Arremetidas

O último acidente da TAM — infelizmente eles têm se tornado tão freqüentes que a gente precisa se referir a eles qualificando-os — trouxe à baila a discussão de alguns termos da aviação que poucos de nós conhecíamos: primeiro foi “grooving”, depois reverso, manete, “idle”, etc. Entre os termos discutidos estava o verbo arremeter. Houve um momento, logo depois do acidente, em que se acreditou que os pilotos do avião que explodiu tentaram arremeter — isto é, inverter o processo de aterrisagem e levantar vôo novamente. Isso pode se dar antes ou depois de o avião tocar o solo e, pelo que diziam os especialistas em aviação, é tão freqüente que um pouso nada mais é do que uma arremetida que não aconteceu… Ou seja, pousar é como se fosse fracassar no arremeter…

Que seja. Mas quando acontece, assusta!

Aconteceu comigo hoje (ou ontem — dia 23/8. Quando você voa e passa a “International Date Line”, fica complicado saber que dia é). Esqueci de dizer que estou escrevendo em vôo, o vôo UA 837, da United, de San Francisco para Töquio (Narita). Saí do Brasil ontem (dia 22/8), no vôo UA 842, da mesma United, para San Francisco, via Chicago (O’Hare). Chegamos a Chicago na hora, sem problemas e saímos de Chicago para San Francisco também sem problemas. Quando estávamos aterrisando em San Francisco — já estávamos baixinhos, baixinhos, quase esperando o toque das rodas do avião na pista — passa um outro avião na nossa frente (eu estava olhando a linda paisagem da baía de San Francisco e o vi sem acreditar no que estava vendo), assim como um carro passa na nossa frente num cruzamento em T. Carros só andam no nível do chão, mas aviões podem andar mais alto ou mais baixo. Esse, que passou na nossa frente estava no mesmo nível que o nosso, só que estava levantando vôo. É claro que levei aquele susto, mas o que me assustou ainda mais foi que nosso piloto também parece ter se assustado porque… é issso mesmo: arremeteu!!!

Todo mundo dentro do avião olhou para o companheiro do lado e disse (ainda que não verbalizado): “Epa!”. Como já voávamos muito baixo e o nosso avião estava como que planando, o processo foi fácil de sentir: o bico do avião levantou, como num “take-off”, e os motores foram acelerados, como acontece quando a gente subitamente passa a marcha do carrro de quinta para quarta e depois para terceira para fazer uma ultrapassagem crucial numa subida. A gente sentiu a inversão da direção (de para baixo para para cima) no próprio corpo e ouviu a aceleração das turbinas — e, pela janelinha, via a bela paisagem da baía ir ficando lá embaixo e as primeiras nuvens aparecer… Foi um negócio rápido. Em poucos segundos estávamos novamente acima das núvens, vendo, não mais a baía, mas as montanhas.

Depois de já estarmos bem no alto novamente, o comandante deu um aviso curto, que não dizia mais do que o necessário — e o óbvio (pelo menos para quem viu o outro avião passar na nossa frente): “Como vocês devem ter percebido, tivemos de interromper momentaneamente o procedimento de descida por causa de tráfego aéreo. Devemos aterrisar dentro de cerca de dez minutos”. Aterrisamos, desta vez sem susto. Ao sentir o avião tocar na pista de levinho, senti vontade de bater palmas — e me surpreendi quando o homem no assento ao lado, que não havia aberto a boca durante as quatro horas e quinze minutos de vôo, disse: “Dá até vontade de bater palmas, não dá?” (“it feels like clapping, doesn’t it?”)

Para mim, a observação do colega de vôo é prova insofismável de que a natureza humana de fato existe. Temos reações muito semelhantes diante das coisas. É isso que faz a literatura, o teatro, o cinema possível. O autor do livro ou o diretor da peça ou do filme sabem quando vamos rir, quando vamos ficar penalizados, quando vamos chorar… O autor de um quadro ou de uma escultura sabe quando vamos achar a obra linda ou quando vamos ficar chocados diante dela. (Não vou à Bienal, como regra, para não ficar chocado diante de boa parte do que lá se exibe).

Mas voltemos ao nosso vôo UA 842. Com os quase 15 minutos adicionais, requeridos para o nosso arremetimento (é esse o substantivo?) e novo procedimento de descida, tive apenas meia hora para trocar de avião em San Francisco — com mudança de terminal e tudo. Tive de andar rápido, por uns 500 m, pegar um ônibus na pista, e ser levado para o outro terminal, novo, o Terminal Internacional. Chegamos ao portão de embarque, os que estávamos fazendo a conexão, poucos minutos antes de fecharem as portas do avião. Por pouco. Entrei no avião, meio esbaforido. O esforço para não perder a conexão, porém, me fez me esquecer um pouco do susto do arremetimento. Recebi uma taça de champanhe gelado da aeromoça e me recompus.

