Tecnologia, Inovação e Educação

Saiu o Vol. III do Crescer em Rede, do Instituto Crescer.

http://institutocrescer.org.br/cresceremrede/vol-3.php

Eu faço a Apresentação desse volume, com o seguinte texto:

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APRESENTAÇÃO

“A tecnologia é uma coisa fantástica.

O ser humano é dotado da capacidade criativa e técnica de inventar coisas que, de um lado, tornam nossa vida mais fácil, eficiente e agradável e, de outro lado, nos permitem realizar ações que, sem essas invenções, seria impossível – ou, pelo menos, muito difícil – realizar.

A tecnologia, em última instância, é isso: invenções humanas que, de um lado, nos permitem fazer melhor ou mais eficientemente (com mais qualidade, com mais rapidez, com mais alcance, com mais prazer, com menos recursos, com menos esforço, etc.) o que já fazemos, e, de outro lado, ampliam nossa capacidade (sensorial, motora, manipuladora, e mesmo mental) de modo a tornar possível que façamos coisas que, sem essas invenções, seria impossível, ou muito difícil, fazer. Nesse segundo sentido, a tecnologia estende a nossa capacidade de perceber o mundo, de nos locomover nele, de manipulá-lo, e até mesmo de pensá-lo ou de refletir sobre ele.

Sem dúvida qualquer tecnologia já é, em si própria, algo inovador. O prego e o martelo, o parafuso e a chave de fenda, o pincel e a tela, o papel e o lápis, todas essas tecnologias são, vistas em si mesmas, inovadoras, apesar de, quando vistas em retrospectiva e perspectiva, serem bastante simples e “baixas” (quando comparadas com as “altas tecnologias” de hoje).

Mas mais importante do que a inovação contida na própria tecnologia é a inovação que ela torna possível. Quem inventa uma tecnologia sabe que está fazendo algo inovador no primeiro sentido: o prego foi inventado para ser pregado em algum lugar e o martelo foi inventado para pregá-lo com maior facilidade. Contudo, quem inventa uma tecnologia muitas vezes não tem muita ideia de tudo o que poderá ser feito com ela, através dela, com a ajuda dela.

Cito um exemplo bem próximo das tecnologias que são objeto do documento que ora estou incumbido de apresentar: o computador. Inventado durante a Segunda Guerra Mundial, o computador era visto, por seus inventores, com uma gigantesca máquina de calcular, que permitiria que se calculassem, com maior rapidez e precisão, trajetórias balísticas. Deram-lhe o nome pomposo de ENIAC: Electronic Numeric Integrator and Calculator. Se os seus inventores houvessem sido indagados, em 1944, se achavam possível que, setenta anos depois, em 2014, todo mundo andaria com um equipamento daqueles no bolso ou na bolsa, só que o equipamento seria muitíssimo menor, mas, apesar disso, muitíssimo mais potente, e que, além de calcular trajetórias balísticas, o equipamento de 2014 permitiria que as pessoas fizessem chamadas telefônicas, se comunicassem também por texto e por vídeo, tirassem e vissem fotografias, fizessem e assistissem filmes, usassem o computador como relógio e despertador, como livro de endereços, como agenda de compromissos, como repositório de dados e informações, como leitor de livros, revistas e jornais eletrônicos, como brinquedo (videogame), etc. eles certamente diriam que não, que seria impossível que o computador que inventaram para ajudar no esforço de guerra dos Aliados pudesse se tornar tão pequeno, acessível e versátil de modo a fazer tudo isso que foi listado.

E, no entanto, foi exatamente isso que aconteceu.

Narra a história que a IBM, que fabricava equipamentos de escritório (business machines, a expressão faz parte do nome da empresa criada em 1911), como relógios de ponto e máquinas de calcular e de escrever, contratou, a peso de ouro, alguns dos mais importantes consultores da época para que lhe dissessem se ela deveria ou não investir na tecnologia recém inventada. A resposta deles foi de que a invenção não teria futuro, porque, quando ela “pegasse”, não iria haver lugar no mundo para mais do que uns quinze computadores, em enormes instituições de pesquisa avançada, cheias de cientistas e engenheiros. Felizmente, para a IBM e para nós, Thomas Watson, o grande chefe da IBM na época, desconsiderou a resposta dos consultores e investiu na tecnologia. . .

Por que estou dizendo isso? Porque nossa inclinação, ao ver uma nova tecnologia, em especial uma tecnologia fascinante como o computador ou o smartphone, é pensar apenas no seu uso para fazer aquilo que já fazemos, só que, agora, com a tecnologia, de uma maneira um pouco mais eficiente, quiçá mais prazerosa, e, quem sabe, com um pouco mais de qualidade e alcance.

