Jura Secreta (de Sueli Costa e Abel Silva)

Este poema vai no espírito de “Remorso”, de Olavo Bilac, que acabei de transcrever. 
Jura Secreta
Sueli Costa e Abel Silva
Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que quero me suprime
De que por não saber 'Ainda não quis'

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.

Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber 'Ainda não quis'

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.

(Transcrito de http://www.lyricsbox.com/zelia-duncan-lyrics-jura-secreta-z1zjh9s.html)

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

Remorso (de Olavo Bilac)

Agora, meu poema favorito de Olavo Bilac. Sempre tive mais receio de me arrepender das coisas que não fiz do que daquelas que fiz (mesmo quando dão errado). Estou feliz por ter tentado, especialmente esta última vez. Acho lindo o exemplo de Roberto de Marinho, que sempre tentou – mesmo quando já estava bem mais velho do que eu estou hoje.

Remorso

Olavo Bilac (1865-1918)

Às vezes, uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço,neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

(Transcrito de http://escrevereprolongarotempo.blogspot.com/search/label/Olavo%20Bilac)

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

Ouvir Estrelas (de Olavo Bilac)

Já que coloquei um poema de Bilac, aqui vai outro, ainda mais lindo:

Ouvir Estrelas

Olavo Bilac (1865-1918)

"Ora (direis), ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu voz direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cinti-la – E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

(Transcrito de http://escrevereprolongarotempo.blogspot.com/search/label/Olavo%20Bilac)

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

O Tempo (de Olavo Bilac)

Uma referência num post de minha irmã mais nova no Facebook me fez lembrar desse poema de Olavo Bilac, que decorei – e declamei – na minha adolescência.

O Tempo

Olavo Bilac (1865-1918)

Sou o tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida…
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm…
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos…
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos,
Formo um século e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena
E não há para o tempo demora!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

(Transcrito de http://leaoramos.blogspot.com/2008/04/sou-o-tempo-que-passa-sem-princpio-sem.html)

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

Eu

de Florbela Espanca

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

(Publicado em Charneca Em Flor)

Em São Paulo, 2 de Janeiro de 2010
(Para brindar o novo ano)
 

“O Colocador de Pronomes”

Relendo o post “Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz”, colocado aqui no meu space há poucos dias, lembrei-me de um divertido conto de Monteiro Lobato, com o título do post atual, que tentarei resumir de memória.

O narrador da história, no conto, se chama Aldrovando Cantagalo. Tem uma obsessão: “a última flor do Lácio, inculta e bela”, a nossa língua portuguesa, Que é bela, não há dúvida. Que é inculta, talvez também… Dizem alguns que é maltratada pelos que erram ao usá-la.

Mas há erros e erros – erros que são apenas erros e erros que são prenúncios de inovação… (É deste tipo o erro da frase  “Você não sabe até onde eu chegaria para te fazer feliz”…)

Dentro da obsessão de Cantagalo, os pronomes recebiam especial atenção – porque, como esclarece Lobato, Cantagalo “nasceu e morreu por um erro de pronome”.

O erro de pronome que explica o seu nascimento é o mais curioso – embora, talvez, o menos trágico.

Seu pai não tinha lá grande intimidade com as minúcias da gramática de nossa língua. Naqueles tempos sisudos, apaixonou-se, má sorte, pela filha mais nova do Coronel local — ela, pessoa jovem, graciosa, um amor de criatura; ele, o Coronel, pessoa brava e temida, a principal causa do fato de que sua filha mais velha provavelmente iria morrer solteirona (talvez invicta, mas nunca se sabe). Ela infelizmente tinha, além do pai bravo, outras características não muito desejáveis: era um pouco velhusca, meio rechonchuda, tinha um que de vesga e mancava de uma perna… (É… acho que morreu invicta mesmo).

O pai de Cantagalo e sua bela se viram no footing do jardim, encontraram-se vez ou outra furtivamente, trocaram-se bilhetes, amaram-se daquela forma que era totalmente virtual, mesmo que o termo ainda não fosse consagrado nesse sentido — pois o amor virtual era o único que era permitido antes (e fora) do casamento.

Um dia um dos bilhetes caiu nas mãos do Coronel. O bilhete, dirigido pelo pai de Cantagalo à sua amada, dizia:

"Fulana [o nome da dita]: Amo-lhe".

De posse do bilhete o Coronel mandou incontinenti chamar o ousado namorador, que diante da confrontação com o Coronel tremeu nas pernas. Mas convocação de Coronel é coisa que não se recusa — especialmente quando o Coronel é o pai da amada.

Lá chegando, o pai de Cantagalo foi recebido pela criada que o colocou no escritório. Um pouco depois entrou no escritório o temido Coronel, que foi direto ao assunto. Mostrou o bilhete ao pobre rapaz e lhe perguntou se era ele o autor.

— "Sim, Coronel, fui eu que o escrevi", respondeu.

— "E é verdade o que aqui está aqui escrito?", indagou o velho.

