Pessimismo vs Otimismo: O Pecado Original vs a Perfectibilidade Humana

1. Introdução

Minha prima querida, Alison Biggi Sanvido, escreveu hoje, lá de Calgary, no Canadá, em seu Facebook (usando outra tradução da Bíblia):

“Por acaso, um homem preto pode mudar a cor da sua pele ou o leopardo tirar as suas manchas? Se isso fosse possível, vocês, que só sabem fazer o mal, também poderiam aprender a fazer o bem.” (Bíblia, Jeremias 13:23, NTLH; itálico acrescentado).

A tradução usada pela Alison não diz “homem preto”, diz “etíope”. Mas a Nova Tradução em Linguagem de Hoje (NTLH), que eu usei, fez bem em não eufemizar: é preferível dizer as coisas da forma que elas foram ditas, sem tentar suaviza-las. [Meu Word me informa que o verbo “eufemizar” não existe. Mas existe, sim. Ele deriva de “eufemismo”, cujo sentido é “ato de tentar atenuar e abrandar o sentido ou o impacto palavras e ideias consideradas desagradáveis”. Se não existisse, teria passado a existir a partir do momento em que eu o utilizei.]

Enfim, o versículo de Jeremias, um escritor meio pessimista e mimimi (donde o termo “jeremíada”, que quer dizer “diatribe, lamentação, discurso emocionado e revoltado sobre assunto considerado polêmico”), me fez lembrar de duas coisas, que vou relatar e discutir aqui:

Primeira coisa: de uma aula que dei na semana atrasada (dia 29 de fevereiro), na sequência da “condução coercitiva” do Lulla, que, ultimamente, abandonou a persona “Lulinha, paz e amor” para se parecer mais com um cão raivoso e babento. A aula era de História da Igreja, mas eu resolvi relacionar os eventos da semana (a aula era na sexta, dia 4) com certos temas teológicos que aparecem com frequência na história do pensamento cristão.

Segunda coisa: de um livro de Thomas Sowell, A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Conflicts (Basic Books; 1st ed. 1987; 2nd ed. 2006) que li pela primeira vez em 1999, dois anos depois de publicado em primeira edição, e que voltei a ler recentemente, na versão revista, a propósito de um outro livrinho que comprei na semana passada sobre Thomas Sowell, que mencionarei no capítulo 3.

2. Lula, Eventos Recentes e a História do Pensamento Cristão

Abordei na aula de 4 de Março dois temas ou duas doutrinas cristãs: (a) a doutrina do pecado original combinada com a doutrina da total depravação da natureza humana e (b) a doutrina da dupla predestinação.

A. O Pecado Original e a Total Depravação Humana

O primeiro tema que quero discutir é a doutrina combinada do alegado pecado original do homem e da suposta depravação total de sua natureza humana que esse pecado produziu. Em outras palavras: a doutrina de que, em virtude do fato de nossos supostos primeiros pais terem pisado na bola lá no Jardim do Éden, em que presumidamente viviam, desobedecendo a Deus e, assim, cometendo o primeiro pecado, chamado de “pecado original” pelos teólogos, todos os seus descendentes, vale dizer, toda a humanidade, nós inclusos, ficou, por assim dizer, tão contaminada pelo ação do primeiro casal que, como diria Agostinho, non peccare non potest: não pode não pecar, não é capaz de não pecar, isto é, está destinada a, inevitavelmente, ser pecadora.

Agostinho, no século 4-5 e os reformadores protestantes do século 16 (em especial Calvino, mas, em menor grau, também Lutero) aparentemente sentiam prazer especial em dizer, insistentemente, que o pecado original de Adão e Eva – que podiam não pecar, e, por conseguinte, tinham livre arbítrio, em decorrência do qual, podendo não pecar, escolheram pecar – corrompeu de tal maneira a natureza de seus descendentes que a tornou “totalmente depravada”, a ponto de seus oponentes (pelagianos, arminianos, etc. – movimentos devidamente condenados como heréticos pelos donos da verdade, os ortodoxos) os acusarem de negar que, depois da queda dos pais primevos [Word recusa o termo], nós realmente ainda tenhamos livre arbítrio, isto é, ainda sejamos livres.

