Tolerância

Tolerar é não reprimir. Da forma que eu entendo a coisa, quem tem o dever praticar tolerância é o governo, não pessoas físicas ou jurídicas. E mesmo o governo só tem o dever de praticá-la em relação a algumas questões bem definidas.

No tocante a opiniões, pontos de vista, doutrinas, teorias, etc., o governo tem o dever de tolerar basicamente tudo – e ter mecanismos para que pessoas que se julguem insultadas e caluniadas (i.e., indevidamente acusadas) possam judicialmente responsabilizar quem emitiu a opinião.

No tocante a ações, nem mesmo o governo tem o dever de ser tolerante com tudo. Pelo contrário. Em relação ao cidadão comum, o governo deve tolerar qualquer ação sua que não seja proibida por nenhuma lei. Em relação ao funcionário público, o governo tem o dever de apenas tolerar as ações que a lei considera como de competência daquela categoria de funcionário.

Quando um cidadão faz o que a lei proíbe, o governo tem o dever se não ser tolerante. Quando um funcionário público faz algo que a lei não o autorizou, abusa do poder que lhe foi atribuído, e o governo tem o dever de não ser tolerante.

Eu, como indivíduo, ou eu, como pessoa jurídica, não tenho poder nenhum para reprimir ninguém e nada. Não tenho, portanto, como ser tolerante, no sentido básico do termo que acabei de explicitar.

Tolerar, no entanto, para alguns, é simplesmente não julgar, não criticar, não condenar moralmente — tanto opiniões, pontos de vista, doutrinas, teorias, etc., como ações.

Mas, nesse sentido do termo, temos o dever de ser totalmente intolerantes. Contrário ao que dizem os Evangelhos, temos não só o direito de fazer julgar, criticar, condenar moralmente as idéias e as ações que consideramos erradas, mas também o dever de fazê-lo.

Tolerar as idéias ou ações de uma outra pessoa é uma coisa: é não reprimi-las (tendo o poder de fazê-las – algo que apenas o governo tem). Quando um conjunto de idéias ou ações é corretamente tolerado pelo governo, os cidadãos do país não têm o dever de considerar essas idéias e ações boas, corretas, dignas de disseminação e aceitação. Qualquer cidadão de um país tem não só o direito como o dever de combater idéias e ações que considera perniciosas e incorretas, e de fazer o que está em seu poder, sem violar o direito de terceiros, para que não sejam aceitas por outras pessoas.

Por fim, uma outra observação. Algumas pessoas têm dito que devemos ser tolerantes com o erro mas amar a quem erra… Aqui o equívoco ainda é maior. Não concordo com a tese de que devemos amar os outros, indiscriminadamente. Da mesma forma que temos (no meu entender) o dever de criticar os pontos de vista e as ações dos outros, quando estão erradas, estou convicto de que só devemos amar quem tem valor para nós.

Amar quem não nos vale nada é, na minha opinião, um ato irresponsável.

Em Cortland, 28 de Julho de 2005

Uma resposta

  1. Oi Eduardo,Seria bom que você desse uma olhada no blog do professor Idelber Avelar, ele é professor na Universidade de Tulane, Nova Orleans.Também o próprio Bush Bush admite responsabilidade na lentidão de resposta ao Katrina. Ta na Folha Online de hoje.Abraços

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