Estamos sendo inovadores quando usamos a tecnologia desse jeito? Quando, em vez de escrever no quadro negro (verde, branco), projetamos algo numa tela? Quando, em vez de os alunos nos entregarem seus trabalhos nos costumeiros garranchos, nós exigimos que eles entreguem os trabalhos impressos, ou, quem sabe, os enviem por e-mail ou os depositem num servidor para que possamos lê-los na tela? Ou quando, em vez de fazermos experimentos em laboratórios convencionais, nós os fazemos em um laboratório digital que simula o outro? Quando, em vez de dar nossa aula numa sala de aula física, nós a gravamos e disponibilizamos em uma plataforma de ensino a distância, para muito mais gente se beneficiar com ela? Poderia me estender aqui, mas não é necessário.

Não nego que possa haver alguma inovação nesses usos da tecnologia que eu chamo de conservadores ou, na melhor das hipóteses, reformadores. Mas o computador não revolucionou o mundo por ter sido usado de forma conservadora e reformadora, quando comparada com a intenção e os propósitos de seus inventores. O computador revolucionou o mundo porque pessoas criativas, que não eram necessariamente técnicas (cientistas, engenheiros, etc.), decidiram dar novos usos a uma máquina inventada para fazer cálculos de trajetórias balísticas.

Jeff Bezos, o criador da Amazon, poderia ter criado uma grande livraria física para concorrer com as megalivrarias físicas existentes no mundo naquela época, usando a tecnologia para torná-la mais eficiente na captação de clientes, mais rápida no seu atendimento, menos onerosa na operação, de maior alcance. . . Mas não, ele usou a tecnologia para criar uma livraria virtual, que registrava não só o que os clientes compravam mas tudo o que eles viam na tela, e também vendia livros virtuais (e-books) que chegavam nas mãos dos clientes em menos de um minuto por um preço muito mais barato, permitia aos clientes criarem suas próprias livrarias virtuais ganhando um percentual do preço dos livros vendidos através delas, dava possibilidade aos clientes de avaliar a qualidade do serviço que havia lhes sido prestado e dos livros comprados, solicitava aos clientes que escrevessem resenhas críticas dos livros comprados e lidos. Não contente, Bezos começou a vender outras coisas além de livros físicos e virtuais: discos e filmes, por exemplo – que poderiam ser baixados no ato (como já era feito por um concorrente). A Amazon virou um verdadeiro shopping center online de presença global.

Estou convicto de que a fantástica tecnologia de que hoje dispomos estará sendo usada de forma realmente inovadora na educação quando os envolvidos na educação – alunos, professores, gestores, consultores, prestadores de serviço – estiverem dispostos a pensar “fora da caixa”, a encontrar novas e diferentes formas de aprender e facilitar a aprendizagem com a ajuda da tecnologia, de modo que cada um de nós possa, com o apoio da tecnologia, aprender sempre e a qualquer hora (anytime), a partir de qualquer lugar (anywhere), na forma e no estilo em que aprende melhor (anyway ou anyhow), ajudado e apoiado não só pelos facilitadores “oficiais”, os professores, mas por pares, colegas, e quaisquer outras pessoas, que passam a ser “parceiros na aprendizagem”; que aprendentes, facilitadores da aprendizagem, e parceiros de aprendizagem possam, quando a ocasião se fizer presente, trocar de lugar, para aprender outras coisas, o aprendente se tornando facilitador e este virando aprendente, mas todos continuando realmente parceiros na aprendizagem; que deixemos de criar escolas convencionais, muitas vezes verdadeiras prisões em que crianças e adolescentes são forçados a cumprir sentença, sem aprender o que lhes importa e interessa, e tornemos a vida, a sociedade, o mundo o ambiente de aprendizagem por excelência, em que a aprendizagem seja ativa, proativa, interativa, colaborativa, significativa, atrativa – o tempo todo.

Cumprimento o Instituto Crescer para a Cidadania pelo trabalho que vem fazendo, com seus diversos parceiros. Tenho o privilégio de fazer parte de seu Conselho Consultivo, desde que foi criado. É com enorme satisfação que faço a apresentação deste terceiro volume do Crescer em Rede, depois de acompanhar o lançamento dos dois primeiros. É um trabalho fantástico, porque é assim que devemos crescer: em rede. Mas é importante que não se perca de vista que não basta crescer: é preciso também transformar a educação, e transformar quer dizer “mudar com elevado grau de inovação”, de modo que a forma atual (o paradigma vigente) seja transcendida, deixada para trás, substituída por uma educação nova, inédita, que ninguém ainda sequer ousou pensar.

Para isso é preciso continuar olhando longe, só que mais longe ainda, é preciso pensar fora da caixa, só que mais fora ainda, olhar não só para o que existe e pensar de que maneira podemos fazê-lo melhor, mas pensar em coisas novas, que nunca fizemos ainda, olhar para o que ninguém ainda ousou sonhar e perguntar: “Por que não?” Uma educação totalmente diferente é possível.

São Paulo, 18 de Agosto de 2014

Eduardo Oscar Epprecht-Machado Campos-Chaves

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