Se os críticos de Agostinho e os reformadores protestantes estiverem certos em sua alegação (e eu suspeito que estejam), nós, no entender da ortodoxia protestante, não somos (sem a ajuda divina, registre-se) realmente livres para non peccare, para fazer o bem e o certo, para viver uma vida que, ao final, nos aterrize no céu, por toda a eternidade. [“Aterrizar no céu” é uma expressão que parece contraditória, mas vá lá – e o Word, na companhia de alguns outros frescos, refuga o verbo “aterrizar” – mas prefiro ficar com o Houaiss, que diz que “aterrizar” quer dizer a mesma coisa que “aterrissar”, que é o termo que “les bien-parlants” de hoje preferem. Mas estou digressionando de novo – e uso esse verbo horroroso porque o Word e o Houaiss me asseveram que “digredir”, que eu prefiro, não existe… Voltemos ao assunto]. Em outras palavras: só conseguimos non peccare, fazer o bem e o certo, mesmo assim inconsistentemente, se Deus (ou Jesus Cristo) passar a (de alguma forma) viver em nós e, dentro de nós, a agir por nós. Como dizia Paulo, o santo padroeiro de Agostinho e dos reformadores protestantes, “assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim” (Bíblia, Gálatas 2:20, NTLH). É só pelo mérito de Jesus Cristo que a gente pode ter esperança de um dia aterrizar no céu – nunca por nossas próprias ações, e, portanto, pelo nosso próprio mérito.

B. A Predestinação do Homem para a Salvação e a Perdição Eterna

O segundo tema que eu quero discutir é a chamada doutrina da dupla predestinação – que, de certo modo, me parece ser a consequência lógica da doutrina do pecado original cum corrupção total da natureza humana que acabamos de ver.

Se, após a queda de Adão e Eva, o ser humano (i.e., nós todos) ficou incapaz de não pecar, de fazer o que é bom e certo, nós não podemos nos redimir ou salvar: estamos fatalmente condenados, caso haja alguma forma de vida depois da morte (o que nenhum dos teólogos mencionados duvidava), ao sofrimento eterno. (Essa é a malfadada doutrina das “penas eternas” que tanto sofrimento já causou antes mesmo da eternidade). Mas, segundo Agostinho e os reformadores protestantes, nem tudo são más notícias. Em meio a tantas más, há uma boa nova. Deus decidiu – lá atrás, antes mesmo da criação do mundo, e, portanto, antes de os primeiros pais pecarem pela primeira vez – escolher alguns seres humanos para que fossem poupados do sofrimento eterno. Esses são aqueles que as igrejas reformadas chamam de “os eleitos”. Escolheu-os, não porque, sendo onisciente, ele (Deus) soubesse que eles seriam melhores do que o resto. Escolheu-os, sem que eles tivessem qualquer mérito, por ínfimo que fosse. Escolheu-os, embora eles merecessem, como os demais, sofrer as “penas eternas”. Escolheu-os, em sua soberania, porque assim o quis.

Os demais, ele simplesmente não os escolheu. Isso parece sugerir que, em se tratando de Deus, o fato de não ter escolhido os demais para serem salvos implica que os tenha escolhido para, eternamente sofrer no inferno (que será “uma fornalha de fogo” em que os que lá aterrizarem “vão chorar e ranger os dentes de desespero” – o subtema do choro e ranger de dentes em desespero parece ser muito caro a Mateus, a julgar pela frequência que ele o menciona no Novo Testamento: Mateus 8:12, 13:50, 22:13, 24:51, 25:30). Alguns reformados “machos”, mesmo, admitem que Deus escolheu uns para a salvação eterna e outros para a perdição eterna. Outros preferem abrandar um pouco, afirmando que Deus escolheu apenas alguns para a salvação eterna – os demais, ele não escolheu para a perdição eterna, apenas deixou-os sofrer as consequências de sua própria escolha…

Mas aqui surge um problema: como fazer em escolha deles, se eles não escolheram pecar, pecando simplesmente porque não podiam não pecar? Como diziam Agostinho e os reformadores protestantes, eles eram incapazes (non potest) de não pecar (non peccare). Logo eles não tinham a escolha de não pecar. Como puni-los, ou deixar que sofram as consequências de uma escolha que eles não tiveram e, portanto, não fizeram? É aqui que a teologia reformada clássica enfrenta o que talvez seja seu maior problema.

Não vou resolver esse problema porque não sei como. Vou simplesmente voltar à aula que estava dando no dia 4 de Março.

