Denial

 

Acabei (29/4/2017) de ler um artigo sobre Barack Obama que minha filha americana (nasceu e sempre morou lá) colocou em seu perfil no Facebook. Uma passagem me chamou a atenção, porque ando preocupado com essa questão não só lá nos Estados Unidos, mas, principalmente, aqui no Brasil.

Os americanos se referem ao fenômeno como “denial”. Esse termo poderia, normalmente, ser traduzido simplesmente como “negação”. Mas “negação” não expressa toda a riqueza de sentido do conceito. “Denial”, como usado no artigo, é um termo técnico que se refere à capacidade que algumas pessoas desenvolvem de, com a maior cara limpa (ou de pau) negar qualquer falha em algo ou alguém que é objeto de sua devoção, mesmo quando essa coisa ou pessoa exibe falhas que são evidentes e inegáveis a todos os demais. “Denial” é, portanto, em outras palavras, a  incapacidade de enxergar e afirmar falhas em um objeto de devoção, ainda que essas falhas sejam gritantes, evidentes e inegáveis para o resto do mundo.

Pais às vezes exibem essa condição em relação aos seus filhos. Talvez mães mais do que pais, porque mães carregam o filho dentro do próprio corpo, por nove longos meses, e, assim, em muitos casos, consideram impossível que um filho seu tenha alguma falha, de qualquer natureza – porque parece que a falha, se admitida, reflete negativamente sobre a própria mãe, que, além de ter criado o filho com a maior devoção, concebeu-o, transmitindo-lhe sua carga genética, e o carregou dentro de si por bom tempo.

Em geral a falha que é evidente e inegável aos outros é, na aparência, apenas comportamental ou moral.

O cara (um marmanjo de mais de vinte anos) é ladrão, traficante de drogas, estuprador, assassino, há provas evidentes e incontestáveis de tudo isso, mas, quando é preso (ou morto) a mãe afirma “ele é (era) um menino tão bom, nunca fez nada errada, é (era) honesto, é (era) carinhoso, de boa índole, ajuda (ajudava) em casa, é (era) devotado à família e aos amigos, etc.”.

Num grau menor, o menino (um moleque de dez anos) é endiabrado na escola, provoca todo mundo, não dá sossego aos outros na classe e fora dela, todos os colegas e os demais funcionários da escola comprovam, a professora chama a mãe para pedir que tome alguma providência, e a mãe nega tudo, diz que o menino é um santo, e sai dizendo que a professora é uma mentirosa de marca maior, e que está perseguindo o filho dela.

Mas eu já vi a incapacidade de enxergar nos filhos problemas que vão além do plano comportamental e moral em pais que tiveram um filho com aquilo que se chama ou se chamava deficiência: síndrome de Down. Todo mundo olhava a criança e sabia, sem a menor sombra de dúvida, que o menino tinha Down. O pessoal médico do hospital descreveu o fato aos pais com delicadeza, mas com todas as letras, para que não restasse nenhuma dúvida. Disse-lhes para procurar ajuda especializada o mais rápido possível. Mas os pai negavam: simplesmente se recusavam a acreditar no que, para todo o mundo, era evidente e incontestável. Chegaram a cortar a amizade com amigos e até com parentes que ousaram lhes aconselhar que seria melhor que admitissem o que era incontestável e buscassem ajuda especializada… Mas eles simplesmente continuavam a agir como se a criança fosse totalmente normal.

O fenômeno acontece também em relação a objetos de devoção. A maioria dos que acreditam que a Bíblia é literalmente a palavra de Deus, palavra por palavra, incluindo os pontos e as vírgulas, porque ela teria sido virtualmente ditada pelo Espírito Santo aos que de fato a compuseram, e que, como tal, é inerrante e infalível, vão a extremos inconcebíveis para os que pensam diferentemente para negar que a Bíblia tenha alguma falha. Já vi mulher feminista, estudando teologia para ser pastora, buscar as explicações mais inverossímeis para negar que a Bíblia esteja errada ao afirmar que a mulher deve ficar calada na igreja e ser obediente e submissa ao marido no lar – embora ela não pretenda ficar calada na igreja nem ser obediente e submissa ao marido.

O que está na raiz desse fenômeno é a tendência, encontrada em algumas pessoas, um número surpreendentemente grande delas, de tornar “inerrantes e infalíveis” algumas coisas ou pessoas objeto de sua devoção, considerando-as como os crentes fundamentalistas consideram a Bíblia.

