Elucubrações Perigosas…

Há 15 anos escrevi um artigo com o título “How Far Can a Doctrine Change Without Becoming Something Else?”. Esse artigo, que foi publicado nos Proceedings of the Second Assembly of World Religions [Anais da Segunda Assembléia de Religiões Mundiais], Los Angeles, EUA, 1990), está disponível aqui no blog no URL http://liberalspace.net/2014/05/26/how-far-can-a-doctrine-change-before-becoming-something-else/.

Quase 80 anos antes, em 1923 J. Gresham Machen, na época professor do Seminário Teológico de Princeton, escreveu um livro chamado Christianity and Liberalism em que argumentava que o Liberalismo Teológico (contra o qual ele se batia) tinha ultrapassado o limite (ao qual, muito tempo depois, eu fiz referência): o Liberalismo havia se tornado “something else” — não era mais Cristianismo, era uma outra religião: uma religião imanentista, sem o sobrenatural; secular, sem o sagrado; focada na ética de Jesus, na regra áurea, na visão de que “o céu é um lugar aqui na Terra” e que, portanto, o Reino dos Céus não será nada mais do que a Terra transformada (por nós, naturalmente).

Quando escrevi o artigo em 1990 não havia lido o livro de Machen ainda (embora já houvesse escrito sobre Machen). Hoje, quando já o li e reli, sinto uma semelhança enorme entre o que ele diz e a resposta que tentei dar à pergunta que fiz no título do meu artigo. Foi a consciência de que o “How Far” tem um limite, e que esse limite pode ser ultrapassado, e muitas vezes é, que me fez concluir, por volta de 1970, quando desisti de ser pastor (teria de ser ordenado naquela época), que Bultmann (inter alia: muitos outros com ele) havia ultrapassado esse limite, e que eu poderia até continuar sendo bultmanniano, mas não seria mais cristão… Ergo… devo procurar outra coisa para fazer. Como ser teólogo, em vez de pastor… (embora eu soubesse, da história que escrevi no seminário sobre o movimento Fundamentalista, que teólogos também podem perder o emprego por heresia).

A triste conclusão dessa linha de pensamento é que, ou se é conservador ou ortodoxo, ou, então, rapidamente se deixa de ser cristão para adotar uma “religião secular”, que hoje se manifesta, entre os evangélicos, como “religião de auto-ajuda”, “religião da prosperidade”, etc. No extremo, a “esquerda teológica”, a teologia da libertação et alia deixaram de ser alternativas cristãs para se tornar outras religiões, seculares, políticas, em alguns casos (não todos) revolucionária. O mesmo vale (no meu entender) para teologias feministas, teologias negras, marrons, amarelas, vermelhas, etc.

Ainda bem (para ele) que Machen morreu (cedo) antes de ver que o Liberalismo Teológico contra o qual ele se bateu tão corajosa e valentemente, e perdeu (pois teve de sair da igreja e do Seminário que ele amava — fato que lhe causou uma morte prematura, provavelmente por desgosto), era uma versão muito “light and soft” de algo que hoje se tornou “heavy and hard”.

O que me impediu de continuar liberal foi honestidade intelectual, de um certo tipo: a convicção de que isto não é aquilo, de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, e que não se deve fazer de conta que uma coisa é a outra.

O que me impediu de me reconhecer fundamentalista ou conservador também foi honestidade intelectual, só que de outro tipo. Minha capacidade de pensar e refletir (aparentemente dada por quem me “projetou” (designed) assim) me impediu de reconhecer que a maior parte do que eles, fundamentalistas e mesmo conservadores, defendiam e continuam a defender era verdade (embora a hermenêutica deles seja mais honesta do que a dos liberais).

Será que há um “tertium quid”? Será que o “tertium quid” está em um Cristianismo não doutrinário? Ou será que isso já é Liberalismo?

Em São Paulo, 17 de Agosto de 2015

  1. Recebi a resposta abaixo de um leitor que deixo anônimo por não ter a autorização dele para indicar sua autoria. Se e quando a receber, coloco o nome dele aqui:

    ———-

    Olá, Eduardo.

    Tenho lido aos poucos o seu blog e admirado bastante. Seu texto “Elucubrações Perigosas…” mexe muito comigo e principalmente por isso escrevo esta reposta.

    O texto implica uma definição de “cristão” que não é esclarecida. O que é ser cristão? Quem tem o poder de dizer o que é e o que não é cristão?

    Não creio ser justo dizer que o que a igreja assim define, o é. Essa posição conservadora se esquece de que a igreja também erra.

    Soma-se a isso o fato de que não se fala mais em “cristianismo primitivo”, mas sim em “cristianismos primitivos”, devido a seu pluralismo.

    Parece-me também plenamente plausível afirmar que o núcleo da fé cristã — Jesus — era de certa forma um “liberal”. É possível ser liberal a partir da fonte. A demitologização pode ser entendida não como uma forma de tornar a mensagem palatável aos nossos dias, mas como maneira de entender o texto dentro de seu gênero literário, e.g. assim como se faz com um romance hoje (se não me engano, essa era a proposta da demitologização).

    Assim, fica difícil dizer que só cristãos conservadores são, de fato, cristãos.

    Sobre as teologias citadas, me parece plausível também encontrar elementos de libertação e feministas, por exemplo, nas escrituras cristãs, sem precisar apelar para o marxismo ou para a teoria feminista. Embora isso me pareça empobrecer a teologia.

    Além do mais, o método histórico-crítico é sem dúvida superior ao método de interpretação conservador.

    Embora eu não me importe com os rótulos, preocupando-me mais com o devir do que com o que já está constituído, sou fiel à minha tradição cristã e creio que como teologicamente progressista consigo levar muito mais a sério a mensagem cristã. Além disso, não quero deixar que apenas vozes conservadoras e fundamentalistas definam o que é cristão. O significado primeiro de cristão talvez esteja distante demais para recuperarmos, só podemos continuamente ressignificá-lo.

    Abraços,

    xxx

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