C. É possível Aplicar Essas Doutrinas Hoje?

Não sabemos quem, na visão da teologia agostiniana e reformada, é eleito e quem não é eleito. A pergunta que coloquei aos meus alunos foi se seria justo, da nossa parte, criticar tanto o Lulla, a Dillma, e a petralhada, diante da possibilidades de que eles (a) simplesmente tivessem adquirido, em decorrência de uma ação, não deles, mas de Adão e Eva, lá nos primórdios do tempo, uma natureza humana defeituosa, total e absolutamente depravada e corrompida, e que eles (b) novamente não por decisão deles, mas, agora, de Deus, não estivessem entre aqueles que Deus escolheu redimir e elegeu para a salvação eterna, e que eles, portanto, (c) não pudessem fazer outra coisa que não pecar, isto é, mentir, enganar, roubar, ativamente corromper os outros, assassinar até os colegas de partido, sustentar amantes e filhos espúrios com o dinheiro dos outros, vindo, ao final, merecidamente sofrer as penas eternas, em uma fornalha de fogo, em que só lhes restaria chorar e ranger seus dentes, no maior desespero…

Garanto que a discussão foi boa – e ficou mais acalorada porque havia vários não presbiterianos na classe e porque muitos presbiterianos relutavam em aceitar essas doutrinas clássicas da tradição reformada…

3. Thomas Sowell e Duas Visões da Natureza Humana

Lá atrás disse que o versículo de Jeremias 13:23, publicado no Facebook pela minha prima Alison, me fez lembrar de duas coisas. A primeira eu acabei de descrever. A segunda eu passo a descrever agora.

A tese do versículo é que é tão impossível que aqueles que “só sabem fazer o mal” consigam “aprender a fazer o bem” como o é para um homem mudar a cor de sua pele ou para um animal que tem manchas no corpo deixar de tê-las.

Comprei, na semana passada, um livrinho, escrito por Francisco Amed, chamado Thomas Sowell: Da Obrigação Moral de ser Cético (Editora É Realizações – nome esquisito para uma editora, eu sei), de São Paulo, que é parte da “Biblioteca Crítica Social” da editora, coordenada pelo grande Luiz Felipe Pondé, meu colega, professor de Filosofia da PUC-SP.

Thomas Sowell é simplesmente, na minha modesta opinião, o maior intelectual “etíope” americano (aproveito o termo usado na tradução da Bíblia que a Alison usou). Tenho quase tudo que ele escreveu. E ele chegou a essa posição tendo nascido de pais paupérrimos, com os quais quase não conviveu: o pai morreu antes de ele nascer e a mãe quando ele tinha cinco anos – mas não fez muita diferença porque ele havia sido dado para uma parente, que o criou por um tempo, e, depois, o “disponibilizou” para adoção – tendo ele sido adotado por pais brancos, mas também muito pobres, que, contudo, moravam em New York, e não no Sul dos Estados Unidos, onde ele havia nascido e vivido até essa adoção. Alfabetizou-se a bem dizer sozinho, aos quatro aos, brincando com a irmã de criação. Tomou gosto pela leitura e pelo estudo e, na escola, se tornou o melhor aluno. Aos 15 anos, porém, deixou a escola por não aguentar mais ouvir a mãe dizer que ele precisava trabalhar e não apenas estudar, porque, como estudante apenas, era um peso morto na família, só consumindo recursos e não trazendo nenhum recurso para casa. Ele resolveu trabalhar em tempo integral, aos 18 anos foi ser “marine” na Marinha dos EUA, depois de alguns anos nas Forças Armadas, pediu baixa, arrumou um emprego simples e voltou a estudar. Logo ficou evidente que era um gênio, foi estudar em Harvard, depois em Columbia, depois em Chicago, obteve graduação (magna cum laude em Harvard), mestrado (em Columbia) e doutorado (em Chicago), trabalhou em várias das mais ilustres universidades americanas (Cornell, Amherst, Brandeis, UCLA), ganhou vários doutorados honorários, escreveu inúmeros livros e hoje trabalha no prestigiado e prestigioso “think tank”, o Hoover Institution, da Stanford University, onde, foi Fellow, de 1977 a 1980, e é, desde 1980, Senior Fellow e detentor de uma fellowship que tem o nome de Milton Friedman, seu professor e orientador de doutorado em Chicago – e mentor, depois. Tudo isso sendo negro e pobre e dependendo apenas de seu esforço e de seu trabalho, sem se beneficiar de cotas e outros bichos, sem se considerar vítima, sem achar que merecia uma “reparação” da sociedade americana por ter esta escravizado seus ancestrais, etc. E é um dos poucos intelectuais negros, nos EUA, que pode ser descrito como liberal clássico e conservador. É considerado um public intellectual, isto é, um intelectual que não é mero acadêmico a escrever livros e artigos para outros acadêmicos, mas alguém que escreve para o público em geral, de forma que o público possa entender, acerca dos grandes e candentes temas que afligem a sociedade (no caso, americana).

Mas não vou falar tanto da enorme contribuição de Sowell à economia, às ciências sociais, à história, à psicologia, à filosofia, e às humanidades em geral. Vou  apenas levantar um tema que Pondé destaca no Prefácio do livro escrito sobre ele no Brasil, pinçando referências ao tema ao longo do livro.