— "Sim, sim, claro que sim". [‘Oh, Virgem Santíssima, tem piedade de mim…]

— "E o bilhete foi dirigido à minha filha mais nova?"

— "Sim, sim, senhor".

— "Então, está bom. Vai casar".

Cantagalo caiu das nuvens. Haviam-lhe dito que o Coronel era pessoal temível e que ele poderia nem mesmo sair vivo da casa. Casar? Pois ele não queria outra coisa!

— "Ora, Coronel, que alívio… Com prazer, sim, com prazer me casarei com ela. Em verdade eu tinha esperança de que um dia pudesse fazer isso, mas…"

— "Tudo bom. Vamos chamar a noiva", interrompeu o Coronel.

E, dirigindo-se à criada, mandou que esta trouxesse ao escritório sua filha mais velha.

— "Perdão, Coronel. Acho que houve um engano. Não é a mais velha, é a mais nova…"

— "Como? Você não admitiu que escreveu o bilhete para minha filha mais nova? E o bilhete não diz ‘amo-lhe’? Ora, se você, escrevendo à mais nova, lhe diz ‘amo-lhe’, só pode amar a mais velha — a menos que fosse minha esposa que o senhor tinha em mente ao escrever?"

— "Não, não, Coronel. O senhor está certo. Absolutamente certo. Sua esposa? Não, nunca… Eu me caso com sua filha mais velha".

E casou-se. E do casamento nasceu Aldrovando Cantagalo.

Nasceu por um erro de pronome. Por isso dedicou sua vida ao estudo da língua portuguesa, para que o que aconteceu ao pai não lhe acontecesse, a ele próprio, um dia.

Mas quis o destino que, do mesmo modo que nasceu por um erro de pronome, viesse a morrer por outro.

Em seus estudos da língua portuguesa Cantagalo se encantou com a prosa de Eça de Queiroz. Leu tudo que o escritor português escreveu. E resolveu, inspirado pela beleza daquela prosa, escrever um tratado (em vários volumes) enaltecendo a beleza de nossa língua e ensinando as pessoas a reverenciá-la, falando-a bem…

Dedicou a obra “A Eça, que me sabe as dores”.

Terminada a obra, procurou editores – não os encontrou, naqueles tempos primitivos, anteriores à Sociedade da Informação. Resolveu pagar com recursos de seu próprio bolso (embora escassos) uma tipografia para que a imprimisse.

No dia em que a obra foi entregue em sua casa, sentou-se para se deliciar calmamente com a inebriante sensação que é ver o seu primeiro livro impresso… Abriu um dos pacotes, retirou dele o primeiro volume, abriu-o – e caiu fulminado por um ataque do coração!

O tipógrafo, ao compor o texto da dedicatória, resolveu corrigir o que estava certo, e mudou a dedicatória para:

“A Eça, que sabe-me as dores”.

Morreu o Cantagalo por outro erro de pronomes – este, de colocação. Provavelmente é o primeiro (quiçá o único) mártir da língua portuguesa.

Deveria ter um feriado dedicado a ele.

[NOTA: Este post incorpora elementos de uma crônica que escrevi, “O Amor e a Gramática”, publicada em meu site de crônicas: http://cronicas.info/textos/gramatica.htm]

Em São Paulo, 28 de Outubro de 2009

“Em Nome do Romance” (Mario Vargas Llosa)

[Transcrevo aqui magnífico artigo de Mario Vargas Llosa, publicado, em tradução para o Português, na revista Piauí. Vide http://www.revistapiaui.com.br/interna_print.aspx?id=1159&nEdicao=37]

Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo – um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal

Muitas vezes me ocorre, nas feiras de livros ou nas livrarias, que um senhor se aproxime de mim com um livro meu nas mãos e me peça para autografá-lo, especificando: é para a minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura. E eu lhe pergunto, de imediato: “E o senhor? Não gosta de ler?”

A resposta chega pontual, quase sempre: “Bem, sim, é claro que gosto, mas sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é”. Sim, sei muito bem, porque ouvi essa explicação dezenas de vezes: esse senhor, esses milhares de senhores iguais a ele têm tantas coisas importantes, tantas obrigações e responsabilidades na vida, que não podem desperdiçar seu tempo precioso passando horas e horas imersos num romance, num livro de poemas ou num ensaio literário. Segundo essa concepção, a literatura é uma atividade da qual se pode prescindir, um entretenimento elevado e útil para cultivar a sensibilidade e as boas maneiras, um ornamento que se podem permitir os que dispõem de tempo livre para a recreação, e que seria necessário computar na categoria dos esportes, do cinema, do bridge ou do xadrez, mas que pode ser sacrificado sem escrúpulos no momento de estabelecer uma escala de prioridades nos afazeres e compromissos indispensáveis da luta pela vida.

É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, naturalmente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goleada das calças. A explicação é que, na classe média, as mulheres leem mais porque trabalham menos horas que os homens, e que muitas delas tendem a se considerar mais justificadas do que os homens no tempo que dedicam à fantasia e à ilusão. Como sou um tanto alérgico a essas explicações, que dividem homens e mulheres em categorias estanques com virtudes e fraquezas coletivas, não partilho dessas interpretações; mas num aspecto não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura – há muitos leitores, mas de lixo impresso – e, entre eles, as mulheres prevalecem.

