Reflexões não tão fúnebres: relações pessoais e a Internet

Ontei à tarde coordenei uma mesa redonda no Congresso do EducaRede, patrocinado pela Fundação Telefónica. Como sou membro do Conselho Consultivo do EducaRede (com Bernardete Gatti e Mônica Alonso), minha tarefa era garantir que os participantes na mesa dessem o melhor de si e que os participantes na audiência fizessem perguntas interessantes. Acho que saiu tudo perfeito.
 
Gostei da apresentação da Profa. María Irma Marabotto, de Buenos Aires. Mas gostei mesmo foi da apresentação do Prof. Roberto Lerner, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, em Lima.
 
O Prof. Lerner falou sobre relações interpessoais no espaço virtual — concentrando-se no amor e no sexo. Foi uma palestra deliciosa e muito instrutiva. Depois de 25 anos envolvido com computadores e a Internet — meu primeiro e-mail foi em 1987, quase 20 anos atrás — achei que dificilmente iria ouvir algo em uma palestra que pudesse ser novidade para mim. Pois bem: estava errado. A palestra do Prof. Lerner foi "mui novidadosa".
 
No que segue, vou resumir algumas idéias dele — e algumas idéias minhas que as idéias dele provocaram… Como diz o meu amigo Rubem Alves, o que vem a seguir é Roberto Lerner digerido por Eduardo Chaves: é o Roberto Lerner que ficou no meu sistema vital…
 
Lerner começou, provocadoramente, citando dois livros: O Amor Interligado por Fios (Wired Love — meu amigo Wilson Azevedo criativamente traduziu esse título por "Amor Fiado"…) e Os Perigos do Amor Interligado por Fios (The Dangers of Wired Love). Para surpresa de todos, esses livros foram escritos no século XIX, quando construíram-se paixões "online", usando o telégrafo como tecnologia e o código Morse como linguagem… Surpreendente. (Ainda o Wilson Azevedo me recomendou o seguinte livro, que trata das implicações sociais da invenção do telégrafo: The Victorian Internet, de Tom Standage [New York: Walker Publishing Company, 1998]).
 
Falou também do amor epistolar, esse bem mais conhecido…  Cartas (incluindo as mensagens de e-mail) são a única maneira de combinar solidões… Lindo, não? Recorremos a cartas (e e-mails) quando nos sentimos sós… E as cartas, combinando solidões, nos faz sentir menos sós.
 
Há muitos tipos de solidão. Às vezes não estamos fisicamente sós — há gente conosco, ou ao nosso redor. Às vezes não estamos nem mesmo sexualmente sós — temos um(a) parceiro(a) sexual. Mas com tudo isso podemos nos sentir emocionalmente sós… Ou intelectualmente sós… Ou metafisicamente abandonados…
 
Antes da Internet éramos relativamente limitados no número de relacionamentos realmente significativos que podíamos ter fora dos relacionamentos estáveis dos quais o casamento é o exemplo mais difundido. Isso era ruim, porque é virtualmente impossível que um só ser humano supra todas as nossas necessidades físicas, sexuais, emocionais, intelectuais, espirituais — e que nós possamos suprir todas essas necessidades emocionais para um outro ser humano. Nos relacionamentos tradicionais, as pessoas, se não queriam viver vidas relativamente incompletas e, por isso, razoavelmente insatisfeitas, acabavam arrumando outros relacionamentos significativos fora do casamento que, por causa da necessidade de contato físico para a viabilização do relacionamento, freqüentmente envolviam sexo — e assim, descambavam para a traição. É notório que muita gente famosa teve mais de um desses relacionamentos significativos à margem de seu relacionamento oficial, chancelado pela burocracia governamental ou pelos preconceitos sociais.
 
Com a Internet tornou-se, em tese, possível ter vários — na verdade, inúmeros — relacionamentos significativos no plano virtual sem que a questão sexual seja necessariamente colocada — embora esses relacionamentos claramente envolvam, de forma muito significativa, as emoções, a sensibilidade, e, quiçá, verdadeiramente o amor (que, a meu ver, é uma mistura de emoção, intelecto, e, para ser completo, sexo) — para não mencionar o intelecto, a espiritualidade. De vez em quando, um desses relacionamentos "platônicos" pode evoluir (ou talvez involuir) e vir a envolver o sexo. Neste caso, o relacionamento claramente se torna traição, pelos padrões vigentes. Mas nos outros casos, em que temos afeição, carinho, admiração intelectual, respeito mútuo, sem que haja sexo, temos uma área cinzenta com a qual ainda não sabemos lidar direito…
 
Nossos parceiros de relacionamento estável (nossos "cônjuges") certamente se sentirão traídos se souberem que outras pessoas representam um relacionamento significativo para nós do ponto de vista afetivo, ainda que não haja sexo envolvido. Isso talvez se dê porque a gente se imagina (erroneamente) capaz de suprir todas as necessidades do parceiro. Por conseguinte, espera e exige do parceiro fidelidade não só no agir mas também no sentir e no pensar. Eventualmente pode ser que esse sentimento de traição seja substituído por algo mais racional. Não sei. Pode ser que o sentimento de posse e propriedade, o ciúme, a inveja do outro que pode oferecer ao parceiro algo que eu não posso — pode ser que todos esses esses sentimentos nos impeçam de ver as coisas mais racional e objetivamente. 
 