Por falar em aeromoça, na parte do vôo UA 842 entre São Paulo e Chicago sentei-me ao lado de duas pessoas interessantes (epesar de ser uma fileira de apenas dois assentos e eu ocupar um…). Explico. Raramente converso muito com meus companheiros de vôo: prefiro ler, assistir aos filmes, ou simplesmente dormir. Mas neste caso, conversei bastante. Quando já estava achando que o assento do lado iria ficar vazio, apareceu seu ocupante, o lado masculino de um casal cuja mulher teve de se assentar na fileira de trás, na janelinha. Antes mesmo de levantarmos vôo o cidadão já havia conseguido que o rapaz que estava ao lado da mulher dele trocasse de assento com ele — e foi assim que ganhei meu primeiro real companheiro de assento no vôo, um rapaz de mais ou menos trinta e cinco / quarenta anos, cordial, sorridente. Cumprimentamo-nos e começamos a conversar as frivolidades de costume, em Inglês. Perguntei a ele se era americano (só ousei perguntar porque ele me pareceu extremamente jovial — normalmente nunca faço uma pergunta direta dessas a alguém que presumo ser americano), e ele me disse que não: havia nascido no Brasil, de pais americanos, missionários, tinha cidadania brasileira, mas também passaporte americano. Disse-lhe que então podíamos falar em Português, mesmo, e foi isso que fizemos dali para a frente. Ele me disse seu nome: James David Meadows — explicando que já foi chamado de tudo: Jeimes, James, Deivid, Daví, e até mesmo Meadows. Eu disse o meu nome — e comentei que meu pai havia sido pastor por cerca de cinqüenta anos. Isso nos deu uma certa cumplicidade, imagino, porque a conversa decolou a partir dali.

Ele me explicou que, assim que jantássemos, iria trocar de lugar com a mulher, funcionária da United (área de vendas, grande clientes, em São Paulo), que estava na Classe Econômica, com o filho de dois anos e meio, por causa de uma política da companhia. Havendo lugar, os funcionários viajam em Executiva ou até mesmo em Primeira, mas não podem fazê-lo com crianças pequenas… Pelo que me explicou, deve ser porque crianças pequenas podem incomodar os outros passageiros, e se eles descobrirem que a criança pequena está ali voando de graça, porque é filha de funcionários, podem se indispor com a empresa… (Cuidados com a imagem. É bom que isso aconteça. As companhias brasileiras podiam aprender alguma coisa com essas regras pouco conhecidas do público em geral). Mas, enfim. A mulher dele estava ocupando o lugar dele, na Econômica, ao lado do menino, e, como estava grávida (para Novembro), iria trocar de lugar com ele depois do jantar, para que ela pudesse dormir um pouco de forma mais confortável na Executiva.

O jantar demorou um pouco, foi precedido de drinks e canapés (ele, notei, só bebeu suco de maçã, como bom crente e filho de missionário). Conversamos bastante sobre o Brasil, os Estados Unidos, o Lulla, o Bush… Sintonizamo-nos bem, politicamente. Ele é um ser meio hermafrodita, mais ainda do que eu, sendo capaz de genuinamente sentir como brasileiro e como americano. Ele tem os pais americanos, eu tenho a filha e as netas, ambos nascemos no Brasil mas moramos também lá e estamos constantemente lá, ambos nos mantemos informado sobre os eventos dos dois países, ambos temos enorme simpatia para com o país, etc.

Depois do jantar, dormi logo e, assim, não vi a “troca da guarda”. Acordei durante a noite e vi que a companhia do assento ao lado havia mudado. Durante os noventa minutos finais do vôo, quando reacendem as luzes e servem café da manhã, conversei bastante com a simpática mulher dele, Juciária Tavares Meadows. Perguntei sobre o Nicholas (nome do menino), se ele dormia bem no avião e ela me disse que sim — só ficou frustado porque não havia arrumado assento numa janelinha… Mas disse-me que se alguém chamá-lo para uma janelinha, vai sem pestanejar. Fiquei sabendo que o novo nenê é uma menina, mas não me lembro de ela ter me dito se já haviam escolhido o nome da menina. Conversamos um bocado sobre a United. Ela começou a trabalhar na companhia quando esta chegou ao Brasil, em 1992, na seqüência do fechamento da PanAm: a United comprou suas rotas para a América Latina e para a Ásia. Eu comecei a voar sistematicamente pela United na mesma época, porque era “Frequent Flyer” da PanAm e herdei o status de Premier Executive.

Enfim, foi a única vez que tive dois companheiros de assento num mesmo vôo e uma das raras vezes que conversei bastante com os companheiros de assento. (Uma outra vez que conversei bastante foi quando tive a sorte de sentar-me ao lado do Vice-Presidente Industrial da General Motors do Brasil, José Eugênio Pinheiro, num vôo, também da United, de Chicago a São Paulo. Gostei muito do Daví e da Juciária — que moram em Guarulhos (ele tem uma companhia que aluga máquinas de refrigerantes e é ativo na Igreja de Cristo / Church of Christ).

