Verdade e Mito

Este artigo vai fazer um voo panorâmico sobre alguns assuntos da maior importância, aterrissando em dois ou três lugares importantes. 

1. Estalos de Vieira 

Começo com algo bastante pessoal. Todo mundo já ouviu falar do famoso “Estalo de Vieira”. Mesmo assim esclareço o significado da expressão. O Vieira do estalo é, naturalmente, o Padre Antonio Vieira (1608-1609). Consta — se fato ou não, pouco vem ao caso — que o Padre Vieira era de entendimento meio limitado, até que, um dia, deu-se-lhe algo como um “estalo” em sua mente e ele passou a compreender com clareza aquilo que antes tinha extrema dificuldade para entender. Desde então, toda vez que alguém, meio que de repente, e de forma um pouco misteriosa, quase miraculosa, pelo menos muito coincidentosa, compreende claramente algo que, até aquele momento, lhe era meio confuso, ou de sentido pelo menos meio difuso, diz-se que teve um “Estalo de Vieira”. 

Pois bem. Hoje tive (mais) um Estalo de Vieira. Antes, já tive vários – o que é prova de que, no geral, sou meio tapado, estando a requerer esses tais estalos com certa frequência. Felizmente, tenho-os tido pela enorme generosidade de quem os controla (s’il y en a, como dizem os franceses: se é que existe que os controle). 

Só que meu estalo de hoje não foi, em si, muito misterioso ou miraculoso — embora tenha envolvido uma boa dose de coincidência (ou daquilo que eu já chamei de “provincidência”, que é uma mistura de providência e coincidência que não se compromete com definir o quanto, ali, é providência, o quanto é coincidência). Tive meu estalo lendo o artigo de Denis Lerrer Rosenfield no Estadão de hoje. Denis é um brilhante filósofo que trabalha na UFRGS e é, entre outras coisas, colunista do Estadão. Tive o privilégio de conviver com ele durante três dias num colóquio do Liberty Fund numa deliciosa pousada em São Roque, SP, em Julho de 2008.  Esse mês é, para mim, cheio de lembranças muito agradáveis e importantes, que peço vênia para não detalhar. 

2. A História-Verdade e a História-Narrativa (ou: Verdade e Mito)

O artigo do Denis, para voltar ao que aqui importa, tem o título de “Verdade e Narrativa” (http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,verdade-e-narrativa-imp-,1549100/). É um artigo fantástico. Minha atenção foi chamada para ele por uma referência num artigo de Rodrigo Constantino, no blog da VEJA, que também é um artigo muito bom, com o título “Os Mitos Históricos Seduzem mais do que os Fatos: É a Narrativa que Importa!“. O artigo do Rodrigo está disponível em http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/os-mitos-historicos-seduzem-mais-do-que-os-fatos-e-a-narrativa-que-importa/. 

Vou resumir o artigo do Denis, embora o título do artigo do Rodrigo já quase faça isso… :-) 

Ele começa fazendo referência ao excelente filme de Clint Eastwood chamado Flags of Our Fathers, que em Português recebeu o título A Conquista da Honra – gosto mais do título original, que eu teria traduzido por Bandeiras de Luta dos Nossos Pais. (Vide http://www.imdb.com/title/tt0418689/?ref_=nm_flmg_dr_9). [Em colchetes, esclareço que acho todos os filmes de Clint Eastwood excelentes: para mim, ele é o melhor diretor vivo de Hollywood.]. 

No filme, um velho soldado, ex-combatente da batalha de Iwo Jima, uma batalha crucial para o desfecho da Segunda Guerra na sua frente no Pacífico, narra como ele e cinco companheiros tiraram uma foto, ao lado da bandeira americana, para comprovar a vitória americana na batalha. Essa foto se tornou um ícone – sendo considerada o símbolo da “virada” americana na guerra contra o Japão. Aquela foto regimentou a opinião pública e, com o seu apoio, os Estados Unidos acabaram ganhando a guerra. 