O tema, que é abordado principalmente no livro Um Conflito de Visões, de Sowell, mas que eu vou descrever aqui com minhas palavras (tentando fazer uma ponte com o que disse de início, falando de minha aula de 4 de Março), é o seguinte.

Na História Intelectual do Ocidente surgiram basicamente duas visões acerca da natureza do ser humano que, em especial nos últimos séculos, têm entrado em combate constante, tanto no refinamento de suas ideias, em busca da verdade, como na obtenção de adeptos e até mesmo na tentativa de conquistar o poder – cultural e político.

A. A Visão Pessimista da Natureza Humana

Uma dessas visões pode ser chamada de pessimista. Ela tem vínculos com a visão cristã clássica do homem, mas não se restringe ao Cristianismo. Dentro do Cristianismo, ela é marcada pela doutrina do pecado original, embora não dependa totalmente dele.

Seu pessimismo decorre do fato de que ela vê a natureza humana como essencialmente limitada, falha mesmo, incapaz de alcançar a perfeição que, entretanto, em alguma de suas modalidades, o ser humano sempre tenta alcançar. Nesta visão, ele não irá alcança-la nunca, por mais que tente, pois suas limitações se expressam tanto na sua capacidade intelectual como em sua dimensão moral.

Seu conhecimento e suas habilidades cognitivas são limitados. Suas habilidades não cognitivas também são limitadas (sua motivação, coragem, paciência, persistência, dedicação, resiliência, etc.). Sua capacidade de discernir o que é bom e o que é certo é restrita. Em seus sentimentos, ele é profundamente egoísta, pouquíssimo solidário (além do círculo restrito da família e das amizades mais chegadas), incapaz de trabalhar de forma consistente e sustentável em benefício do bem comum. Do ponto de vista de suas emoções ele é vitimado por conflitos internos intermináveis e insolúveis, que o levam a abraçar cursos de ação equivocados e que causam enorme sofrimento aos outros, etc. As guerras, muitas vezes bem intencionadas, e os genocídios contra populações impotentes, são apenas a parte mais visível dessas características.

Essa visão não implica na crença na miséria infernal e eterna do homem, mas certamente implica na crença da impossibilidade da construção de um paraíso aqui na terra. Em última instância esta é uma visão trágica da humanidade, que encontra, talvez, sua expressão maior na grande literatura. Foi Tolstói que uma vez disse que a grande literatura nunca existiria se todo mundo fosse feliz – porque a felicidade de uns, quando a alcançam, é muito parecida com a felicidade dos outros, e não há muito sentido em descreve-la e dramatiza-la. A infelicidade, porém, é variada: cada um aparentemente encontra sua própria forma de ser infeliz, sua própria receita, sua própria fórmula, e é por isso que a literatura (e seus filhotes, o teatro, o cinema, a telenovela) continuam a nos fascinar. O ser humano sempre encontra um jeito novo de arruinar sua vida. [Na verdade, Tolstói não disse tudo isso. Disse apenas, na primeira frase de Anna Karenina, que “todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, mas cada família infeliz é infeliz do seu próprio jeito”.]

Adam Smith, filósofo e economista do século 18, é o grande secularizador dessa visão, removendo-a de suas raízes cristãs. Ele não nega essas características da natureza humana nem propõe que devemos tentar altera-las, criando, de certo modo, um “homem novo”. Ele propõe, isto sim, que criemos sistemas que, a partir dessas características, para ele inalteráveis da natureza humana, possam gerar incentivos e dissuasores que levem os seres humanos a criar o tipo de sociedade em que as pessoas sejam levadas a conviver pacificamente e a colaborar na promoção dos interesses de todos.

B. A Visão Otimista da Natureza Humana

A outra visão pode ser chamada de otimista. Os que adotam a primeira visão consideram esta segunda, utópica. Os que adotam esta segunda visão, por sua vez, têm vínculos com a visão racionalista do Iluminismo, creem que o homem, sendo racional, é capaz de encontrar soluções para todos os seus problemas. O surgimento da ciência moderna, e suas inegáveis conquistas, fortaleceu essa crença, ensejando o aparecimento da crença no progresso – e a crença de que esse progresso era interminável.