Uma pesquisa organizada recentemente pela Sociedade Geral de Autores Espanhóis forneceu um dado alarmante: metade dos habitantes daquele país jamais leu um livro. A pesquisa revelou também que, na minoria leitora, o número de mulheres que declaram ler é superior em 6,2% ao dos homens. Muito me alegro pelas mulheres, é claro, mas me preocupo pelos homens, e pelos milhões de seres humanos que, podendo ler, renunciaram a fazer isso. Não só porque desconhecem o prazer que perdem, mas porque estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura foi relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário, essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade.

Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.

A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiqüíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo – de povos ou indivíduos – gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.

A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.

Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas também aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos em nossa integridade humana, com os nossos atos, os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias – como as chamava Isaiah Berlin – de que é feita a condição humana.

Esse conhecimento totalizador e imediato do ser humano, hoje, se encontra apenas no romance. Nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas – como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes – puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns. Não é nem pode ser o caso da literatura, embora alguns críticos e teóricos se empenhem em transformá-la em uma ciência, porque a ficção não existe para investigar uma área determinada da experiência, mas para enriquecer de maneira imaginária a vida, a de todos, a vida que não pode ser desmembrada, desarticulada, reduzida a esquemas ou fórmulas, sem que desapareça.

Por isso, Marcel Proust disse: “A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, pois, plenamente vivida, é a literatura.” Não exagerava, guiado pelo amor a essa vocação que praticou com talento superlativo: simplesmente queria dizer que, graças à literatura, a vida se compreende e se vive melhor, e entendê-la e vivê-la melhor significa vivê-la e partilhá-la com os outros.

Borges se irritava quando lhe perguntavam: “Para que serve a literatura?” Parecia-lhe uma pergunta idiota, e ele respondia: “A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo!”; com efeito, se essas coisas belas estão ali e graças a elas a vida, ainda que por um instan-te, é menos feia e menos triste, não é mesquinho procurar justificativas práticas?

À diferença do gorjeio dos pássaros ou do espetáculo do sol fundindo-se no horizonte, um poema, um romance não estão pura e simplesmente ali, fabricados por acaso ou pela natureza. São uma criação humana, e é lícito perguntar como e por que nasceram, e o que deram à humanidade para que a literatura, cujas origens remotas se confundem com as da escrita, tenha durado tanto tempo. Nasceram como fantasmas incertos, no íntimo de uma consciência, projetados a ela pelas forças conjugadas do inconsciente, de uma sensibilidade e de algumas emoções, a que, numa luta às vezes implacável com as palavras, o poeta, o narrador, deram forma, corpo, movimento, ritmo, harmonia, vida. Uma vida artificial, feita com a linguagem e a fantasia, que coexiste com a outra, a real, desde tempos imemoriais, e à qual acorrem homens e mulheres porque a vida que têm não lhes basta, não é capaz de oferecer tudo aquilo que gostariam de ter. O romance não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura, experiência partilhada.

Um dos primeiros efeitos benéficos se verifica no plano da linguagem. Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar.

Isso vale também para os indivíduos, obviamente. Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os co-nhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências indiscutíveis em sua pro-fissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar, significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todas as ações da vida, até mesmo nas que parecem muito distantes da linguagem. Isso, na medida em que, graças à literatura, evoluiu até níveis elevados de refinamento e de sutileza nas nuances, elevou as possibilidades da fruição humana, e, com relação ao amor, sublimou os desejos e alçou à categoria de criação artística o ato sexual. Sem a literatura não existiria o erotismo. O amor e o prazer seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de televisão. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não poderiam ser diferenciados daqueles que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: copular e devorar.

Os meios audiovisuais não estão em condições de substituir a literatura na função de ensinar o ser humano a usar com segurança, e talento, as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Esses meios tendem a relegar as palavras a um segundo plano em relação às imagens, que são a sua linguagem essencial, e a reduzir a língua à sua expressão oral, ao mínimo indispensável, o mais distante possível de sua vertente escrita que, na tela e nos alto-falantes, resulta sempre soporífera. Dizer de um filme ou de um programa que ele é “literário” é um modo educado de chamá-lo de chato.

Isso me leva a pensar, também, embora sobre essa questão eu deva admitir que nutro certas dúvidas, que não só a literatura é indispensável para o conhecimento correto e para o domínio da língua, mas que o destino dos romances está ligado, em um matrimônio indissolúvel, ao do livro, produto industrial que muitos declaram já obsoleto.