Acontece que a foto dos seis soldados com a bandeira foi tirada quando a guerra já estava basicamente ganha. A foto original, tirada pelos soldados que realmente ganharam a batalha, se perdeu, e o que a substituiu foi uma foto “fake“, de quem levou a fama sem ter sido responsável pelo sucesso no campo de batalha. Mas foi a “narrativa”, vale dizer, o “mito” que se tornou a “história”, não no sentido de a história real, vivida, mas no sentido de a história narrada. 

O ponto do artigo de Denis é que, infelizmente, no fundo, é a história narrada que prevalece — enquanto a história real se perde no esquecimento. Por essa razão é que historiadores e pretensos historiadores lutam tanto para controlar qual é a história-narrativa que vai prevalecer e, no futuro, contar como se fosse a história-verdade, a história realmente vivida. 

Ele toma como exemplo a nefasta Comissão da Verdade, que, na realidade, é uma Comissão da Inverdade, que tenta reescrever a história, procurando mostrar que os terroristas, assaltantes de bancos, assassinos do período da Ditadura Militar foram heróis democráticos a quem a Pátria deve honrar e celebrar. Ela quer impor a sua narrativa como verdade, fazer de conta que a sua história-narrativa é a história-verdade. [Essa crítica à assim chamada “Comissão da Verdade” tem sido pisada e repisada por Percival Puggina em seu blog “Conservadores e Liberais”, que merece ser visitado: http://www.puggina.org/.%5D

Em resumo: a narrativa (história-narrativa) que, por qualquer meio, ainda que cheio de invenções, inverdades e meias verdades (que, na realidade, são meias mentiras) é capaz de conquistar a opinião pública acaba prevalecendo e passando por história, como se fosse a história-verdade. Os palestinos dominam essa arte como ninguém, lembra-nos o Rodrigo. 

A distinção entre História-Narrativa e História-Verdade nada mais é do que a distinção entre Mito e Verdade. 

3. Rudolf Bultmann 

Como disse atrás, o meu “estalo” de hoje não é misterioso ou miraculoso, é apenas “coincidentoso”. 

Nos últimos dias, desde quinta-feira à noite, tenho revisitado (como se diz hoje em dia) o pensamento de Rudolf Bultmann, teólogo que comecei a ler há cinquenta anos e que, desde então, nunca parou de me influenciar de alguma forma. É aí que está a coincidência (ou, como disse acima, provincidência: a leitura do artigo do Denis e a releitura de Bultmann se tocaram e, em vez de produzir um curto-circuito, produziram o meu estalo de hoje – ajudaram-me a reinterpretar Bultmann.

Para o cristão comum, leigo em teologia e nas sofisticações do pensamento acadêmico, o Novo Testamento da Bíblia cristã (vamos nos ater a ele) contém vários gêneros literários: ficção inspiradora (as parábolas), preces (o Pai Nosso), ensinamentos morais (as Bem-Aventuranças), e, naturalmente, história — entendida pelo cristão comum como história-verdade. 

O que, para esse cristão comum, é história-verdade no Novo Testamento? Os três primeiros evangelhos, chamados de Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), parte do quarto evangelho (João), o livro de Atos dos Apóstolos (supostamente escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas), etc. Nos evangelhos sinóticos está contida basicamente a história de Jesus de Nazareth, desde seu nascimento até sua morte, ressurreição e ascensão aos céus. Tudo isso, para o cristão comum, é história-verdade, isto é, fato histórico inegável. 

Bultmann nega que aquilo que os evangelhos sinóticos relatam sejam fatos históricos, “wie sie eigentlich gewesen sind” (como eles de fato aconteceram — a frase era muito usada pelos historiadores científicos do século 19, todos positivistas, que, mirabile dictu, realmente acreditavam que o historiador consegue descobrir o que de fato aconteceu na história). Para ele, o que temos nos evangelhos, inclusive nos sinóticos, é kerygma – termo que pode ser traduzido como “narrativa daqueles que vieram a acreditar que Jesus de Nazareth era o Messias prometido a Israel, ou, num contexto menos judaizante, o Filho de Deus”. Em outras palavras: o que os evangelhos sinóticos relatam não é história-verdade, mas, sim, história-narrativa, esforço de quem acredita em algo e quer, através de sua narrativa, persuadir os demais a acreditar também…

O surpreendente é que Bultmann não chega a essa conclusão para denunciar a substituição da história-verdade pela história-narrativa no caso dos evangelhos sinóticos. Para ele, o que importa não é a verdade histórica (que os historiadores científicos positivistas ingenuamente imaginavam poder descobrir), mas, sim, a verdade-narrada, a verdade-confessada, a verdade-proclamada. 

