Gestão do conhecimento: o conceito

Vou me arriscar a discutir a questão da conceituação da gestão do conhecimento sem me referir à volumosa literatura que existe sobre esse tema. Vou me valer apenas, de um lado, de minha experiência como filósofo, por muitos anos envolvido com a epistemologia (teoria do conhecimento), e como educador, também por muitos anos envolvido com a questão de como é que as pessoas, que nascem ignorantes e incompetentes, conseguem vir a conhecer, isto é, a se designorantizar, e a se tornar competentes, isto é, a se desincompetentizar, e, de outro lado, de meu conhecimento da literatura filosófica sobre o conhecimento. Também fui, durante vários anos, professor de Gerenciamento de Sistemas de Informação. Colocando tudo isso num liqüidificador, vamos ver no que dá…

Há momentos em que me pergunto se a gestão do conhecimento é algo mais do que o antigo gerenciamento da informação – e se é, no que consiste esse mais?

A impressão que tenho é que a gestão do conhecimento é, sem dúvida, algo mais do que o gerenciamento da informação — e que o mais, no caso, é o gerenciamento de competências. Assim teríamos: gerenciamento da informação + gerenciamento de competências = gestão do conhecimento.

Obviamente haverá quem estranhe essa forma de colocar as coisas. Mas vou tentar justificá-la.

Certamente já houve quem tenha dito que a gestão do conhecimento abrange TANTO o conhecimento (que eu prefiro chamar de informação) que está registrado, digamos, no que Karl Popper chama de "Mundo 3", isto é, em mecanismos diversos de registro e armazenamento da informação, como livros, revistas, jornais, discos magnéticos e ópticos, fitas idem, etc. (o "etc" englobando até mesmo fotografias, quadros, reproduções de imagens, discos e fitas com música e vídeo, paredes de caverna, etc. — isto é, englobando até mesmo a informação audio-visual e não apenas textual), COMO o conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas (naquele que Karl Popper chama de "Mundo 2", o mundo mental; o que ele chama de Mundo 1 é o mundo que resta quando se atribuem a outros mundos as realidades mentais e as informações, e que inclui os mecanismos físicos em que armazenamos as informações).

Mas aqui surge o seguinte problema, que tem várias facetas.

O conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas engloba uma boa parte da informação que também está registrada fora. Digamos que vou escrever um artigo. Penso e decido o que vou dizer. Até que eu coloque o artigo em disco ou papel, ele está só na minha cabeça; depois passa a estar na minha cabeça e no papel ou no disco. Se um dia ou me esquecer totalmente do conteúdo do artigo que escrevi, ou, então, se eu morrer, o artigo continuará a existir em papel ou em disco.

Seria o conhecimento que está em nossa cabeça algo mais do que um conjunto de informações que podem ser, digamos, externalizadas e registradas em algum meio de armazenamento de informações? 

Tradicionalmente, na Epistemologia (Teoria do Conhecimento), se argumentou que conhecimento é informação — mas informação de certo tipo. Na versão mais famosa dessa teoria tradicional, as informações que merecem ser chamadas de conhecimento são aquelas que são verdadeiras, para as quais temos evidência, e nas quais acreditamos. Em suma: conhecimento seria crença verdadeira e evidenciada.

Não vou entrar aqui na discussão dessa proposta de conceituação de conhecimento, que é bastante falha. Basta dizer que pouca gente a aceita, hoje. Popper, talvez, tenha sido o seu coveiro.

Muitas outras propostas têm surgido para substituir essa visão tradicional, preservando a idéia de que conhecimento é informação, mas procurando mostrar que apenas um certo tipo de informação faz jus ao rótulo de conhecimento: por exemplo, conhecimento seria a informação integrada, contextualizada e interpretada, por exemplo. E assim vai.

Numa linha diferente, têm havido aqueles que, sob inspiração de Piaget, têm afirmado que conhecimento não é informação (nem mesmo de um tipo especial), mas que é o nome que damos aos nossos modelos e esquemas ("schemata") mentais, que, em última instância, são aquilo que nos permite lidar com grandes quantidades de informação e fazer sentido delas.

Embora atraente, há algumas dificuldades nessa proposta.

Em primeiro lugar, boa parte de nossos modelos e esquemas mentais normalmente não são conscientes. Se fizermos um esforço de foco e auto-análise, poderemos até adquirir consciência de alguns deles, se bem que dificilmente em toda a sua complexidade. Em segundo lugar, se isso é verdade, seria possível descrever, em parte, esses modelos e esquemas, mas seria muito difícil transmiti-los ou transferi-los a terceiros: cada um, em última instância, teria de desenvolver os seus. Em terceiro lugar, se isso é verdade, é difícil imaginar o que seria a gestão, por terceiros, desse conhecimento que está na cabeça dos outros. Na verdade, é difícil até mesmo imaginar o que seria a gestão dos modelos e esquemas mentais que estão na nossa própria cabeça, em parte porque a tomada de consciência deles, ainda que parcial, exige competências de auto-percepção (auto-conhecimento?), análise e descrição de sistemas complexos que a maior parte dos mortais não desenvolve.

Quaisquer que sejam os modelos e esquemas que desenvolvamos para lidar com a informação e fazer sentido dela, parece inegável que esses modelos e esquemas, mais as informações que possuímos em nossa cabeça, se traduzem nas competências e habilidades que desenvolvemos. Sem, necessariamente, nos comprometer com uma visão behaviorística da mente, mas reconhecemento que num contexto instituticional é o comportamento que mais importa, poderíamos, então, concluir que a chamada gestão do conhecimento é o gerenciamento da informação registrada em diversos meios de armazenamento dentro de uma instituição mais o gerenciamento das competências daqueles que ali militam. Assim evitaríamos as complicações envolvidas em falar no conhecimento que está "dentro da cabeça das pessoas".

Quod erat demonstrandum.

Uma última dificuldade, para concluir.

Quando se trata de instituições educacionais, cuja missão, portanto, mais do que transmitir informações, é ajudar os outros a aprender, e reconhecendo, apud Senge, que aprender é se tornar capaz de fazer o que antes não conseguíamos fazer, ou seja, aprender é desenvolver competências, o gerenciamento das competências talvez seja, nessas instituições, bem mais importante do que o gerenciamento da informação.

Em Taipei (Taiwan), 7 de maio de 2006

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