Um deles é um senhor importante e a quem a humanidade deve muito no campo das comunicações, isto é, Bill Gates, o fundador da Microsoft. O senhor Gates estava em Madri, há pouco tempo, e visitou a Real Academia Espanhola, com a qual a Microsoft lançou as bases daquilo que, assim se espera, será uma fecunda colaboração. Entre outras coisas, Bill Gates assegurou aos acadêmicos que se ocupará pessoalmente de que a letra “ñ” nunca seja retirada dos computadores, promessa que, é óbvio, arrancou de nós um suspiro de alívio, de nós, 400 milhões de hispanohablantes dos cinco continentes, para os quais a mutilação daquela letra essencial no ciberespaço teria criado problemas babélicos.

Pois bem, imediatamente depois dessa concessão amável à língua espanhola e, assim entendo, sem ter sequer deixado a Real Academia, Bill Gates declarou que espera não morrer sem ter realizado o seu maior projeto. E qual seria ele? Acabar com o papel, e, pois, com os livros, mercadoria que, a seu entender, já é de um anacronismo contumaz. O senhor Gates explicou que as telas dos computadores estão em condições de substituir com êxito o papel em todas as funções e que, além de isso custar menos, de ocupar menos espaço e de ser mais fácil de transportar, as informações e a literatura por meio da tela terão a vantagem ecológica de pôr fim à devastação dos bosques, cataclismo que, pelo visto, é consequência da indústria de papel. As pessoas continuam a ler, explicou ele, mas nas telas, e, desse modo, haverá mais clorofila no meio ambiente.

Eu não estava presente – tomei conhecimento desses detalhes pela imprensa -, mas, se houvesse estado lá, teria interrompido rumorosamente o senhor Bill Gates para contestar, sem o menor constrangimento, a sua intenção de nos aposentar a mim e a tantos colegas meus, a nós, pobres escritores de livros. Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento das novas técnicas, como a internet, que todo dia me presta uma ajuda inestimável em meu trabalho; mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.

Talvez seja um preconceito, resultante da falta de prática, da já longa identificação na minha experiência da literatura com os livros de papel, mas, se bem que navegue com muito prazer na internet em busca de notícias do mundo, não me ocorreria servir-me dela para ler os poemas de Góngora, um romance de Onetti ou de Calvino, nem um ensaio de Octavio Paz, porque sei muito bem que o efeito dessa leitura jamais seria o mesmo.

A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com seu destino, de todo contentes com o modo como vivem a vida. A literatura é alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para quem tem muito ou muito pouco na vida, onde é possível não ser infeliz, não se sentir incompleto, não ser frustrado nas próprias aspirações. Cavalgar junto ao esquálido Rocinante e a seu desregrado cavaleiro pelas terras da Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, tomar o arsênico com Emma Bovary ou transformar-se em inseto com Gregor Samsa é um modo astuto que inventamos para nos mitigar pelas ofensas e imposições desta vida injusta que nos obriga a sermos sempre os mesmos, enquanto gostaríamos de ser muitos, tantos quantos fossem necessários para satisfazer os desejos incandescentes de que somos possuídos.

Só momentaneamente é que o romance aplaca essa insatisfação vital, mas, nesse intervalo milagroso, nessa suspensão temporária da vida em que a ilusão lite-rária nos imerge – que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal – somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos do que na rotina forçada da nossa vida real. Quando, fechado o livro, posta de parte a ficção, voltamos àquela e a comparamos com o território resplandecente que mal acabamos de deixar, espera-nos uma grande desilusão. Isto é, esta grande confirmação: que a vida sonhada do romance é melhor – mais bela e variada, mais compreensível e perfeita – do que a que vivemos quando estamos despertos, uma vida tolhida nos limites e na servidão a nossa condição.

Nesse sentido, a boa literatura é sempre – ainda que não proponha isso nem se dê conta disso – sediciosa, insubmissa, em revolta: um desafio ao que existe. A literatura nos permite viver em um mundo cujas leis transgridem as leis inflexíveis em meio às quais transcorre a nossa vida real, emancipados da prisão do espaço e do tempo, na impunidade para o excesso e donos de uma soberania que não conhece limites. Como não nos sentirmos defraudados depois de termos lido Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido, ao nos voltarmos a este mundo de mesquinharias infinitas, de fronteiras e proibições que estão à espreita e que em toda parte, a cada passo, perturbam nossas ilusões? Esta é, talvez, ainda mais do que conservar a continuidade da cultura e enriquecer a linguagem, a melhor contribuição da literatura ao progresso humano: recordar-nos (involuntariamente, na maior parte dos casos) de que o mundo se acha mal-acabado, de que mentem os que sustentam o contrário – por exemplo, os poderes que o governam -, e de que poderia ser melhor, mais próximo dos mundos que a nossa imaginação e a nossa palavra são capazes de inventar.

