A Educação: Visão Sociológica e Visão Psicológica

Dizem os entendidos em etimologia que o termo “educar”, de onde vem “educação”, tem, possivelmente, duas origens no Latim: o verbo “educare” (palavra paroxítona) e o verbo “educere” (palavra proparoxítona, com o segundo “e” breve, e pronunciado, como dizem os entendidos, “edúquere”).

[A UniOeste tem até uma “e-revista” — Revista de Educação — que se chama “Educere et Educare”].

Não sou linguista. Portanto, vou apenas relatar o que já li, sem botar a minha mão no fogo em relação à questão etimológica. Meu interesse está nas duas visões (ou “correntes”) que essa tese etimológica incorpora.

Entendo que o primeiro verbo seria mais relacionado com conduzir, levar para um destino… Viria de sua raiz a expressão que serve de mote aos paulistas: “non ducor, duco”: “não sou conduzido, conduzo”. Também viria de sua razão o termo “duce”, “condutor”, “líder”, que Mussolini aplicou a si mesmo.

Entendo que o segundo verbo seria mais relacionado com trazer para fora, extrair…

Independentemente da questão etimológica, teríamos aqui os elementos básicos das duas visões (ou “correntes”).

A primeira visão seria mais orientada pela sociologia; a segunda, pela psicologia…

A. A Primeira Visão

A primeira corrente (mais orientada pela sociologia) vê a educação como um processo preservador, reprodutor, transmissor da cultura: das tradições, dos conhecimentos, dos valores. Seriam esses os “conteúdos socialmente construídos” de que tanto falam os marxistas e outros socializantes — para quem nada é produto do indivíduo em sua individualidade.

Educar alguém (e o verbo é transitivo: x educa y) é inicia-lo, introduzi-lo, inseri-lo nessa cultura, para que ele a absorva e assimile.

A educação, portanto, faz parte de uma família de conceitos que inclui socialização, aculturação, inculcação de hábitos e valores, até mesmo de ideias: doutrinação.

Émile Durkheim, o príncipe dos sociólogos, deixou claro:

” A educação tem por função suscitar na criança: a) um certo número de estados físicos e mentais que a sociedade considera como indispensáveis a todos os seus membros; b) certos estados físicos e mentais, que o grupo social particular (casta, classe, família, profissão) considera igualmente indispensáveis a todos que o formam. A sociedade, em seu conjunto, e cada grupo social que a constitui, determinam quais são esses ‘estados físicos e mentais’ “.

(Vide http://www.ufrgs.br/tramse/pead/textos/durkheim.pdf).

A escola, como agente privilegiado da educação nas sociedades mais desenvolvidas, é, nesta visão, um agente socializador e aculturador. Ela age em nome da sociedade e dos seus diversos grupos sociais para “moldar” (colocar no molde), “formar” (dar forma, colocar na fôrma) as gerações mais novas, para que elas possam corresponder ao que as gerações mais velhas esperam delas.

Aprender, na escola, dentro dessa visão, é absorver e assimilar a cultura da sociedade, ser socializado, ser aculturado.

Avaliar a aprendizagem é medir se, e em que medida, essa absorção e assimilação se deu.

A ação da escola se pauta pelos interesses da sociedade e dos diversos grupos sociais que a constituem. Isso faz dela, nessa visão, uma uma instituição conservadora. (É por isso que sindicatos de professores estão entre os mais conservadores que existem, em qualquer lugar do mundo: em geral se opõem a qualquer tipo de mudança).

B. A Segunda Visão

A segunda corrente (de orientação mais psicológica) vê a educação de forma diferente. Ela vê a educação como um processo centrado na criança. Seu objetivo não é colocar a criança num molde ou numa fôrma, para que assuma a forma do molde ou da fôrma. Seu objetivo é ajudar a criança a descobrir os seus interesses e os seus talentos, aquilo que ela gosta de fazer e que sabe fazer bem — e, a partir daí, ajuda-la a desenvolver esses interesses e talentos e a definir um projeto de vida que, tanto quanto possível, integre seus interesses e seus talentos.