Mas introduzi esse assunto, lá atrás, dizendo “por falar em aeromoça…” e acabei não falando delas. Quando conversávamos, vivamente, o Davi e eu, enquanto a aeromoça explicavam os procedimentos a seguir no caso de acidentes, levamos um olhar feio da que estava ao nosso lado — provavelmente porque não estávamos prestando atenção (algum viajando que não esteja em sua primeira viagem de avião presta?). Comentei com ele que a aeromoça havia ficado brava e, com isso, iniciamos uma conversa interessante sobre aeromoças — que, no caso da United, são invariavelmente “aerovelhas”, como ele bem observou… Velhas e, infelizmente, muito feias. Provavelmente por causa da cultura e da legislação americana, que pune severamente uma empresa que deixar de contratar alguém por causa da aparência (“lookismo” – aparencismo). O exigência de que seja “moça jovem e de boa aparência” é estritamente verboten nos Estados Unidos como requisito para emprego. Comentamos como as aeromoças brasileiras são em geral jovens e bonitas — e como as asiáticas em geral são lindas, nos aviões das companhias asiáticas e mesmo nos vôos da United para a Ásia em que, fatalmente, há várias aeromoças (moças, mesmo) asiáticas. Mas a companhia e o aeroporto em que essa característica mais me chamou a atenção foi a Thai Air e o aeroporto de Bangkok (especialmente na sala VIP da Thai Air). Os aviões da Thai Air parecem ter participantes em um concurso de beleza como comissárias de bordo (vou ser politicamente correto aqui e deixar de falar de aeromoças e aerovelhas). A Sala VIP da Thai Air (Star Alliance) no aeroporto de Bangkok, além de ser a maior que eu já vi em toda a minha vida, é a que tem as mais lindas e gentis atendentes ded todas as salas VIP em que já tive a oportunidade de ficar. No caso de companhias brasileiras, ou mesmo do pessoal de aeroporto da United, as moças são bonitas, mas não são de parar o tráfego, como as asiáticas da Thai Air.

Conversa de avião de vez em quando rende, como se vê. Comecei falando de um susto e agora estou aqui comendo uns chocolatinhos Ghiraldelli (marca de San Francisco) que a comissária de bordo gentilmente me trouxe, com um copo de água gelada. Minha colega de assento neste vôo é asiática e, pelo que dá pra notar, totalmente muda — não fala nem sequer uma palavra, nem mesmo com as comissárias de bordo. Agora dorme tranqüila. Apesar de ter viajado bastante pela Ásia, várias vezes, não consigo distinguir direito chinesa de japonesa — e às vezes nem de coreana e tailandesa. Digo isso para mostrar que, afinal de contas, nem presto tanta atenção assim nelas. Se o fizesse, saberia distinguir a nacionalidade delas — algo que os nativos fazem com incrível facilidade.

A seleção de músicas clássicas nos vôos da United está cada vez melhor. E a seleção de filmes, também. Na parte do vôo entre Chicago e San Francisco assisti a “Fractured” (não sei o título em Português), com Anthony Hopkins. Gostei muito — especialmente porque era Anthony Hopkins, para mim o maior ator da atualidade.

(A propósito, na terça-feira estive em Campos do Jordão e ouvi o Ricardo Semler dizer que a única vez que ficou sem saber o que dizer foi um dia, num avião, em que o Anthony Hopkins se sentou ao lado dele no avião. O Anthony Hopkins é um tal monstro sagrado, e sua presença tão assustadoramente “imposing”, que até o Ricardo Semler admite que não teve coragem de lhe dirigir a palavra durante um vôo de mais de quatro horas… Choses de la vie. Interessante.)

Dentro de mais ou menos três horas devemos aterrisar em Narita — sem arremetidas e sem outros sustos, espero. Já foi caso de avião mais do que suficiente para crônica de blog (em que felizmente não há limite para o tamanho).

Acima do Pacífico em 24 de Agosto de 2007 (hora de Tóquio — no Brasil é 21h52 do dia 23 ainda). 

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  2. Que interressante chegarmos ao seu blog! Minha irma estava pesquisando artigos sobre o meu pai que faleceu em outubro de 2007 e cujo nome e James David Meadows. Impressionante a sua memoria e riqueza de detalhes, gostamos muito do artigo. Mudamos para Houston em 2012, minha esposa continua na United e continuamos voando os seus amigos da United, agora com Nicolas de 8 anos e Laura de 6 anos. Seria muito bom reencontra-lo um dia!

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  3. Caro David:

    Que bom receber seu comentário. Confesso que, ao le-lo, tive dificuldade para entende-lo. Só depois de reler o meu post consegui fazer sentido dele. Lamento que seu pai tenha morrido logo depois de nosso contato. E fico contente ao saber que Laura, que ainda estava na barriga da Juciaria em Agosto de 2007, está agora com seis anos.

    Desde nosso contato “aviônico”, eu me separei, casei de novo, passei a morar em São Paulo, tenho uma cunhada em Guarulhos…

    Espero que consigamos nos reencontrar uma hora dessas. Minha filha mais velha mora perto de Cleveland. Estou voando bem menos agora. Já cheguei aos 70 anos. Mas, se estiver por SP, por favor me contate através do e-mail eduardo@chaves.pro. Meu telefone é (11) 99321-8440. Um grande abraço.

    Eduardo Chaves

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