​Meritocracia

 Leandro Karnal, apesar de seu estilo sempre pomposo e empolado, escreve um artigo interessante sobre meritocracia no Estadão de hoje (8/2/17). O artigo está transcrito abaixo.

O chamado “olho” (lead, em Inglês) do artigo, aquela frase destacada que vem antes ou depois do título, para chamar a atenção, diz algo muito verdadeiro — até onde vai: “Não é justo que todos colham o mesmo com sementes e esforços de plantio bem distintos”. Colocando em outras palavras: a injustiça não está na meritocracia, muito pelo contrário: injusto é alguém usar sementes melhores e se esforçar mais no processo de plantio e cuidado, e colher produtos na mesma quantidade e da mesma qualidade que alguém que não fez isso.

Perfeito. Concordo totalmente (embora eu esteja certo, como se verá a seguir, de que a formulação é incompleta). Pena que Karnal, no corpo do artigo, se esqueça de defender esse princípio, perdendo-se em referências e arrazoados que não estão diretamente ligados ao chamado que vem depois do título e desviando-se mais para concluir com a pergunta que dá o título ao artigo: “Quem merece o quê?”. Ora, não se trata de discutir “quem merece o quê?”, mas, sim, se é justo que alguns indivíduos, em decorrência de um conjunto de condições e fatores, colham mais do que os demais.

Gosto da metáfora de colheita. Alguns diriam “recebam mais do que os demais” em vez de “colham mais do que os demais”. O verbo “receber”, nesse contexto, sugere que alguém, com recursos ilimitados e poderes discricionários (o estado?), distribui as recompensas. Não é assim: cada um colhe sua recompensa, e a recompensa que ele colhe tem que ver, em parte, com o que ele faz: selecionar sementes e outros insumos melhores, esforçar-se (isto é, trabalhar) mais e melhor, etc.

Só tenho uma observação a fazer, mas elas é extremamente importante.

A maior quantidade (produzir mais bens e serviços – maior produtividade) e a melhor qualidade (produzir bens e serviços com maior nível de excelência) de um produto feito ou um serviço prestado não resultam apenas da qualidade dos insumos (melhores sementes, etc.) e da quantidade de esforço na confecção do produto ou na prestação do serviço. Karnal deixa de fora um elemento fundamental que, na realidade, é o cerne da questão: a capacidade de quem confecciona o produto ou presta o serviço. Karnal não toca nessa questão – mas é ela que, no fundo, diferencia o que pensam os que defendem a meritocracia e os que a criticam ou mesmo negam totalmente a validade do conceito de “mérito”.

Capacidade e esforço não são a mesma coisa. Capacidade é o conjunto de dons e talentos, de competências e habilidades que uma pessoa tem para produzir algo (bem ou serviço).

Será que todo mundo é igualmente capaz de fazer uma determinada coisa (bem ou serviço), qualquer que seja?

Os críticos da meritocracia aparentemente pressupõem ou aceitam (conscientemente ou não) a teoria da tabula rasa, a saber, que consiste de dois enunciados básicos:

  • • todo ser humano, ao nascer, é, por assim dizer, uma lousa em que absolutamente nada está escrito, ou uma folha de papel em branco, totalmente virgem — uma tabula rasa;
  • • as características que cada ser humano vem a possuir (inclusive sua capacidade, ou conjunto de seus dons e talentos, de suas competências e habilidades) não lhe são, por conseguinte, inatas, mas decorrem de “scripts” (roteiros) escritos nessa lousa ou folha de papel (tabula) pelo ambiente em que ele nasce, cresce e vive (ambiente definido por fatores históricos, socioculturais e até mesmo geográficos).

Essa teoria, que opera como pressuposto dos que criticam a meritocracia, é defensável?

No plano das características biológicas ou corporais (cor [da pele, dos cabelos, dos olhos], comprimento / altura, complexão, etc.), evidentemente que não. Embora através de dieta e exercício os indivíduos possam, hoje, alterar algumas dessas suas características (tornando-se mais altos e fortes do que os seus genitores foram), há um limite claro ao que se pode conseguir — pelo menos em termos dos conhecimentos, técnicas e tecnologias hoje disponíveis. Mesmo Michael Jackson, com toda sua determinação e todo o seu dinheiro, conseguiu apenas resultados limitados em seu esforço de embranquecimento — e não conseguiu acrescentar “um côvado” (como diz a Bíblia) à sua altura (se é que desejava isso).

