Informática, educação e trabalho

[Mais um artigo escrito nos anos noventa, este em 1997, quando eu era presidente de uma rede de franquias de escolas de informática. A finalidade marketeira é a mesma do artigo anterior]

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Nunca se colocou tanta fé na educação. Nunca se esperou tanto da escola.

Pais de alunos, educadores, políticos, todos concordam que, sem uma educação de qualidade, o Brasil não conseguirá competir de igual para igual em uma economia globalizada, pois os países que possuem profissionais mais bem preparados do que os nossos levarão vantagem sobre nós. Por isso, nosso futuro, como nação, depende da qualidade da educação que oferecermos hoje aos nossos jovens.

E não basta (como antigamente) oferecer educação de qualidade apenas para aqueles que vão ser parte da elite dirigente do país.

Até bem pouco tempo, algumas funções, no mercado de trabalho, podiam ser exercidas por pessoas basicamente analfabetas, porque envolviam atividades repetitivas, que não exigiam delas muito mais do que a capacidade de repetir uma mesma tarefa um sem número de vezes — como um autômato.

Hoje essas funções repetitivas estão sendo assumidas por computadores e robôs e as pessoas analfabetas ou semi-analfabetas estão ficando com cada vez menos opções de emprego.

Dentro do setor produtivo, até mesmo as funções mais simples estão exigindo hoje, dos que as executam, bom nível de conhecimento, capacidade de discernimento e decisão, visão mais ampla. Muitas profissões na área de turismo e entretenimento (que é uma das áreas em que mais cresce a oferta de emprego) exigem não só bom domínio da língua materna mas também conhecimento fluente de duas ou mais línguas estrangeiras. É a globalização redefinindo e enobrecendo funções dentro de um setor que, tradicionalmente, não era muito prestigiado.

A sociedade está mudando muito mais rápido do que a escola. Isso faz com que muitas empresas precisem oferecer aos seus funcionários formação profissional adicional, em complemento à que receberam na escola, para que esses funcionários possam exercer as funções que lhes são atribuídas no nível de competência desejado.

Mas as empresas não continuarão por muito tempo a treinar seus funcionários. Em nossa economia globalizada, vai chegar o momento em que, se uma empresa não encontra funcionários qualificados em um país, muda-se para um outro país onde esses profissionais estejam disponíveis.

Isso quer dizer que a tarefa de formação de um quadro de pessoal qualificado vai finalmente ficar nas mãos da escola mesmo. É por isso que se espera tanto da escola. Para corresponder às expectativas que lhe foram dirigidas, a escola vai precisar oferecer aos seus alunos uma educação de qualidade.

Por muito tempo nossa educação foi voltada para o passado. Hoje, para podermos nos colocar no nível dos países mais desenvolvidos, precisamos de uma educação voltada para o futuro, porque é no futuro que os alunos de hoje estarão vivendo e exercendo suas profissões.

Antigamente, quando havia menos mudanças e elas ocorriam mais lentamente, era mais fácil prever o futuro. Sabíamos, com razoável precisão, que iríamos precisar de tantos novos engenheiros por ano, tantos novos médicos, tantos novos advogados. E conhecíamos bastante bem o seu perfil profissional.

Hoje não podemos ter certeza sobre como será o futuro. Tudo está mudando rápido demais. Profissões tradicionais vão aos poucos desaparecendo ou drasticamente se transformando. Profissões outrora nobres, como a medicina, vão perdendo sua característica liberal, à medida que os seus praticantes vão se tornando assalariados ("proletarizando-se"), como funcionários de serviços de saúde públicos ou empregados de grandes empresas privadas de medicina de grupo. Novas profissões surgem a todo momento. Hoje há todo um mercado de trabalho em torno de desenvolvimento de aplicações para a Internet que não existia há cinco anos aqui no Brasil. E é difícil prever o que vai acontecer daqui a outros cinco anos.

Mas se não conseguimos prever o futuro com clareza, como podemos ter uma educação voltada para o futuro?

A chave está em uma educação de base sólida, mas que seja extremamente flexível quanto às opções de especialização e profissionalização. Não sabemos quais especializações serão requeridas em cinco anos. Não sabemos quais profissões serão demandadas daqui a dez anos. Por isso, precisamos de uma educação que, dando uma base sólida aos alunos, lhes permita flexibilidade para optar por novas especializações ou profissões, à medida que estas forem aparecendo.

Uma coisa é certa, porém: as profissões, mesmo na área de humanas, serão cada vez mais afetadas pela tecnologia — e a tecnologia será a informática. Por isso, uma exigência fundamental para uma educação básica de qualidade hoje é uma boa formação em informática.

Boa formação em informática, entretanto, não quer dizer que todos precisem saber programar, ou entender como funcionam os circuitos digitais do computador. O que é essencial é que todos saibam usar competentemente o computador como ferramenta de produtividade pessoal, dentro e fora do ambiente de trabalho.

Não se concebe mais que médicos, advogados, administradores de empresa, economistas, professores, saiam da Universidade virtualmente analfabetos em termos de tecnologia.

Mas não basta dar a todos os alunos um cursinho "fajuto" de Windows 95 ou Word 97, com material didático improvisado e instrutores que podem entender de informática mas não conhecem com profundidade as áreas em que a informática está sendo aplicada. Precisamos, cada vez mais, de profissionais versáteis na tecnologia mas que mantenham os pés plantados em suas áreas específicas de atuação. Estes são os melhores professores para iniciar os outros à área de informática.

Escrito em 1997 e transcrito aqui em Washington, 7 de Setembro de 2007 (esperando o avião para São Paulo)

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