Imaginava-se, no limiar do século 19, que o mundo estava prestes a se tornar um paraíso. Teólogos cristãos que adotaram essa visão – os chamados teólogos liberais – passaram a acreditar que o céu seria esta nossa Terra transformada, e que a implantação do Reino de Deus na Terra estava próxima. Os problemas  humanos e sociais seriam resolvidos pela educação e pela política, esta controlada por seres humanos iluminados que seriam capazes de eliminar as injustiças sociais, de alcançar capacidade plena de produção, de inventar fórmulas distributivas que reduziriam as desigualdades existentes e levariam ao enriquecimento de todos. Em outras áreas, técnicas de terapia seriam inventadas que eliminariam a violência, a maldade e até mesmo o egoísmo, e todos ficariam felizes por viver numa sociedade para a qual cada um contribuiria segundo a sua capacidade e da qual cada um retiraria o que fosse preciso para atender as suas necessidades.

Não vem de Marx, mas de Edward Bellamy em seu livro Looking Backwards 2000-1887, escrito em 1889) a mais detalhada crença nessa visão. Sua mais bem elaborada justificativa teórica é o livro Enquiry Concerning Political Justice, de William Godwin, escrito no final do século 18.

Dentro dessa abordagem, Lulla e a Petralhada talvez sejam apenas um subgrupo que deu errado dentro do grupo maior dos Idealistas que a acreditam que “Um Mundo Diferente, E MELHOR, é Possível!”…

4. Conclusão

O que concluir?

O PT é o mal encarnado, sob o comando do Cão Raivoso em pessoa, incorporado no Lulla? Se a visão otimista do mundo está certa, o que foi que deu errado com Lulla e o PT? Suponho que algo tenha dado errado porque acho impossível que alguém possa em sã consciência acreditar que o que estamos vendo aqui no Brasil durante esses últimos 13 anos seja o que realmente se buscava, o mundo diferente, E MELHOR, que se procurava construir…

Se a visão pessimista da natureza humana é tudo o que temos, como é que conseguimos evitar uma guerra de todos contra todos sem cair no PT (que, convenhamos, longe de evitar uma guerra de todos contra todos a promoveu e acirrou)? Ou será que o Liberalismo Clássico está certo e que devemos procurar criar uma sociedade construída, não nas virtudes sociais de cada um (que não existem), mas, sim, em vícios, em seu egoísmo… Será que é crível a tese de que a melhor sociedade é aquela que dá máximas oportunidades para o egoísmo prosperar? Essa é, de certo modo, a tese de Adam Smith em sua famosa passagem, em que afirma que não é da bondade (ou seja, do altruísmo) do padeiro, do açougueiro, do produtor de vinho que eu obtenho meu pão, minha carne e meu vinho, mas, sim, de seu egoísmo, pois esse egoísmo, iluminado ainda que por apenas um pouco de racionalidade, o leva a concluir que é somente me servindo bem, atendendo bem minhas necessidades, que ele irá prosperar?

Para discussão.

Resolvi encontrar algo para escrever para me distrair e fugir do meu estado borocoxô, como disse hoje cedo no Facebook. Então (3h atrás) escrevi:

“Fui dormir, ontem, e acordei, hoje, meio borocoxô.

Para quem não sabe, ‘borocoxô’ quer dizer, segundo o Dicionário Informal disponível na Web, o seguinte:

Borocoxô (adj)

1) Triste, cansado, acabado, deprê, desanimado, cabisbaixo, mole, adoentado, definhando.

2) Fraquinho, simples, sem graça, paia, péba.

Sei que eu melhoraria muito e rápido se caísse um raio fulminante na cabeça do Lulla e da Dillma num dos abraços deles. Ou, pelo menos, se os dois fossem presos. Ou, pelo menos o Lulla, o Cão Raivoso. Da Dillma tenho mais dó do que raiva.

Quem sabe melhoro se conseguir escrever alguma coisa… Mesmo que não seja sobre o que parece me afligir.”

Em Salto, 16 de Março de 2016 (12h35) – revisado e ampliado em 17 de Março de 2016.

Meu Credo Liberal

[Como pouca gente visita as páginas fixas do blog (links debaixo do título), resolvi republicar a página que contém “Meu Credo Liberal”. EC]

Sou defensor radical da liberdade, e, portanto, inimigo declarado de todas as formas de liberticídio.

I. Convicções Básicas:

01. Defendo o direito de cada um pensar livremente, de escolher suas opiniões e seus pontos de vista, suas crenças e seus valores, e de os abandonar, sempre que achar que deve, e espero que os abandone, quando neles achar falhas ou quando encontrar alternativas mais adequadas à sua maneira de ver o mundo e a vida.

02. Defendo o direito de cada um agir livremente, de buscar a felicidade, como ele a enxerga, e, portanto, o direito de viver sua vida como bem entende, desde que não cause dano à pessoa e aos bens dos outros e respeite, nos outros, igual direito.