O artigo que eu mencionei atrás trata da incapacidade da esquerda americana de ver falhas em Barack Obama – e, antes dele, em Bill Clinton. Ambos foram e são objetos de devoção da esquerda americana. Clinton recebeu uma grana incrível de milionários que ele ajudou enquanto no governo, na forma  “postergada” de pagamento de palestras ou contribuições para sua fundação, depois que ele saiu da presidência, e Obama está indo no mesmo caminho, tendo acabado de receber 400 mil dólares (bem mais de um milhão de reais) por uma palestra sobre o seu plano de saúde, o Obamacare. Os crentes neles negam que isso seja verdade, afirmando que é invenção dos republicanos (radicais de extrema direita). Os um pouquinho menos crentes reconhecem que pode ser verdade, mas negam que seja inapropriado, afirmando que deve existir uma explicação plausível que nem cheire a propina paga com atraso, depois do fato que justificou a recompensa.

Aqui no Brasil temos fenômeno semelhante e mais gritante ainda. Só que aqui a propina é, em boa parte dos casos, paga antecipadamente. Não importa quanta evidência se reúna para provar que Lula é o maior corrupto que o Brasil já teve a infelicidade de conhecer em sua história cheia de corrupções, que ele em qualquer país mais sério do mundo já estaria na cadeia para o resto da sua podre vida. No entanto, os crentes da seita lulopetista / petralhista vão continuar a considerar o seu baco e larápio um deus, incapaz de ter feito aquilo de que o acusam. Tenho a impressão, ao ver o Lula vomitar (o certo seria outro verbo) palavras, que ele próprio está acometido de um surto psicótico que o faz acreditar mesmo que ele é o cara mais honesto deste país.

Os psicólogos, especialmente os psicólogos sociais, deveriam estudar esse fenômeno mais de perto e mais a sério. Ainda ontem uma amiga querida minha, colega de Ginásio, reclamou, com razão, no Facebook, da falta de civilidade e tolerância, mesmo entre pessoas que eram ou se diziam amigas, no atual quadro político brasileiro. Tenho total simpatia para com o que ela disse. Mas o que irrita e enerva as pessoas hoje em dia é ver amigos seus, pessoas que pareciam inteligentes e cujas opiniões elas respeitavam, dizer cada disparate, tentando encobrir o sol com uma peneira, que a única explicação plausível parece ser que a pessoa, de uma hora para a outra, ficou possuída por um espírito alheio, irrazoável, irracional, que as faz, como se tivessem escamas nos olhos, desenxergar o evidente e óbvio. Dá vontade de fazer, como alguns teólogos dizem que Deus faz, amar o pecador, detestando-lhe o pecado, e continuar a amar a pessoa amiga, detestando-lhe os pontos de vista sobre esse assunto, mas, confesso, é difícil. Reconheço que é possível manter a civilidade, pelo menos com as pessoas que a gente ama e de quem é realmente amigo (mais do que isso – às vezes cônjuge, prole, ou progenitor) – e tento mantê-la. Mas com o Lula, a Dilma, et caterva, não consigo sequer manter a civilidade. Quem sabe a recupere parcialmente quando vir esses anti-seres apodrecendo numa masmorra úmida e fétida. Para o resto da vida. E que a vida lhes seja longa. Nem mesmo “el paredón” lhes seria punição suficiente. Vide El Secreto de sus Ojos.

A grande vantagem de Michel Temer é que ele não tem carisma suficiente para se tornar objeto de devoção de ninguém. Mesmo os que o apoiam o fazem reticentemente, com um pé atrás, “cum grano salis”. Nem seus defensores tentam encobrir suas limitações, seus defeitos, suas falhas. Isso impede o surgimento de uma nova seita.

Eis a frase que eu pincei do artigo que minha filha publicou:

“Denial is an extremely powerful thing, and tens of millions of Democrats were completely bamboozled by Obama due to their personal obsession with the man. This is precisely why cult of personality worship is so dangerous and counterproductive when it comes to politics. We need to grow up as a culture and start supporting policies over people, logic over emotion. If you become attached to a politician or a political party like a sports team, that individual or institution can very easily manipulate and betray you. We see this over and over again, and until we move to a higher level of understanding about the world around us, we will continue to be victimized by disingenuous, opportunistic shysters.”

Em São Paulo, 29 de Abril de 2017