Uma última crônica antiga (por enquanto): O professor

[A crônica a seguir foi distribuída em minha lista de discussão EduTec.Net no dia 2 de novembro de 1998 — quando ela nascia: tinha apenas 61 membros. Chegou a ter mil membros, quando a fechei, na seqüela dos atentados de 11 de Setembro de 2001]

Uma coisa que tem me preocupado é a seguinte: teria John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, sido um melhor professor se tivesse um computador a ajudá-lo? Sinceramente, acho que não. Procuro rebater o que parece estar por trás dessa pergunta (aqui retoricamente feita por mim mesmo) afirmando que nem todo professor, infelizmente, é um John Keating. Um John Keating não precisa de ajudas (ancillae) — a maioria de nós, sim.

Mas em seguida me lembro de uma linda passagem de John Steinbeck, em que ele observa quão penosa é a vida da escola, quão chatos os professores — e diz: apesar disso, se você teve sorte, você encontrou uns dois ou três professores que fizeram todo o resto valer a pena, pois eles ajudaram a transformar a sua vida, a fazer de você algo que você não teria sido, não fossem eles. Os meus três, disse Steinbeck, tinham algo em comum: uma paixão enorme pelo que faziam, um entusiasmo fabuloso pelas coisas que estudavam e ensinavam, um poder de contagiar e motivar os alunos de modo a fazer com eles também ficassem envolvidos por aquela paixão e por aquele entusiasmo. Eles não nos diziam o que fazer, o que estudar, o que aprender: eles abriam janelas de oportunidades, descortinavam horizontes, impregnavam a gente com uma vontade incrível de aprender, de saber cada vez mais, com um amor pelo conhecimento e pela verdade que tudo o mais parecia perder a importância; eles mostravam que, se a gente quer alcançar conhecimento, quer alcançar a verdade, sobre seja o que o for, a gente tem que batalhar, lutar por ela, porque a verdade não é manifesta.

Quando a gente encontra um mestre assim, a vida nunca mais é a mesma. O que esses mestres nos transmitem não é dado, não é informação. Talvez seja conhecimento, mas é mais do que conhecimento: é o amor ao conhecimento; é mais do que a verdade: é o amor à verdade. Talvez esteja muito próximo de sabedoria.

Um mestre assim, com toda a probabilidade, não precisa de computador.

Michael Hammer disse, no livro que escreveu depois de Reengineering: educação é aquilo que resta depois que nos esquecemos daquilo que nos foi ensinado. Esquecemo-nos rápido do que nos foi ensinado — se o que nos foi ensinado foi apenas conteúdo curricular, matéria, dado, informação pura e simples. Se nós tivemos sorte, o que resta, depois do esquecimento dos conteúdos que nos foram ensinados, é a curiosidade insaciável, é a vontade de aprender sempre, é o desejo de saber cada vez mais, é o inconformismo com respostas prontas, pré-fabricadas, com o dogmatismo daquele que se acha o orgulhoso possuidor da verdade em vez de se achar, como devia, seu humilde perseguidor.

Como é que a gente consegue ser um professor à imagem e semelhança de John Keating, ser um professor como um dos três que mudou a vida de John Steinbeck? Precisa computador pra isso? Mais: se a gente souber ser um John Keating, e tiver acesso a um computador, será que o computador ajuda ou atrapalha?

Tive mais sorte do que Steinbeck, eu tive mais do que três, tive cinco: Maria Elza Fiuza Teles, Ernst Manuel Zink, Dietrich Ritschl, Ford Lewis Battles e William Warren Bartley III. O primeiro desses professores, Dona Elza, só a conheci quando já tinha 18 anos completos. Os outros, só depois. O último, Bill Bartley, foi meu orientador de doutorado: convivi com ele quando tinha 27-28 anos. Apareceram tarde em minha vida, os meus mestres de vida. Mas apareceram, e, em parte, fizeram de mim o que sou hoje. A outra parte, quero crer, fui eu que contribuí. Meu terreno estava fértil e a época do plantio era certa.

Além desses cinco, tive mais três, virtuais, que me ensinaram por livros: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand. Sou um indivíduo realmente de sorte.

Sem falsa modéstia, grandes questões são estas que levanto. Como todo bom filósofo, sou melhor para levantar questões do que para respondê-las. Sou melhor como agente provocador do que como quem aplaca provocações.

Assim, estou tentando provocar um pouco, para fazer com que os 61 membros do grupo, que por enquanto são apenas “lukers”  (espreitadores, “moiteiros”), saiam da toca e se manifestem.

Boa noite a todos.

Eduardo Chaves

Transcrita em Salto, 30 de agosto de 2006, quase oito anos depois de escrita

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