03. Por isso, condeno não só os que tentam abertamente impedir as pessoas de pensar e de agir dentro dos seus direitos, e, portanto, de decidir, escolher e buscar, livremente, por si próprias, a vida que querem e pretendem viver, como também, e especialmente, os que tentam, com sutilezas e dissimulações, manipular a mente alheia, em especial a das crianças, alegando agir no interesse dos manipulados.

04. Assim, condeno especialmente, e sem reservas, a doutrinação e o condicionamento, em todas as suas formas.

05. Defendo, enfaticamente, uma educação aberta, liberal (até mesmo libertária) e democrática, mesmo em casa, em que as crianças têm pleno direito de pensar por si próprias e, assim que forem capazes de assumir responsabilidade por suas ações, de agir como houverem por bem.

II. Filosofia de Vida  

01. Não me parece que a vida humana tenha um sentido independente de nossos sonhos, objetivos, e desejos.

02. Estou convicto de que a “programação” genético-biológica do ser humano é razoavelmente aberta, permitindo que construamos a nossa vida em função de nossos sonhos, objetivos, e desejos.

03. Assim, damos sentido à nossa vida quando definimos uma visão coerente daquilo que queremos nos tornar ao longo do tempo que nos é dado viver e lutamos para transformar nossos sonhos em realidade, para tanto tendo permanente motivação e buscando desenvolver as competências necessárias para alcançar sucesso nesse projeto de vida.

04. Felizmente, vivemos, em média, o suficiente para rever nosso projeto de vida mais de uma vez, fazer correções de rumo, e, assim, nos reinventar (algo ao qual devemos estar sempre abertos).

05. A pré-condição individual para essa filosofia de vida é a autonomia e a pré-condição política é a liberdade: por isso, sou radicalmente liberal, no velho sentido do termo (liberdade negativa, laissez faire, estado mínimo construído em cima do reconhecimento de direitos individuais invioláveis).

III. Interesses 

01. Gosto muito do que faço, mas gostaria de poder fazer várias outras coisas também – que não faço porque o tempo é limitado: o tempo de uma dia e o tempo de uma vida.

02. Primariamente, o que faço é refletir sobre a vida e o mundo, compartilhar o que pensei através de artigos, crônicas, ensaios, e outros trabalhos escritos, e discutir com os outros as críticas que fazem ao que escrevi.

03. Secundariamente, compartilho minhas reflexões através de aulas, palestras, conferências, seminários, oficinas, etc.

04. Não creio que tenha talento para a ficção e a poesia, embora nunca tivesse tentado seriamente fazer essas coisas.

05. Se pudesse optar por fazer alguma outra coisa, minhas três primeiras escolhas seriam na área artística: a) ser diretor de cinema; b) ser regente de orquestra; c) ser músico (piano, ou violão, ou violino).

IV. Estilo de Vida      

01. Gosto de sossego e tranqüilidade, não gosto de grandes ajuntamentos nem de locais onde muita gente fala ao mesmo tempo e muito alto.

02. Gosto de ler, ouvir música, ver filmes, e conversar com pessoas inteligentes e interessantes.

03. Gosto de andar sem destino pré-determinado, explorando o local em que me encontro, cidade ou campo, e de viajar, sem planos, agendas e cronogramas muito rígidos – e sem malas muito grandes e pesadas.

04. Embora nunca tenha feito diários de viagens (ou de qualquer outra coisa) até o surgimento dos blogs, hoje sou fã incondicional de blogs e, portanto, registro regularmente o que penso e faço em diversos blogs, que eu levo extremamente a sério.

05. Embora precise dormir, como todo mundo, acho as horas dormidas um enorme desperdício de tempo, e adoraria se alguém inventasse uma pílula que restaurasse as energias de nosso corpo e de nossa mente, sem que precisássemos dormir.

V. Hábitos     

01. Minha comida salgada favorita é arroz, feijão e carne moída, tudo misturado um com o outro e com farinha de mandioca, e meu doce favorito é goiabada cascão com queijo de Minas meia-cura.

02. Em casa, sempre ando descalço, com um shorts e uma camiseta confortáveis e, de preferência, bem surrados.

03. Tenho dificuldade em dar ou até mesmo emprestar as minhas coisas, mesmo quando não as uso mais ou estou razoavelmente certo de que nunca mais precisarei delas.

04. Das coisas materiais que possuo, meus livros, meus discos (CDs ou discos de vinil), e meus filmes (Blu-rays, DVDs ou vídeos-cassete) são as mais importantes, roupas e sapatos sendo, talvez, as menos importantes (embora nem deles goste de me desfazer).

