Uma modesta contribuição à estética da aparência feminina

No meu aniversário, no último dia 7, venceu minha carteira de motorista. Hoje fui renová-la. Antes, tive de fazer a bendita prova sobre Direção Defensiva e Primeiros Socorros. Para me preparar, li uns livretinhos publicados na Internet pelo DENATRAN. Quando me julguei suficientemente preparado, fui até o centro da cidade, a uma Auto-Escola que aplica a prova, quase em frente ao Correio. Lugar triste. Mas passei. Acho que até com algum louvor: acertei 28 de 30 perguntas. Depois fui ao Poupa Tempo, do outro lado da rua (ao lado do Correio) e em menos de 45 minutosa tirei a nova Carteira. Tudo bem – exceto pelo médico, que devia ter levantado com o pé esquerdo. Mas não é sobre isso que quero falar.

Enquanto estava na Auto-Escolaa, esperando a minha vez de fazer a prova mencionada atrás, feita no computador, tudo como manda o figurino, fiquei, durante uma meia hora, na falta de algo melhor, observando as três moças que atendiam os clientes. E por falar em figurino, as três pareciam usar roupas desenhadas pelo mesmo coutourier. Mini blusa justa, terminando mais ou menos 10 ou 12 cm acima do umbigo, e calças jeans no estilo que antigamente a gente chamava de Saint Tropez: cintura bem baixa, quase uns outros 10 ou 12 cm agora abaixo do umbigo. À mostra, cerca de 20 a 24 cm de barriga.

Quero deixar registrado que nada tenho contra a exibição da barriga por parte dos mulheres, nem mesmo no ambiente de trabalho. Em muitos casos até gosto de olhar disfarçadamente. Mas há um problema: não é toda barriga que se exibe bem… Vocês me entendem.

No caso em pauta, as três tinham uma barriguinha assim, como direi, um pouco protuberante. Não muito, mas o suficiente. Porque a cintura da calça era muito baixa, elas tinham de usar uma calça muito apertada – minha avaliação é que a calça era uns dois tamanhos menores do que deveria ser – e, como se não bastasse isso, elas apertavam o cinto bastante. Resultado, de fazer doer a vista: cerca de 5 cm de barriga sobrando na frente, cerca de 5 cm de anca sobrando de cada lado, e um pouco de carne sobrando até atrás. Uma cena de fazer chorar. Triste, triste, triste.

Mas não era tudo. A agressão à estética não parava aí. O sutiã delas também era um ou dois números menor do que deveria ser. Resultado: na frente, os peitos parece que estavam sendo empurrados para cima e, não tendo muito pra onde ir, tentavam sair pra fora; atrás, o sutiã dava a impressão de estar quase partindo as costas delas ao meio, na horizontal. Tenho a impressão de que a marca no corpo nunca mais vai sair. 

Fiquei pensando com os meus botões: será que elas não têm espelho? Como tenho três filhas, todas acima de 30, conheço todos os truques de subir em cima da privada e do bidê para se ver no espelho da pia de corpo todo, as entortadas de corpo que elas dão, tais quais contorcionistas, para se ver por trás, etc. Será que as meninas da Auto-Escola não conhecem essas técnicas? Será que uma, ao ver a outra, não pensa: será que eu também tenho uma aparência assim??? Pensei em propor a elas tirar fotos por trás… na esperança, talvez vã, de que, vendo-se do ângulo que eu as via, elas pudessem cuidar melhor da aparência, não agredir tanto a estética…

O problema é que a doença parece ser contagiosa. Hoje é raro ver uma mulher com menos de 40, usando calça comprida, bermuda, ou shorts, ou até mesmo saia, que não mostre a barriga – ainda que, em posição normal, seja apenas uma tirinha. Quando elas levantam os braços, porém, ou fazem algum movimento mais exagerado, a tirinha deixa de ser uma tirinha… De novo: nada contra, quando a barriguinha é bonita… E bonita não quer dizer sarada. Não gosto de mulher com barriga de tanquinho. Um pouquinho de gordura é bonito – constatei isso numa festa árabe (com dança do ventre e tudo) do Rotary Club de Santa Bárbara d’Oeste – Progresso a a que fui há duas semanas. Mas tudo tem seu ponto de equilíbrio. O que preocupa é que há barriguinhas que fazem a gente sentir um profundo sentimento de comiseração. E isso não é bom, especialmente se as próprias acham que estão abafando…

Quando as mulheres usavam calças compridas, bermudas, shorts, saias que chegavam até a cintura, e blusas que cobriam a cintura, o problema era disfarçado ou escondido. A calça, a bermuda, o short, ou a saia, chegando até a cintura, ficava firme no lugar – dispensando até mesmo o cinto – mesmo que fosse da numeração certa. Não havia necessidade de usar numeração menor, ou modelo “petite”… A estética agradecia.

Agora, do jeito que as coisas estão, a estética está sendo agredida pela moda – ou, melhor dizendo, por aquelas mulheres que não percebem que não têm condições (leia-se: corpo) para se vestir segundo dita a moda.

Preciso dar uns esclarecimentos, para não ser linchado virtualmente…

Primeiro. Sendo liberal, como sou, acho que todo mundo tem direito de se vestir como quer – mesmo que fique ridículo. Não se trata, pois, de sugerir ao governo medidas coercitivas que ditem como as mulheres devem se vestir, ou coisas desse tipo. Estética pública não funciona. Reconheço o direito ao ridículo. Mas as mulheres poderiam ter um pouco mais de respeito para com a estética… E, se não possuem, quem sabe a gente poderia começar oferecendo uns cursos de Educação Estética, começando na quinta série.

Segundo. Não tenho nada, absolutamente, nada contra as mais cheinhas – desde que se vistam com sensatez. Uma fofinha bem vestida é muito bom de contemplar. O problema não é a gordurinha, em si. Ele está na relação entre o corpo e a moda. Até mulher relativamente magra, se vestir roupa dois números menor, que aperta a barriga e as ancas, para não escorregar, fica parecendo uma salsichinha amarrada no meio – salsicha mais fininha, mas salsicha, nonetheless.

É isso. Pus pra fora a minha preocupação… Preocupação filosófica. Os antigos diziam que os três problemas centrais da filosofia eram o verum, o bonum e o bellum. É por isso que estou escrevendo: não basta combater a falsidade, a mentira, o erro, nem a maldade e a perversão moral – é preciso combater também o inestético.

Em Campinas, 15 de setembro de 2006

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