Eu, pessoalmente, acho perfeitamente possível amar (num sentido real do termo) mais de uma pessoa ao mesmo tempo — embora provavelmente de formas diferentes. A literatura e o cinema estão recheados de exemplos disso, como eu mesmo já mencionei em mensagens anteriores. Como disse, não tenho dúvida de que, no atual esquema de valores, os cônjuges que descubram que seus parceiros estão envolvidos emocional e intelectualmente com outras pessoas, vão se sentir profundamente traídos — mesmo que não tenha havido sexo, ou mesmo que os envolvidos nem se conheçam face-a-face. (Acho belíssima a contribuição do filme "Cousins" [Creio que o título em Português é "Um Toque de Infidelidade", mas não estou certo], com Isabella Rossellini e Ted Danson. Ali fica claro que, para alguns casais, o envolvimento afetivo do parceiro com outro, ainda que sem sexo, é mais ameaçador do que o sexo sem envolvimento afetivo — o sexo que não significa nada, como alegam os culpados…)
 
Roberto Lerner comparou a Internet com a televisão e explicou porque há "viúvos" e "viúvas" da Internet e não havia "viúvos" e "viúvas" da televisão… Ou porque ninguém nunca acusou o parceiro de traição por ver tv demais — e tenha havido inúmeros casos de divórcio em que a Internet é o pivot do problema. É verdade que, quando se acusa um parceiro de traição virtual, não é porque o parceiro anda navegando por sites pornográficos, que são sites anônimos, impessoais mesmo… A acusação aparece quando, do outro lado da "linha", há uma outra pessoa… É a comunicação (o relacionamento) com uma outra pessoa real, de carne e osso, através da Internet, que consubstancia a acusação de traição — não a virtualidade em si… Na realidade, pouco ou nada há de virtual no sentimento, em si, que é muito real — apesar de ter surgido não na ou pela presença física do outro, mas, sim, em sua presença virtual.
 
A televisão é uma diversão eminentemente pública: muitas pessoas podem assistir a uma mesma tv ao mesmo tempo. Antigamente, quando poucas pessoas tinham televisão, todos vinham assistir à televisão na sala do vizinho que a tinha… Depois, quando todas as casas tinham tv, mas um aparelho só, toda a família ficava na sala reunida vendo tv… Hoje, com o nível de afluência que muitos já alcançam, a tv vai ser tornando pessoal: cada um tem a sua, no seu quarto…
 
Além disso, a tv pode facilmente tornar-se "ruído de fundo" que nos permite, por exemplo, fazer outra coisa (por exemplo, namorar…) enquanto a tv continua ligada. Muitos até mesmo usam a tv como sonífero (porque a tv dificilmente pode ser vista como afrodisíaco…). Quando nossa cabeça está cheia de coisas que nos preocupam, o ruído da tv nos impede de ficar pensando nos problemas e acabamos dormindo, vencendo a insônia que se prenunciava…
 
A Internet, porém, é exclusivista e excludente: só nós podemos usar um determinado equipamento — e, quando estamos ocupados com esse equipamento, excluímos outros tipos de relacionamento pessoal… A Internet, mesmo quando ela envolve duas pessoas se comunicando, por e-mails seriados ou por Messenger, é um meio solitário — embora ela, por conter a possibilidade de um relacionamento pessoal epistolar, permita combinar solidões… O MSN Messenger inventou o "nudge": uma "sacudida" virtual que reclama nossa completa e exclusiva atenção… (Nunca deixe seu cônjuge ficar sabendo que você, ao conversar com ele(a), está também conversando, em regime de multitarefa, com uma outra pessoa… Isso ofende ao extremo.)
 
Enfim. A apresentação do Roberto Lerner foi estimulante. Ele recomendou dois livros: Patricia Wallace, The Psichology of the Internet (livro velho!!! de 1999… Cambridge: Cambridge University Press) e Aaron ben Ze’ev (Filósofo e Reitor da Universidade de Haifa, em Israel), Love Online: Emotions on the Internet (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). Já encomendei os dois na Amazon.
 
Roberto Lerner tem excelente senso de humor. Citou Mae West, a quem se atribui o dito de que sexo é como bridge: só se sai bem quem tem um bom parceiro ou uma excelente mão… No sexo virtual pela Internet, o parceiro pode estar lá — mas a mão terá de estar aqui mesmo…
 
Em Salto, 1 de junho de 2006

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