Por isso, Bultmann, que se considera cristã, sem maiores qualificativos, não tem o menos problema em admitir que, pelo menos no entender dele, nada se alteraria, em relação à fé cristã, se, per impossibile, se demonstrasse que Jesus de Nazaré nunca viveu e morreu como todo mundo, nunca ressuscitou e subiu aos céus. Para ele a ressurreição de Jesus de Nazaré é algo que não aconteceu dois mil anos atrás na Palestina, mas, sim, algo que acontece hoje (como vem acontecendo desde o início do Cristianismo) na pregação da igreja cristã, sempre que alguém, em decorrência da pregação da igreja, tem a experiência existencial de realmente encontrar, na figura de Jesus de Nazaré, o Messias, o Cristo e o Senhor de sua vida. 

O “Jesus da História”, para Bultmann, não importa. Não importa nem mesmo se houve um Jesus histórico (isto é, que verdadeiramente existiu em algum momento no primeiro século de nossa era na Palestina). O que importa é o “Cristo da Fé”, proclamado na narrativa do Novo Testamento. Uma vez admitido isso, nada impede, pelo contrário, que se faça uma distinção “clara e distinta” entre os livros históricos e os livros confessionais do Novo Testamento, como é o caso das cartas paulinas. 

4. Conclusão do Estalo 

Na minha leitura de Bultmann, até hoje, sempre considerei como mais importante o fato de que ele mostra que a visão de mundo do Novo Testamento é, basicamente, uma visão mítica, não uma visão científica, enquanto que a visão de mundo do homem moderna é, basicamente,  uma visão científica. Nessa leitura, a visão mítica do mundo se contrasta com a visão científica do mundo, vale dizer, com a verdade científica; e a verdade científica é verdade real, não uma construção narrativa… E, nessa leitura, seria preciso reinterpretar a visão mítica do mundo encontrada no Novo Testamento. Segundo essa visão mítica, seres espirituais “do andar de cima do mundo”, isto é, que habitam o céu (Deus, os anjos e outros espíritos “do bem”), lutam, incessantemente, com seres espirituais “do andar de baixo do mundo”, isto é, seres que habitam o inferno (Diabo, anjos caídos e outros espíritos “do mal”), para controlar a nossa vida aqui “no andar térreo” e, por esse controle, determinar se, um dia, depois de nossa morte, vamos habitar no céu ou no inferno (para sempre). A proposta de Bultmann seria procurar reinterpretar essa visão mítica, de acordo com os cânones da ciência (e da filosofia) moderna,  para chegar a um relato sério e honesto do que acontece com nossa vida aqui na Terra (que é o único local que conhecemos), em que nos vemos atraídos, ora para o bem, ora para o mal, em que, embora convencidos de que devemos fazer o bem (ou viver “segundo o espírito”), nos vemos lamentavelmente atraídos para fazer o mal (para viver “segundo a carne”), que possa nos oferecer uma saída para esse dilema e nos permita alcançar um viver autêntico e realizado… 

O problema com essa leitura bultmanniana é que ela desconsidera o fato de que, segundo ele, a forma de passar de uma existência inautêntica para uma existência autêntica tem, necessariamente, que ver com o “evento da salvação” (Heilsgeschehen), que, por sua vez tem que ver com a morte de Jesus de Nazareth e sua ressurreição como o Cristo em quem devemos acreditar e ao qual devemos dedicar a nossa vida, para que ela se torne autêntica e realizada… MAS, nada disso é verdade histórica, ou história-verdade, mas, sim, história-narrativa, ou seja, mito — um outro mito, mais palatável ao homem moderno, mas, apesar disso, um mito, nevertheless (que quer dizer never the less…).  

O esforço de Bultmann, em outras palavras, está no mesmo plano que o esforço da “Comissão da (in)Verdade”. 

Em São Paulo, 25 de Agosto de 2014

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