O mercado (I)

Retomo aqui uma questão já discutida, em parte, no meu artigo "Mercado, mercadorias e a distribuição de riquezas", disponibilizado aqui neste blog há cerca de 80 dias (data: 15/5/2005).

Consta que uma vez, em conversa com a ex-Primeira Ministra da Inglaterra Margareth Thatcher, o ex-Premier soviético Mikhail Gorbachev, preocupado com a escassez de alimentos que existia na União Soviética, lhe teria perguntado: “Que medidas a senhora toma para que o povo inglês sempre tenha o que comer?” A pergunta a pegou desprevenida – porque, na verdade, não fazia nada… O mercado se encarregava disso.

Os críticos da economia de mercado parecem imaginar (pelo menos é o que suas falas sugerem) que o mercado é algum misterioso e sinistro ser que age nos bastidores para garantir que os ricos tenham o que querem e os pobres não tenham o de que precisam. Talvez a metáfora da “mão invisível” usada (apropriadamente, diga-se de passagem) por Adam Smith alimente essa hipostatização (*) do mercado na mente dos seus críticos.

Mas o mercado não é nenhum agente misterioso e sinistro. O termo se refere apenas à totalidade das iniciativas de troca, compra e venda que nós todos fazemos, com base em algo simples: o preço, acertado entre os envolvidos, dos bens e serviços que trocam, compram ou vendem.

Imaginemos a cidade de São Paulo. No mínimo dez milhões de pessoas ali vivem. Entre outras coisas, essas pessoas precisam se alimentar todos os dias. Um indivíduo à la Gorbachev se indagaria: “Que providências são tomadas para que esse povo todo tenha o que comer todos os dias?” – imaginando, naturalmente, que alguém tomaria essas providências: uma pessoa ou um comitê de pessoas. Mas a realidade é que ninguém toma essas providências de forma centralizada. A tarefa de garantir que o povo que mora em São Paulo tenha o que comer é realizada sem que ninguém esteja, centralizadamente, planejando, controlando e coordenando a produção e, portanto, a disponibilidade de alimentos e a sua distribuição para a população. A tarefa é realizada porque milhões de produtores e distribuidores de alimentos, cada um cuidando de seus interesses, sabe que as pessoas nessa enorme cidade precisam se alimentar e se encarregam de disponibilizar os alimentos para a população – por um preço, naturalmente. Como diria Adam Smith, e Mikhail Gorbachev, pela sua pergunta, concordava com ele, tudo parece acontecer “como se” uma “mão invisível” efetuasse o planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos para a população. Como na União Soviética ele era o responsável último pelo planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos para a população, e não estava conseguindo cumprir a contento sua tarefa, ele imaginou que, na Inglaterra, a “mão” que fizesse isso fosse a de Thatcher…

Já seria notável que toda uma população de no mínimo dez milhões de pessoas tivesse algo básico com que se alimentar todos os dias: pão e leite, digamos. Mas não: as pessoas têm uma incrível escolha de bens e serviços que atendem não só às suas necessidades básicas mas aos seus desejos mais diferenciados e sofisticados. Há alimentos frescos, congelados, desidratados, em latas, orgânicos, tipicamente brasileiros, dos diversos estados brasileiros, e, também, americanos, chineses, japoneses, italianos, mexicanos, franceses, libaneses, indianos, etc. As pessoas podem comprar os ingredientes e fazer sua própria comida ou podem comprar a comida já pronta – em restaurantes, lanchonetes ou mesmo de ambulantes, ou para consumo em sua própria casa, mediante “delivery”.

Tudo isso é feito sem planejamento, controle e coordenação centralizados. Na economia de mercado, há planejamento, controle e coordenação da produção e distribuição de alimentos (e de outros bens e serviços). Mas cada produtor e distribuidor realiza o seu planejamento, o seu controle, a sua coordenação – de forma totalmente descentralizada, sem que ninguém centralize os processos de planejamento, controle e coordenação.

Nenhum indivíduo, dentro ou fora do governo, sequer sabe que quantidades de quais alimentos está sendo trazida para dentro da cidade em algum momento – digamos, num determinado dia – antes ou durante o processo. Estimativas em geral são feitas, mas sempre depois dos fatos.

O que permite que tudo isso se dê sem a ingerência de um poder central que planeje, controle e coordene as ações dos agentes individuais é o mecanismo de preços livremente estabelecidos entre os agentes econômicos: produtores, distribuidores e consumidores – cada um agindo no seu próprio interesse.

Como disse Adam Smith, em frase famosa, ele tinha todos os dias, à sua disposição, carne, pão e cerveja – não porque o açougueiro, o padeiro e o cervejeiro estivessem preocupados, altruisticamente, com a sua necessidade de alimentos, mas porque cada um deles estava cuidando de seu interesse. Ele, Adam Smith, por sua vez, estava ajudando o açougueiro, o padeiro e o cervejeiro a ganhar sua vida e, talvez, até enriquecer – não porque ele estivesse preocupado com o bem estar deles, mas porque estava cuidando do seu interesse de se alimentar com o que lhe apetecia.

Hoje, depois do fracasso retumbante de todas as tentativas feitas de prover bens e serviços à população de um país através de planejamento centralizado, até os críticos mais radicais da economia de mercado concedem que ela é incomparável na produção de bens e serviços – mas argumentam que o mercado, em si, não é capaz de resolver todos problemas de distribuição, como, por exemplo, o fornecimento de alimentos (habitação, saúde, educação, etc.) adequados à população que vive na miséria e, assim, não tem dinheiro para pagar os preços de mercado. O mercado, afirmam, precisa ser controlado, ainda que não totalmente, pela ação governamental.

Na próxima mensagem sobre o assunto discutirei essa questão.

[* O Dicionário Houaiss dá, entre as várias definições do termo “hipostatização”, a seguinte: “segundo a reflexão moderna e contemporânea, equívoco cognitivo que se caracteriza pela atribuição de existência concreta e objetiva  (existência substancial) a uma realidade fictícia, abstrata ou meramente restrita à incorporalidade do pensamento humano”. (Por incrível que pareça, há um erro de digitação em minha edição do Houaiss: está escrito “incorporaliadde” em vez de “incorporalidade”…]

[Fui levado a retomar o tema por inspiração do livro Applied Economics de Thomas Sowell, que estou lendo, e do qual retirei a referência ao episódio envolvendo Thatcher e Gorbachev e alguns outros exemplos. Thomas Sowell também tem um livro chamado Basic Economics]

Em Campinas, 4 de agosto de 2005

 

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