O depoimento de José Dirceu

A estratégia do ex-ministro José Dirceu ontem (2 de agosto de 2005) na Comissão de Ética foi clara:

a) Alegar que nada tem que ver com os atos realizados pela direção do PT (por não ser mais nem presidente nem secretário executivo do partido);

b) Alegar que só fazia, no governo, estritamente o que era da competência do Ministro Chefe da Casa Civil;

c) Negar tudo que foi afirmado por Roberto Jefferson sobre conversas particulares com ele (conversas reservadas: só o interlocutor e ele) e mesmo algumas coisas ditas em conversas que tiveram outras testemunhas, além de Jefferson e ele.

Como parte da primeira alegação, tentou fazer crer que não sabia nada de pagamentos a parlamentares, que só soube dos empréstimos feitos pelo PT, e de seu endividamento, através de relatórios gerais apresentados nas reuniões da Executiva do partido, que não sabia dos rolos do Delúbio com o Marcos Valério nem de seus contatos generalizados com políticos de outros partidos, em nome do PT, que não sabia das atividades do Silvio, que agia como se fosse coordenador político do governo, etc. etc.

Como parte da segunda alegação, tentou fazer crer que não é verdade que ele era, na realidade, o Super Ministro do Presidente Lulla, que não é verdade que ele coordenava todo o governo, inclusive as ações dos outros ministros e dos diretores de autarquias e empresas estatais, que, na verdae, ele não tinha nenhuma ingerência sobre a Polícia Federal e a ABIN e nem sequer recebia seus relatórios, que ele não participava de negociações políticas com os partidos, porque as nomeações eram feitas pelos ministérios ou pelas autarquias e empresas estatais, que ele não participava de processos licitatórios, porque o governo tem mecanismos de fiscalização desses processos, etc. etc.

Como parte da terceira estratégia, negou tudo o que foi possível. Num momento, negou que houvesse participado de uma reunião com Jefferson, vários outros e o Presidente Lulla — sendo informado, pelo relator, de que um dos deputados presentes havia confirmado que ele estava lá, sim…

Agora é esperar.

Mas uma coisa ficou evidente: aquilo que Jefferson relata se encaixa perfeitamente com o que a gente conhece do comportamento de parlamentares, políticos e partidos políticos, e, por isso, é perfeitamente crível; aquilo que o Zé Dirceu afirma, ou nega, não é nada crível, dado o que sabemos sobre o seu papel no PT e no governo.

A Heloísa Helena, que conhece bem o partido e o governo, afirmou que no PT tudo é feito coletivamente — ninguém sai por aí tomando decisões e fazendo ações por iniciativa própria, sem tê-las discutidas e aprovadas pelo coletivo, em suas mais altas instâncias (centralismo democrático parece ser o nome disso). Quem conhece a história e a tradição do partido sabe que isso é verdade.

Lulla foi presidente do PT (de honra, num segundo momento), Zé Dirceu foi primeiro secretário executivo e depois presidente do PT, só deixando, os dois, de ser presidente de honra e presidente de jure do partido quando assumiram as funções, respectivamente, de Presidente da República e de Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência, com atribuições plenipotenciárias de Primeiro Ministro. Especialmente depois de uma campanha política dura e excepcionalmente milionária (no caso do PT), em que o partido se endividou, é crível que os dois maiores líderes do PT, o carismático e organizativo, tenham de repente abandonado o partido aos cuidados da besta do Genoíno e seus cúmplices (todos eles escolhidos por Dirceu)??? A afirmação do Jefferson é totalmente crível: o Genoíno funcionava como vice-presidente do partido: o presidente de facto continuava sendo o Zé Dirceu. Lulla e Zé Dirceu ainda precisavam da máquina partidária para reeleger Lulla e consolidar o aparelhamento do Estado para que esse funcionasse, como nos países soviéticos, como um braço do partido.

É isso.

Em Campinas, 3 de agosto de 2005

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