My Way

[Republicação, com pequenas alterações]

A vida de vez em quando dá umas porradas na gente, quando a gente menos espera. Minha irmã perdeu, recentemente, um atrás do outro, um cunhado e uma cunhada (não casados um com o outro). Ficou, naturalmente, meio abalada – quem não ficaria? Conversando com ela no Messenger, mencionei uma de minhas canções favoritas: “My Way”, letra de Paul Anka (meio que versão do Francês para o Inglês), interpretação inigualável de Frank Sinatra. Enquanto conversávamos, resolvi traduzi-la para o Português.

Não sou poeta: não consigo traduzir em verso, com rimas e métricas. Mas o resultado, apesar de literariamente precário, é, pelo menos, parece-me, fiel ao original.

A letra da canção é uma lição de vida.

Em Agosto passado (2006), quando estive em Perth, no Oeste da Austrália, fui convidado a participar de um talk show – uma entrevista longa, de uma hora, falando de tecnologia, educação, religião e a vida em geral – da ABC Radio da Austrália. A produção do show me contatou antes e me perguntou se eu tinha uma música favorita. Eles queriam começar o programa tocando a música. Indiquei “My Way”, com o Frank Sinatra. Começaram o programa assim – e me perguntaram, em seguida, por que eu havia escolhido essa música.

Respondi basicamente o seguinte:

Em primeiro lugar, porque que a canção é sobre “My Way” – não “The Way”. Não sou um relativista. Acredito que existam verdades e valores absolutes. Mas em relação ao tipo de vida que vamos viver, e como vamos viver, cada um de nós é soberano – e temos o direito até mesmo de cometer erros, às vezes até uns erros meio bestas. Não raro, é assim que a gente aprende. Seria ótimo se a gente pudesse aprender sempre com os erros dos outros, sem ter de cometer os próprios. Mas não é assim que é a vida. Karl Popper até mesmo sugeriu que quanto mais cedo cometêssemos nossos erros, tanto melhor – mas não nos deu nenhuma garantia de que, se os cometêssemos cedo, não iríamos cometê-los também mais tarde…

Em segundo lugar, porque a canção reconhece que somos responsáveis pela escolha não só do conteúdo de nossas vidas (o que ser, o que fazer, com quem nos relacionar), mas também da nossa maneira de ser, de nossa maneira de fazer as coisas, de nossa maneira de nos relacionar com os outros – enfim, de nosso estilo. Cada um, afinal, tem “seu jeito” – e esse jeito é, ou pode ser, objeto de nossa escolha.

Em terceiro lugar, porque a canção reconhece o fato de que, não importa quanto planejamento a gente faça (“chart our course”, “carefully plan each step”), às vezes as coisas não acontecem como as planejamos. Não raro tentamos abocanhar mais do que conseguimos mastigar (“we bite off more than we can chew”)… Nesses casos, a melhor coisa a fazer é cuspir aquilo que foi mordido mas está além de nossa capacidade de mastigar…

Em quarto lugar, porque a canção reconhece que na vida há impoderáveis, há sorte e azar, há coisas como aquelas que Woody Allen traz à tona em seu lindo filme (com a não menos linda Scarlett Johansson) “Match Point”…

Em quinto lugar, porque a canção reconhece que a vida é feita de amores, de alegrias, de risos – mas também de perdas, de tristezas, de lágrimas… Mas quando esses maus momentos chegam, devemos procurer ficar de pé (“stand tall”) e enfrentá-los (“take the blows”) – e fazer isso do nosso jeito.

Finalmente, em sexto lugar, por causa da mensagem final: o homem não tem nada, se não for dono de si mesmo. Quem se ajoelha, entrega o controle de sua vida a terceiros.

Aqui está a letra traduzida para o Português:

Do Meu Jeito (My Way)

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

Agora, o fim está próximo, chegou a hora da última cortina.
Por isso, amigo, vou apresentar meu caso, do qual não tenho dúvidas.
Vivi uma vida plena, andei por tudo o que é caminho,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Arrependimentos tive alguns, mas poucos para merecer menção.
Eu fiz o que tinha de fazer, fui até o fim, sem exceção.
Planejei meus caminhos, e, neles, escolhi meus passos,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Vezes houve, você sabe, quando abocanhei mais do que pude mastigar.
Mas é que, em caso de dúvida, nunca hesitei:
Sempre mordi primeiro, ainda que pra cuspir depois.
Enfrentei tudo, sempre continuei de pé, e fiz tudo do meu jeito!

Eu amei, ri, chorei – de tudo tive minha cota, até de derrotas…
Mas agora, que as lágrimas já secaram, acho tudo até divertido!
Pensar que eu fiz isso tudo, e, se eu posso dizer, sem modéstia,
Ah, não! modéstia não é comigo… Eu fiz tudo do meu jeito!

Pois o que é o homem, no fundo o que é que ele tem?
Se não for dono de si mesmo, ele é pobre, nada tem.
Dono para dizer o que pensa e sente, não as palavras de quem se ajoelha.
Os autos provam: levei porradas, sim, mas fiz tudo do meu jeito!

ORIGINAL:

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

And now, the end is near,
and so I face the final curtain
My friend, I’ll make it clear,
I’ll state my case, of which I’m certain

I’ve lived a life that’s full
I traveled each and every highway;
And more, much more than this,
I did it my way

Regrets I had a few,
but then, again, too few to mention
I did what I had to do
and saw it through without exemption

I planned each charted course,
each careful step along the byway
And more, much more than this,
I did it my way

Yes, there were times,
I’m sure you knew,
When I bit off
more than I could chew

But through it all, when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
and did it my way

I’ve loved, I’ve laughed and cried,
I’ve had my fill, my share of losing
And now, as tears subside,
I find it all so amusing

To think I did all that, and, may I say,
not in a shy way,
“Oh, no, oh, no, not me!
I did it my way”

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught,
To say the things he truly feels,
and not the words of one who kneels

The record shows
I took the blows
and did it my way!

Em Kuala Lumpur (já no aeroporto para ir embora), 9 de dezembro de 2006

 

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