05. Sou, na superfície, bastante desorganizado com minhas coisas, mas, num segundo plano, tenho princípios de organização que funcionam bastante bem para mim.

VI. Valores    

01. Sou caseiro: não gosto de sair de casa meramente por sair, em geral me sentindo extremamente bem nos lugares em que vivo.

02. Vivo relativamente bem em solidão e, quando não estou sozinho, com o conviver silencioso: no sou um falante compulsivo.

03. Apesar disso, gosto muito de estar junto das pessoas a quem amo ou particularmente admiro e derivo prazer e satisfação de minha interação com elas.

04. Mas não suporto gente que, usando a alegação de amizade, não se manca e acha que tem o direito de ficar se metendo na vida dos amigos…

05. Sou bastante tolerante, lidando bem com diferenças em idéias e estilos de vida, mas detesto a intolerância, o fanatismo, e, naturalmente, a burrice… 

VII. Como eu vejo o que eu faço hoje       

Concordo com Herbert Spencer (1820-1903), que disse:

“O grande objetivo da educação não é conhecimento, mas ação”

O que eu faço, em termos gerais, é:

No presente, repensar a educação, no curto prazo reinventar a escola para que seja verdadeiramente inovadora, no médio e longo prazo, construir uma sociedade em que se aprende anywhat, anywhy, anyfor, anywhen, anywhere, anyhow…

Isso é necessário por causa das mudanças fundamentais que ocorreram, nos últimos 65 anos, no contexto em que vivemos e nos educamos.

1. Repensar a educação envolve principalmente:

  • Listar e integrar as mudanças no contexto de nossa vida
  • Mostrar por que essas mudanças nos forçam a repensar a educação e a reinventar a escola
  • Indicar a direção em que a educação e a aprendizagem devem ser reconceitualizadas

2. Reinventar a escola para que seja verdadeiramente inovadora envolve:

  • Propor nova visão de currículo, metodologia, e avaliação, e formas de implementa-los
  • Redefinir o papel e a forma de preparação dos profissionais que vão implementar essa visão
  • Identificar / criar materiais, recursos e ferramentas

3. Construir uma sociedade em que se aprende anywhat, anywhy, anyfor, anywhen, anywhere, anyhow… envolve:

  • Abandonar totalmente os paradigmas educacionais que nos trouxeram até aqui;
  • Caracterizar a educação como desenvolvimento humano centrado na criança e sua aprendizagem;
  • Enfatizar a necessidade de respeitar as diferenças e os interesses individuais e de uma educação personalizada;
  • Privilegiar todas as interações sociais como ambientes potenciais e naturais de aprendizagem;
  • Estender ao máximo as interações sociais através da tecnologia, focando o seu potencial para a aprendizagem ativa, interativa, comunicativa, colaborativa, significativa.

Revisto e republicado em Salto, 12 de Outubro de 2015

My Way

[NOTA: Republicação, em 5.3.2015, exatamente sete anos atrás, com pequenas alterações, em relação ao texto que originalmente publiquei em 9.12.2006, quando eu estava em Kuala Lumpur, Malásia. Hoje, em 5.3.2022, exatamente sete anos depois da primeira revisão, faço mais algumas pequenas alterações. ]

A vida de vez em quando dá umas porradas na gente, quando a gente menos espera. Minha irmã perdeu, recentemente, um atrás do outro, um cunhado e uma cunhada (não casados um com o outro). Ficou, naturalmente, meio abalada – quem não ficaria? Conversando com ela no Messenger do Facebook, mencionei uma de minhas canções favoritas: “My Way”, letra de Paul Anka (meio que versão do Francês para o Inglês de uma canção chamada “Comme d’Habitude”), interpretação inigualável de Frank Sinatra. Enquanto conversávamos, resolvi traduzi-la para o Português.

Não sou poeta: não consigo traduzir em verso, com rimas e métricas. Mas o resultado, apesar de literariamente precário, é, pelo menos, parece-me, fiel ao original.

A letra da canção é uma lição de vida.

Em Agosto passado (2006), quando estive em Perth, no Oeste da Austrália, fui convidado a participar de um talk show – uma entrevista longa, de uma hora, falando de tecnologia, educação, religião e a vida em geral – da ABC Radio da Austrália. A produção do show me contatou antes e me perguntou se eu tinha uma música favorita. Eles queriam começar o programa tocando a música. Indiquei “My Way”, com o Frank Sinatra. Começaram o programa assim – e me perguntaram, em seguida, por que eu havia escolhido essa música.