Mas e no plano das características psicológicas ou mentais [cognitivas (que têm que ver com a inteligência ou as inteligências), afetivas (que têm que ver com as emoções), atitudinais (que têm que ver a disposição, a motivação, a determinação, a resiliência), conativas (que têm que ver com o discernimento de alternativas, a vontade, a escolha, a decisão, a ação)]? O componente genético (herdado dos antepassados, via os genitores) opera do mesmo jeito? É forçoso reconhecer que essas características psicológicas ou mentais parecem ser mais maleáveis (abertas a alteração mediante interferência intencional) do que as características biológicas. Mas a questão não é se elas podem ser alteradas pelo ambiente: evidentemente que podem (caso contrário não faria educar ninguém). A questão é se há, nelas, algum componente genético que condicione o que ou quanto pode ser feito com elas em um determinado indivíduo. Os autores do livro, publicado em 1994, The Bell Curve: Intelligence and Class Structure in American Life (Richard J. Herrnstein e Charles Murray) foram anatematizados e profundamente hostilizados pela esquerda por afirmarem que, no caso da inteligência, como convencionalmente entendida (capacidade lógica/matemática/analítica), algo por volta de 40 a 80% é inegavelmente genético e não pode ser alterado, por mais que se tente — sendo necessariamente limitados, portanto, os nossos esforços de reformar ou transformar a educação através de políticas e programas educacionais. (Vide https://en.wikipedia.org/wiki/The_Bell_Curve).

Enfim, deixando de lado a questão da capacidade, Karnal livrou-se de ofender a esquerda, que, em regra, nega o mérito individual e critica a meritocracia — mas falsificou a discussão da questão em seu aspecto mais central, deixando os defensores da meritocracia, como eu, insatisfeitos com o que escreveu.

Os defensores da meritocracia colocam, evidentemente, o mérito no centro, e mérito tem que ver, não com o produto da qualidade dos insumos pela quantidade de esforço, mas, sim, com o produto da capacidade pelo esforço. E viva Michael Phelps.

Na verdade, os defensores da meritocracia tendem a considerar que o esforço que um indivíduo despende na realização de uma tarefa é determinado pelo conjunto de suas capacidades (cognitivas, afetivas, atitudinais e conativas), que lhe permitem reconhecer a importância da tarefa, os benefícios ou os retornos que sua realização pode trazer, para outrem ou para o próprio indivíduo, os insumos que ela vai exigir (inclusive tempo, dinheiro, materiais, cooperação de outras pessoas, e, extremamente importante, informações e conhecimentos necessários para sua realização), a determinação e a resiliência que sua realização vai exigir, os riscos envolvidos na realização da tarefa, como a possibilidade de que as primeiras tentativas de realizar a tarefa fracassem, causando prejuízo, a decisão de não se deixar esmorecer se as coisas não derem certo nas primeiras vezes, a escolha de não se deixar afetar com desânimo diante de dificuldades e críticas, etc.

Por fim, como é que um defensor real da meritocracia responde a pergunta contida no título do artigo de Karnal? A pergunta, lembremo-nos, é “Quem merece o quê?” A resposta do defensor da meritocracia é: alguém só merece aquilo que fez por merecer, através de sua capacidade e do seu esforço (que envolve as variáveis assinaladas no parágrafo anterior).

Punto y basta.

Em Salto, 8 de Fevereiro de 2017

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Quem merece o quê?

Não é justo que todos colham o mesmo com sementes e esforços de plantio bem distintos

Leandro Karnal

O Estado de São Paulo

08 Fevereiro 2017 | 04h00

Uma palavra cresceu muito recentemente: meritocracia. Sua raiz está em muitos lugares. Começa com a crítica à sociedade estamental do Antigo Regime. No mundo dos reis absolutos, as pessoas eram definidas pelo nascimento. No século de Luís XIV, por exemplo, a nobreza tinha privilégios de foro jurídico, acesso a cargos, presença na Corte, precedências sociais e, até, o direito de usar certos tecidos e cores (leis suntuárias).

A maioria da população (o povo) viu com desconfiança um mundo definido pela loteria do nascimento e não pela capacidade de alguém. Reivindicou-se a isonomia, ou seja, a igualdade diante da lei. Quem garantiria que era melhor ter como comandante militar um duque ou príncipe de sangue, se um humilde oficial poderia ter mais preparo e melhor estratégia, mesmo que nascido de berço simples?