Entenda-se bem: chamar de sediciosa uma literatura porque as belas obras de ficção desenvolvem nos leitores uma consciência alerta em face das imperfeições do mundo real não significa, como creem as igrejas e os governos que se fiam da censura para atenuar ou anular sua carga subversiva, que os textos literários provoquem diretamente comoções sociais ou acelerem as revoluções. Os efeitos sociopolíticos de um poema, de um drama ou de um romance não podem ser verificados porque não se mostram quase nunca de ma-neira coletiva, mas individual, e isso significa que variam enormemente de uma pessoa para outra. Por isso é difícil, para não dizer impossível, estabelecer normas precisas. Por outro lado, muitas vezes esses efeitos, quando resultam evidentes no âmbito coletivo, podem ter pouco a ver com a qualidade estética do texto que os produz. Por exemplo, um romance medíocre, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, parece ter desempenhado um papel importantíssimo na tomada de consciência social, nos Estados Unidos, dos horrores da escravidão; o fato de que esses efeitos sejam difíceis de identificar não significa que eles não existam, mas que se manifestam, de maneira indireta e múltipla, por meio dos comportamentos e ações dos cidadãos cuja personalidade os romances contribuíram para moldar.

A boa literatura, enquanto aplaca momentaneamente a insatisfação humana, incrementa-a e, fazendo que se desenvolva uma sensibilidade inconformista em relação à vida, torna os seres humanos mais aptos para a infelicidade. Viver insa-tisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as bata-lhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.

Tentemos traçar uma reconstrução histórica fantástica, imaginando um mundo sem literatura, uma humanidade que não haja lido romances. Nessa civilização ágrafa, com um léxico liliputiano, em que talvez os grunhidos e a gesticulação simiesca prevalecessem sobre as palavras, não existiriam certos adjetivos formados a partir das criações literárias: quixotesco, kafkiano, pantagruélico, rocambolesco, orwelliano, sádico e masoquista, entre muitos outros. Haveria loucos, vítimas de paranoias e delírios de perseguição, e pessoas de apetite descomunal e de excessos desmedidos, e bípedes que gozariam recebendo ou infligindo a dor, com certeza; mas não teríamos aprendido a ver por trás desses comportamentos extremados, em contraste com a pretensa normalidade, aspectos essenciais da condição humana, vale dizer, de nós mesmos, algo que só o talento criador de Cervantes, de Kafka, de Rabelais, de Sade ou de Sacher-Masoch nos revelou.

Quando veio a lume o Dom Quixote, os primeiros leitores riam daquele homem iludido e extravagante, da mesma forma como riam as outras personagens do romance. Agora sabemos que o empenho do Cavaleiro da Triste Figura em ver gigantes em vez de moinhos de vento e em cometer todos os desatinos que comete é a forma mais elevada de generosidade, um modo de protestar contra as misérias deste mundo e de procurar mudá-lo. Os próprios conceitos de ideal e de idealismo, tão impregnados de uma validade moral positiva, não seriam o que são – ou seja, valores claros e respeitáveis – se não tivessem encarnado naquela personagem de romance com a força persuasiva que lhe conferiu o gênio de Cervantes. E o mesmo se poderia dizer desse pequeno dom Quixote pragmático e de saias que foi Emma Bovary – o bovarismo não existiria, está claro -, que por sua vez se bateu com ardor para viver essa vida resplendente de paixões e de luxo que ela conhecera nos romances, e se queimou nesse fogo como a mariposa que se aproxima demais da chama.

Como as de Cervantes e Flaubert, as invenções dos grandes criadores literários, ao mesmo tempo em que nos arrancam de nossa prisão realista, conduzem e guiam pelos mundos da fantasia, abrem-nos os olhos sobre aspectos desconhecidos e secretos da nossa condição, e nos dão os instrumentos para explorar e entender mais os abismos do que é -humano. Dizer “borgeano” significa destacar-se da realidade racional costumeira e penetrar numa fantástica, rigorosa e elegante construção mental, quase sempre labiríntica, impregnada de referências e alusões livrescas, cuja singularidade não nos é, todavia, estranha, porque nela reconhecemos desejos recônditos e verdades íntimas do nosso ser que só graças às criações literárias de um Jorge Luis Borges puderam tomar forma. O adjetivo “kafkiano” nos vem à mente de maneira natural, como o flash de uma daquelas velhas máquinas fotográficas de fole, toda vez que nos sentimos ameaçados, como indivíduos inermes, por esses mecanismos opressores e destrutivos que tanta dor, tantos abusos e injustiças causaram no mundo moderno: os regimes autoritários, os partidos verticais, as igrejas intolerantes, as burocracias asfixiantes. Sem os contos e romances daquele atormentado judeu de Praga que escrevia em ale-mão e que viveu sempre à espreita, não teríamos sido capazes de compreender o sentido de fragilidade e impotência do indivíduo isolado ou das minorias discriminadas e perseguidas, ante as forças onipotentes que podem pulverizá-los.