(Vide Sir Ken Robinson, O Elemento-Chave: Descubra onde a Paixão se Encontra com seu Talento e Maximize seu Potencial [Ediouro])

A escola, nessa visão, deve ser um ambiente privilegiado de aprendizagem que garanta à criança um espaço em que possa “praticar a liberdade”: explorar seus interesses, testar os seus talentos, sempre com a ajuda de profissionais que respeitam os seus direitos e a sua liberdade de aprender, e que a instigam, por vezes facilitam, outras vezes problematizam, mas sempre a apoiam, social, emocional e intelectualmente.

Educar, nesse contexto, não é algo que um faz sobre o outro: é algo que um faz com o outro. “Ninguém educa ninguém, tampouco alguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros…” (Paulo Freire).

Não importa se os interesses e talentos da criança são inatos ou se apenas aparecem muito cedo na interação da criança com seu meio. O que importa é que as crianças, muito cedo, exibem interesses e talentos próprios, quiçá em combinação única, e que é preciso respeita-los e ajuda-las a desenvolve-los.

Aprender, nessa visão, é desenvolver competências e habilidades, é se tornar capaz de fazer o que antes não se conseguia fazer.

Avaliar a aprendizagem é procurar determinar, pela observação, pela interação, pelo diálogo, em que medida as competências e habilidades estão sendo desenvolvidas, com vistas a aperfeiçoar o processo de desenvolvimento.

E os “conteúdos socialmente construídos”? Eles são “transversalizados” (ao contrário do que propõem os PCN, que foca os conteúdos disciplinares, tanto que seus volumes estão organizados por disciplinas, e sugerem que se transversalize o que importa: competências, habilidades, contexto, etc.). Recorre-se a eles sempre que se mostrarem relevantes ao desenvolvimento das competências e habilidades de as crianças precisam para definir e realizar seu projeto de vida.

C. Conclusão

É isso. Por enquanto.

À filosofia cabe tentar analisar, em discurso de ordem lógica superior (no nível meta), esses diversos discursos pedagógicos. Aqui eles foram apresentados em sua forma “ideal”. Boa parte dos autores e das pessoas mistura as duas correntes. Muitas vezes o resultado da mistura sacrifica a coerência.

Em São Paulo, 3 de Março de 2013

  1. Eduardo, na sua descricao da perspectiva sociologica eu senti falta da dimensao colaborativa, de construcao social, coletiva, do conhecimento. Voce apontou apenas para a relacao individuo-sociedade mas a abordagem sociologica vai muito alem disto.

    Eu creio que o estudo de Durkheim sobre o Suicidio e’ o que mais evidencia o objeto especifico da sociologia. Poucos fenomenos parecem ser tao carregados de uma dimensao psicologica quanto o suicidio. Mas Durkheim mostra que a abordagem puramente individual perde de vista uma ampla dimensao do fenomeno: sua dimensao propriamente social.

    Tem uma dimensao propriamente social da aprendizagem, que se manifesta sobretudo na aprendizagem colaborativa, e que nao se reduz a considerar apenas 2 individuos interagindo e aprendendo. Tem uma comunidade de aprendizagem que faz a “magica” da aprendizagem colaborativa acontecer, e esta comunidade tem suas caracteristicas e dinamicas proprias que nao se reduzem ‘a soma das caracteristicas dos individuos que a compoem. Estudar esta dimensao e’ um dos objetos da sociologia da educacao.

    A sociologia do conhecimento (Mannhein, Berger & Luckmann etc) lanca luz sobre isto. Senti falta desta abordagem na sua breve caracterizacao da visao sociologica. Voce olhou pro macro, mas tem tambem o lado micro das relacoes sociais dentro de comunidades de aprendizagem.

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