Uma das reações ocorreu no novo modelo de exército liderado pelo puritano Oliver Cromwell contra as tropas absolutistas de Carlos I Stuart. O sucesso de um exército disciplinado com oficiais promovidos por mérito foi evidente: o rei foi decapitado e os ingleses conheceram uma inédita República. A meritocracia era eficaz.

Ao final do Antigo Regime, a ascensão de Napoleão Bonaparte foi a consagração da capacidade sobre a origem. O corso venceu vários imperadores. Claro que tudo tem seu custo e, mesmo Napoleão, tão prático, fez uma concessão simbólica ao se coroar.

O conceito de meritocracia aumentou em importância com a ascensão do capitalismo liberal, especialmente no século 19. De Adam Smith a Stuart Mill, domina a ideia de que o esforço pessoal seja o distintivo de cada ser. Riqueza e pobreza eram fruto de uma correlação entre capacidade e trabalho.

Nos Estados Unidos, o empreendedor bem-sucedido transformou-se na encarnação do Liberalismo. A meritocracia seria similar à evolução das espécies: em um mesmo ambiente, apenas as mais adaptadas e hábeis sobrevivem.

Quase ao mesmo tempo, ideias socialistas deram explicação contrária. A sociedade capitalista era concentradora de renda e impedia a ascensão de forma igualitária. Para liberais clássicos, a desigualdade era uma decorrência natural dos diferentes talentos e esforços. Para os socialistas, era uma situação artificial criada para garantir o domínio de uma pequena elite. A meritocracia era uma construção ideológica para parte da esquerda e era uma verdade pétrea para uma parte dos conservadores. Parte dessa crítica está na obra de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI.

Liberais gostam de citar, no Brasil, Machado de Assis. Nascido em condição social humilde, mulato, educou-se e galgou postos profissionais por exclusivo esforço pessoal. O fundador da Academia Brasileira de Letras seria o exemplo de que todos têm oportunidades, basta empenho.

Os inimigos da ideia do esforço como motor maior pensam em Machado como exceção. Usá-lo seria como dizer a todo atleta de várzea: jogue bastante bola porque Neymar ficou milionário assim. Para críticos da meritocracia, os exemplos excepcionais de um Machado só servem para reforçar a ideia de que, para a maioria, os caminhos estariam fechados.

O tema é complexo e não tem apenas dois polos: é preciso lembrar que o pensamento aristocrático continuou a encontrar eco em boa parte do século 20, negando a ideia de mérito e as críticas socialistas. Sándor Márai capta essa terceira via no romance As Brasas, ao narrar o quase monólogo do general Henrik acusando seu amigo de infância, Konrad, de invejar seu berço aristocrático e sua vida abastada na corte de Francisco José. Konrad era mais inteligente e esforçado, tinha mais mérito em tudo. Vinha de origem mais humilde. Mas jamais seria como Konrad por uma questão de nascimento. Isso tudo em 1941! Arno J. Mayer analisa a persistência da nobreza como referência até 1914 no clássico A Força da Tradição.

No plano individual, um aluno que se esforce mais tem mais chances de sucesso. Não seria justo que todos colhessem o mesmo com sementes e esforços de plantio bem distintos. No plano mais amplo, uma formação ruim e até uma ingestão insatisfatória de alimentos em alguns momentos pode representar danos muito difíceis de serem superados. Em processo de ensino, nem todo degrau pode ser recuperado. A pergunta incômoda é se todos possuem condições de esforço. Em outras palavras: querer é poder, mas… será que todos podem querer? Eu não tenho resposta clara. Sempre achei que somos mais livres do que deterministas de toda espécie imaginam, mas menos autônomos na vontade do que liberais idealizam.

Óbvio concluir que dar boas condições a alguns também não garante o êxito. O esforço é necessário independentemente da origem do esforçado. Seria ele suficiente? Responder a esta questão complexa sobre meritocracia está na base de políticas como Bolsa Família e cotas em processos seletivos. Na verdade, toda política pública dessa natureza nasce da ideia de que as condições não são iguais para todos e que seriam necessárias medidas para garantir, de fato, meritocracia.

As perguntas básicas são:

A) há condições de crescimento para todos mediante esforço?

B) a meritocracia ainda é o critério básico para distinguir sucesso e fracasso?

Talvez o questionamento derradeiro seja: quem merece o quê?

Boa semana a todos.