O adjetivo “orwelliano”, primo em primeiro grau de “kafkiano”, refere-se à angústia opressiva e à sensação de absurdo extremo que geraram as ditaduras totalitárias do século xx, as mais refinadas, cruéis e absolutas da história, em seu controle dos atos, da psique e até dos sonhos dos membros de uma sociedade. Nos seus romances mais célebres, A Revolução dos Bichos e 1984, George Orwell descre-veu, com acentos gélidos e de pesadelo, uma humanidade submetida ao controle do Grande Irmão, um senhor absoluto que, por meio de uma combinação eficaz de terror e tecnologia moderna, eliminou a liberdade, a espontaneidade e a igualdade – nesse mundo alguns são “mais iguais do que os outros” – e transformou a sociedade em uma colmeia de seres humanos autômatos, programados como os robôs. Não apenas as condutas obedecem aos desígnios do poder, mas também a língua, o newspeak, foi depurada de toda conotação individualista, de toda invenção ou matiz subjetivo, transformando-se numa enfiada de lugares-comuns e clichês impessoais, o que aumenta a servidão dos indivíduos ao sistema. É verdade que a profecia sinistra de 1984 não se materializou e que, como ocorreu com os totalitarismos fascista e nazista, o comunismo totalitário desapareceu na União Soviética e depois começou a se deteriorar na China e naqueles anacronismos que são ainda Cuba e a Coreia do Norte; mas a palavra “orwelliano” permanece como lembrança de uma das experiências político-sociais mais devastadoras vividas pela civilização, e que os romances e ensaios de George Orwell nos ajudaram a compreender nos seus mecanismos mais recônditos.

Por vezes, a imagem que se delineia no espelho que os romances e os poemas nos oferecem de nós mesmos é a imagem de um monstro. Ocorre quando lemos as horripilantes carnificinas sexuais fantasiadas pelo Divino Marquês, ou as tétricas dilacerações e sacrifícios que povoam os livros malditos de um Sacher-Masoch ou de um Bataille. E, todavia, o pior dessas páginas não são o sangue nem a humilhação, tampouco as torturas abjetas nem a sanha que as tornam febris; é a descoberta de que essa violência e os abusos não nos são estranhos, estão repletos de humanidade, de que esses monstros ávidos de transgressão e excesso estão entocados no mais fundo de nosso ser e que, das sombras onde estão ocultos, aguardam uma ocasião favorável para se manifestar, para impor a lei dos seus desejos, que acabaria com a racionalidade, com a convivência e talvez com a própria existência. Não a ciência, mas a literatura foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno humano e a descobrir o apavorante potencial destrutivo e autodestrutivo que também o conforma. Portanto, um mundo sem romances seria parcialmente cego em face desses abismos terríveis onde com fre-quência jazem as motivações das condutas e comportamentos inusitados, e por isso mesmo tão injusto contra o que é diferente, como aquele que, em um passado não muito remoto, acreditava que canhotos, aleijados e gagos estivessem possuí-dos pelo demônio. Esse mundo talvez continuasse a praticar, como até há pouco tempo algumas tribos amazônicas, o perfeccionismo atroz de afogar nos rios os recém-nascidos com defeitos físicos.
Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo, o mundo sem romances, esse pesadelo que procuro delinear, teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal. Os instintos básicos decidiriam a rotina de uma vida oprimida pela luta pela sobrevivência, pelo medo do desconhecido, pela satisfação das necessidades físicas, em que não haveria espaço para o espírito e a que, à monotonia sufocante da vida, acompanharia o pessimismo, a sensação de que a vida humana sempre será assim, e que nada nem ninguém poderá mudar o estado das coisas.

Quando se imagina um mundo assim, há a tendência a identificá-lo de imediato com o primitivo, com o trapo cobrindo os órgãos genitais, com as pequenas comunidades mágico-religiosas que vivem à margem da modernidade na América Latina, na Oceania e na África. A verdade é que o formidável desenvolvimento dos meios audiovisuais em nossa época – os quais, por um lado, revolucionaram as comunicações tornando todos os homens e mulheres do planeta partícipes da atualidade e, por outro, monopolizaram cada vez mais o tempo que os seres vivos dedicam ao ócio e à diversão em vez de à leitura – permite imaginar, como possível cenário histórico do futuro, uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e alto-falantes, e sem livros, ou mais precisamente, onde os livros – a literatura – se tornaram semelhantes à alquimia na era da física: uma curiosidade anacrônica, praticada nas catacumbas da civilização mediática por minorias neuróticas. Esse mundo cibernético, receio muito, apesar de sua prosperidade e poderio, de seus elevados níveis de vida e de suas façanhas científicas, seria profundamente incivilizado, letárgico, privado de espírito, uma humanidade resignada de robôs que abdicaram da liberdade.

É mais do que improvável que essa perspectiva sombria chegue a se concretizar. A história não está escrita, não há um destino preestabelecido que tenha decidido por nós o que seremos. Depende totalmente da nossa visão e da nossa vontade que aquela utopia macabra se realize ou se oculte. Se queremos evitar que com os romances desapareça, ou permaneça apartada no desvão das coisas inúteis, essa fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que nos aguça a sensibilidade e nos ensina a falar com força expressiva e rigor, e nos torna mais livres e nossas vidas mais ricas e intensas, é necessário agir. Há que ler os bons livros e incitar a ler, e ensinar a fazer isso a quantos venham depois de nós – nas famílias e nas aulas, nos meios de comunicação de massa e em todos os setores da vida comum – como uma ocupação imprescindível, pois que é a que imprime a sua marca em todos os demais, e os enriquece.

