Dom Pedro II

O Axel de Ferran, colega de listas de discussão na Internet, está me convencendo a me interessar por personagens da história do Brasil Império: especialmente o Visconde de Mauá e Dom Pedro II.

Na livraria La Selva do Aeroporto de Cumbica ontem (ante-ontem, se contarmos o fato de que, pelos fusos horários e pela Linha Internacional do Tempo já estou no dia 24) procurei a biografia do Visconde de Mauá que o Axel me recomendou, de Jorge Caldeira. Não tinham. Mas encontrei uma biografia recente (o livro foi impresso no mês passado, Julho de 2007) de Dom Pedro II. Li uns pedaços na livraria e resolvi comprar. Não terminei de ler ainda, mas já li o suficiente para achar muito interessante.

O Axel parece achar que Dom Pedro II sofria de inveja crônica do Visconde de Mauá. Pode ser. Mas o nosso último imperador foi uma pessoa impressionante, sob todos os aspectos. Inteligente, culto, sensato, justo, cordato, sem apego ao poder, mas disposto a cumprir seu dever imperial com toda a majestade.

Na minha imaginação formada pelos cursos de história do Ensino Básico, pois nunca havia lido nada sobre Dom Pedro II, o imperador, que governou durante cinqüenta anos, era uma figura austera e imponente, marido e pai devotado, respectivamente, da Imperatiz Teresa Cristina e das princesas Leopoldina (em homenagem à avó — a mulher de Dom Pedro I) e Isabel. No livro descobri que ele achava a imperatiz bastante chata, sem conversa, e que teve vários casos de amor, alguns tórridos, o mais longo e importante deles sendo com a Condessa de Carral. Podemos dizer que a Condessa de Carral foi o grande amor da vida de Dom Pedro II, a pessoa com quem ele mais gostava de conversar e trocar idéias, mesmo que por cartas, e que, portanto, além de amante, era amiga. A Imperatriz, naturalmente, a detestava mas, noblesse oblige, trocou várias cartas muita civilizadas com ela. Mas as filhas de Dom Pedro II, especialmente a Princesa Isabel, gostavam muito da Condessa. Segundo o autor da biografia (José Murilo de Carvalho, professor da História da UFRJ, que, apesar de acadêmico, consegue escrever num estilo deliciosamente legível), Isabel amava mais a Condessa (que foi sua preceptora) do que a própria mãe. A Condessa, assim, roubou da Imperatriz não só o marido, mas também as filhas.

Curiosas essas coisas.

Essa história me fez lembrar da biografia de outro famoso que li recentemente: Franklin Roosevelt. O quatro-vezes Presidente dos Estados Unidos se casou cedo com sua prima Eleanor Roosevelt (que já tinha o sobrenome Roosevelt antes de se casar). Segundo o biógrafo, foi na igreja, no dia do casamento, que ambos trocaram o primeiro beijo, virgens da silva. Mas Eleanor, segundo todos os relatos, embora inteligente, era uma chata — e não demorou para Roosevelt achar o amor de sua vida, Lucy Mercer (ao qual, entretanto, diferente de Pedro de Alcântara, teve de renunciar, porque a manutenção do romance teria arruinado sua carreira política nos Estados Unidos conservadores dos anos 20). Renunciou, na verdade, não ao amor, mas ao caso. Amar, continuou amando a Lucy Mercer até o final da vida. Ela passou os últimos anos ao lado dele, quando ele já estava velho, paralítico e doente e era a única pessoa que estava ao seu lado quando ele morreu.

Tristes esses amores impossíveis.

Mas o que me chamou a atenção neste caso também foi o fato de que os filhos de Roosevelt sabiam do caso, compreendiam o amor do pai (dada a natureza meio desamante da mãe), e se relacionavam bem com Lucy Mercer — da qual se tornaram bons amigos. E Eleanor Roosevelt, ela própria, embora não nobre, foi capaz de gestos de grande elegância em relação à rival. Diz a biografia que Lucy Mercer havia pedido a um amigo seu que fizesse um quadro de Roosevelt, que estava entre os pertences dele quando ele morreu. Sabedora da história, Eleanor, a mulher, mandou empacotar o quadro e o enviou à rival, com uma carta dizendo (entre outras coisas): "Estou certa de que você gostaria de guardar isso". Mais do que civilidade, nobreza.

Voltando à biografia de Dom Pedro II, José Murilo de Carvalho relata que durante sua longa viagem aos Estados Unidos, país que fascinava o Imperador, a imprensa americana ficou impressionada não tanto por sua majestade imperial, mas por Pedro de Alcântara, cidadão brasileiro, que dispensou as frescuras do protocolo, andava sozinho, sem seguranças e comitivas, pagava passagem em barcos, trens e peças de teatro, conversava com plebeus e lhes dava a maior atenção… Foi chamado na imprensa de "O Imperador Ianque". Um jornalista até brincou com as palavras, dizendo que Dom Pedro II nos Estados Unidos era um imperador que se considerava um homem comum numa terra em que o homem comum se sente um imperador… Bello jogo de palavras.

Vale a pena ler a biografia de Dom Pedro II. Recomendo. Quando confrontado com a inevitabilidade da República, Dom Pedro II renunciou sem causar problemas, abriu mão da pensão vitalicia que o novo governo havia lhe oferecido, e foi para a Europa em exílio, onde, longe da terra que amava e do país ao qual dedicou sua vida (foi aclamado Imperador aos cinco anos e assumiu o cargo de fato aos quatorze), morreu pouco tempo depois, três dias depois de completar sessenta e seis anos.

Fico imaginando se o Brasil teria tido melhor sorte se a Princesa Isabel tivesse sucedido ao pai, e, depois, tivesse sido sucedida por seu filho, e assim por diante, do que tivemos nas mãos de tantos marechais e generais presidentes — (Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca, Eurico Gaspar Dutra, Humberto de Alencar Castello Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Baptista Figueiredo…) Getúlio não era Marechal nem General mas foi ditador, e bem violento… Jãnio foi eleito democraticamente mas, segundo alguns, também queria ser ditador… Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lulla (este amigo de um mega-ditador e de um aprendiz do ofício)… Será que valeu realmente a pena despachar Dom Pedro II para o exílio e criar a República?

E, voltando à alegação do Axel de Ferran, de que Dom Pedro tinha inveja do Visconde de Mauá, pergunto-me: será? E, se tinha, tinha razão de ter? Está certo que Mauá foi mais mais homem de ação do que ele. Mas a figura de Dom Pedro II, como homem público, não parece que fique a dever nada ao Visconde de Mauá na política e, certamente, na cultura e na nobreza dos princípios e sentimentos.

(Em tempo: Dom Pedro II era primo de Franz Joseph (Francisco José), o último imperador do Império Austro-Húngaro, marido de Elizabeth / Sissi, assassinada ao lado do Lac Leman, em Genebra, por um anarquista italiano. Em outras palavras: nosso Imperador maior foi primo, por casamento, da mais famosa imperatriz da Áustria e da Hungria!!! E também era primo, naturalmente, do Imperador Maximilliam (Maximiliano), do México, que era irmão mais novo de Franz Joseph).

Acima do Pacífico, em 24 de Agosto de 2007

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