A Coréia do Sul e o Brasil

Estou no momento em Seul, na Coréia do Sul. 

Não tenho nenhuma dúvida de que o único jeito de o Brasil crescer economicamente e se desenvolver, não apenas econômica mas também social e politicamente – assim vindo a reduzir permanentemente a pobreza — é estando aberto a, e se abrindo para, relações comerciais com o resto do mundo. 

Sou um liberal impenitente. Mas a questão aqui não é apenas de compromisso com o liberalismo econômico. É uma questão empírica que pode ser facilmente verificada.

Tenho visitado recentemente Cingapura, Taiwan (Formosa), Hong Kong, e, agora, Coréia do Sul — países que havia visitado há 21 anos, em 1984 (Cingapura em 1992). É inacreditável a mudança que aconteceu desde minha última visita a esses lugares. Especialmente aqui na Coréia. 

É inacreditável o que vem acontecendo nesses países. Nenhum deles (considerando Hong Kong um país) deve ser denominado “em desenvolvimento”. Eles são países que se desenvolveram nas últimas décadas. 

A Coréia do Sul, em especial, é um país desenvolvido hoje. A mudança é visível nos prédios, nas ruas, nos carros, na cara e na casa das pessoas. A Coréia do Sul passou para o Primeiro Mundo — e o fez abrindo-se para o comércio mundial e investindo em educação. 

Peguemos a indústria automobilística. Aqui não é proibido importar um automóvel (embora haja um imposto de importação — pequeníssimo, comparado com o brasileiro). Mas você olha nas ruas e há quase só Hyundai (que agora é dona da Kia), Daewoo, Ssangyong… Por quê? 

Ouso citar três razões. 

Primeiro, porque, sendo feitos aqui, são um pouco mais baratos (em razão do fato de que não pagam imposto de importação, não tem grande custo de frete, etc.). 

Segundo, porque sabem que o crescimento da indústria nacional (i.e., coreana) ajuda a manter os empregos e o nível de vida deles. 

Mas não é só isso. 

Mas há um terceiro fator importante: orgulho do país. Aqui as pessoas preferem comprar um produto feito aqui a comprar um produto importado. E o fazem, em grande medida, porque têm orgulho do fato de que o país conseguiu se desenvolver e produzir carros (e outros produtos) de qualidade comparável à de outros países já estabelecidos no Primeiro Mundo há tempos.

As companhias coreanas que fabricam automóveis hoje têm sócios estrangeiros, mas têm grande participação coreana. Mas as marcas são coreanas — e o mundo inteiro sabe disso. Essas empresas foram capazes de conquistar o mercado interno e competir no mercado mundial, porque, apesar de haver uma preferência pelo produto nacional, por orgulho e porque o crescimento da indústria nacional ajuda a manter os empregos deles, não há xenofobismo do tipo expresso na última Cúpula das Américas. Aqui na Coréia não há aquele sentimento de inferioridade de que o resto do mundo conspira para perseguir o país.

Peguemos a indústria de eletrônica de consumo… Hoje passei umas seis horas num shopping de eletrônica, chamado Techno-Mart. Tem dez enormes andares, cada andar dedicado a um tipo de produto. Dos dez, dois são dedicados a produtos estrangeiros — mais caros um pouco, por causa de frete e porque impostos de importação não foram (ainda) totalmente eliminados. Dos dez andares, seis são dedicados a produtos coreanos (dois são de restaurantes, loterias, etc.). Têm de tudo, desde produtos da Samsung (líder mundial em chips, notebooks, monitores, inclusive LCD, câmeras, etc.) até televisores, aparelhos de som, geladeiras, freezers, máquinas de lavar e secar — tudo com marcas coreanas.

Por que a Coréia do Sul foi tão bem sucedida em algo que nós, brasileiros, não  conseguimos fazer — apesar de termos um país muito maior, muito mais cheio de recursos? 

Em termos de território, a Coréia é um paisico. Economicamente, está pertinho do gigante Japão, a segunda economia do mundo. Politicamente, está grudada na China, um monstro de país, e é um país dividido, com metade do país ainda sob regime comunista. Culturalmente, fala uma língua que o resto do mundo dificilmente consegue aprender: os coreanos não têm nenhuma dúvida de que são eles que têm de aprender outras línguas, em especial o Inglês.

 (No Techno-Mart fiquei bobo de ver a quantidade de dicionários eletrônicos: os dicionários são um produto que vende adoidado aqui. E não só os eletrônicos: numa livraria que visitei, a seção de livros destinados ao aprendizado de línguas [dicionários, gramáticas, etc.]).

E há as diferenças culturais: a idéia de que cada um é responsável pela sua sorte, que ninguém deve ficar esperando o governo resolver seu problema, que o que cabe a cada um depende do mérito da pessoa e não na sua capacidade de subornar, que as dificuldades que o país ainda tem de enfrentar não são causadas por conspirações do resto do mundo contra a Coréia do Sul e os coreanos… Isso tudo faz uma diferença enorme!

Poderia resumir dizendo que a Coréia do Sul é um país sério. O Brasil, como de Gaulle claramente viu, "n’est pas un pays sérieux". Aí está a diferença.

Há desigualdade social aqui? Claro que há — como há em qualquer país que se desenvolve e enriquece. (A desigualdade acontece porque alguns se tornam ricos, não porque alguns se tornam pobres). Há gente que prefere sair e tentar a sorte em outros países, inclusive no Brasil? Claro que há — isso acontece em qualquer país. Mas, em geral, há confiança no país — e mais do que isso: orgulho do que o país foi capaz de realizar em tão pouco tempo.

A divisa entre a Coréia do Sul e a do Norte impede os do norte de vir para o sul: os do sul não querem ir para o norte… A Coréia do Norte é a Cuba da Ásia. O símbolo do atraso e da pobreza. Mas têm armas nucleares — que os cubanos também teriam se o Kennedy não tivesse sido macho (uma única vez, a despeito da fama construída) em 1960.

A esquerda que domina a política e a cultura de boa parte da América Latina é a grande  que responsável por manter esse continente no atraso. Espero que o presidente Vicente Fox do México e os demais países (fora os do Mercosul e a Venezuela) façam acordos independentemente ou em grupo, com os Estados Unidos e a Nafta. Chávez, e os bobocas do Mercusul precisam de uma lição. O Chile, para mim, é o exemplo de um país com a cabeça no lugar na América do Sul.

Quanto ao Lulla?

Tendo a achar — ou pelo menos a esperar — que a sua eleição terá, no médio e longo prazo, sido boa pro Brasil. Se nos vacinar contra a demagogia do PT e da esquerda, terá sido ótimo. Teremos avançado um pouco, ainda que por linhas tortas.

Em Seul, 6 de novembro de 2005

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