Transcrito em São Paulo, 25 de Outubro de 2009

Tempo, de Viviane Mose

Um belo poema de Viviane Mose, que o Rubem Alves me passou.

TEMPO

quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos…

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Em São Paulo, 1 de Maio de 2009

Escritor francês Le Clézio é o novo Nobel de Literatura

09/10/2008 – 13h01

Da redação do UOL com agências Reuters e AFP

O escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, descrito pela Academia Sueca como "nômade" devido a suas viagens pelo mundo, que se refletem em sua obra, recebeu nesta quinta-feira o prêmio Nobel de Literatura de 2008.

A Academia, que escolhe o ganhador do prestigioso prêmio de 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,4 milhão), elogiou o escritor de 68 anos por seus romances cheios de aventura, ensaios e obras de literatura infantil.

"Suas obras têm um caráter cosmopolita. Francês, sim, porém mais do que isso, um viajante, cidadão do mundo, nômade", disse Horace Engdahl, secretário permanente da Academia Sueca, em entrevista coletiva convocada para anunciar o laureado.

Aos 68 anos, o escritor teria batido concorrentes como o norte-americano Philip Roth e o britânico Ian McEwan para a nomeação. Em 2007, o prêmio foi concedido à escritora Doris Lessing. Nascido em 13 de abril de 1940 em Nice (sudeste da França), Le Clézio mudou-se para a Nigéria com sua família aos 8 anos de idade. Escreveu seus primeiros trabalhos — "Un Long Voyage" e "Oradi Noir" — durante a viagem à Nigéria, que levou um mês. De acordo com o site da Academia Sueca, ele estudou inglês numa universidade britânica e lecionou em instituições em Bangkok, Cidade do México, Boston, Austin e Albuquerque, entre outras.

Le Clézio passou longos períodos no México e América Central, e em 1975 se casou com uma marroquina. Desde os anos 1990 ele e sua mulher dividem seu tempo entre Albuquerque, no Novo México, Nice e Ilhas Maurício.

Seu primeiro romance foi "Le proces-verbal" ("O Interrogatório"), de 1963, escrito quando tinha 23 anos. O livro recebeu o prêmio Renaudot na França. Dentre suas outras publicações estão "La fièvre" (1965), "Terra Amata" (1967), "La Guerre" (1970), "Désert" (1980), "Le Chercheur d’or" (1985), "Onitsha" (1991), "Etoile Errante" (1992), "Le Poisson d’or" (1996), "Voyage à Rodrigues" (1986), "Diego et Frida" (1985), "Révolutions" (2003) e, seu mais recente, "Ritournelle de la faim" (2008). No Brasil foram publicados "O deserto", "A quarentena" e "Peixe Dourado".

Visto nos anos 1960 como escritor experimental, Le Clézio se interessou por muitos temas, incluindo o meio ambiente e a infância. Até os anos 1980, Le Clézio tinha a imagem de escritor inovador e rebelde, apreciador dos temas como a loucura, mas depois passou a escrever livros mais serenos, nos quais a infância, a preocupação com as minorias, a atração pelas viagens ganharam o primeiro plano, o que o fizeram ser lido por um público muito mais amplo.

O livro que lhe deu fama foi "Désert", de 1980, que, segundo a Academia Sueca, "contém magníficas imagens de uma cultura perdida no deserto do norte da África, contrastado com o retrato da Europa visto através do olhar de imigrantes indesejados".

O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, saudou o prêmio dado a Le Clézio. "Esta honra magnífica coroa uma das criações literárias mais notáveis de nossos tempos e um dos estilos de escrita mais exigentes e inventivos", disse Kouchner em comunicado à imprensa. "De Albuquerque a Seul, de Nova York ao Panamá, de Londres a Lagos, Jean-Marie G. Le Clézio vive, viaja, conhece e ama muitos países, povos, civilizações e culturas", acrescentou.

A fase que antecedeu a entrega do Nobel de Literatura deste ano foi dominada por controvérsia, depois de Horace Engdahl, secretário permanente da Academia Sueca, ter dito que os Estados Unidos são demasiado insulares e não participam do "grande diálogo" da literatura mundial.

Feitos a uma agência de notícias, seus comentários desencadearam uma tempestade de reações iradas de escritores e críticos norte-americanos.

A última vez em que o prêmio Nobel de Literatura foi dado a um americano foi em 1993, quando a premiada foi a romancista Toni Morrison.

Todos os prêmios Nobel, exceto um, foram criados no testamento do magnata Alfred Nobel e são entregues desde 1901. O Nobel de Economia foi criado pelo Banco Central sueco em 1968.

http://diversao.uol.com.br/ultnot/2008/10/09/ult4326u1130.jhtm

Em São Paulo, 9 de Outubro de 2008

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis morreu em 29 de Setembro de 1908. Este ano celebra-se o centenário de sua morte, portanto. Para comemorar a data comprei ontem a obra completa dele, em três volumos, impressos, em edição bonita, de papel do tipo bíblia, disponível, com quase 60% de desconto, na Livraria Cultura de Campinas. O preço de tabela passava dos seiscentos reais. O preço pago ficou em 250 — com a opção de pagamento em cinco parcelas. Uma pechincha. Sendo obra completa, a edição traz, naturalmente, os livros, os contos, as contribuições para jornais, as poesias. Tudo. Cerca de 3.500 páginas de referência para a literatura e para a língua portuguesa.

