissem a essa tese não impedia que a igreja a defendesse e lutasse para aplica-la.

Não havia, portanto, unidade entre os vários movimentos de reforma. Não raro eles se viam competindo entre si. Quando o movimento inspirado e, em parte, liderado por Calvino extravasou os limites territoriais de Genebra e da Suíça, e penetrou, entre outros locais, em terras alemães (no Palatinado, por exemplo), o movimento inspirado por Lutero reagiu, vendo, no Calvinismo, o inimigo.

Se os vários movimentos de reforma não conseguiam se ver, inicialmente, como parte de um movimento maior, derivando dele sua identidade, muito menos se enxergavam como um movimento de reforma Protestante – o nome nem existindo ainda, até mais tarde.

A tese de McGrath, que ele parece ter absorvido, em parte, de Dorothea Wendebourg (citada na Nota 3 do texto transcrito), é que esses diversos movimentos foram se considerando parte de um movimento que tinha como intenção não só reformar a Igreja Católica, mas criar um novo conjunto de igrejas (as Igrejas Protestantes), assim redesenhando o mapa religioso da Europa, e, ainda mais, produzir até mesmo um novo modelo de organização política da sociedade, com a separação entre estado e igreja, tolerância religiosa, e, por conseguinte, pluralismo religioso dentro de um mesmo estado, etc. tudo isso demorou muito para acontecer e, de certo modo, só se pode dizer que aconteceu em retrospectiva, como a narrativa dominante (assumida pelos Protestantes) do que teria acontecido, à medida que foram se caracterizando, para os Protestantes, dois inimigos perigosos: primeiro, a Igreja Católica, o inimigo original; segundo, o Estado (que, no entanto, inicialmente, foi aliado dos Protestantes na lita contra a Igreja Católica em muitos casos). Neste segundo caso, não houve uniformidade. Por um bom tempo, e em muitos lugares, as Igrejas Protestantes, tendo ganho a luta com a Igreja Católica, se tornaram igrejas estatais – em alguns casos tentando reprimir não só a Igreja Católica como Igrejas Protestantes concorrentes. Isso se deu, em grande medida, na Alemanha, mas, principalmente, na Inglaterra. E o grande mérito da Reforma Protestante que aconteceu nos Estados Unidos está no fato de que ela, apesar de idas e vindas (porque ela foi da Inglaterra e da Holanda para o continente americano no Norte), ela foi bem sucedida em separar a igreja do estado.

De qualquer forma, é importante registrar que uma narrativa, que não corresponde muito bem aos fatos históricos “wie sie eigentlich gewesen sind” (como eles de fato e verdadeiramente ocorreram), acabou por gerar fatos históricos novos, estes sim, acontecidos de fato e verdadeiramente.

Aqui está o texto do McGrath – que está rapidamente se tornando meu historiador da Igreja favorito.

———-

Alternatives to Luther

1. Diversification of the Reformation

The name of Martin Luther dominates most popular accounts of the origins and development of Protestantism. By 1519 Luther’s name was beginning to be known more widely, especially within humanist circles. Luther himself was somewhat despondent about the outcome of the debate with Johann Eck at Leipzig, feeling that he had been outwitted and outmaneuvered by the canny theologian from Ingolstadt. Yet humanist networks were buzzing with the news of a hitherto unknown Augustinian monk who had laid down a formidable challenge to papal authority. Luther was about to be hailed as a leading representative of the case for reform of the church and would attract support from even such a luminary as Erasmus of Rotterdam.