Respondi basicamente o seguinte:

Em primeiro lugar, porque que a canção é sobre “My Way” – não “The Way”. Não sou um relativista. Acredito que existam verdades e valores absolutos. Mas em relação ao tipo de vida que vamos viver, e como vamos viver essa nossa vida, cada um de nós é soberano – e temos o direito até mesmo de cometer erros, às vezes até uns erros meio bestas. Não raro, é assim que a gente aprende. Seria ótimo se a gente pudesse aprender sempre com os erros dos outros, sem ter de cometer os próprios. Mas não é assim que é a vida. Karl Popper até mesmo sugeriu que quanto mais cedo cometêssemos nossos erros, tanto melhor – mas não nos deu nenhuma garantia de que, se os cometêssemos cedo, não iríamos cometê-los também mais tarde…

Em segundo lugar, porque a canção reconhece que somos responsáveis pela escolha não só do conteúdo de nossas vidas (o que ser, o que fazer, com quem nos relacionar), mas também da nossa maneira de ser, de nossa maneira de fazer as coisas, de nossa maneira de nos relacionar com os outros – enfim, de nosso estilo. Cada um, afinal, tem “seu jeito” – e esse jeito é, ou pode ser, objeto de nossa escolha.

Em terceiro lugar, porque a canção reconhece o fato de que, não importa quanto planejamento a gente faça (“chart our course”, “carefully plan each step”), às vezes as coisas não acontecem como as planejamos. Não raro tentamos abocanhar mais do que conseguimos mastigar (“we bite off more than we can chew”)… Nesses casos, a melhor coisa a fazer é cuspir aquilo que foi mordido a mais, que está além de nossa capacidade de mastigar…

Em quarto lugar, porque a canção reconhece que na vida há imponderáveis, há sorte e azar, há coisas como aquelas que Woody Allen traz à tona em seu lindo filme (com a não menos linda Scarlett Johansson) “Match Point”…

Em quinto lugar, porque a canção reconhece que a vida é feita de amores, de alegrias, de risos – mas também de perdas, de tristezas, de lágrimas… Mas quando esses maus momentos chegam, devemos procurer ficar de pé (“stand tall”) e enfrentá-los (“take the blows”) – e fazer isso do nosso jeito.

Finalmente, em sexto lugar, por causa da mensagem final: o homem não tem nada, se não for dono de si mesmo. Quem se ajoelha diante dos outros, entrega o controle de sua vida a terceiros.

Aqui está a letra traduzida para o Português:

Do Meu Jeito (My Way)

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

Agora, o fim está próximo, chegou a hora da última cortina.

Por isso, amigo, vou apresentar meu caso, do qual não tenho dúvidas.
Vivi uma vida plena, andei por tudo o que é caminho,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Arrependimentos tive alguns, mas poucos para merecer menção.

Eu fiz o que tinha de fazer, fui até o fim, sem exceção.
Planejei meus caminhos, e, neles, escolhi meus passos,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Vezes houve, você sabe, quando abocanhei mais do que pude mastigar.

Mas é que, em caso de dúvida, nunca hesitei:
Sempre mordi primeiro, ainda que pra cuspir depois.
Enfrentei tudo, sempre continuei de pé, e fiz tudo do meu jeito!

Eu amei, ri, chorei – de tudo tive minha cota, até de derrotas…

Mas agora, que as lágrimas já secaram, acho tudo até divertido!
Pensar que eu fiz isso tudo, e, se eu posso dizer, sem modéstia,
Ah, não! modéstia não é comigo… Eu fiz tudo do meu jeito!

Pois o que é o homem, no fundo o que é que ele tem?

Se não for dono de si mesmo, ele é pobre, nada tem.
Dono para dizer o que pensa e sente, não palavras de quem se ajoelha.
Os autos provam: levei porradas, sim, mas fiz tudo do meu jeito!

ORIGINAL:

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

And now, the end is near,
and so I face the final curtain

My friend, I’ll make it clear, I’ll state my case, of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full I traveled each and every highway;
And more, much more than this, I did it my way

Regrets I had a few,
but then, again, too few to mention

I did what I had to do and saw it through without exemption
I planned each charted course, each careful step along the byway
And more, much more than this, I did it my way

Yes, there were times,
I’m sure you knew,
when I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt, I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall and did it my way

I’ve loved, I’ve laughed and cried,
I’ve had my fill, my share of losing

And now, as tears subside, I find it all so amusing
To think I did all that, and, may I say, not in a shy way,
“Oh, no, oh, no, not me! I did it my way”

For what is a man, what has he got?

If not himself, then he has naught,
To say the things he truly feels, and not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows, and did it my way!

Em Kuala Lumpur, Malásia, já no aeroporto para ir embora, 9 de dezembro de 2006, com revisões em 5.3.2015 e em 5.3.2022