Comecei lendo o conto, em forma epistolar, "Confissões de uma Viúva Moça". Delicioso. Recomendo "highly", como dizem os americanos. Foi publicado como folhetim, segundo consta de maio a julho de 1865, no Jornal das Famílias, então editado por B.-L. Garnier, editor de nome ilustre. O conto não veio assinado por Machado, mas simplesmente por J.

O conto é polêmico, a começar pelo pseudônimo usado — ou, antes ainda, pela razão que levou Machado a recorrer a um pseudônimo. Outro aspecto polêmico está na expressão "viúva moça", que, em meados do século XIX, segundo alguns, visava a atrair leitores de motivos menos puros… Como diz um deles, "não eram incomuns viúvas moças naqueles tempos em que as pessoas morriam cedo. Mas o que importa a mais é que elas tinham liberdade de dispor de si mesmas, não desfrutada pelas moças solteiras" (citação de John Gledson, em Machado de Assis, Contos: Uma Antologia. Seleção Introdução e Notas de John Gledson, Companhia das Letras, São Paulo, 1996, vol. I, p.22; apud Lúcia Granja, "Novas Confissões sobre um Conto Polêmico", disponível na Internet no seguinte URL: http://www.machadodeassis.net/download/Novas Confissões sobre um conto polêmico de Machado de Assis.pdf – consultado hoje, 19/08/2008). É interessante notar que meses antes ele já havia publicado, desta vez sob o próprio nome, um outro conto sobre o tema, com o título "Casada e Viúva" — que, talvez, seja tão sugestivo provocador quanto o título do conto subseqüente. (Este título faz lembrar a chamada sobre a Viúva Porcina, na novela Roque Santeiro, de Dias Gomes: "A viúva que foi, sem nunca ter sido"…)

Machado sabe alimentar a curiosidade de leitores de motivos talvez não tão puros, como eu próprio. Na primeira carta, a viúva disse à sua amiga, destinatária da carta, que preferia fazer suas confissões por cartas e não "por boca", porque, nesta hipótese, "talvez corasse de ti". Lindo fraseado — e promessa de que as confissões serão de fazer corar (está bem — corado de século XIX pode não significar nada hoje). "Deste modo", diz a viúva, "o coração abre-se melhor e a vergonha não vem tolher a palavra nos lábios". Machado sabe atiçar a curiosidade do leitor.

Talvez orquestrado para aumentar circulação do jornal, surgiu um debate, em que um tal de Caturra insinuou que o que estava por vir no que ele chamou de "romancito" em fascículos, atentaria contra os costumes. Machado (isto é, J.) rebateu no número seguinte do jornal, enfatizando que "o autor das Confissões respeita, mais que ninguém, a castidade dos costumes". Dificilmente um debate desses, alimentado nos números seguintes do jornal, deixaria de trazer mais leitores para o períódico.

Caturra voltou à carga, criticando a "liberdade exagerada de imprensa" que permitia que um "romancito" como aquele fosse publicado justamente nas páginas de um jornal que se pretendia das famílias. Na seqüência do debate, orquestrado ou não, Machado de Assis interveio, em próprio nome, e assumiu a autoria do "romancito". (As referências ao debate são apud Lúcia Granja).

Em outro artigo sobre o conto disponível na Internet, "Provocações de uma viúva moça", Thomaz Pereira de Amorim Neto levanta uma outra questão interessante abordada pela obra. Eugênia — a missivista — chama o amor que sentia pelo misterioso personagem que despertou seu interesse, enquanto ela era ainda casada, de crime. "Era um crime, eu bem o via, bem o sentia", diz ela. Comenta Thomaz Pereira:

"Que crime é esse? A traição de um contrato social? Não acreditamos que seja isso. Em realidade, a leitura que propomos ao tentar reinserir as citações na própria questão do enredo do texto é: o crime é o distanciamento do dogma do matrimônio. A infidelidade, pois, seria um crime não contra o marido, mas contra Deus e, portanto, um pecado mortal. Mas, ao mesmo tempo, a força da paixão toma aqui um viés pagão, trágico, o que faz a
narradora se colocar na tensão de não citar nada além de gregos e bíblicos." (
http://www.idelberavelar.com/abralic/txt_25.pdf).

Esse dogma persiste até hoje — embora, felizmente, tenha saído do centro das preocupações da sociedade para ocupar-lhe a periferia.

Enfim.

Quem sabe eu terei, mais ou menos machadianamente, suscitado em mente curiosa o desejo de ler o conto. Se isso acontecer, terá valido o preço da coleção.

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008