Yet other reforming movements were springing up elsewhere in Europe around this time, initially without any knowledge of Luther’s activities and aspirations. It is now clear that uncoordinated reforming initiatives were breaking out in many parts of Europe in the 1510s, often in response to local situations or inspired by local heroes. Many of Europe’s great cities became epicenters of reforming movements that responded to and addressed their local situations. Recent scholarship, in stressing the intellectual and sociological heterogeneity of the first phase of the Reformation, has made it virtually impossible to think of it as a single, coherent movement. [1]

2. The Heterogeneity of Early Protestantism

The Reformation is best conceived as a series of initially independent reforming movements with quite distinct agendas and understandings of the nature of theology and its role in the life of the church. Through the complex networks of the interchange of people, correspondence, and publications that were characteristic of this age, these originally independent movements came to achieve at least a partial degree of alignment over the following decade. Yet this identity was not determined by the movement’s origins, as if this could be frozen in time and declared to be permanently normative. In a tangled and not fully understood process of reappraisal, reorientation, and reappropriation, it would emerge over time. [2]

The concept of “Protestantism” arose from an attempt to link a series of events in the early sixteenth century to form a common narrative of transformation. For the historian, there has never been a thing called “Protestantism”; rather, there were a number of movements, each with its own distinctive regional, theological, and cultural agendas. To speak of “the rise of Protestantism” is to offer a controlling narrative that links these potentially disparate events as part of a greater, more significant movement. So persuasive was this emerging narrative that many of the reforming groups scattered across Europe realigned their sense of identity and purpose to conform to it. As these movements began to locate themselves on a historical and conceptual map, each came increasingly to identify itself in terms of what was perceived as a greater overarching movement. A subtle process of realignment led to a growing sense of institutional and intellectual identity. Yet that identity was initially conceived primarily in terms of two movements—the Lutheran Reformation in northeastern Germany and the Zwinglian Reformation in eastern Switzerland. The idea that these two movements were as the two sides of the same Protestant coin represents a later retrojection by historians and Protestant apologists.

The suggestion that there exists a universal notion called “Protestantism” must therefore be viewed with considerable caution, as must the traditional idea that Luther’s personal religious views somehow define the essence of this putative “Protestantism.” As will become clear, Protestantism designates a family of religious movements that share certain historical roots and theological resources. Luther—admired and respected in some quarters, less so in others—is certainly one of those resources. As we shall see, Protestantism developed into a coherent entity through a complicated history of negotiations and compromises in the late 1520s and 1530s, during which time it was often unclear who was “in” and who was “out,” let alone what the final outcome might be. Everything was in a state of flux, and the various reforming movements of the era shared no clear sense of a common set of beliefs, values, or ways of interpreting the Bible.

In a highly insightful study on the unity of the Reformation, Dorothea Wendebourg argues that the “unity” of the Reformation emerged retrospectively, primarily in response to later Catholic criticisms of the movement [3]. Protestantism developed its sense of identity primarily in response to external threats and criticisms rather than as a result of shared beliefs. In one sense, the idea of “Protestantism” can be seen as the creation of its opponents rather than of its supporters. The history of Protestantism repeatedly demonstrates that a shared sense of identity that transcends denominational and confessional boundaries depends on there being a credible common enemy—a role that has been played, until very recently, by Catholicism. In this chapter, we explore some of the early alternatives to Luther that sprang up throughout western Europe during the 1520s and early 1530s and the negotiations that ensued to define the characteristics of the movement and maximize the potential for collaboration in the face of shared threats and foes. We begin by noting the tensions and disagreements within the original reforming faction at Wittenberg.

NOTES

[1] See Hans-Jürgen Goertz, “Eine ‘bewegte’ Epoche: Zur Heterogenität reformatorischer Bewegungen,” in Wegscheiden der Reformation: Alternatives Denken vom 16. bis zum 18. Jahrhundert, edited by Günter Vogler (Weimar: Bohlaus Nachfolger, 1994), 23–56; Alister E. McGrath, The Intellectual Origins of the European Reformation, 2nd ed. (Oxford: Blackwell, 2003), 182–89.

[2] For a collection of excellent attempts to make sense of what happened, see Bruce Gordon, ed., Protestant History and Identity in Sixteenth-Century Europe, 2 vols. (Aldershot, UK: Ashgate, 1996).

[3] Dorothea Wendebourg, “Die Einheit der Reformation als historisches Problem,” in Reformationstheorien: Ein kirchenhistorischer Disput über Einheit und Vielfalt der Reformation, edited by Berndt Hamm, Bernd Moeller, and Dorothea Wendebourg (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1995), 31–51.

[Emphases added]

Em São Paulo, 26 de Agosto de 2014

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: