Ainda a inclusão / exclusão digital

Venho defendendo, há uns três anos, a tese de que a inclusão digital envolve três condições ou elementos básicos:

a) Acesso à tecnologia digital;

b) Capacidade técnica no manejo da tecnologia digital;

c) Capacidade de empregar a tecnologia digital na melhoria da qualidade de vida, na promoção dos interesses próprios.

Comecei a defender essa tese em 2003, quando li um interessante livro sobre a inclusão digital, em preparação para a participação em um seminário de uma semana sobre o assunto promovido pelo Salzburg Seminars, em Salzburg, Áustria, ao qual a Microsoft me enviou (junto com Michael Furdyk). [Depois coloco o nome do livro aqui].

Na defesa de minha tese, venho usando, nos últimos tempos, uma analogia simples, mas, acredito, instrutiva. Um trator claramente é tecnologia (não digital, evidentemente). Muitos são excluídos dessa tecnologia. Para sair do que poderíamos chamar de exclusão tratorial, não basta ter acesso a um trator, nem mesmo saber guiá-lo e operá-lo: é preciso enfrentar problemas para os quais o trator é uma solução e, evidentemente, saber empregar o trator na solução desses problemas.

Eu próprio sou um excluído tratorial — principalmente pela primeira razão. Tenho um pequeno sítio, e um trator cairia bastante bem ali. Tenho cerca de 10 mil metros de gramado, tenho pomar, tenho horta, tenho local onde plantamos milho, tenho pastos, tenho um pequeno lago, tenho um local aplainado onde quero fazer um campo de futebol e uma quadra, etc. Logo, tenho uma série de problemas para os quais um trator seria uma excelente solução. Não sei, eu mesmo, operar um trator, para cortar grama, fazer valetas, construir diques, arar a terra, mas não teria dificuldade em aprender — embora prefira pagar alguém pra fazer isso pra mim. Só não sou incluído tratorialmente porque nunca me decidi a investir o dinheiro na compra de um trator. De vez em quando, quando tenho necessidade, alugo um, que já vem com o operador. Assim, tenho o benefício da aplicação, sem ter o acesso e o manejo técnico, e sem precisar investir meu capital na aquisição de um.

Tenho quase certeza de que o empecilho maior para a inclusão digital entre as classes mais pobres no Brasil está, não nos dois primeiros componentes, mas no terceiro.

Apesar de muitos proponentes da inclusão digital concentrarem suas baterias na questão do acesso, mencionando o preço dos computadores, e apesar de o Nicholas Negroponte estar querendo imortalizar seu nome como o grande santo dessa causa, provendo computadores de 100 dólares (parece que vai ser bem mais do que isso nos primeiros anos), o acesso ao equipamento, tenho plena certeza, não será o grande gargalo da questão em, no máximo, cinco anos aqui no Brasil.

O preço dos computadores do tipo desktop vem caindo vertiginosamente, até mesmo aqui no Brasil (lá fora, nem se fala). Hipermercados como o Extra e o Carrefour, para não falar nas Casas Bahia, no Magazine Luiza e nas Lojas Cem, já vendem desktops em dez prestações sem juros, ou em mais prestações com juros, mas fixas (já vi desktops anunciados por 24 de 67,00). O preço dos notebooks (comumente chamados de laptops) também vem caindo. Vi na FNAC, esta semana, notebooks bastante bons, novos, por 2.400,00 — em até 6 prestações fixas.

Assim, estou absolutamente convencido de que o acesso ao equipamento não será, como pretende o Negroponte, e o governo brasileiro parece acreditar, o grande gargalo.

Mais sério do que o problema do acesso ao equipamento é o acesso à Internet. Esse problema talvez seja mais difícil de resolver a curto prazo pelas forças de mercado (se bem que, acredito, se o mercado das telecomunicações fosse realmente livre no Brasil, sem as Anatéis, os Ministérios das Comunicações, os FUSTS da vida, também esse problema estaria próximo de uma solução). Vejam os números nas matérias abaixo, retiradas da Folha de S. Paulo de hoje: apenas 12,5% das residências brasileiras possuem telefone fixo (isso claramente ainda uma decorrência do monopólio do antigo sistema Telebrás, que o diabo o tenha). Sem telefone fixo, a banda larga fica mais complicada. Imagino que o percentual de famílias que possuem tv a cabo não seja maior. Há o wireless (quem sabe o Wimax), a tv digital, etc., mas é difícil imaginar como essas coisas vão evoluir — especialmente porque o governo insiste em continuar a meter o bedelho na questão…

O problema do manejo técnico também não vai ser um grande problema. Crianças em geral aprendem a manejar esse tipo de tecnologia sem necessidade de treinamento formal. Os adultos atuais, excluídos, vão eventualmente sair de cena (como os atuais adultos incluídos, também). Em pouco tempo, o cenário estará ocupado por nativos digitais, não por imigrantes digitais como nós. E a tecnologia vai ficar cada vez mais fácil de manejar.

Resta, portanto, o terceiro componente: fazer o quê com essa tecnologia??? Sabemos o que fazer com telefones: falar com os outros. Por isso, compramos um, assim que podemos. Mas fazer o que com o computador???

Conheço várias pessoas pobres que compraram um computador, até com certo sacrifício, antes de eles ficarem tão baratos quanto são hoje, fizeram alguns cursinhos em escolas de informática, e, depois, venderam o computador — não porque estivessem especialmente necessitados de dinheiro, mas porque, não tendo filhos ou crianças em casa, não sabiam muito o que fazer com ele…

As classes média e alta em geral sabem o que fazer com o computador — é por isso que se incluem (desexcluem) mais rapidamente. E sabem, não porque têm mais dinheiro, mas porque têm melhor educação.

As crianças das classes pobres também em geral sabem o que fazer com um computador ligado à Internet: jogar joguinho, bater papo em chats, procurar uma ou outra coisa de interesse na web. Mas a coisa em geral pára aí. Para seus pais, o investimento ainda é grande, se se trata de dar um brinquedo aos filhos. E o custo de possuir um computador não é só o da aquisição: o custo da eletricidade e do acesso à Internet se tornam maiores no longo prazo.

Ainda temos sérios problemas de acesso — ninguém se engane com isso. E de capacitação técnica. Mas, a meu ver, o problema maior, de fundo, é o problema educacional. É a educação que nos ajuda a encontrar aplicações para a tecnologia digital, que permite com que essa tecnologia represente um benefício para nossa qualidade de vida. É só com a educação que encontramos formas de fazer com que a tecnologia funcione em nosso benefício, resolvendo nossos problemas, promovendo nossos interesses…

Em Campinas, 16 de setembro de 2006

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Folha de S. Paulo
16 de setembro de 2006

Mais de 120 milhões não utilizam internet

Quase 80% da população com mais de dez anos não acessou a rede de computadores nos 3 meses anteriores à pesquisa do IBGE

Nos domicílios com renda mensal maior, 70% usam a web; nos mais pobres, porém, percentual cai para apenas 3% dos brasileiros

DA SUCURSAL DO RIO

Em plena era digital, um contigente de mais de 120 milhões de brasileiros não usa a internet, a rede mundial de computadores. Eles representam 79% da população com mais de dez anos de idade que, de acordo com o IBGE, não acessou nenhuma vez à rede nos últimos três meses.

Como era de esperar em um país com altos índices de desigualdade, o acesso varia significativamente de acordo com renda ou escolaridade. No maior extremo de renda pesquisado (domicílios com renda mensal per capita superior a cinco salários mínimos), 69,5% dos brasileiros usavam. No extremo oposto (renda per capita inferior a 1/4 do salário mínimo), esse mesmo percentual era de apenas 3%.

O acesso cresce de acordo com a renda, mas mesmo em faixas de renda intermediárias, como na de dois a três salários mínimos per capita, ele ainda é restrito a uma minoria (42%) de brasileiros.

O mesmo fenômeno acontece quando é analisado o acesso de acordo com o grau de escolaridade. No menor extremo de instrução (menos de quatro anos de estudo), somente 2,5% acessavam a internet. No extremo oposto (os que completaram ao menos o ensino médio), essa proporção chega a 76,2%.

Esta é a primeira vez em que o instituto analisa o acesso à internet pelas pessoas, e não apenas sua presença nos domicílios. A situação de acesso nos domicílios vem aumentando constantemente desde 2001, mas continua em patamares muito baixos. No início da década, 8,6% de residências possuíam computadores conectados. Em 2005, esse percentual chegou a 13,9%.

Analisando por unidade da Federação, a que apresentava maior percentual de sua população com acesso regular à internet era o Distrito Federal, com 41,2% usando a rede. O menor percentual foi encontrado em Alagoas (7,2%) e no Maranhão (7,1%).

Além de restrito ainda a uma minoria de maior poder aquisitivo, o acesso à internet varia muito também de acordo com a idade. Quanto mais jovem, maior a probabilidade de um brasileiro ter feito uso da rede nos últimos três meses de casa, do trabalho, da escola ou de qualquer outro ponto.

Os maiores percentuais de acesso foram encontrados na faixa etária de 15 a 17 anos, com 33,9% da população usando a rede. De 18 a 24 anos, a proporção continua acima de 30%, mas passa a cair gradualmente de acordo com a idade, chegando a apenas 3,3% da população acima de 60 anos.

Apartheid

Para Rodrigo Baggio, diretor-executivo do Comitê pela Democratização da Informática -organização não-governamental que mantém 891 escolas de informática e cidadania no Brasil e em nove países-, os dados do IBGE revelam um apartheid digital.

"Há uma legião de excluídos à margem da sociedade do conhecimento. É um cenário extremamente preocupante, principalmente quando comparamos nossa situação com a de outros países, já que hoje o uso da tecnologia é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento social e econômico de uma sociedade", diz Baggio.

Para ele, para reverter essa situação, é preciso investir na melhoria de infra-estrutura de acesso à internet em municípios pequenos, na capacitação de pessoas de baixa renda em informática e cidadania e na disseminação de pontos públicos de acesso.

Investimentos

Para o presidente da Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Acesso), Antônio Tavares, faltam investimentos em educação, não só para crianças como também para adultos para acelerar o ritmo de expansão da internet no país.

"A internet precisa crescer de forma útil e não apenas como entretenimento, como se vê muitas vezes nas classes A e B, e, para isso, é preciso investir na inclusão digital."

Foco

Nas classes média e alta, uso intensivo da web pelos jovens preocupa os pais DA SUCURSAL DO RIO

O uso intensivo da internet por parte dos jovens faz parte do perfil das famílias de classe média ou alta no Brasil. A analista de sistema Teresa Puzzi Nicolau, 46, tenta sempre conversar com os dois filhos sobre um limite para o uso da rede, mas diz que a tarefa não é fácil.

"Me preocupa muito o tempo que meus filhos ficam na internet. Há dois anos, o acesso era limitado apenas aos finais de semana ou à noite, mas hoje tento estabelecer o tempo máximo de duas horas por dia, mesmo sabendo que isso não está sendo seguido. Já pensei até em bloquear o acesso deles no período em que trabalho, mas ponderei que isso traria problemas em relação a pesquisas e deveres que eles têm que fazer para a escola."

A filha de Teresa, Andréa Nicolau, 14, admite que fica bem mais do que duas horas por dia na Internet. Segundo seus cálculos, são mais ou menos sete horas por dia, principalmente usando o Messenger e o Orkut. O mesmo dilema sobre o tempo de uso da internet pelos jovens foi enfrentado pelo comerciante Sérgio Pinho, 57. Seu filho, Maurício Pinho, 16, usa a rede mundial de computadores somente de sexta a domingo. "Estabeleci isso porque, se ele ficar só na frente do computador, acaba não fazendo mais nada no dia. Quero que ele faça outras coisas no dia dele", afirma o pai.

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Além de inacessível, internet não desperta interesse de mais pobres

DA REPORTAGEM LOCAL

A disseminação de LAN houses e a instalação de computadores com acesso à internet em escolas, centros culturais e associações vêm propiciando a mais e mais paulistanos o usa da rede. Mas isso, não necessariamente, tem despertado o interesse dos cidadãos.

A frentista Sueli Ferreira, 30, não tem acesso à internet e não sente falta dela. "Nunca fiz curso, não sei usar, não tenho computador", diz. Mas, conta, se tivesse necessidade de usar a rede mundial de computadores, poderia ir a uma LAN ou a um centro cultural.

O vendedor Nelson Gomes jamais usou a internet. Se quisesse, diz, poderia acessar a rede na casa de amigos. "Mas nunca me interessei." Preocupado com a educação dos filhos, de dois e sete anos, o vendedor pensa atualmente em adquirir um computador e tomar contato com a rede, mas ainda sem grande empolgação.

Ricardo Augusto, 30, funcionário de um lava-rápido na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte de SP), não tem computador e nunca esteve em uma LAN house. "Não tenho o que procurar", diz ao questionado sobre sua relação com o mundo virtual. Outro "desinteressado" no assunto é o aluno do terceiro ano do ensino secundário Gabriel Paixão, 17. "Não sou muito chegado [à internet]." Gabriel vendeu recentemente o seu computador.

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Celular está em 24% das casas; fixo, só em 13%

DA SUCURSAL DO RIO

Pela primeira vez desde que o IBGE passou a pesquisar na Pnad a presença de celulares, o número de domicílios que utilizam apenas esses aparelhos superou aqueles onde havia somente telefone fixo.

Essa tendência já era prevista, pois o percentual de domicílios somente com celular, hoje em 23,6%, vem aumentando ano a ano desde 2001. Enquanto isso, a proporção de residências apenas com telefone fixo, hoje em 12,5%, apresentava tendência inversa.

O IBGE pesquisou também pela primeira vez o acesso dos brasileiros a celulares para uso pessoal e não apenas a presença desse aparelho nos domicílios. Em 2005, 36,7% dos brasileiros com mais de dez anos de idade usavam celular. Esse uso pessoal, porém, varia muito de acordo com a renda.

Em domicílios com renda média mensal per capita superior a cinco salários mínimos (R$ 1.750), o acesso a celular para uso pessoal é quase universalizado, já que 82,1% dos brasileiros com mais de dez anos de idade nessas famílias tinham seu próprio aparelho. No outro extremo (domicílios com menos de um quarto do salário mínimo per capita), esse percentual era só de 9,2%.

Esse dado pode indicar que, em muitas famílias mais pobres, há um único celular para ser dividido entre todos os moradores. Nas famílias mais ricas, além do telefone fixo, há praticamente um celular para cada morador.

Segundo o presidente executivo da Acel (Associação Nacional das Operadoras de Celulares), Ércio Zilli, a troca do fixo por celular é uma tendência mundial. "A comunicação de voz está migrando para a telefonia móvel. A aplicação fixa residencial vai acabar evoluindo para outro tipo de comunicação, como a banda larga."

Segundo ele, existem hoje no país 93 milhões de linhas habilitadas, o equivalente a uma linha para cada dois brasileiros. Desse total, 80% são telefones pré-pagos, os mais populares entre as pessoas de renda mais baixa.

Para o executivo, o custo é um dos fatores associados à troca de linhas fixas por móveis. "Mesmo depois que acaba o prazo do cartão pré-pago, a pessoa não perde a possibilidade de ser localizada, embora não consiga mais fazer chamadas", disse.

A esteticista Débora Canto, 39, é um exemplo dessa tendência. Até 2004, ela tinha um telefone fixo em casa. Desistiu do aparelho quando começou a se estressar com a empresa de telefonia fixa ao tentar negociar uma dívida. "Eles não ofereciam facilidade nenhuma. Também não faziam nenhuma promoção ou desconto especial para quem, como eu, usa muito o telefone para falar com outros Estados."

Ela diz que não se arrependeu de ter trocado o fixo da casa por três celulares pré-pagos usados hoje por ela e pelos dois filhos. "Aproveito todas as promoções da operadora. Meu filho usa o celular da mesma operadora e posso falar de graça com ele."  

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